Mencionemos agora as providencias empregadas por Alves Ferreira, nos
seus avulsos; e extratemos para aqui as informações que a respeito dos
soffrimentos impostos pelas auctoridades do Brazil ao nosso compatriota
Soares Pereira, aquelle dignissimo portuguez divulgou no imperio, para
vergonha do proprio imperio.
Primeiro protesta Alves Ferreira nos jornaes da Bahia contra a
selvageria do tribunal militar; e não contente com isto, faz imprimir o
seu primeiro avulso, apello _As nações civilisadas do universo_, que
distribue com profusão.
Neste avulso relata o seguinte:
«Em janeiro proximo passado, escreveu o _Diario da Bahia_, dizendo que
no quartel do forte de S. Pedro, d'esta cidade, achava-se preso ha 15
mezes um portuguez sem ter commettido crime algum.
«Á vista da noticia dirigi-me ao dito quartel e ahi encontrei Manuel
Soares Pereira, portuguez, ao qual perguntei o motivo de sua prisão.
«Respondeu o seguinte:
«No principio da guerra do Paraguay, formou-se na cidade da Cachoeira,
onde me achava um batalhão de voluntarios; seu coronel convidou-me a
acompanhar o mesmo batalhão na qualidade de enfermeiro, offerecendo-me
vantajosa remuneração.
«Seduzido pelo que me prometteu de viva voz, sem fazermos contracto
algum nem me mostrar a lei em que ia viver, acompanhei o batalhão até ao
Rio de Janeiro. Ali cahiram muitos soldados de bexigas, a quem assisti
com dedicação, tanto que, sendo visitada a enfermaria por S. M. o
Imperador, elle mesmo me louvou e animou, ordenando-me a pedir o que
fosse preciso para os enfermos. Pedi leite e agua, que era do que mais
falta se sentia, sendo tudo fornecido immediatamente. Em seguida marchou
o batalhão para os campos do Paraguay, onde servi sempre com dedicação
na qualidade em que embarquei. Dissolvido o batalhão, por ter morrido
muita gente, passei para outro, que teve o mesmo fim, pelo mesmo motivo,
e assim por diante, até que me encostaram ao 16 de linha, de cujo
batalhão me ausentei pelos seguintes motivos:
«O coronel que me convidou a acompanhar o batalhão, não tendo cumprido o
que verbalmente me prometteu, nunca me pagou o ordenado de enfermeiro
mas sim de sargento.
«Os que lhe succederam fizeram o mesmo, até que um dia appareceu uma
ordem no campo para que fossem rebaixados a soldados razos todos os
estrangeiros que tivessem qualquer posto no exercito; (!) fui eu
incluido n'esta ordem, sendo rebaixado a soldado raso, continuando
sempre como enfermeiro.
«Quiz retirar-me, não consentiram; dizendo eu que não era engajado, não
me attenderam; tive pois de me sujeitar á força.
«Os meus soffrimentos aggravaram-se; o soldo que me prometteram de
enfermeiro nunca me pagaram; foi reduzido ao de sargento; deste ainda
reduziram para o de soldado, e nem este me pagavam; ficaram-me devendo
nove mezes.
«Recebi cartas de minha familia, que reside n'esta provincia, dizendo-me
que estava reduzida á ultima miseria, que a viesse soccorrer para não
morrer de fome.
«Larguei tudo, embarquei para o Rio de Janeiro, tomei passaporte de meu
consul e vim cuidar dos meios de subsistencia de minha familia.
«Aqui vivi alguns annos de negocio, comprando a credito a pessoas que em
mim se confiavam.
«Um dia mostraram-me um decreto em que o governo convidava a vir receber
o soldo e a gratificação a todos que, tendo servido na guerra do
Paraguay, não estivessem quites com o governo.
«Apresentei-me no quartel, procurei receber o que me deviam de soldo e
gratificação; mas o que encontrei foi esta prisão, onde estou ha quinze
mezes e onde sou tratado como galé ou sentenciado, fazendo todo o
serviço que é imposto aos maiores criminosos já sentenciados.
.........................................................................
«Fiz dous memoriaes ao imperador, que não sei qual o caminho que tomaram
nem que despacho tiveram.
