XVIII

É esta a carta que elle dirige á directoria da caixa de Soccorros de D.

Pedro V:

«_Ill.mos srs. directores_--A esta hora devem estar vossas senhorias e

todas as mais sociedades portuguezas d'essa cidade da posse de um

escripto que dirigi ás nações civilisadas do universo, no qual exponho o

que _posso dizer_ ácerca da condemnação á pena de morte do infeliz

negociante portuguez Manuel Soares Pereira.

«Por elle terão julgado do procedimento do homem que o governo portuguez

tem n'esta terra para velar pelos subditos de S. M. Fidelissima, das

obras de muita gente fina e dos trabalhos que tem passado um desgraçado

portuguez.

«Tenho acompanhado a questão, diversos outros casos se tem dado, os

quaes vv. ss. podem vêr relatados no _Diario da Bahia_ e _Diario de

Noticias_ de hoje.

«Peço a vv. ss. e a todos os amigos da humanidade para lerem e meditarem

sobre todos estes escriptos. Além do que n'aquelles jornaes e avulsos

escrevi, ha o seguinte:

«Soube ás 5 e meia horas da tarde de hoje, que tinham retirado o

condemnado da prisão do quartel do Forte de S. Pedro: não sei para onde

o levaram, nem que fim lhe deram.

«Como tenha saido hoje d'este porto para essa cidade um vapor nacional,

é possivel que tenham embarcado o homem para o affastar d'aquelle que

pelo infeliz se interessa.

«Seja qual fôr a razão pela qual o tiraram da prisão, _seja para que

fim_; o que eu peço a vv. ss. é que velem pela sorte do desgraçado, se

para ahi o levarem, já que eu não posso mais velar.

«Se eu verificar que embarcaram o pobre negociante, avisarei

immediatamente pelo telegrapho, para que vv. ss. tenham dado as

providencias, quando esta ahi possa chegar.

«Animo-me a fazer este pedido confiado no titulo da vossa sociedade:

pois se é dedicada a soccorrer os infelizes portuguezes não poderão em

tempo algum achar uma melhor occasião de o fazer.

«Não deixem que prevaleça o mal se mal ha: para que não venha a soffrer

mais aquelle que tanto tem soffrido e que muita gente o julga digno de

recompensa e não de castigo.

«Os accusadores d'este infeliz hão de dizer a vv. ss. que elle é

desertor do exercito brazileiro.

«Se vv. ss. quizerem verificar o valor d'essa accusação, peçam ao

governo imperial o contracto de engajamento feito entre este estrangeiro

e o mesmo governo, e verão se apresentam algum contracto.

«Peçam mais o termo do juramento de bandeira e verão se lhes mostram

esse termo.

«Não o mostrarão por certo, pois não ha contracto lavrado nem termo de

juramento de bandeira.

«Dirão vv. ss. e dirá todo o homem sensato: «Como condemnaram á morte um

estrangeiro por falta de cumprimento de contracto feito com o governo

quando não apresentam o mesmo contracto?»

«Eu, meus senhores, não posso responder; vv. ss. sabem que nem tudo se

póde fallar na terra alheia...

«Agora, que o infeliz se acha longe de mim e dos pequenos soccorros que

lhe poderia prestar, preciso de uma mão poderosa que lhe assista, e essa

será a mão da caritativa e patriotica sociedade Caixa de Soccorros D.

Pedro V.

«Se não tiverem embarcado o infeliz, continuarei a protegel-o.

«Vou pois ver se _descubro_ o logar em que o metteram.

«Peço a vv. ss. licença para publicar esta carta e desculpa da pobreza

da linguagem.

«No mais sou de vv. ss. amigo e obrigado.

«_Manuel Alves Ferreira._»

Omittamos os nossos elogios a estes actos de verdadeira philantropia,

porque o melhor elogio está traçado pelo proprio nas linhas que ahi

deixamos.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 111 / 176 题