No pasquim ha uma referencia a respeito da estrangulação de Balthazar,
nosso compatriota. A este infeliz nos referimos nas _Questões do Pará_,
e a proposito da condemnação de um innocente, supposto criminoso,
publicámos o seguinte artigo, ha tempo:
«Ha dias, quando um pobre doido, filho do Brazil, procurou a morte, sem
duvida, em algum momento mais lucido, para pôr termo aos seus
soffrimentos, quiz-se tornar responsavel de tão grande desastre a dois
pobres enfermeiros, que, estando encarregados de guardar o doente,
talvez se tivessem descuidado um pouco no cumprimento de seus deveres.
Parte da nossa imprensa fez a justiça de dar ingresso em suas columnas a
uma carta queixosa do inconsolavel irmão da supposta victima, e um
jornal se recusou acceitar explicações dos accusados! Em presença de tão
_horroroso_ crime tomára o ministro brazileiro todas as providencias
perante o nosso governo, quando já as auctoridades do logar onde se dera
o facto haviam cumprido os seus deveres.
N'este ponto, hade o nobre diplomata permittir que lhe digamos, que
Portugal em nada se parece com o governo do imperio, que s. ex.ª tão
dignamente representa.
Não sabemos ainda qual será o desenlace d'esta _tenebrosa tragedia_; mas
promettemos esclarecer os nossos leitores quando for tempo opportuno.
Fallamos n'isto a proposito de um verdadeiro drama, que acaba de
representar-se da outra parte de lá do oceano, em terras brazileiras.
Compare o leitor as providencias das nossas auctoridades, a favor da
hospitalidade devida aos estrangeiros, com a que costumam dispensar-nos
as auctoridades do Brazil.
Ahi vae a historia.
Ha pouco tempo assassinaram no imperio um infeliz portuguez. A policia
brazileira, composta de cidadãos que devem comprehender a hospitalidade,
tratou de averiguar o caso pela forma mais extraordinaria que é possivel
imaginar-se.
Antes de tudo é preciso que se saiba, que a tal policia só sabe
_descobrir_ os criminosos, quando o crime é commettido em pleno dia, na
presença de muitas testemunhas. Dado o caso, porém, de ser perpetrado no
meio das sombras da noite, se a victima é um portuguez, trata a policia
de arredar de cima do seu patricio qualquer suspeita. As suas vistas
voltam-se logo para os _gallegos_. Um brazileiro é incapaz de ser
criminoso, embora proteste contra isto o _Cearense_. Foi justamente o
que aconteceu no caso em questão.
No logar do delicto encontrara-se apenas um indicio que não sabemos se
seria o sufficiente para o verdadeiro descobrimento dos criminosos. Esse
indicio era um lenço marcado com um M. Este lenço foi levado
immediatamente para o quartel de policia; mas d'ali a 3 ou 4 horas
sabia-se em toda a cidade d'aquelle precioso achado!
Vejamos agora as outras diligencias a que as auctoridades procederam.
Em primeiro logar mandou-se intimar para que comparecessem no
commissariado todos aquelles cujo nome ou appelido começasse por aquella
inicial. O systema, além de ser arbitrario, não podia produzir o effeito
desejado, porque a policia tinha sido a primeira a divulgar o segredo de
tão optima descoberta.
A experiencia cremos que levou oito dias, porque foram chamados todos os
Manueis! e, o que é notavel, é que nenhum cahiu na patetice de dizer que
o lenço era seu!
Mas como no meio de tanta barafunda podia ter escapado algum Manuel, um
jornal incendiario se lembrou de accusar Manuel Saldanha, commerciante
e... portuguez. Foi chamado o homem, não obstante as auctoridades
brazileiras darem pouca importancia aos pasquins! E para que se não
dissesse, que as mesmas davam menos importancia a um portuguez, foi este
desde logo recebido com a maior deferencia... pelo carcereiro!... O
motivo d'uma recepção tão desigual, fora _simplesmente_ porque o
portuguez se chamava Manuel como qualquer brazileiro. Mas ao cabo de
dois dias saira da prizão o nosso compatriota, declarando como todos os
outros, que o lenço fatal lhe não pertencia, accrescentando que desde ha
muito cheirava rapé e que uzava lenços riscadinhos de Alcobaça!
