Em Pernambuco e no Ceará davam-se casos quasi identicos.[46]

Não podia a imprensa de Portugal deixar de occupar-se de um assumpto tão

grave, invectivando as auctoridades brazileiras de conniventes nos

attentados praticados contra os filhos d'uma nação que conservava com o

Brazil as relações mais intimas; e dizemos conniventes porque á

propaganda nada se oppoz.

Não satisfeitos os desordeiros com o sangue das victimas, que já tingira

as terras brazileiras, não contentes porque ainda achavam que era pouco,

começaram por insultar a guarnição da corveta _Sagres_, que n'este tempo

largava ferro na bahia do Pará.

O nosso homem do mar, acostumado a ser bem recebido em todos os paizes

do mundo, e illudido a respeito da colonia residente no Brazil, de quem

se dizia «que o portuguez era insultado porque insultava»; pesaroso

pelos proprios insultos, _que não podiam ser levados á conta de

represalia_, procurou os insultadores, a quem infligiu o merecido

castigo.

Novas proclamações incendiarias pozeram em sobresalto os habitantes do

Pará.

Mais tres portuguezes caem feridos de morte, ás mãos dos _soldados_

assassinos do imperio de Santa Cruz.

Espalha-se o terror, em vista d'este facto assombroso, de serem os

agentes da auctoridade publica os assassinos mais convictos, porque apoz

o crime, iam declarar aos seus superiores, _que acabavam de prestar um

serviço á patria assassinando gallegos_.[47]

E a _Tribuna_ continuava impunemente a incitar os animos á chacina!

Os destroços que ella faz são incalculaveis; do interior da provincia

chegam á cidade noticias atterradoras.

O presidente da provincia, que por excepção á regra se condoeu da sorte

dos colonos, não confiando na força publica, que elle bem sabia estar do

lado dos desordeiros, pede providencias ao governo central, que nada

attende!

O promotor publico, a quem o presidente recommenda a querella da

_Tribuna_, nunca acha motivo para a processar; e os adeptos do pasquim,

enthusiasmados pelo procedimento do seu patrono; vão em massa, na frente

das musicas e deitando foguetes, agradecer-lhe _tão relevante_ serviço.

Esta auctoridade que representa os sentimentos do governo central,

porque jámais lhe retirára a sua confiança, ufana-se com a manifestação

e vem á janella expressar os seus agradecimentos aos perturbadores da

ordem publica!

Na mesma cidade e ao mesmo tempo que alguns de seus habitantes chegavam

ao apogeu do delirio, ao grito de--_mata gallegos_--a colonia portugueza

prepara-se para a catastrophe. Os mais fortes aguardam resolutos os

desordeiros e os mais fracos refugiam-se nos barcos fundeados na bahia

do Pará.

Um negociante recebe refugiados em casa, e intrincheira-se; outro, fecha

o seu estabelecimento, sóbe com sua mulher e filhos para o pavimento

superior da propria habitação, prepara o rastilho que havia de conduzir

a uma barrica de polvora o incendio e logo a destruição de tudo que era

seu--vidas e cabedal--, destruição que elle prefere á que a si e aos

seus preparavam os communistas d'esta parte da America.

E o jornal infame continuava as suas proclamações.

Este terror é levado pelo telegrapho e pela imprensa a todos os cantos

do mundo civilisado, e Portugal, a quem mais doía tanta desgraça,

condemnou em phrases sentidas que nunca poderiam abonar a civilisação do

Brazil, a repetição das scenas barbaras, que desde a noite de 6 de

setembro até fins de novembro de 1874, faziam lembrar o sangrento dia de

S. Bartholomeu, em França, ou os repetidos massacres antropophagos dos

_botocudos_, contra as primitivas colonias do imperio americano.

Depois reunem os tribunaes brazileiros, para julgarem os crimes

commettidos contra os portuguezes, residentes no Brazil. Esses tribunaes

condemnam a penas irrisorias, que importam uma absolvição, os assassinos

de nossos irmãos: mais uma razão para a imprensa portugueza se sentir da

indifferença do governo brazileiro.

