Manuel Soares Pereira, é um emigrado portuguez, residente ha muito tempo
no imperio do Brazil, e que assistiu como voluntario, á lucta travada
entre esta nação e o Paraguay, prestando por essa occasião relevantes
serviços aos feridos nas refregas; porque Soares tivera a sublime idéa
de se inscrever na legião dos irmãos da caridade--que nos acampamentos
da guerra aspiram a dar vida e consolações aos moribundos, emquanto que
os soldados d'outras legiões apontam ao peito da humanidade os
_Chassepots_ da destruição.
Aos soldados de todas as legiões--aos que ferem e matam e aos que
curam--costumam dar os governos que promovem os ferimentos, a matança e
os curativos, uns _pendericalhos_ em paga d'esses serviços, que os
mandões da guerra igualam, mas que a humanidade separa, como sendo a
arte dos que ferem e matam uma perfeita antithesis á que exercem os que
consolam e curam.
Soares Pereira, não obstante, como já vimos, pertencer a esta ultima
legião, foi sentenceado á morte, pelos tribunaes do Brazil, porque tendo
elle exercido um cargo humanitario, que os taes mandões da guerra não
retribuiam, entendeu dever _desertar_ da legião, onde por muito tempo
servira voluntariamente, e onde o deixariam morrer de fome, em paga de
uma pratica assidua de acções meritorias.
Desertar dissemos, porque como deserção é que se qualificára a sahida
voluntaria de Soares Pereira, do exercito do Paraguay, sahida nunca
impedida pelas auctoridades guerreiras do Brazil, estacionadas n'aquella
região, em 1867, e por aquelles que lhe visaram depois o seu passaporte
de subdito da nação portugueza, documento este que o nosso compatriota
apresentára, no seu transito, sem receios, e conscio de que era um
cidadão no goso pleno dos seus direitos.
Passaram-se sete annos depois d'aquella data. Isto é, em 1874, o
supposto desertor, estabelecido então na cidade da Bahia, requereu uma
certidão á repartição competente, para mostrar onde lhe conviesse, os
serviços prestados ao Brazil, como enfermeiro na guerra do Paraguay.
A resposta foi ser preso o requerente, _para averiguações_. Feitas as
taes averiguações, concluiu-se que Soares Pereira fôra considerado
desertor do exercito, no qual já mais se alistára como soldado, do que
são sufficientes provas os documentos que temos á vista e que fazem
parte do _Livro Branco_, apresentado ás côrtes em 1877. Não obstante, é
Pereira mettido _na mais terrivel masmorra do forte de S. Pedro, da
Bahia, onde esteve cinco dias sem alimentos, e de onde o faziam sahir
depois para os trabalhos forçados, durante 18 mezes, antes de ser
julgado_,[79] e só depois d'este periodo é que foi sentenceado á morte!
A 26 de março de 1876, é que foi proferida a sentença, pelo conselho de
guerra reunido na cidade da Bahia.
A diplomacia portugueza, começou no imperio, em fevereiro de 1875, a sua
lucta; e pelo desenlace de 26 de março, acabamos de vêr que ella não
pôde evitar mais aquella vergonha para os tribunaes do Brazil, quando
julgam portuguezes.
E porque nada conseguiu a diplomacia até este momento? Porque o nosso
vice-consul na Bahia, o sr. Gregorio Anselmo Ribeiro Marques, que já em
fevereiro de 1875, cinco mezes depois da prisão, começára a apontar o
monumental escandalo, não viu secundados os seus esforços pelo nosso
embaixador na côrte do Rio de Janeiro.
Vamos demonstrar esta asserção com os documentos que temos á vista.
[79]_As Nações Civilisadas do Universo_, por M. A. Ferreira, da
Bahia.