CAPITULO VII

Melindres historicos. A corveta «Sagres» no Pará. Uma boa recepção! As

proclamações da «Tribuna». Os telegrammas da Agencia Americana. Os

officiaes da «Sagres» e o capitão Marcelino Nery. Recompensa do governo

brazileiro ao insultador dos portuguezes. Os factos perante os nossos

excessos. Uma carta de além tumulo.

I

Para que seja fiel a historia dos tumultos no Pará, em 1874, e para que

não haja quem venha negar factos consummados, é preciso dar noticia de

alguns documentos que para ahi existem dispersos, e que desappareceriam

se não fôra o nosso cuidado de esclarecer a verdade; dando logar o

desapparecimento a que futuros historiadores, a titulo d'um patriotismo

inconcebivel, desvirtuassem, com seus falsos raciocinios, os lamentaveis

acontecimentos occorridos no ultimo semestre d'aquelle anno, n'uma das

provincias mais ricas do imperio americano.

Quantos haverá ahi que nos censurarão o vasculharmos esses documentos,

que, no entender dos optimistas deveriam ficar esquecidos, para

salvaguardar conveniencias mercantís!

E deverá o homem digno esquecer a verdade, para attender a essas

conveniencias?

Não, responderão aquelles que, como nós, só vêem no futuro o juiz

imparcial de seus actos.

«Sabel-o-ia a historia, se os aios e confessores de principes e de reis,

em vez de serem bonzos, fakires e derviches de um credo intolerante e

sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total

aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das

idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do

desenvolvimento da humanidade».[57]

É assim que o illustre escriptor que vimos de citar condemna os

melindres dos optimistas systematicos; e nós somos da mesma opinião.

Embora se diga que já não existem esses bonzos, fakires, e derviches, o

que é certo, é que no referir da historia, ainda ha condescendencias

improprias de historiadores imparciaes, e por consequencia d'esta época

de liberdade, condescendencias que hão de concorrer poderosamente para

que á historia do presente, que devera ser um edificio mais solido do

que a historia do passado, faltem os alicerces que a tornariam

indestructivel.

Se os receios de que se acercam os que se dizem auxiliares da historia

do presente, que ha de ser coordenada no futuro, tivessem por base o

temor dos principes e dos reis, escudados na força clerical, que

n'outras épocas exercia o seu poderoso influxo, á força dos martyrios da

polé, a que não poderam resistir os Galileos da sciencia; era até certo

ponto razoavel a condescendencia filha do medo; mas que os receios

tenham a sua origem nas contemplações inconfessaveis, isso é que é

imperdoavel a quem faz a apologia da liberdade, que veio em auxilio da

razão, sem a qual não póde ser escripta a verdadeira historia.

Concordando plenamente com o illustre litterato, que viemos de referir,

é preciso provar tambem que não somos bonzos nem derviches do

mercantilismo, que, como os reis e principes de antigas épocas,

pertende, na actualidade, avassalar a razão.

Eis o que temos feito e continuaremos a fazer. Pena é que nem todos nos

sigam o exemplo.

[57]_Os salões_ do sr. visconde de Ouguella.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 80 / 176 题