Hontem démos noticia do livro publicado pelo prelado da diocese do Pará,
e por o não termos podido ler ainda, só referimos o que no prefacio
escrevera o reverendo auctor. Hoje temos de fazer outro tanto com o
livro do sr. Pércheiro, cujo texto nos é desconhecido. Quanto sabemos a
respeito d'elle, o aprendemos na carta do sr. Ferreira Lobo que precede
o livro.
O volume do sr. Pércheiro é offerecido aos seus illudidos compatriotas
que vêem no Brazil uma nova terra da promissão. Mais nada. Esta
dedicatoria só valle um livro porque está recommendando aos mancebos o
trabalho na patria onde a remuneração poderá ser modesta, mas é perto do
lar domestico, em plena liberdade, com a benevolencia dos nossos
affectuosos costumes a affoitar o animo, sem epidemias frequentes, e
sempre com a certesa de não morrer de fome, porque não fallece ninguem
entre portuguezes, seja natural ou estranho.
E depois em Portugal tambem os humildes enriquecem. Ha exemplos e
numerosos. Muitos d'esses negociantes, senhores de estabelecimentos
consideraveis, partiram da terra pobrissimos, foram caixeiros de outros
commerciantes, e pelo trabalho é que mereceram consideração, pelo zelo
estima, pela probidade respeito e auxilio de toda a gente. Depois veiu a
riqueza, isto é, a cupula do edificio.
Se na patria havia emprego para a actividade de muita gente, d'aqui por
diante ainda deve ser mais facil encontrar meio de adquirir fortuna.
Basta observar a abundancia de capitaes, o seu movimento e direcção, a
grande quantidade de emprezas que se vão formando por cooperação e
interesse de todas as classes, e as facilidades de communicação por mar
e terra, para transporte de pessoas e de mercadorias, ou para
transmissão de ordens e de avisos...
Emfim... Mas o nosso proposito não é escrever ácerca da emigração.
Desviou-nos para este assumpto interessantissimo a dedicatoria do livro.
Desculpe o leitor a digressão. Ha, porém, coisas que seria conveniente
dizer a todos e repetil-as quotidianamente.
O sr. Pércheiro, segundo informa o esmerado escriptor já referido, foi
ha tres annos para o Pará, e voltou ao cabo d'elles de cabeça levantada
e mãos vasias. Tendo, porém, observado como por lá eram tratados os
portuguezes, ergueu n'este livro um brado de indignação contra a
prepotencia de que são victima os nossos irmãos do Brazil.
Accrescenta o sr. Ferreira Lobo, nosso estimado collega na imprensa, que
este volume não é primor litterario; que o proprio auctor lhe conhece os
defeitos de fórma; que foi escripto na viagem e sem auxilio de livros, e
por isso saiu agitado, revolto e caprichoso como as vagas que baloiçavam
a mesa sobre a qual foi delineado; que finalmente foi inspirado por
sentimento de patriotismo, de independencia, de dedicação, e de coragem.
As questões do Pará que dão o titulo ao livro, não são as mesmas que
inspiraram o livro do prelado d'aquella diocese. Referem-se
principalmente á luta entre portuguezes e brazileiros, á campanha do
commercio a retalho, mas, segundo vimos folheando o volume, não deixou
de alludir a essas discordias o auctor. E assim devia ser porque as
questões entre o bispo e o governo do Brazil tem ligação com o odio de
certos brazileiros aos portuguezes.
Vamos ler com muita curiosidade a obra do sr. Pércheiro, e
agradecemos-lhe o favor de offerecer um volume á nossa redacção.
(_12 de maio._)
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