CAPITULO VI

Ainda as questões do Pará. Os pasquins de cá e os pasquins de lá. As

«Farpas» e a «Tribuna». «Lo Spirito Folletto» e o «Punch». Desforços da

«Tribuna». A popularidade da «Tribuna». Pasquins brazileiros.

I

Os acontecimentos do Pará, em 1874, a que como já dissemos, tambem se

refere o auctor do livro o _Brazil_, obriga-nos a entrar de novo no

assumpto.

Mas antes de o profundarmos cumpre-nos declarar que se não publicámos,

como prometteramos, o segundo livro annunciado no final das _Questões do

Pará_, foi por que tendo nós pedido documentos que julgamos

indispensaveis para fazer a historia d'aquella horrorosa tragedia, a um

amigo nosso residente no Pará, e tendo elle accedido do melhor grado ao

convite, o portador a quem os confiára, chegado que foi a Lisboa,

entendeu dever exonerar-se do compromisso que voluntariamente se

impozéra, ou, o que é mais extranhavel, subtrahio-os!

Ó heróico poeta, como tú conhecias o mundo quando assim pensavas:

Dizei-lhe que tambem dos portuguezes

Alguns traidores houve algumas vezes.

Mas... prescindamos dos documentos e examinemos as considerações que aos

referidos tumultos fez o auctor do livro o _Brazil_; e para que com

conhecimento de causa sejam julgadas as nossas palavras, citaremos

d'esse livro os trechos sobre que entendemos dever fazer alguns reparos.

Um jornal do Porto escrevera opportunamente a respeito das desordens do

Pará:

«A colonia portugueza do Pará, é continuamente insultada por alguns

jornaes d'aquella terra, insultos quasi sempre acompanhados de

improperios soezes e estultos á nossa bandeira nacional, sem se

lembrarem sequer, esses desgraçados! que foi á sombra d'ella que os seus

avoengos viveram por tres seculos!»

O sr. Carvalho responde o seguinte no seu livro:

«Ao escriptor portuense confessamos que assistem razões muito ponderosas

para se pronunciar por este modo. Peza-nos sómente, devéras o dizemos,

que ao traçar tão bem cabidos reparos, _não carregasse um pouco mais a

mão_...

E continúa logo:

«...... Ainda assim pedimos-lhe que nos conceda estendel-os tambem a uns

certos hydrophobos de cá, que, ha tempos a esta parte, se deixam tomar

da mania de vomitar doestos e calumnias contra o Brazil.»

O que é logico é que se o escriptor portuense seguisse o conselho do

snr. Carvalho, de _carregar um pouco mais a mão_, como tantos

jornalistas fizeram, quando appreciaram á luz d'este seculo os actos de

selvageria praticados no Pará, não poderia deixar de ser cognomisado de

hydrophobo!

O auctor do _Brazil_ assim desculpa os nossos insultadores:

«Este imperdoavel abuso da liberdade de imprensa no Brazil, explica até

certo ponto a razão de ser dos seguintes pasquins--_O Alabama_, da

Bahia--_O Commercio a retalho_ (digno sucessor do _Tribuno_), de

Pernambuco--e _A Tribuna_, do Pará.

«Em Portugal, vá-se dizendo tambem para desconto de peccados, surgem a

espaços no seio do jornalismo uns dignissimos émulos d'aquelles leprosos

d'além-mar. Exemplos:--_O Raio_--_O trinta mil diabos_--_O chicote dos

ladrões_, etc., etc.

«Lá e cá o publico sustenta-os e folga com elles. Esta a verdade, tal

qual é.»

Não é isto exacto.

Resumamos os acontecimentos horrorosos de que tem sido alvo a colonia

portugueza no imperio de Santa Cruz, e que tem dado justa causa a

declarar-se a _hydrophobia_ na imprensa de Portugal.

Entre os hydrophobos de cá e os hydrophobos de lá, ha, com effeito,

muita differença.

Alguns brazileiros, não satisfeitos com os insultos que nos dirigem,

lançam mão do punhal e do trabuco homicida, para satisfazer o odio de

raça que os devora; os portuguezes, só depois dos insultos é que usam do

direito de represalia, pedindo á imprensa o que lhes nega o governo

brazileiro.

No que os brazileiros enchergam calumnias, não ha mais do que factos

verdadeiros, que, por serem ás vezes tão extraordinarios, não parecem o

que effectivamente são.

É preciso illucidar um pouco mais isto.

Houve exaltação da parte da imprensa portugueza, exaltação

justificadissima, em face do espesinhamento do nosso pavilhão, por

subditos brazileiros, n'uma das praças publicas da cidade do Pará, em

principios de 1873. Essa exaltação recrudesceu quando as auctoridades

brazileiras deixaram impune o acto vandalico dos desordeiros. Esta

impunidade armava contra nós os paraenses. O seu jornal, a _Tribuna_, já

não se contentava só com insultos, publicava proclamações incendiarias,

chamando o povo ás armas contra os portuguezes residentes na provincia.

Da cidade do Pará eram destacados para o sertão alguns agentes d'aquelle

infame papel, para lerem aos _tapuyas_ o grito de guerra; outros

dirigiam-se ás praias do Guajará, junto da cidade de Belem, aonde ha

sempre grande movimento de _canoas_ vindas do interior, e alli, no meio

dos tripulantes e dos passageiros, todos indigenas, eram lidos

infamantes libellos contra os _marinheiros_ ou _gallegos_, epithetos com

que em todo o imperio distinguem os filhos de Portugal! Estas doutrinas

subversivas da ordem publica, apregoadas por espaço de dois annos

consecutivos, á luz do dia e na presença das indifferentes auctoridades

do Pará, produziram a explosão de setembro de 1874, que podia ter

produzido resultados mais funestos, se não fôra a _Agencia Americana

Telegraphica_, de que eramos representante na referida cidade. Com tudo,

muitos portuguezes foram assassinados, e outros gravemente feridos,

ignorando-se hoje ainda qual o verdadeiro numero das victimas. E note-se

que tudo isto era devido á propaganda da _Tribuna_: eis em que davam os

risos!

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 75 / 176 题