É esta a carta que elle dirige á directoria da caixa de Soccorros de D.
Pedro V:
«_Ill.mos srs. directores_--A esta hora devem estar vossas senhorias e
todas as mais sociedades portuguezas d'essa cidade da posse de um
escripto que dirigi ás nações civilisadas do universo, no qual exponho o
que _posso dizer_ ácerca da condemnação á pena de morte do infeliz
negociante portuguez Manuel Soares Pereira.
«Por elle terão julgado do procedimento do homem que o governo portuguez
tem n'esta terra para velar pelos subditos de S. M. Fidelissima, das
obras de muita gente fina e dos trabalhos que tem passado um desgraçado
portuguez.
«Tenho acompanhado a questão, diversos outros casos se tem dado, os
quaes vv. ss. podem vêr relatados no _Diario da Bahia_ e _Diario de
Noticias_ de hoje.
«Peço a vv. ss. e a todos os amigos da humanidade para lerem e meditarem
sobre todos estes escriptos. Além do que n'aquelles jornaes e avulsos
escrevi, ha o seguinte:
«Soube ás 5 e meia horas da tarde de hoje, que tinham retirado o
condemnado da prisão do quartel do Forte de S. Pedro: não sei para onde
o levaram, nem que fim lhe deram.
«Como tenha saido hoje d'este porto para essa cidade um vapor nacional,
é possivel que tenham embarcado o homem para o affastar d'aquelle que
pelo infeliz se interessa.
«Seja qual fôr a razão pela qual o tiraram da prisão, _seja para que
fim_; o que eu peço a vv. ss. é que velem pela sorte do desgraçado, se
para ahi o levarem, já que eu não posso mais velar.
«Se eu verificar que embarcaram o pobre negociante, avisarei
immediatamente pelo telegrapho, para que vv. ss. tenham dado as
providencias, quando esta ahi possa chegar.
«Animo-me a fazer este pedido confiado no titulo da vossa sociedade:
pois se é dedicada a soccorrer os infelizes portuguezes não poderão em
tempo algum achar uma melhor occasião de o fazer.
«Não deixem que prevaleça o mal se mal ha: para que não venha a soffrer
mais aquelle que tanto tem soffrido e que muita gente o julga digno de
recompensa e não de castigo.
«Os accusadores d'este infeliz hão de dizer a vv. ss. que elle é
desertor do exercito brazileiro.
«Se vv. ss. quizerem verificar o valor d'essa accusação, peçam ao
governo imperial o contracto de engajamento feito entre este estrangeiro
e o mesmo governo, e verão se apresentam algum contracto.
«Peçam mais o termo do juramento de bandeira e verão se lhes mostram
esse termo.
«Não o mostrarão por certo, pois não ha contracto lavrado nem termo de
juramento de bandeira.
«Dirão vv. ss. e dirá todo o homem sensato: «Como condemnaram á morte um
estrangeiro por falta de cumprimento de contracto feito com o governo
quando não apresentam o mesmo contracto?»
«Eu, meus senhores, não posso responder; vv. ss. sabem que nem tudo se
póde fallar na terra alheia...
«Agora, que o infeliz se acha longe de mim e dos pequenos soccorros que
lhe poderia prestar, preciso de uma mão poderosa que lhe assista, e essa
será a mão da caritativa e patriotica sociedade Caixa de Soccorros D.
Pedro V.
«Se não tiverem embarcado o infeliz, continuarei a protegel-o.
«Vou pois ver se _descubro_ o logar em que o metteram.
«Peço a vv. ss. licença para publicar esta carta e desculpa da pobreza
da linguagem.
«No mais sou de vv. ss. amigo e obrigado.
«_Manuel Alves Ferreira._»
Omittamos os nossos elogios a estes actos de verdadeira philantropia,
porque o melhor elogio está traçado pelo proprio nas linhas que ahi
deixamos.