CAMPEÃO DAS PROVINCIAS

Esteve ante-hontem n'esta cidade, vindo do Porto em regresso para Lisboa

o sr. D. A. Gomes Pércheiro que fôra no Pará director da Agencia

Americana, que presenceara ali todos os attentados de que foram victimas

os portuguezes, e que muito conhecedor das circunstancias actuaes do

imperio, procura desviar d'ali a nossa emigração procurando encaminhal-a

para a nova Africa, manancial riquissimo de valiosos productos, mas

descurado completamente do auxilio e dos esforços dos governos.

O serviço que o sr. Pércheiro está fazendo ao paiz é muito valioso, e

ninguem haverá ahi que o não considere devidamente. Sobre a obra do sr.

Pércheiro--_Questões do Pará_, publicaremos dentro de pouco o nosso

juizo.

(_2 de junho_).

Com esta epigraphe publicou o sr. D. A. Gomes Pércheiro um livro,

narrando os acontecimentos do Pará, e attribuindo-os em grande parte á

inacção e desmazello dos governos portuguez e brazileiro. Nota o auctor

que é ainda grave o estado da provincia, e que urge acudir-lhe com os

antidotos aconselhados pela experiencia, para que a enfermidade não

ganhe forças e não seja depois impossivel obstar a conflagração geral,

que ali ameaça rebentar.

O sr. Pércheiro não faz só considerações sobre o flagello que assola o

Pará. Não se basea em rumores vagos. Não architectou hypotheses devidas

á sua imaginação de portuguez amante do seu paiz. Fez mais. Exhibiu

documentos officiaes de grande valia, e mostrou com a imprensa séria do

Brazil, que se senão oppozer um dique á onda das vinganças que devasta

aquella parte do imperio, os portuguezes terão de evacuar o territorio,

onde exercem uma actividade proveitosa para a colonia e para a nação

brazileira, rompendo antigas ligações, e cavando um abysmo infranqueavel

entre dois povos, que deviam estremecer-se como irmãos. É que a cupidez

e o desvario vão accendendo no peito da escoria as chama de Cain.

Teve o sr. Pércheiro uma posição difinida no Pará. Foi ali o encarregado

da _Agencia Americana Telegraphica_ encerrada por haver communicado para

a Europa as occorrencias que se davam na provincia, embora a verdade dos

factos não podesse lisongear os poderes publicos superiores de Portugal

e do Brazil. É portanto o seu depoimento auctorisado, por que presenceou

uma parte dos acontecimentos que a imprensa portuguesa registrou com

entranhado sentimento, ao reclamar dos dois governos providencias

energicas, que pozessem cobro ao morticinio de nossos compatriotas,

verificado a mais de duas mil leguas de distancia.

Foi portanto o sr. Pércheiro testemunha presencial de bastantes factos,

que o levaram fatalmente ás conclusões que se conteem na sua excellente

publicação, que nós aqui mencionamos como um titulo de capacidade para o

auctor, que foi para o Brazil a fim de ganhar fortuna, e que regressou á

patria com a alma cheia de nobre indignação, mas sem ter logrado

realisar o seu esperançoso intento.

Houve no Pará um caracter grave e amante da ordem, que se propunha a

conter os discolos e a trazel-os a bom caminho. Desejava porém que o

governo o auctorisasse a usar de poderes descripcionarios, que elle

promettia temperar, com a moderação inherente aos seus habitos e ás

faculdades do cargo que exercia. Foi o dr. Pedro Vicente d'Azevedo,

antigo presidente da provincia, quem dirigiu ao governo geral o seguinte

telegramma:

«Os negocios da _Tribuna_ aggravam-se; posso acabar este estado de

coisas se me dá _carta branca_. Serei prudente. Espero resposta hoje.»

Pois este convite directo promettendo esmagar a conspiração tenebrosa

urdida contra os que honradamente trabalham teve a resposta que se

segue:

«Proceda dentro dos _limites da lei_.»

Mas a lei era letra morta no Pará. Os assassinos reuniam publicamente

contra os portuguezes inermes, porque os nossos compatriotas exerciam o

commercio, e não se desviavam do trafego honrado, por o qual tinham

abandonado a patria e a familia. E como a sua applicação era mais

proveitosa que a dos naturaes da provincia, reunia-se a ralé da

população, não para exceder o estrangeiro em actividade, não estimulada

pelo exemplo, mas para cevar paixões ignobeis, para dar a morte aos que

se lhes avantajavam na preserverança de suadas canseiras!

Assim o governo geral quebrava a vara do poder nas mãos do seu agente,

ordenando-lhe que se houvesse com legalidade, quando para salvar a gente

séria, a vida e a propriedade de pessoas respeitaveis, era mister

declarar a provincia em estado de sitio! Não comprehendemos como n'um

caso desesperado o poder central senão abalançou aos meios heroicos,

indicados pelas circunstancias. Teria expurgado aquelle territorio dos

vandalos que o infestam, e teria provado á Europa, que no Brazil se

conhecem e applicam as leis da verdadeira hospitalidade.

(_5 de junho._)

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Recordando as _lindezas_ e importancias da minha terra natal, sahe-me

dos bicos da penna, o nome de um livro, e o nome do seu auctor que este

solo viu nascer e acalentou. O livro é: _Questões do Pará_; o nome do

seu auctor, bem conhecido, escusava-o a sua reputação; mas orgulhoso das

glorias da minha terra não desejo omittil-o:

Domingos Antonio Gomes Pércheiro.

Se estas pobres linhas, sem pertenção a escripto, lhe chegarem ás mãos,

peço venia para que a sua modestia me perdôe e consinta que eu apresente

o meu parecer sobre o seu livro. O meu parecer humilde, como humilde é

quem o faz. _Questões do Pará_ é um livro bem raro, que falla e defende

a patria; não trata de frivolidades, não faz grimpa de philosophias, não

ostenta empoladas utopias, molestia de que a nossa literatura moderna

está contagiada. Occupa-se de Portugal e de seu irmão o Brazil.

Individualisa-se e soffre com as nossas desgraças.

Historia essas scenas de canibalismo americano, contra os desgraçados

portuguezes, que, tendo em vista o trabalho santo, vão procurar uma vida

n'aquellas plagas inhospitas. Indigna-se contra taes horrores, e

reverbera então o latego sobre os novos Cains.

É um livro verdadeiro, um auxilio para a historia contemporanea.

É um pregão que fará convergir a indignação dos povos cultos contra taes

selvagerias. Uma consolação para os desgraçados portuguezes que ainda

luctam com o clima, insuperaveis difficuldades e guerra dos brazileiros.

Não tem arrendados de estylo, e menos ainda bellezas poeticas, porque

lh'as não consentiu a brevidade, nem a gravidade do assumpto. Digne-se o

distincto auctor acceitar os meus emboras e felicitações, que, sendo

verdadeiras, só peccam pela pequenez do nome que assigna.

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(3-5-76)

_J. Martins M. da Silva._

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Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 141 / 176 题