Os roceiros do Brazil, a quem faltam os mais comesinhos principios da
humanidade, desde que no imperio, leis proficuas á humanidade, porém
ruinosas para a sua prosperidade material, aboliram o commercio da
escravatura, destacaram ignobeis agentes para a Europa, com o fim de
encetarem o commercio da _escravatura branca_, se não mais horrivel,
igual ao de negros que a lei recentemente libertára.
Por seu turno o negociante tambem coadjuva os roceiros: animando a
emigração, auxilia os engajadores; e se não representa o seu proprio
papel, os porões de navios de que são proprietarios, vem lembrar o
ominoso tempo da _escravatura preta_.
Mas lancemos mão do bistori e descarnemos o corpo cangrenoso, para que
nossos leitores, observando-lhe as pustulas venenosas, affastem de si o
puz mortifero.
Engajador é peor que negreiro; porque este, nas costas da barbarie, em
troco de um ente quasi inerte, de fórmas humanas, entregava ao _regulo_,
seu senhor, qualquer bugiaria. Os parentes, se os tinha, riam-se da
traficancia com um riso selvagem, collocavam em pedestal o objecto
offertado, dançavam e cantavam em de redor d'este idolo, emquanto outros
selvagens acorrentavam seus proprios irmãos. Tudo isto era estupido e ao
mesmo tempo tragico; da parte do negociador _civilisado_ manifestava-se
um cynismo que nem a todos os _civilisados_ residentes no Brazil
causaria asco; o negocio era simples, não levava muito tempo a
fazer:--dá cá, toma lá--; eis as phrases trocadas entre o _selvagem_
europeu e o selvagem africano. Não havia lucta de consciencia da parte
do que vendia, nem tão pouco da parte dos que eram vendidos. O negreiro,
o que comprava, amoldava os sentimentos, se é que os tinha, conforme as
occasiões; comtudo, este não era peior que o roceiro a quem eram
destinados os negros. Mas o engajador, que em nosso tempo veiu
substituir o negreiro, é mais cynico. Assim como acontecia ao negreiro,
o engajador leva em mira o mesmo fim--o interesse; mas emquanto que o
negreiro supportava as fadigas das longas viagens e os rigores de um
clima pestifero, o engajador, em nossas terras, é recebido nas salas, é
protegido das influencias monetarias, chama-se-lhe cidadão prestante,
offertam-se-lhe brindes valiosos, conferem-se-lhe commendas, etc. etc.
O engajador não se afadiga muito. Um dia por semana, se tanto, lhe basta
para o _seu negocio_. Esse dia que Deus déra para descanso, segundo as
tradições biblicas, emprega-o elle em seduzir seus irmãos, por occasião
da missa conventual, junto da ermida do aldeão do norte. É alli, junto
do altar de Deus, ao pé do symbolo sacrosanto do martyr do Golgotha,
sentinella silenciosa postada no adro transformado em mercado de gente
humana, que o engajador encarece as riquezas ephemeras do Brazil, para
em troca receber maior numero de adhesões. A lucta de consciencia
estabelece-se então com todos os horrores. É aqui que o engajador se
torna peior que o negreiro que vende gente a _civilisados_, na persuasão
de que os negros são bichos; é aqui que o engajador faz ao mesmo tempo o
papel de ladrão e assassino, porque os contractos de locação de
serviços, que com os portuguezes estabelece, são extraordinariamente
lesivos para estes; e do assassino, porque os portuguezes, seduzidos
para trabalhar no Brazil, irão morrer lá infallivelmente.
«São homens preversos (os engajadores), verdadeiros parasitas, refere o
consul no Maranhão em seu relatorio de 7 de dezembro de 1874, que se
entretêem em illudir com os mais gratos sorrisos de uma felicidade que é
toda ephemera aos seus incautos irmãos, e não trepidam em commetter
todos os desmandos, uma vez que aufiram o lucro estipulado;
identificando-se assim com os proprietarios dos navios que hoje fazem
commercio com a emigração e procuram tambem nutrir-se com a boa fé dos
infelizes, avidos de serem ricos. Achando echo no remanso das familias o
embuste, a mentira e os falsos testemunhos d'esses homens que lhe
asseguram o mais facil e prompto alcance da sua cobiça, tem elles sabido
prejudicar a fortuna domestica e a do seu proprio paiz.
