Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão
grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos
attentados praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o
Brazil as relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á
propaganda nada se oppoz.
Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira
as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco,
começaram por insultar a guarnição da corveta _Sagres_, que n'este tempo
largava ferro na bahia do Pará.
O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido em todos os paizes
do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de quem
se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso
pelos proprios insultos, _que não podiam ser levados á conta de
represalia_, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido
castigo.
Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do
Pará.
Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos _soldados_
assassinos do imperio de Santa Cruz.
Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os
agentes da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz
o crime, iam declarar aos seus superiores, _que acabavam de prestar um
serviço á patria assassinando gallegos_.[47]
E a _Tribuna_ continuava impunemente a incitar os animos á chacina!
Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia
chegam á cidade noticias atterradoras.
O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte
dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do
lado dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada
attende!
O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da
_Tribuna_, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim,
enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente
das musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe _tão relevante_ serviço.
Esta auctoridade que representa os sentimentos do governo central,
porque jámais lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação
e vem á janella expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da
ordem publica!
Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam
ao apogeu do delirio, ao grito de--_mata gallegos_--a colonia portugueza
prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os
desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia
do Pará.
Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha
o seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento
superior da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir
a uma barrica de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era
seu--vidas e cabedal--, destruição que elle prefere á que a si e aos
seus preparavam os communistas d'esta parte da America.
E o jornal infame continuava as suas proclamações.
Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos
do mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça,
condemnou em phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do
Brazil, a repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de
setembro até fins de novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de
S. Bartholomeu, em França, ou os repetidos massacres antropophagos dos
_botocudos_, contra as primitivas colonias do imperio americano.
Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes
commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes
condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos
de nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da
indifferença do governo brazileiro.
O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se
achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os
cidadãos independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar a
multa de relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente
deviam condemnar os seus compatriotas assassinos de estrangeiros
inermes![48]
A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar
bem, ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria.
Mas note-se que a tal _hidrophobia_ propagou-se a toda a imprensa de
Portugal, sem excepção do _Trinta mil diabos_ e outros, o que não podia
deixar de ser.
O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque
estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a
irrisão, e ainda mais:--Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os
actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu
procedimento, expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro,
reproduzido no livro do sr. Augusto de Carvalho:
«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações
pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no
Pará.
«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a _Tribuna_.»
Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao
governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não
foram dadas, e porque a _Tribuna_, não obstante o _rigor_ com que
segundo se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu
fadario infame.
Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos
e calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta
barbaridade.
Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, _O Raio_, o _Trinta
mil Diabos_, o _Chicote dos Ladrões_, jornaes satyricos, de que ninguem
faz caso, foram creados _unicamente_ para ridicularisar, e ás vezes
infamar, as cousas portuguezas.
Mas o _Alabama_, da Bahia; O _Commercio a retalho_, de Pernambuco; e a
_Tribuna_ do Pará, e tantos outros só foram creados para insultar a
colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra ella.
Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.
Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso
a sua apparição é passageira e sem importancia.
Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas,
crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.
A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás
vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes.
Que o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.[49]
O _Alabama_, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se
demora na academia da Bahia!
A _Tribuna_ e o _Alabama_, calumniavam-nos ao mesmo tempo que diziam aos
seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um _marinheiro_!
A differença é muito grande.
Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os
_hydrophobos_ de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados
acima.
Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa
_hydrophobia_ se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos
cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados
n'essa terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus,
sem desamparar nunca o nosso posto da honra.
Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das _Farpas_,
a unica publicação poupada pelo auctor do livro que analysamos, e a
unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas, para que é
que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para o seu
livro?
[46] Veja-se a nota n.º 7 no fim do volume.
[47] Historico.
[48] Historico. Veja-se _Questões do Pará_.
[49] Veja-se _Questões do Pará_.