IX

Os roceiros do Brazil, a quem faltam os mais comesinhos principios da

humanidade, desde que no imperio, leis proficuas á humanidade, porém

ruinosas para a sua prosperidade material, aboliram o commercio da

escravatura, destacaram ignobeis agentes para a Europa, com o fim de

encetarem o commercio da _escravatura branca_, se não mais horrivel,

igual ao de negros que a lei recentemente libertára.

Por seu turno o negociante tambem coadjuva os roceiros: animando a

emigração, auxilia os engajadores; e se não representa o seu proprio

papel, os porões de navios de que são proprietarios, vem lembrar o

ominoso tempo da _escravatura preta_.

Mas lancemos mão do bistori e descarnemos o corpo cangrenoso, para que

nossos leitores, observando-lhe as pustulas venenosas, affastem de si o

puz mortifero.

Engajador é peor que negreiro; porque este, nas costas da barbarie, em

troco de um ente quasi inerte, de fórmas humanas, entregava ao _regulo_,

seu senhor, qualquer bugiaria. Os parentes, se os tinha, riam-se da

traficancia com um riso selvagem, collocavam em pedestal o objecto

offertado, dançavam e cantavam em de redor d'este idolo, emquanto outros

selvagens acorrentavam seus proprios irmãos. Tudo isto era estupido e ao

mesmo tempo tragico; da parte do negociador _civilisado_ manifestava-se

um cynismo que nem a todos os _civilisados_ residentes no Brazil

causaria asco; o negocio era simples, não levava muito tempo a

fazer:--dá cá, toma lá--; eis as phrases trocadas entre o _selvagem_

europeu e o selvagem africano. Não havia lucta de consciencia da parte

do que vendia, nem tão pouco da parte dos que eram vendidos. O negreiro,

o que comprava, amoldava os sentimentos, se é que os tinha, conforme as

occasiões; comtudo, este não era peior que o roceiro a quem eram

destinados os negros. Mas o engajador, que em nosso tempo veiu

substituir o negreiro, é mais cynico. Assim como acontecia ao negreiro,

o engajador leva em mira o mesmo fim--o interesse; mas emquanto que o

negreiro supportava as fadigas das longas viagens e os rigores de um

clima pestifero, o engajador, em nossas terras, é recebido nas salas, é

protegido das influencias monetarias, chama-se-lhe cidadão prestante,

offertam-se-lhe brindes valiosos, conferem-se-lhe commendas, etc. etc.

O engajador não se afadiga muito. Um dia por semana, se tanto, lhe basta

para o _seu negocio_. Esse dia que Deus déra para descanso, segundo as

tradições biblicas, emprega-o elle em seduzir seus irmãos, por occasião

da missa conventual, junto da ermida do aldeão do norte. É alli, junto

do altar de Deus, ao pé do symbolo sacrosanto do martyr do Golgotha,

sentinella silenciosa postada no adro transformado em mercado de gente

humana, que o engajador encarece as riquezas ephemeras do Brazil, para

em troca receber maior numero de adhesões. A lucta de consciencia

estabelece-se então com todos os horrores. É aqui que o engajador se

torna peior que o negreiro que vende gente a _civilisados_, na persuasão

de que os negros são bichos; é aqui que o engajador faz ao mesmo tempo o

papel de ladrão e assassino, porque os contractos de locação de

serviços, que com os portuguezes estabelece, são extraordinariamente

lesivos para estes; e do assassino, porque os portuguezes, seduzidos

para trabalhar no Brazil, irão morrer lá infallivelmente.

«São homens preversos (os engajadores), verdadeiros parasitas, refere o

consul no Maranhão em seu relatorio de 7 de dezembro de 1874, que se

entretêem em illudir com os mais gratos sorrisos de uma felicidade que é

toda ephemera aos seus incautos irmãos, e não trepidam em commetter

todos os desmandos, uma vez que aufiram o lucro estipulado;

identificando-se assim com os proprietarios dos navios que hoje fazem

commercio com a emigração e procuram tambem nutrir-se com a boa fé dos

infelizes, avidos de serem ricos. Achando echo no remanso das familias o

embuste, a mentira e os falsos testemunhos d'esses homens que lhe

asseguram o mais facil e prompto alcance da sua cobiça, tem elles sabido

prejudicar a fortuna domestica e a do seu proprio paiz.