«De todas as emprezas fundadas não póde haver seguramente nenhuma mais
vil e ignominiosa do que seja esta, que tem por fim seduzir uma
innumeravel multidão de portuguezes ignorantes, e por isso facilmente se
deixam dominar pelas ficticias narrações das abundantes minas de oiro,
que se encontram por toda a parte, pelas excellencias e fertilidades
d'este solo!»
O consul do Rio de Janeiro é de opinião que os armadores de navios, para
conseguirem _lastro_, «dão-se tambem a tão barbara propaganda de
arrancar á patria e á familia esses infelizes, enganados por vãs
promessas, os quaes, ignorantes do alto preço dos objectos aqui, se
deixam fascinar pela grandeza relativa dos salarios porque alli
contractam seus serviços.»
Em 1856 dizia a mesma auctoridade que «tendo-se construido muitos
navios, tanto na cidade do Porto, como nos estaleiros ao norte do Douro,
uma parte d'esses navios fôra destinada ao porto do Rio de Janeiro. Os
negociantes proprietarios d'esses navios, buscaram todos os meios de
lhes proporcionar _bons fretes_, e como um dos principaes, talvez o mais
lucrativo, _é a importancia do que pagam os passageiros_, resolveram
fiar a maior parte das passagens, para serem pagas no Rio de Janeiro,
pelo meio ha muito em pratica da locação de serviços.»
O carregamento d'estes navios, foi, em dois mezes, de 22 de setembro a
23 de novembro do referido anno, de 3:114 colonos!
O commerciante comprava navios. O dinheiro que havia de empregar nas
emprezas lucrativas e honradas, era destinado a escravisar os seus
proprios irmãos e compatriotas.
Esses negociantes a quem podemos chamar _negreiros_ de nova especie, bem
sabem que o braço europeu não pode substituir nos tropicos o africano.
Mas que lhes importa a elles isso?!
O negociante de escravos brancos não deve atterrar os infelizes, porque
n'isso vae o seu interesse. Vinte mil portuguezes entrados, pouco mais
ou menos, em cada anno, nos differentes portos do Brazil, representam a
valiosissima somma _de mil contos de réis_, só de passagens, que os
proprietarios de navios e os engajadores dividem entre si!
A somma não é para rejeitar, e os senhores d'engenho, que vêem no futuro
os seus lucros, garantem a uns e outros aquelle rendimento, por isso que
o producto do trabalho dos colonos serve, em primeiro logar, para
pagamento das passagens e _mais despezas_!
Que importa aos traficantes que os pobres colonos subscrevam contractos
lesivos? Chegam os lucros obtidos nos primeiros tempos de trabalho para
pagar aos engajadores e aos donos dos navios? Nada mais é preciso!
Que importa os maus tratos inflingidos pelos _senhores_ aos nossos
compatriotas? que a miseria prostre os que não podem sugeitar-se ao
trabalho e a esses tratos?
Lá estão as casas de benificencia, instituidas por portuguezes
benemeritos, que, afinal, estão sempre promptas para receber em seu seio
os desafortunados, e a reenviar á patria, com o auxilio dos seus
rendimentos, os que sobrevivam a tanta miseria. E a fallar a verdade
merece a pena ir ao Brazil, só fiado em taes auxilios: estes
estabelecimentos não servem para outra cousa, segundo o modo de ver dos
optimistas!
E com quanto contribuem os _negreiros_ para esses estabelecimentos
(elles contribuem porque é preciso aparentar caridade!)? Com algumas
cedulas de mil réis: uma migalha dos juros do dinheiro extorquido aos
incredulos das miserias no Brazil!
X
Tratámos dos lucros materiaes do traficante da escravatura branca, e
agora apresentaremos a leves traços os lucros moraes que elles auferem
do seu commercio.
Um traficante de carne humana, em nossos tempos, tem mais influencia de
que um principe, nas epocas passadas do chamado obscurantismo. E na
verdade se de obscurantismo chamavam ás epocas em que se vendiam os
negros, que chamarão á epoca presente em que livremente se exerce o
trafico infame da venda de nossos compatriotas?...