«Já vê V. que estou aqui na terra alheia inteiramente desamparado!!»
«Á vista disto dirigi-me ao encarregado do consulado, o sr. Gregorio
Anselmo Ribeiro Marques, para saber o que havia a tal respeito.
«Elle disse-me que tinha reclamado do ministro da guerra a soltura do
subdito de S. M. Fidelissima; mas que, _julgando-o_ s. ex.ª desertor, o
mandára submetter a conselho de guerra e que este seria breve.
«Estranhei-lhe o tempo de prisão que tinha soffrido um subdito de S. M.
Fidelissima, sem ser julgado.
«Appareceram varios escriptos no _Diario da Bahia_ de 1, 9, 17 e 18 de
fevereiro do corrente anno, e 19 e 23 de março corrente, todos em
relação a esta desgraçada questão.
«Custaram-me estes escriptos um insulto por uma gazeta de 22 de março,
na qual me chamavam parasita e o mais que o despeito e pouca educação
costumam dar.
«Resignei-me, porém, dizendo commigo que o autor do tal escripto
queria-se despir para me enfeitar.
«Em 22 do corrente fui avisado, por pedido do pobre desgraçado, que
responderia a conselho a 23.
«Avisei d'isso o encarregado do consulado de Portugal, o qual me mandou
dizer que tanto o advogado como o procurador do consulado estavam
avisados para darem as providencias.
«Apresentei-me no conselho de guerra, esperando pelo advogado, mas qual,
o advogado nunca appareceu.
«Correu o processo na quinta-feira, que não poude ser terminado, sendo-o
hoje com a condemnação de _pena de morte_ para este infeliz portuguez.
«Em todo o tempo que este infeliz se acha preso no quartel, ainda não
recebeu soccorro de _quem quer que seja_, nem o receberá, pois actos que
não são vistos por todos, que não _pescam commendas e cruzes_, não são
dignos de serem feitos pelos _grandes homens_.
«V. V. S. S., porém, que parecem pensar de outra maneira, darão a esta
questão a publicidade que entenderem; para que no mundo inteiro se
conheça este caso.
«Vou publicar esta carta no _Diario da Bahia_, não só para que S. M. o
imperador veja e se recorde das promessas feitas ao infeliz, como para
vêr se ha alguem que conteste as verdades que esta encerra» etc.
E á ultima hora do dia 28 de março de 1876:
«Acabo de chegar da prisão onde se acha o infeliz Manuel Soares Pereira.
Quando me viu, perguntou-me se o conselho havia reunido e qual a
deliberação.
«Estranhei a pergunta, pois entendia que deveria ter assistido á
continuação do julgamento, e que lhe teriam lido a sentença.
«É verdade, que, chegando eu hontem ao logar onde funccionava o
conselho, só alli encontrei o pessoal do mesmo; entendendo eu que já se
deveriam ter retirado o réu e o procurador advogado, pois á hora que lá
cheguei se levantava o mesmo conselho.
«Pude unicamente saber por dois officiaes do mesmo, da deliberação que
tomaram.
«Quem commentará isto?
«A carta dirigida aos senhores redactores do _Brazil_, aqui publicada,
foi tambem no _Diario da Bahia_ de 29 de março de 1876, e entregue o
mesmo _Diario_ no mesmo dia, a S. M. o imperador, no porto da Bahia de
S. Salvador.
«Depois de preso, esteve o infeliz cinco dias sem receber ração. Se não
morreu de fome, deve-o aos companheiros de prisão, que lhe deram por
esmola um boccado da escassa comida.
«Passados cinco dias, aos gritos que a fome incitava no desgraçado, foi
este posto em custodia, ou encostado para receber o alimento.
«Depois de tres mezes, abriram-lhe praça em uma companhia, e como tal
recebe a ração no _Xadrez_.
«Tudo isto me foi asseverado pelo padecente; mas os interessados em
encubrir o occorrido, podem negar o que affirma o estrangeiro; elles têm
_testemunhas do quartel_, como as que deram para condemnar á morte o
desgraçado:--quem poderá _provar_ o contrario?»