Não descurava o conde de Thomar tambem do horroroso flagello da febre
amarella, que já em 1860 produzio os seus maleficos estragos; mas foi
bradar no deserto.
O remedio apontado, que é prohibir a emigração para os portos
infeccionados, ainda não foi adoptado, naturalmente pela difficuldade
que offerece a creação de qualquer taxa, a exemplo do que se pratica no
Lazareto com os passageiros vindos dos portos infeccionados d'aquella
terrivel molestia.
É que os nossos legisladores deixariam de ser _verdadeiros patriotas_,
se alguma vez cahissem na patetisse de fazer uma lei que não esbulhasse
o pobre povo do que tanto lhe custa a ganhar.
A lei que pozesse termo á emigração para o Brazil, especialmente na
quadra de janeiro a junho, era uma lei humanitaria, que jámais poderia
ser atacada pelos verdadeiros liberaes.
A obrigação dos governos é desviar os administrados do precipicio, que
os seus fracos conhecimentos do mundo lhes não deixam vêr.
São insignificantes os resultados tirados da publicação das relações do
obituario, que os nossos consules nos enviam do imperio. E a razão é
simples: é que a nossa população d'onde sahem os emigrados não sabe lêr;
ou se sabe não está ao alcance de lêr os jornaes mais importantes, onde
apparecem publicadas essas listas, que muito poderiam influir no animo
dos que em tão horrorosa quadra entendem dever deixar a patria.
A imprensa que mais se entranha no coração do povo, essa, com rarissimas
excepções, pouco ou nenhum caso faz d'isto, por causa do _medo_...
Comtudo publica em seu logar as noticias _importantes_ do baile do sr.
commendador Fulano, ou do feliz parto da esposa do sr. Sicrano!
Esta medida de publicar as relações nominaes dos subditos portuguezes,
fallecidos no Brazil, com a declaração da molestia de que tinham
succumbido, fôra lembrada pelo conde de Thomar, em 1860, com o fim de
evitar a emigração.
Mas parece que tão bom alvitre não tivera a recepção que era para
esperar. Mais uma razão da falta de vontade do nosso governo em querer
auxiliar o conde em tão util propaganda.
O seguinte trecho, que vamos extrahir do seu officio de 7 de maio de
1860, resente-se d'esta falta:
«Sinto que o governo não julgasse aproveitavel a idéa que suggeri na
minha correspondencia, fazendo publicar diariamente na folha official e
nos jornaes sobre que podesse exercer alguma influencia, a relação dos
portuguezes mortos n'este imperio, declarando-se sempre a molestia de
que são victimas, e a sua edade.
«É isto muito facil, pelo menos quanto ao Rio de Janeiro, porque nada
mais haveria a fazer senão transcrevêr o obituario, que diariamente
publicam os jornaes brazileiros, que mando para a secretaria a cargo de
v. ex.ª.
«Affigura-se-me que este systema seria preferivel ao de publicar em um
só diario de Lisboa, uma longa lista de nomes. A circumstancia que se
notaria, _de que a maior parte morrem de febre amarella, e quasi todos
na melhor e mais apropriada edade para fazer fortuna e para trabalhar_,
seria, no meu entender, a cruzada mais poderosa que se poderia promover
contra a emigração. Daria isto ainda logar a occupar-se frequentemente a
imprensa portugueza de tão importante objecto, porque tinham sempre
thema para discorrer; estou quasi certo de que algum bom resultado se
havia de tirar d'este meio.
«Aqui mesmo faz muita impressão a leitura diaria d'aquelle artigo
(obituario) sendo talvez o primeiro que chama a attenção dos leitores.
«Consta-me que muitos dos infelizes ultimamente chegados foram logo
victimas da _febre amarella_; nem póde deixar de assim acontecer,
porque, sendo a bahia do Rio de Janeiro o logar mais mortifero, é tambem
aquelle aonde menos promptamente se póde acudir com os soccorros.
