Para na actualidade se conseguir qualquer cousa dos poderes publicos é
preciso empregar dois meios, bem dissimilhantes entre si: um d'elles é o
favoritismo de que lança mão a venalidade, em prol da propria
venalidade; outro é a reacção energica, empregada por gente digna contra
os actos de flagrantissima injustiça dos potentados.
São mais felizes aquelles, quando campea a corrupção que nos avassalla;
e não deixam de ser considerados, ainda que com menos exito, os actos de
reacção que deixamos indicados.
No caso sujeito, o portuguez illustre, cujo nome nos honramos muito de
inscrever n'este logar, o sr. Manuel Alves Ferreira, conseguiu com os
seus protestos--_Ás nações civilisadas do universo_, que o governo
portuguez tomasse a peito a defeza do nosso compatriota, condemnado
injustamente pelas justiças brazileiras, e que havia sido desprezado
pela legação de Portugal no Rio de Janeiro como já vimos.
Foi o seu primeiro protesto publicado em quasi todos os jornaes
portuguezes, e entregue ao imperador e aos passageiros do vapor
_Hevelius_, em viagem para a Europa; protesto que chegou ás mãos do
ministro dos negocios estrangeiros de Portugal, e que deu origem ao
telegramma d'este alto funccionario do estado, ao então encarregado da
legação portugueza no Rio de Janeiro, no qual se participava que o
governo de sua magestade não se conformára com as circumstancias do
julgamento de Manuel Soares Pereira, despacho que dera igualmente logar
á reclamação diplomatica da embaixada, que não vemos extractada no
_Livro Branco_, apresentado ás côrtes em 1877, do qual extrahimos os
documentos officiaes aqui mencionados, mas á qual se refere o officio do
encarregado dos negocios de Portugal, com data de 9 de junho de 1876.
O acto mencionado--de reacção--, secundado de mais alguns protestos de
Alves Ferreira, deu em resultado a reforma, em ultima instancia, da
sentença do conselho de guerra da Bahia, modificando a pena capital, em
que tinha sido condemnado Soares Pereira, a cinco annos de prisão com
trabalhos!
Já não era pouco; mas era preciso mais.
As bem elaboradas notas diplomaticas do sr. Andrade Corvo, e os avulsos
de Alves Ferreira, fizeram o resto: isto é, conseguiram o _perdão_ da
munificencia imperial.
Já era muito!... e já era muito, porque aos innocentes tambem... se
perdoa!