«De todas as emprezas fundadas não póde haver seguramente nenhuma mais

vil e ignominiosa do que seja esta, que tem por fim seduzir uma

innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, e por isso facilmente se

deixam dominar pelas ficticias narrações das abundantes minas de oiro,

que se encontram por toda a parte, pelas excellencias e fertilidades

d'este solo!»

O consul do Rio de Janeiro é de opinião que os armadores de navios, para

conseguirem _lastro_, «dão-se tambem a tão barbara propaganda de

arrancar á patria e á familia esses infelizes, enganados por vãs

promessas, os quaes, ignorantes do alto preço dos objectos aqui, se

deixam fascinar pela grandeza relativa dos salarios porque alli

contractam seus serviços.»

Em 1856 dizia a mesma auctoridade que «tendo-se construido muitos

navios, tanto na cidade do Porto, como nos estaleiros ao norte do Douro,

uma parte d'esses navios fôra destinada ao porto do Rio de Janeiro. Os

negociantes proprietarios d'esses navios, buscaram todos os meios de

lhes proporcionar _bons fretes_, e como um dos principaes, talvez o mais

lucrativo, _é a importancia do que pagam os passageiros_, resolveram

fiar a maior parte das passagens, para serem pagas no Rio de Janeiro,

pelo meio ha muito em pratica da locação de serviços.»

O carregamento d'estes navios, foi, em dois mezes, de 22 de setembro a

23 de novembro do referido anno, de 3:114 colonos!

O commerciante comprava navios. O dinheiro que havia de empregar nas

emprezas lucrativas e honradas, era destinado a escravisar os seus

proprios irmãos e compatriotas.

Esses negociantes a quem podemos chamar _negreiros_ de nova especie, bem

sabem que o braço europeu não pode substituir nos tropicos o africano.

Mas que lhes importa a elles isso?!

O negociante de escravos brancos não deve atterrar os infelizes, porque

n'isso vae o seu interesse. Vinte mil portuguezes entrados, pouco mais

ou menos, em cada anno, nos differentes portos do Brazil, representam a

valiosissima somma _de mil contos de réis_, só de passagens, que os

proprietarios de navios e os engajadores dividem entre si!

A somma não é para rejeitar, e os senhores d'engenho, que vêem no futuro

os seus lucros, garantem a uns e outros aquelle rendimento, por isso que

o producto do trabalho dos colonos serve, em primeiro logar, para

pagamento das passagens e _mais despezas_!

Que importa aos traficantes que os pobres colonos subscrevam contractos

lesivos? Chegam os lucros obtidos nos primeiros tempos de trabalho para

pagar aos engajadores e aos donos dos navios? Nada mais é preciso!

Que importa os maus tratos inflingidos pelos _senhores_ aos nossos

compatriotas? que a miseria prostre os que não podem sugeitar-se ao

trabalho e a esses tratos?

Lá estão as casas de benificencia, instituidas por portuguezes

benemeritos, que, afinal, estão sempre promptas para receber em seu seio

os desafortunados, e a reenviar á patria, com o auxilio dos seus

rendimentos, os que sobrevivam a tanta miseria. E a fallar a verdade

merece a pena ir ao Brazil, só fiado em taes auxilios: estes

estabelecimentos não servem para outra cousa, segundo o modo de ver dos

optimistas!

E com quanto contribuem os _negreiros_ para esses estabelecimentos

(elles contribuem porque é preciso aparentar caridade!)? Com algumas

cedulas de mil réis: uma migalha dos juros do dinheiro extorquido aos

incredulos das miserias no Brazil!

X

Tratámos dos lucros materiaes do traficante da escravatura branca, e

agora apresentaremos a leves traços os lucros moraes que elles auferem

do seu commercio.

Um traficante de carne humana, em nossos tempos, tem mais influencia de

que um principe, nas epocas passadas do chamado obscurantismo. E na

verdade se de obscurantismo chamavam ás epocas em que se vendiam os

negros, que chamarão á epoca presente em que livremente se exerce o

trafico infame da venda de nossos compatriotas?...

