XIII

É chegado o dia 27 de março de 1876, em que o tribunal militar da Bahia

condemna Manuel Soares Pereira á pena de morte pelo supposto crime de

deserção.

Perante o tribunal não se apresenta defensor para o réo, e sim um

procurador que levava uma defesa escripta para ser lida!

O auditor de guerra vendo a defesa sem assignatura, disse que não

produziria seus effeitos, porque não estava em termos, visto que devia

terminar por artigos, etc. etc.

Depois de algumas observações foi admittida a defesa, assignando o

procurador que a tinha levado.

Esta não foi lida, nem o procurador _arvorado em advogado_, disse uma

palavra em defesa da victima.

Seguiu-se o conselho, e o auditor de guerra, conhecendo a critica

posição do reu, que se achava sem defensor, offereceu o encargo da

defesa ao sr. Manuel Alves Ferreira, negociante portuguez residente na

Bahia, auctor dos avulsos--_Ás nações civilisadas do universo_, em que

desmascara a inepcia da diplomacia e a barbaridade das auctoridades

brazileiras contra um subdito de nação amiga e irmã, e de cujos avulsos

extraimos os esclarecimentos que vamos indicando, avulsos que salvaram o

condemnado.

Manuel Alves Ferreira não póde acceitar o encargo «porque não se achava

preparado para esse fim.»

Os cuidados promettidos pelo vice-consul eram assim postos em practica!

A promessa que elle fizera n'um officio que para ahi deixámos

transcripto não podia ser mais fielmente executada!

Eis como esta auctoridade informa do succedido em 27 de março á legação

do Rio de Janeiro, em seu officio de 6 de abril, dez dias depois da

condemnação de Soares Pereira:

«Corre-me o dever de participar a v. ex.ª que não obstante a defesa

escripta (sic) conforme a copia junta, que promoví em favor do subdito

de s. m. f..., ao qual se refere o officio de v. ex.ª de 25 de janeiro

ultimo, foi o dito individuo condemnado á pena capital a 27 de março

ultimo.

«Em 28 do mesmo mez solicitei da presidencia desta provincia copia da

respectiva sentença, a respeito da qual me foi respondido o que consta

dos officios datados de 31 de março e de 5 do corrente mez, etc. (de que

não se passaria a certidão pedida!).

«Dignando-se v. ex.ª no citado officio reportar-se ao que me havia

dirigido em 17 de novembro, ácerca da petição de graça, vou solicitar de

v. ex.ª o favor (sic) de instruir-me se deverá elle ser encaminhado pela

legação a cargo de v. ex.ª, e se se deverá aguardar a decisão definitiva

do tribunal superior.

«Devo igualmente certificar a v. ex.ª que sobre o facto da condemnação

foi, em 29 de março ultimo, publicado aqui um escripto na gazeta

denominada _Diario da Bahia_[83], além de outros; tudo isto tem servido

para commentarios que se tornam desagradaveis, e, a meu ver, de nenhuma

utilidade para o paciente.» etc.

N'este ultimo ponto se enganava o vice-consul, porque foi devido

unicamente aos escriptos de energica defesa, publicados por Alves

Ferreira, que a diplomacia acordára do lethargo que a deshonrava,

salvando assim o nosso infeliz compatriota Soares Pereira das selvaticas

garras da justiça brazileira. É o que havemos de provar.

[83] 1.º avulso--_Ás nações civilisadas do universo_.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 106 / 176 题