XIII

Os proprios commandantes de navios portuguezes, fiados na protecção do

governo brazileiro, reagiam contra as nossas leis e os agentes da

auctoridade que se esforçavam para fazel-as cumprir.

O documento que vamos transcrever, mostra até que ponto chegára o abuso

da emigração clandestina.

Tem a data de 8 de novembro de 1859, e é firmado pelo conde de Thomar,

nosso ministro, então residente na côrte do Rio de Janeiro:

«Acabo de chegar de bordo da barca _Nova Lima_, acompanhado do consul

geral e de um empregado do consulado. Para grande mal grande remedio.

Assumi uma grave responsabilidade: sujeito-me ás suas consequencias se o

meu procedimento não merecer a approvação de sua magestade.

«Depois de interrogar um grande numero dos subditos de sua magestade a

bordo do dito navio, sem passaporte, embarcados clandestinamente em

differentes pontos da costa, e principalmente para o lado da villa do

nordeste da ilha de S. Miguel, convenci-me da culpabilidade do capitão e

do dono do navio, e julguei que não devendo lucupletar-se com prejuizo

de terceiro, e contra as determinações expressas da lei, ordenei que o

consul intimasse á minha ordem, como representante de sua magestade,

para não deixar desembarcar de bordo do seu navio, portuguez algum que

não estivesse munido do passaporte, e em nome de El-Rei declarei a todos

que haviam sido seduzidos, que estavam livres, e que nada deviam ao

capitão.

«Não faz v. ex.ª ideia da satisfação que mostraram os risonhos

semblantes d'estes infelizes, até ali abatidos e tristes.

«Para não deixar esta pobre gente em desgraça, passei á secretaria da

marinha e requisitei um navio de guerra desarmado para os accommodar

emquanto não tomar o serviço que mais lhes agradar, debaixo da tutela do

consul geral.

«Ha de fazer-se alguma despeza com o sustento de estes infelizes,

durante alguns dias, mas creio que se adoptou a unica medida, que será

efficaz para reprimir este trafico de escravatura branca.

«Nenhum capitão, de futuro, ha de embarcar a bordo do seu navio colonos

sem passaporte, porque não ha de querer correr o risco da perda da

importancia da passagem e comedorias. Livramo-nos sobre tudo do nojento

espectaculo de ver os que foram nossos colonos a comprar temporariamente

os subditos de sua magestade em leilão, no navio, como se tem feito.

«Espero as resoluções de sua magestade sobre este importantissimo

assumpto. Não dará este acontecimento logar a pensar se será conveniente

ter n'este paiz um navio de guerra nacional? Se aqui existisse um tal

navio teria dado logo á minha disposição meios de obrar com energia

contra os que tão escandalosamente transgridem as leis do paiz e as

beneficas e humanitarias ordens do governo de sua magestade, para

reprimir tão infame trafico, etc.

«Lancei em rosto ao capitão e mais empregados da barca a hediondez do

seu procedimento; em resposta só me disseram, que elles eram punidos

pelo que a outros tinha sido tolerado, tirando d'ahi grandes lucros.

«No embarque de tanta gente houve seguramente ou connivencia, ou pelo

menos grande omissão das auctoridades administrativas de S. Miguel. É

minha opinião que o governo deve dar um grande exemplo; sem elle é muito

de receiar que continue o trafico para outras provincias, porque eu não

posso estar em toda a parte, e os consules por certo não terão força,

nem quererão assumir uma grande responsabilidade.»

O que effectivamente acontecia, e o que não podia deixar de acontecer

mesmo com relação ao porto do Rio de Janeiro, onde a nobre energia do

illustre diplomata seria improficua, desde que os navios não fossem

portuguezes, o que elle proprio confessa ao governo de sua magestade,

alguns dias depois, no seguinte trecho de um documento que temos á

vista:

«Se os actos de energia se repetirem, como pretendo repetir com outros

navios que se esperam dos nossos mares insulanos, eu tenho algum receio

de que não só se venham a suscitar algumas reclamações por parte do

governo do Brazil, como de que a navegação que ora é feita das ilhas dos

Açores para o Brazil em navios portuguezes, venha a ser feita em navios

d'outras nações, contra os commandantes dos quaes toda a minha energia e

boa vontade para fazer executar a lei portugueza será inefficaz.»

É preciso que se diga, para honra do nobre representante de sua

magestade, que a importancia das passagens dos colonos transportados na

barca _Nova Lima_, fôra garantida ao dono do navio, como se vê em seu

officio dirigido pouco depois ao nosso governo.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 67 / 176 题