E não se diga que não; isto é, que o traficante não dispõe de influencia
junto dos nossos governantes para que a empresa da escravatura branca
produza os effeitos ambicionados.
A proposito da emigração publicámos ha tempos uma serie de cartas no
_Jornal da Noite_,[41] em que alem de outras proposições avançamos a
seguinte:
.........................................................................
«Affiançou-se-me mais: affiançaram-me que das repartições superiores,
d'onde dizem que todos os dias baixam _providencias_ contra a emigração
clandestina, se ordenára á policia que evitasse, quanto podesse, ir a
bordo na occasião da sahida dos paquetes para o Brazil!»
Depois d'isto escripto foram-nos mostrados os documentos que provam a
asserção: as taes influencias é que obrigaram os altos poderes do estado
a obstar que as leis fossem cumpridas!...
A portaria circular de 10 de agosto de 1870,[42] passada a favor de José
Maria Gavião Peixoto, colonisador no imperio do Brazil, faz crer que
interesses menos licitos lhe deram origem, porque Gavião Peixoto, tendo
abusado da credulidade de alguns trabalhadores do Alemtejo, com os quaes
contractára serviços para serem prestados no Brazil a razão de 150 réis,
foram-lhe relevadas as faltas commettidas no alliciamento da pobre
gente!
Um negociante de carne humana no Brazil telegrapha para o negociante de
carne humana em Portugal, e previne-o que é de absoluta necessidade,
para que haja bom exito na empresa de escravisar nossos irmãos, que o
consul Sicrano ou Beltrano seja removido d'este ou d'aquelle ponto, pelo
facto de repugnar á sua consciencia de homem de bem o horroroso trafico
dos seus desventurados e illudidos compatriotas!
Se o traficante não consegue a remoção pedida, consegue que os serviços
do empregado digno sejam esquecidos, se não desconsiderados.
Ha exemplo de remoções; ha desprezo dos poderes publicos aos serviços
prestados a Portugal por empregados dignos; ha finalmente, recompensas
dadas a quem devia ser castigado como indigno!
Exemplos:
Portugal fôra nobremente representado por um portuguez illustre e
honrado, em Manáus, na provincia do Amazonas. O presidente respectivo
despresava sempre as reclamações do vice-consul; desconsiderava
Portugal, por palavras e acções, chegando os seus excessos até ao ponto
de mandar espadeirar alguns portuguezes alli residentes; e por que o
empregado digno protestasse contra as offensas praticadas a Portugal e
seus filhos, teve em paga a demissão! Nomeou-se outro vice-consul, a
contento do insultador! Mais tarde esse novo empregado attesta uns
serviços ficticios prestados a Portugal, pelo tal presidente, falsidades
reconhecidas hoje, e os poderes do estado dão-lhe um titulo
nobliarchico, em paga dos insultos e das espadeiradas! Viemos á imprensa
protestar contra o escandalo; quezemos isentar o governo, julgando-o
illudido pelo vice-consul; mostramos-lhe a falsidade dos documentos
passados por este empregado, aos quaes o governo se escudára para dar ao
indigno magistrado brazileiro immerecida honraria; levamos as nossas
queixas ao parlamento;[43] mas nada se fez em favor da moralidade
offendida!
A nós que presamos a honra d'esta nação, chamaram-nos impertinente; aos
portuguezes que prottestaram comnosco, mandou-se-lhes naturalmente dizer
que mandassem para cá mais algum dinheiro, producto das subscrições alli
permanentemente abertas, já para os monumentos, já para os asylos, já
para os inundados, já para o armamento geral do paiz, por que os
portuguezes residentes no Brazil são verdadeiros patriotas; mas em
_compensação_ conservou-se no logar de representante de Portugal aquelle
que não fizera mais do que espesinhar-lhe as suas passadas glorias!
É que o homem tinha cá das taes influencias, e nós chegámos a uma época,
que se diz de progresso, em que valem mais as influencias deshonrosas do
que a dignidade da nação e aquelles que por ella pugnam!
[41] Veja-se a nota n.º 5.
[42] Veja-se a nota n.º 6.
[43] Tudo historico. Veja-se--_Commendador Barão_.