XVII

No segundo avulso que temos presente, conta Alves Ferreira mais alguns

pormenores a respeito do infeliz condemnado, e publica a carta que

expedia aos directores da Caixa de Soccorros de D. Pedro V, afim de que

o ajudassem a salvar o desgraçado.

O seu magnanimo coração leva-o ao ponto de despender grossas quantias na

publicação dos protestos, que elle offerecia gratuitamente ás pessoas

que desejassem orientar-se das occorrencias.

Ouçamos o que elle conta no referido avulso, datado de 11 de abril de

1876:

«Nos ultimos dias do mez passado requereu o infeliz portuguez Manuel

Soares Pereira ao ex.mo sr. general das armas certidão da sentença

proferida pelo conselho de guerra.

«Teve o seguinte despacho:--

«_Requeira pelos tramites legaes._

«Em principio do corrente fui ao quartel do Forte de S. Pedro e pedi em

nome do condemnado licença ao sr. commandante da companhia para que o

homem pudesse pedir certidão de algumas peças do processo.

«Concedeu licença o sr. commandante da companhia.

«Sahi, fiz o requerimento; voltando levei-o ao desgraçado, este o

assignou.

«Entreguei-o immediatamente ao sargento, para este o entregar ao

commandante da companhia, para depois ao commandante do batalhão e

depois ao general das armas, etc.

«Voltei em outro dia, fui saber do condemnado o que havia a respeito.

«Disse-me que lhe haviam apresentado de novo o requerimento para que

elle escrevesse por baixo da assignatura esta palavra--Soldado--para lhe

darem as certidões pedidas.

«Negou-se o negociante, dizendo que tal não faria, pois é negociante e

não soldado.

«Em seguida, procurei o sr. tenente-coronel commandante do batalhão,

pedindo a s. s.ª que me fizesse o favor de encaminhar o requerimento,

afim de se extrairem as certidões n'elle pedidas.

«S. s. disse-me que não daria certidão alguma, que o homem tinha sido

condemnado e que _ninguem pode obter certidão de uma sentença depois de

proferida_: disse-me ainda outras coisas _muito bonitas_, que virão a

luz logo que as circunstancias o permittam: por ora não; _elles tem em

seu poder o meu protegido_...

«Á vista das propostas do sr. commandante fiquei n'uma luta comigo

mesmo; ora duvidando da minha razão, ora da de _muita gente_.

«Dizia assim: o ex.mo sr. general das armas não saberia que não era

premittido dar as certidões pedidas? Se o sabia porque despachou:

Requeira pelos tramites legaes?

«Se não podiam dar as certidões de maneira alguma para que foram dizer

ao homem, que se queria as certidões escrevesse por baixo do nome a

palavra--soldado?

«Não posso ser mais extenso; este é pago a tanto por linha; meu dinheiro

é pouco, e temo que haja muitos outros infelizes nacionaes e

estrangeiros, que precisem de meu auxilio.

«As pessoas de qualquer parte do mundo que quizerem ler um impresso a

respeito d'esta desgraçada questão podem mandar pedir, que lhe será

fornecido gratuitamente pelo correio, dirigindo-se para esse fim a

_Manuel Alves Ferreira_, 65, Grades de Ferro--Bahia.»

Isto é nobillissimo. Regista-se e pede-se aos poderes do estado não

premiem estes serviços, para que se não confundam com _outros_ que para

ahi vemos galardear.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 110 / 176 题