O proprietario do jornal accusador, do jornal incendiario, que ha quatro
annos consecutivos advogava o exterminio da colonia portugueza, e a cuja
sombra se commettiam tantos crimes, chama-se Marcelino Nery; e dois dos
seus principaes redactores chamam-se, um, Manuel Cantuaria, e outro,
Manuel José de Sequeira Mendes; com tudo foram poupados á experiencia
policial. Pois não deviam ser dispensados das suspeitas da policia;
porque, além d'esta gente fazer uso do lenço branco e do almiscar, de
cujo olor se achava impregnado o delicado _marotinho_, bastantes provas
tem dado da sua capacidade para taes commettimentos.
Mas a questão era mais séria do que julgára Manuel Saldanha: porque,
para evitar que a policia, contra a sua vontade, fosse, por qualquer
acaso, encontrar os verdadeiros criminosos nas fileiras communistas,
encarregou-se a _Tribuna_ (a comedia passava-se no Pará) de assestar as
suas baterias contra o pobre _marinheiro_. E o promotor publico do Pará,
para fazer a vontade aos seus predilectos do _orgão popular_, processou
o portuguez, que foi immediatamente mettido na cadeia.
Pouco tempo depois constituia-se o tribunal que não tem querido julgar
os assassinos de Jurupary, e Manuel Saldanha apparece sentado no banco
dos assassinos. A unica prova, que consta de tão monstruoso processo, é
um lenço cujo dono se ignora.
O juiz presidente desenrola-o, e em pleno tribunal assoa-se a elle.
Pouco depois os jurados seguem-lhe o exemplo. A _prova_ fatal foi afinal
cair nas mãos do orgão da justiça publica, que se serviu exclamar,
apontando para o lenço e para a fatidica letra:
--Srs. jurados! vêde e ouvi... (dirigindo-se para o supposto réu) Como
se chama?
--Manuel...
--Basta, não precisamos de mais provas...
E o portuguez foi sentenciado a galés perpetuas para a ilha de Fernando
de Noronha!
O jury que, alguns mezes antes, absolvera dois soldados do exercito
brazileiro, assassinos confessos de dois compatriotas nossos, procedia
assim contra uma pobre victima, cujo crime foi ter nascido em Portugal e
chamar-se Manuel!
O que infelizmente está reconhecido, é que o odio de raça passou dos
Tapuyas e dos Tomayos aos Tupinambas e aos Botocudos; e que estes o
transmittiram aos brazileiros, que hoje predominam n'aquella parte da
America. A unica differença a favor da raça predominante; é não fazer
uso da antropophagia; mas em compensação assassina os portuguezes, e
quando algum se livra do punhal e do trabuco, não escapa á sanha dos
tribunaes.
Mirem-se n'este espelho os nossos compatriotas que veem no imperio um
manancial de riquezas e uma terra civilisada e hospitaleira.»[78]
Agora illucidemos a questão que o tempo, magnifico juiz de nossas
acções, poz nos devidos termos:
O portuguez Manuel Saldanha, appellou da injusta sentença para o
tribunal da Relação do Pará, que annulou o processo e mandou pôr em
liberdade a victima!
O brazileiro doido, que tentou suicidar-se, era unico irmão de um barão
ou visconde, e senhor de uma fortuna avultadissima.
Logo que a este titular _chegára_ a noticia do desastre succedido ao
irmão, escreveu uma carta sentimentalissima a um jornal de Lisboa em que
accusava de cumplicidade os enfermeiros; e o tal jornal, ao mesmo tempo
que consolava o _desventurado_ aristocrata, negava as suas columnnas á
defeza dos enfermeiros que tencionavam provar a sua innocencia!
Começou o processo, e quando elle ia esclarecer a tragedia, o illustre
titular sahia immediatamente d'este paiz!...
Sobre o processo poz-se a pedra do esquecimento, que, por
_conveniencias_, negaram ao infeliz Vieira de Castro!
Altos mysterios da justiça!...
Vejam os nossos inimigos de alem-mar como nós cá tratamos os seus
compatriotas.
Nós é que não concordamos com a protecção escandalosa; e desde já
protestamos contra os previlegios: o sancto principio da hospitalidade
não manda proteger os calumniadores de nossos irmãos, por que os
calumniadores são opulentos e quem sabe se criminosos.
[78] A _Tribuna_, de Lisboa.