VII

No pasquim ha uma referencia a respeito da estrangulação de Balthazar,

nosso compatriota. A este infeliz nos referimos nas _Questões do Pará_,

e a proposito da condemnação de um innocente, supposto criminoso,

publicámos o seguinte artigo, ha tempo:

«Ha dias, quando um pobre doido, filho do Brazil, procurou a morte, sem

duvida, em algum momento mais lucido, para pôr termo aos seus

soffrimentos, quiz-se tornar responsavel de tão grande desastre a dois

pobres enfermeiros, que, estando encarregados de guardar o doente,

talvez se tivessem descuidado um pouco no cumprimento de seus deveres.

Parte da nossa imprensa fez a justiça de dar ingresso em suas columnas a

uma carta queixosa do inconsolavel irmão da supposta victima, e um

jornal se recusou acceitar explicações dos accusados! Em presença de tão

_horroroso_ crime tomára o ministro brazileiro todas as providencias

perante o nosso governo, quando já as auctoridades do logar onde se dera

o facto haviam cumprido os seus deveres.

N'este ponto, hade o nobre diplomata permittir que lhe digamos, que

Portugal em nada se parece com o governo do imperio, que s. ex.ª tão

dignamente representa.

Não sabemos ainda qual será o desenlace d'esta _tenebrosa tragedia_; mas

promettemos esclarecer os nossos leitores quando for tempo opportuno.

Fallamos n'isto a proposito de um verdadeiro drama, que acaba de

representar-se da outra parte de lá do oceano, em terras brazileiras.

Compare o leitor as providencias das nossas auctoridades, a favor da

hospitalidade devida aos estrangeiros, com a que costumam dispensar-nos

as auctoridades do Brazil.

Ahi vae a historia.

Ha pouco tempo assassinaram no imperio um infeliz portuguez. A policia

brazileira, composta de cidadãos que devem comprehender a hospitalidade,

tratou de averiguar o caso pela forma mais extraordinaria que é possivel

imaginar-se.

Antes de tudo é preciso que se saiba, que a tal policia só sabe

_descobrir_ os criminosos, quando o crime é commettido em pleno dia, na

presença de muitas testemunhas. Dado o caso, porém, de ser perpetrado no

meio das sombras da noite, se a victima é um portuguez, trata a policia

de arredar de cima do seu patricio qualquer suspeita. As suas vistas

voltam-se logo para os _gallegos_. Um brazileiro é incapaz de ser

criminoso, embora proteste contra isto o _Cearense_. Foi justamente o

que aconteceu no caso em questão.

No logar do delicto encontrara-se apenas um indicio que não sabemos se

seria o sufficiente para o verdadeiro descobrimento dos criminosos. Esse

indicio era um lenço marcado com um M. Este lenço foi levado

immediatamente para o quartel de policia; mas d'ali a 3 ou 4 horas

sabia-se em toda a cidade d'aquelle precioso achado!

Vejamos agora as outras diligencias a que as auctoridades procederam.

Em primeiro logar mandou-se intimar para que comparecessem no

commissariado todos aquelles cujo nome ou appelido começasse por aquella

inicial. O systema, além de ser arbitrario, não podia produzir o effeito

desejado, porque a policia tinha sido a primeira a divulgar o segredo de

tão optima descoberta.

A experiencia cremos que levou oito dias, porque foram chamados todos os

Manueis! e, o que é notavel, é que nenhum cahiu na patetice de dizer que

o lenço era seu!

Mas como no meio de tanta barafunda podia ter escapado algum Manuel, um

jornal incendiario se lembrou de accusar Manuel Saldanha, commerciante

e... portuguez. Foi chamado o homem, não obstante as auctoridades

brazileiras darem pouca importancia aos pasquins! E para que se não

dissesse, que as mesmas davam menos importancia a um portuguez, foi este

desde logo recebido com a maior deferencia... pelo carcereiro!... O

motivo d'uma recepção tão desigual, fora _simplesmente_ porque o

portuguez se chamava Manuel como qualquer brazileiro. Mas ao cabo de

dois dias saira da prizão o nosso compatriota, declarando como todos os

outros, que o lenço fatal lhe não pertencia, accrescentando que desde ha

muito cheirava rapé e que uzava lenços riscadinhos de Alcobaça!

