Os traficantes tambem ameaçam os empregados dignos, que lá no imperio
guerream a emigração.
Aqui está um documento curioso que prova isso mesmo. Omitimos os nomes
dos presonagens principaes, para que não soffra alguma tyrannia o seu
honrado auctor. Estamos em tempo de liberdade de consciencia... mas toda
a cautella é pouca!
É este o documento:
«Não obstante constar do referido relatorio, para o qual tomo a
liberdade de chamar a attenção de v. ex.ª, todos os factos que deram
logar ao delicto, communicava um consul de Portugal residente no Brazil,
a proposito das veniagas d'uma influencia de lá; ainda assim julgo do
meu dever revestil-os das considerações que se lhe adherem e pelos quaes
verá v. ex.ª quão arduo e espinhoso, se torna aqui o exercicio de
funcções consulares, quando se quer ser um verdadeiro interprete da
lei.»
E começando por apontar os taes figurões, que tornavam arduo e espinhoso
o cargo de consul no Brazil, continua:
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«Não é esta a primeira vez que este meu gratuito, inimigo procura
maguar-me indirectamente. Apesar da sua impotencia e da nenhuma
sympathia que gosa na classe a que pertence tem tentado, colligado a
mais tres ou quatro desafectos que aqui tenho, alienar o bom conceito
que felizmente goso, e com prazer declaro a v. ex.ª, que a semelhante
respeito nunca me senti tãobem, pois as suas invectivas, não merecendo a
consideração de pessoas sensatas, passam como se não existissem, e
elles, em vista d'isso, lemitam-se a dizer, como supremo desforço, _que
iam pedir a minha demissão, que para isso tem muita influencia n'essa
côrte, etc._
«Já que fallei em desafectos seja-me licito dizer algumas palavras que
se me offerecem se v. ex.ª m'o permittir.»
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«Começarei pelo mais poderoso ............ Este homem, portuguez,
naturalisou-se brazileiro ............... negociante antigo e rico
d'esta cidade, foi um dos que mais me obsequiou logo que aqui cheguei, e
por alguns annos.
«Constituiu-se meu inimigo, por que tendo um sobrinho, rico fazendeiro a
quem se metteu em cabeça estabelecer uma colonia de nova especie, por se
lhe ter malogrado a outra ha alguns annos, começou de mandar vir d'esse
reino pobres e desprotigidas creanças de dez a quinze annos de edade
para a colonia, as quaes de certo estariam hoje todas na eternidade se
não fosse a opposição inergica que fiz aos seus deshumanos instinctos,
arrancando-lh'as e empregando-as no commercio,» etc.
O traficante ameaçava. Elle lá tinha as suas razões; assim como o consul
tambem lá tinha as suas para prevenir o ministro; mas da doutrina da
prevenção deprehende-se facilmente que o empregado zelloso temia que os
desforços dos seus inimigos fossem attendidos. E se não fosse esse
temor, para que era baixar a tantas minuciosidades?
Podiamos sobre este mesmo ponto dizer mais alguma cousa, mas tememos
affectar interesses de terceiros.
Ponhamos, pois, ponto aqui, affirmando de novo a extraordinaria
influencia dos traficantes da chamada escravatura branca, perante as
auctoridades superiores do paiz.