XV

Para na actualidade se conseguir qualquer cousa dos poderes publicos é

preciso empregar dois meios, bem dissimilhantes entre si: um d'elles é o

favoritismo de que lança mão a venalidade, em prol da propria

venalidade; outro é a reacção energica, empregada por gente digna contra

os actos de flagrantissima injustiça dos potentados.

São mais felizes aquelles, quando campea a corrupção que nos avassalla;

e não deixam de ser considerados, ainda que com menos exito, os actos de

reacção que deixamos indicados.

No caso sujeito, o portuguez illustre, cujo nome nos honramos muito de

inscrever n'este logar, o sr. Manuel Alves Ferreira, conseguiu com os

seus protestos--_Ás nações civilisadas do universo_, que o governo

portuguez tomasse a peito a defeza do nosso compatriota, condemnado

injustamente pelas justiças brazileiras, e que havia sido desprezado

pela legação de Portugal no Rio de Janeiro como já vimos.

Foi o seu primeiro protesto publicado em quasi todos os jornaes

portuguezes, e entregue ao imperador e aos passageiros do vapor

_Hevelius_, em viagem para a Europa; protesto que chegou ás mãos do

ministro dos negocios estrangeiros de Portugal, e que deu origem ao

telegramma d'este alto funccionario do estado, ao então encarregado da

legação portugueza no Rio de Janeiro, no qual se participava que o

governo de sua magestade não se conformára com as circumstancias do

julgamento de Manuel Soares Pereira, despacho que dera igualmente logar

á reclamação diplomatica da embaixada, que não vemos extractada no

_Livro Branco_, apresentado ás côrtes em 1877, do qual extrahimos os

documentos officiaes aqui mencionados, mas á qual se refere o officio do

encarregado dos negocios de Portugal, com data de 9 de junho de 1876.

O acto mencionado--de reacção--, secundado de mais alguns protestos de

Alves Ferreira, deu em resultado a reforma, em ultima instancia, da

sentença do conselho de guerra da Bahia, modificando a pena capital, em

que tinha sido condemnado Soares Pereira, a cinco annos de prisão com

trabalhos!

Já não era pouco; mas era preciso mais.

As bem elaboradas notas diplomaticas do sr. Andrade Corvo, e os avulsos

de Alves Ferreira, fizeram o resto: isto é, conseguiram o _perdão_ da

munificencia imperial.

Já era muito!... e já era muito, porque aos innocentes tambem... se

perdoa!

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 108 / 176 题