«Parece incrivel que o governo d'este paiz, tão interessado na
introducção de colonos, se não tenha lembrado de adoptar alguma medida
para fazer com que os navios em que são transportados os colonos,
cheguem aqui em estação mais propria, ou que ao menos se demorem os
colonos pouco tempo na dita bahia, etc.
«Reconheço que existe algum obstaculo, porque os capitães especuladores,
altamente interessados na venda dos serviços dos ditos colonos,
encontrarão maiores difficuldades para a verificarem, etc.
«Mas a vida perdida de tantos homens na flôr da sua edade, não valerá a
pena de pensar n'este importante objecto? É minha intenção chamar a
attenção do governo imperial sobre este ponto, na occasião em que se
discutir a respectiva convenção.»
Nada se chegou a conseguir, porque o illustre diplomata pouco tempo
depois retirava-se para Portugal.
Sobre o mesmo assumpto já o referido ministro tinha chamado a attenção
do nosso governo, em seu officio de 30 de março de 1860, nos seguintes
termos:
«Por esta occasião chamarei de novo a attenção de v. ex.ª sobre os que
morrem de _febre amarella_. São na maior parte portuguezes ultimamente
chegados das ilhas e do reino.
«Não é possivel conceber como se procura tão perigosa e doentia estação
para desembarcar no Brazil gente transportada da Europa. É negocio que
demanda uma providencia, pois exige a humanidade, que se não deixem
assim correr ao matadouro moços pela maior parte de 15 a 25 annos.»
Que providencias se têem tomado? Uma unica, a nosso ver, pouco
proficua:--a de se publicar na folha official a lista dos subditos
portuguezes fallecidos no Brazil. Mas perguntamos: Quem é que lê a folha
official? A resposta é facil. Os empregados publicos, por obrigação, e
os ricassos, que tendo requerido certas honrarias, assignam o _Diario_,
que n'um momento os ha de transformar de pygmeus em ridiculos barões!
Se os que podiam remediar o mal, curassem menos de futilidades,
lembravamos-lhe o seguinte expediente:
Mandar publicar diariamente por conta do governo, em todos os jornaes do
paiz, um mappa circunstanciado da mortalidade dos subditos portuguezes
fallecidos no imperio.
Estamos certos que nenhum jornal deixaria de publicar gratuitamente tão
importante documento, se directamente lhe fosse enviado pelo governo;
porque é preciso dizer que, a maioria dos jornaes portuguezes guerreia a
emigração, e se não lança mão d'este grande meio de combate, é porque
nem todos possuem o _Diario do Governo_, especialmente os das
provincias.
Para essa minoria de jornalistas, que fazem da imprensa o ariete com que
costumam remover as suas difficuldades financeiras; para esses que não
vêem na imprensa um meio de moralisar e ensinar os povos, mas um meio de
especulação; para esses que substituem por annuncios de namorados, a 20
réis a linha, as noticias de factos importantissimos: para esses, a paga
do espaço occupado pelos mappas de que vimos fallando.
A despeza material não é muita, se attendermos á importancia moral da
receita.
E quando mesmo se pagasse a toda a imprensa este trabalho, que
importancia tem estas despezas comparadas com as que os governos fazem
na compra da opinião dos especuladores, que, tão inconscientemente,
apregoam na tuba da fama, as glorias ficticias de seus patronos?!
O governo inglez não prohibe nem aconselha a emigração; mas offerece
gratuitamente aos editores os relatorios de exames a que manda proceder
nos paizes indigitados pelos aliciadores aos filhos da Inglaterra.
Estes relatorios que custam milhares de libras ao governo, e que, por
terem sido elaborados por homens competentissimos, contam as verdades
sobre a inconveniencia da emigração para certos e determinados
territorios, são immediatamente impressos e distribuidos nos grandes
centros da população ingleza, que assim fica inteirada das artimanhas
dos aliciadores.