Alguns de nossos leitores terão reparado já na insistencia de só
querermos apresentar á vindicta publica a _Tribuna_, deixando incolumes
os pasquins _Regeneração_ e _Constituição_, que tambem se publicam na
cidade do Pará; aquelle, orgão official do clero, e este do partido
conservador. Não é esse o nosso intento, assim como o não é de
isentarmos os pasquins que se publicam nas outras capitaes das
provincias, ao sul da do Pará.
Assim, pois, vamos apresentar ao leitor _O Argus_, _O Estandarte_, _O
Progresso_, _A Malagueta_, _A Voz do Bacange_[54] e o _Publicador
Maranhense_ do Maranhão.[55]
Do Ceará a _Tribuna Popular_. De Pernambuco, o _Commercio a retalho_ e a
_Luz_; e antes de mencionarmos os das outras provincias, transcreveremos
alguns especimens hospitaleiros d'estes pasquins... com os quaes se não
ri a população.
Falla o _Commercio a retalho_:
«Vive o povo brazileiro sobre a pressão do mais horroroso pauperismo!
«Certamente causa espanto, que o povo brazileiro viva na miseria, sendo,
entretanto, o Brazil tão rico!
«O que contribue directamente para que o povo, habitando n'um paiz tão
fertil, viva opprimido pela miseria, são duas causas--a estupida,
anti-patriota gestão dos negocios publicos, e o commercio a retalho ser
exclusivo dos portuguezes!
«Se desde que organisou-se o governo brazileiro, este tivesse tratado de
preparar o paiz, por meio de reformas liberrimas e economicas, por certo
que hoje não teriamos de lamentar tantas vexações e desgraças: não
teriamos de ver só portuguezes no commercio.
«Se desde que chegamos ao numero de poder tratar dos negocios da patria,
nossos antigos não fossem cedendo o campo commercial aos portuguezes,
incontestavelmente não veriamos hoje uma mocidade activa, intelligente,
sem occupação em demanda de empregos publicos, não achando um logar no
commercio, prestando-se a imposições do governo.
«Em condições tão excepcionaes, resta aos brazileiros conquistar a todo
o transe o commercio a retalho.
«Continuar a testemunhar o espectaculo pungente de uma mocidade entregue
á triste condição de andar pelas secretarias, subir incessantemente
escadas de influentes do governo, para adquirir empregos, é impossivel.
«Quando um povo chega ao deploravel estado de ver o primeiro ramo da
riqueza do seu paiz entregue a estrangeiros, que escarnecem d'elle, como
os portuguezes dos brazileiros, não póde conter-se.
«E, para conquistarmos o commercio, não é preciso desatinos,
conquistemos sublime e francamente por meio da união, da associação,
concorrendo para as casas dos nacionaes e esquecendo as espeluncas dos
passadores de cedulas falsas» etc. etc.
E conclue:
«Escolha o povo: ou nacionalisar o commercio a retalho para salvar-se
d'esta miseria, ou succumbir sendo victima d'ella, tendo sobre a campa o
vergonhoso epitaphio--covardes! Povo de escravos!»
Nós cá não somos tão máus como o _patriota_ João Cancio e
Romualdo--redactores da asneira; nós cá bradaremos aos pasquineiros e a
quem lhe dá trella:--ó mandriões! agarrai na enchada e desbravai a
terra! e quando ella vos der ouro, vinde então estabelecer o commercio a
retalho brazileiro ao lado do commercio a retalho portuguez!...
Mas não ha gastar cera com tão ruins defuntos. Vamos ao que importa.
Na Bahia publica-se o _Alabama_ e o _Labaro Academico_.
A sua irmã _Tribuna_ expressa-se n'estes termos a respeito do _orgão_
dos estudantes da academia em S. Salvador:
«_Labaro Academico_».--Pelo paquete do sul entrado no dia 15 do corrente
em nosso porto, recebemos o n.º 8 d'esse illustre periodico, redigido
por abalisadas pennas.
«A illustre redacção do _Labaro Academico_ sobremodo nos penhorou, que
não podemos deixar passar desapercebidas as phrases lisongeiras, que com
profusão nos dirige, com as quaes illustramos as columnas do nosso
periodico.
«Diz elle que _dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam_.
«Pois bem! Unamo-nos em um amplexo fraterno, e trabalhemos para o nosso
_desideratum_, isto é, regeneremos o nosso paiz--a nossa liberdade.
«O _Labaro_ que trate de expellir o _primeiro_ de nossas ridentes
plagas, emquanto nós nos esforçamos para exterminar completamente o
_segundo_ da nossa sociedade, isto é, a colonia portugueza, esse cancro
que corroe as nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o
que temos de mais caro--a familia.
«Seja o nosso grito o mesmo que o do bardo de Albion:--_Away, away!_
«Assim se expressa o _Labaro_ acerca da nossa _Tribuna_:
«A _Tribuna_ periodico popular que se publica em Belem, capital da
provincia do Pará, assim se exprime a nosso respeito:
.........................................................................