O tribunal que devia julgar os assassinos de Jurupary, em cuja causa se

achava compromettida a honra do Brazil, não se constitue, porque os

cidadãos independentes, note-se que não é a plébe, preferem pagar a

multa de relaxado, a ser juizes n'uma causa em que infallivelmente

deviam condemnar os seus compatriotas assassinos de estrangeiros

inermes![48]

A imprensa portugueza vê isto, e não póde soffrer o impulso de firmar

bem, ainda mais uma vez, a sua opinião, a respeito de tanta selvageria.

Mas note-se que a tal _hidrophobia_ propagou-se a toda a imprensa de

Portugal, sem excepção do _Trinta mil diabos_ e outros, o que não podia

deixar de ser.

O governo do imperio não póde ser culpado de tantos desmandos, porque

estava longe do theatro dos acontecimentos. Dizem-nos isto com toda a

irrisão, e ainda mais:--Uma prova da sua innocencia, e de que reprova os

actos vandalicos de alguns dos seus administrados, está no seu

procedimento, expresso no seguinte telegramma do Rio de Janeiro,

reproduzido no livro do sr. Augusto de Carvalho:

«O governo imperial accedeu, auctorisando-o, ao pedido de indemnisações

pecuniarias, para as familias dos subditos portuguezes assassinados no

Pará.

«O presidente da provincia procede com todo o rigor contra a _Tribuna_.»

Mas a imprensa de Portuga! continuou a fazer justissimas accusações ao

governo do Brazil, porque as promettidas indemnisações pecuniarias não

foram dadas, e porque a _Tribuna_, não obstante o _rigor_ com que

segundo se dizia, tinha sido tratada, continuou por muito tempo o seu

fadario infame.

Os hydrophobos de cá, na phrase do escriptor brazileiro, vomitam doestos

e calumnias contra o Brazil, quando não pódem soffrer silenciosos tanta

barbaridade.

Esses hydrophobos, especializados pelo sr. Carvalho, _O Raio_, o _Trinta

mil Diabos_, o _Chicote dos Ladrões_, jornaes satyricos, de que ninguem

faz caso, foram creados _unicamente_ para ridicularisar, e ás vezes

infamar, as cousas portuguezas.

Mas o _Alabama_, da Bahia; O _Commercio a retalho_, de Pernambuco; e a

_Tribuna_ do Pará, e tantos outros só foram creados para insultar a

colonia portugueza residente no Brazil e chamar ás armas contra ella.

Não póde haver termo de comparação entre uns e outros pasquins.

Com os de cá, folga a nossa ralé; a gente séria condemna-os, e por isso

a sua apparição é passageira e sem importancia.

Com os de lá, não acontece o mesmo; a ralé e até as pessoas mais gradas,

crêem nas doutrinas subversivas que esses apostolos do mal apregôam.

A prova da importancia d'esses pasquins, está na duração d'elles, e ás

vezes na proficiencia com que são elaborados os seus artigos principaes.

Que o diga o presidente da provincia do Pará na sua proclamação.[49]

O _Alabama_, póde dizer-se que é o orgão da mocidade estudiosa que se

demora na academia da Bahia!

A _Tribuna_ e o _Alabama_, calumniavam-nos ao mesmo tempo que diziam aos

seus compatriotas, ser uma virtude civica matar um _marinheiro_!

A differença é muito grande.

Tambem se póde deprehender das palavras do sr. Carvalho, que os

_hydrophobos_ de cá, são outros, que não os pasquineiros especialisados

acima.

Se a invectiva se refere a nós declaramos terminantemente que a nossa

_hydrophobia_ se declarou no meio do alarido das victimas que nós vimos

cahir á acção do punhal e do trabuco dos assassinos revolucionados

n'essa terra da promissão, e dos quaes nos livrámos, por mercê de Deus,

sem desamparar nunca o nosso posto da honra.

Se a invectiva se refere a outros, por exemplo, ao auctor das _Farpas_,

a unica publicação poupada pelo auctor do livro que analysamos, e a

unica que mais tem rediculisado o imperio e as suas cousas, para que é

que foi pedir ao auctor do folheto uma carta de recommendação para o seu

livro?

[46] Veja-se a nota n.º 7 no fim do volume.

[47] Historico.

[48] Historico. Veja-se _Questões do Pará_.

[49] Veja-se _Questões do Pará_.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 76 / 176 题