O proprietario do jornal accusador, do jornal incendiario, que ha quatro

annos consecutivos advogava o exterminio da colonia portugueza, e a cuja

sombra se commettiam tantos crimes, chama-se Marcelino Nery; e dois dos

seus principaes redactores chamam-se, um, Manuel Cantuaria, e outro,

Manuel José de Sequeira Mendes; com tudo foram poupados á experiencia

policial. Pois não deviam ser dispensados das suspeitas da policia;

porque, além d'esta gente fazer uso do lenço branco e do almiscar, de

cujo olor se achava impregnado o delicado _marotinho_, bastantes provas

tem dado da sua capacidade para taes commettimentos.

Mas a questão era mais séria do que julgára Manuel Saldanha: porque,

para evitar que a policia, contra a sua vontade, fosse, por qualquer

acaso, encontrar os verdadeiros criminosos nas fileiras communistas,

encarregou-se a _Tribuna_ (a comedia passava-se no Pará) de assestar as

suas baterias contra o pobre _marinheiro_. E o promotor publico do Pará,

para fazer a vontade aos seus predilectos do _orgão popular_, processou

o portuguez, que foi immediatamente mettido na cadeia.

Pouco tempo depois constituia-se o tribunal que não tem querido julgar

os assassinos de Jurupary, e Manuel Saldanha apparece sentado no banco

dos assassinos. A unica prova, que consta de tão monstruoso processo, é

um lenço cujo dono se ignora.

O juiz presidente desenrola-o, e em pleno tribunal assoa-se a elle.

Pouco depois os jurados seguem-lhe o exemplo. A _prova_ fatal foi afinal

cair nas mãos do orgão da justiça publica, que se serviu exclamar,

apontando para o lenço e para a fatidica letra:

--Srs. jurados! vêde e ouvi... (dirigindo-se para o supposto réu) Como

se chama?

--Manuel...

--Basta, não precisamos de mais provas...

E o portuguez foi sentenciado a galés perpetuas para a ilha de Fernando

de Noronha!

O jury que, alguns mezes antes, absolvera dois soldados do exercito

brazileiro, assassinos confessos de dois compatriotas nossos, procedia

assim contra uma pobre victima, cujo crime foi ter nascido em Portugal e

chamar-se Manuel!

O que infelizmente está reconhecido, é que o odio de raça passou dos

Tapuyas e dos Tomayos aos Tupinambas e aos Botocudos; e que estes o

transmittiram aos brazileiros, que hoje predominam n'aquella parte da

America. A unica differença a favor da raça predominante; é não fazer

uso da antropophagia; mas em compensação assassina os portuguezes, e

quando algum se livra do punhal e do trabuco, não escapa á sanha dos

tribunaes.

Mirem-se n'este espelho os nossos compatriotas que veem no imperio um

manancial de riquezas e uma terra civilisada e hospitaleira.»[78]

Agora illucidemos a questão que o tempo, magnifico juiz de nossas

acções, poz nos devidos termos:

O portuguez Manuel Saldanha, appellou da injusta sentença para o

tribunal da Relação do Pará, que annulou o processo e mandou pôr em

liberdade a victima!

O brazileiro doido, que tentou suicidar-se, era unico irmão de um barão

ou visconde, e senhor de uma fortuna avultadissima.

Logo que a este titular _chegára_ a noticia do desastre succedido ao

irmão, escreveu uma carta sentimentalissima a um jornal de Lisboa em que

accusava de cumplicidade os enfermeiros; e o tal jornal, ao mesmo tempo

que consolava o _desventurado_ aristocrata, negava as suas columnnas á

defeza dos enfermeiros que tencionavam provar a sua innocencia!

Começou o processo, e quando elle ia esclarecer a tragedia, o illustre

titular sahia immediatamente d'este paiz!...

Sobre o processo poz-se a pedra do esquecimento, que, por

_conveniencias_, negaram ao infeliz Vieira de Castro!

Altos mysterios da justiça!...

Vejam os nossos inimigos de alem-mar como nós cá tratamos os seus

compatriotas.

Nós é que não concordamos com a protecção escandalosa; e desde já

protestamos contra os previlegios: o sancto principio da hospitalidade

não manda proteger os calumniadores de nossos irmãos, por que os

calumniadores são opulentos e quem sabe se criminosos.

[78] A _Tribuna_, de Lisboa.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 101 / 176 题