E não se diga que não; isto é, que o traficante não dispõe de influencia

junto dos nossos governantes para que a empresa da escravatura branca

produza os effeitos ambicionados.

A proposito da emigração publicámos ha tempos uma serie de cartas no

_Jornal da Noite_,[41] em que alem de outras proposições avançamos a

seguinte:

.........................................................................

«Affiançou-se-me mais: affiançaram-me que das repartições superiores,

d'onde dizem que todos os dias baixam _providencias_ contra a emigração

clandestina, se ordenára á policia que evitasse, quanto podesse, ir a

bordo na occasião da sahida dos paquetes para o Brazil!»

Depois d'isto escripto foram-nos mostrados os documentos que provam a

asserção: as taes influencias é que obrigaram os altos poderes do estado

a obstar que as leis fossem cumpridas!...

A portaria circular de 10 de agosto de 1870,[42] passada a favor de José

Maria Gavião Peixoto, colonisador no imperio do Brazil, faz crer que

interesses menos licitos lhe deram origem, porque Gavião Peixoto, tendo

abusado da credulidade de alguns trabalhadores do Alemtejo, com os quaes

contractára serviços para serem prestados no Brazil a razão de 150 réis,

foram-lhe relevadas as faltas commettidas no alliciamento da pobre

gente!

Um negociante de carne humana no Brazil telegrapha para o negociante de

carne humana em Portugal, e previne-o que é de absoluta necessidade,

para que haja bom exito na empresa de escravisar nossos irmãos, que o

consul Sicrano ou Beltrano seja removido d'este ou d'aquelle ponto, pelo

facto de repugnar á sua consciencia de homem de bem o horroroso trafico

dos seus desventurados e illudidos compatriotas!

Se o traficante não consegue a remoção pedida, consegue que os serviços

do empregado digno sejam esquecidos, se não desconsiderados.

Ha exemplo de remoções; ha desprezo dos poderes publicos aos serviços

prestados a Portugal por empregados dignos; ha finalmente, recompensas

dadas a quem devia ser castigado como indigno!

Exemplos:

Portugal fôra nobremente representado por um portuguez illustre e

honrado, em Manáus, na provincia do Amazonas. O presidente respectivo

despresava sempre as reclamações do vice-consul; desconsiderava

Portugal, por palavras e acções, chegando os seus excessos até ao ponto

de mandar espadeirar alguns portuguezes alli residentes; e por que o

empregado digno protestasse contra as offensas praticadas a Portugal e

seus filhos, teve em paga a demissão! Nomeou-se outro vice-consul, a

contento do insultador! Mais tarde esse novo empregado attesta uns

serviços ficticios prestados a Portugal, pelo tal presidente, falsidades

reconhecidas hoje, e os poderes do estado dão-lhe um titulo

nobliarchico, em paga dos insultos e das espadeiradas! Viemos á imprensa

protestar contra o escandalo; quezemos isentar o governo, julgando-o

illudido pelo vice-consul; mostramos-lhe a falsidade dos documentos

passados por este empregado, aos quaes o governo se escudára para dar ao

indigno magistrado brazileiro immerecida honraria; levamos as nossas

queixas ao parlamento;[43] mas nada se fez em favor da moralidade

offendida!

A nós que presamos a honra d'esta nação, chamaram-nos impertinente; aos

portuguezes que prottestaram comnosco, mandou-se-lhes naturalmente dizer

que mandassem para cá mais algum dinheiro, producto das subscrições alli

permanentemente abertas, já para os monumentos, já para os asylos, já

para os inundados, já para o armamento geral do paiz, por que os

portuguezes residentes no Brazil são verdadeiros patriotas; mas em

_compensação_ conservou-se no logar de representante de Portugal aquelle

que não fizera mais do que espesinhar-lhe as suas passadas glorias!

É que o homem tinha cá das taes influencias, e nós chegámos a uma época,

que se diz de progresso, em que valem mais as influencias deshonrosas do

que a dignidade da nação e aquelles que por ella pugnam!

[41] Veja-se a nota n.º 5.

[42] Veja-se a nota n.º 6.

[43] Tudo historico. Veja-se--_Commendador Barão_.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 64 / 176 题