«Agradecendo as palavras lisongeiras que nos dirigem os illustrados
redactores da _Tribuna_, cumpre-nos dizer que como vós, nós tambem temos
um _desideratum_ a realisar; é a regeneração do nosso paiz--a nossa
liberdade.
«Dois elementos nos esmagam, dois elementos nos aviltam.
«Nós tratamos de expellir o primeiro das nossas ridentes plagas,
procuramos quebrar as cadeias que jungem este colosso Americano ao poste
da servidão e degradação a que nos tem arrastado a realeza.
«Vós procuraes arrancar da nossa sociedade um cancro que corroe as
nossas riquezas, a nossa dignidade, os nossos direitos e o que temos do
mais caro--a familia.
«Trabalhai, que o povo brazileiro vos abençôa e applaude, porque sois os
defensores de seus direitos, e a posteridade registrará na historia os
vossos nomes.
«Nós tambem trabalharemos sempre e sempre, e se pararmos extenuados pelo
cansaço, outros tomarão o nosso logar. Away, away.»
No Rio de Janeiro, finalmente, o jornal a _Republica_, que fôra redigido
por uma pleiada de escriptores celebres no Brazil, comprehendia os
principios democraticos ataçalhando a colonia portugueza e oppondo-lhe a
barreira de preconceitos mal entendidos, quando a sublime idéa manda
derrubar as barreiras que ante si construiram os despotas das
nacionalidades!
Não temos presente nenhum exemplar d'este periodico, mas a _Tribuna_
paraense, accusando a recepção, da _Republica_ assim se exprime a seu
respeito, em 6 de janeiro de 1874:
«Já não estamos sós:--Pernambuco tem o _Commercio a Retalho_, e no Rio,
a _Republica_ trata de despertar a attenção publica sobre o elemento
portuguez tão numeroso e hostil á nacionalidade brazileira.»
A _Nação_, do Rio de Janeiro, jornal semi-official do _governo_
presidido pelo visconde do Rio Branco, álem de outros artiguinhos
capciosos, publicou o seguinte, que o pasquim paraense transcreveu:
«_Guita! Guita!_... Segundo os diccionarios portuguezes significa esta
palavra--_barbante cordelinho de linha_.--Os _gaiatos_ de Lisboa, porém,
conhecem pelo nome de _guitas_--os soldados de policia. É esse o termo
que se pretende hoje popularisar entre nós!
«E são esses estrangeiros (os portuguezes) os que procuram animar
desordens, aconselhar o desrespeito á auctoridade, justificar quanto
excesso e escandalo se pratica!
«O grande _Jornal do Commercio_ tambem toma parte n'essas brilhantes
manifestações, embora com a manha que lhe é habitual. Deixa de fallar
nos attentados dos seus queridos compatriotas, e vem dizer que os
agentes de policia estão praticando excessos condemnaveis e promovendo
desordens, quando toda esta cidade sabe que a prudencia da policia tem
ido até á fraqueza.
«O que é certo é que os brazileiros que servem na guarda urbana têm sido
aggredidos, insultados e espancados por estrangeiros turbulentos e sem
educação; e o que é certo tambem é que esse estado de cousas não póde
continuar.
«Estamos muito atrazados ainda, mas regeitamos a civilisação dos
carroceiros do lixo.[56]
«Ah! se a centessima parte d'esses factos se desse em qualquer das
provincias do norte, no Pará, por exemplo!...»
Agora vejamos quem são os taes _guitas_ do Rio, que a _Nação_ parecia
defender.
Falla um correspondente da _Tribuna_, estabelecido na côrte do imperio:
«Amigos--não sei o que escrever, ou para melhor dizer, não ha novidades
a não ser chuva, e muita chuva, que tem sido causa de graves e
lamentaveis desgraças, mas sempre a _maldita e vil gentalha gallega_
aproveitando-se das desgraças alheias para o seu nefando fim--o roubo!
«Como verão das noticias que abaixo seguem extrahidas do _Jornal do
Commercio_ e do _Diario do Rio_, um soldado de policia (seja dito de
passagem que _dois terços dos soldados do corpo de policia d'esta triste
e desgraçada côrte é gallegada_!!!) aproveitando-se da occasião em que
fazia guarda á casa do conselheiro Menezes _guardou_ um relogio com
corrente de ouro e um paliteiro de prata! Foi preso, encontrando-se-lhe
o roubo!!»
Conclusão:
Se a policia era insultada pelos _estrangeiros carroceiros do lixo_, a
_Nação_ tirava a desforra, defendendo os _seus_ compatriotas; mas se a
policia roubava os relogios e os paliteiros de prata, o correspondente
da _Tribuna_ dizia _de passagem_, que dois terços de soldados do corpo
de policia era _gallegada_!
Isto não se commenta.
Assim, pois, ahi fica demonstrada a differença que existe entre os
hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá.
[54] «Em remotas épocas foram aqui atrozmente insultados os
portuguezes, por alguns jornaes, taes como (segue os nomes
citados).» _Relatorio do consul do Maranhão_, de 7 de dezembro de
1874.
[55] Dos jornaes mencionados só existe hoje o _Publicador
Maranhense_, jornal official do governo da provincia!
[56] Portuguezes ou _gallegos_, é claro!