VI

Antigamente quando os pretos escravisados desembarcavam no litoral do

Brazil, os _senhores de engenho_, antes de entrarem em ajuste com os

traficantes, procediam a uma rigorosa escolha dos negros que mais

poderiam convir ao serviço da lavoura, assim como qualquer alquilador

escolhe as bestas para o serviço dos alugueis.

Pois bem, o que antigamente acontecia aos pretos, succede hoje com os

brancos, nossos compatriotas.

Em principios de 1857, foram _regeitados_ 174 colonos, idos da cidade do

Porto, na barca _Santa Clara_, para a colonia de Campos Junior & Irmão,

na cidade de Campinas, no Brazil.

Mais alguns casos se haviam dado, e para evitar o escandalo, o governo

portuguez, a pedido do consul geral na côrte do imperio, deu algumas

providencias tendentes a estabelecer um accôrdo com o governo

brazileiro.

Vamos apresentar aos leitores alguns documentos que esclarecem a

questão, bem como qual fôra o resultado das negociações entaboladas a

este respeito entre os dois governos.

É do nosso ministro acreditado na côrte do imperio, e alli residente em

1858:

«Respondendo ao despacho de v. ex.ª datado de 12 de março ultimo, direi

com a devida submissão quanto ao seu conteúdo e ao da cópia do officio

do ministerio do reino que o acompanha, sobre a conveniencia d'um

accordo com este governo, tendente a prevenir a repetição da _regeição_

de colonos mandados angariar no continente de Portugal e ilhas

adjacentes por parte de qualquer individuo ou companhia no Brazil (como

o que se deu ha pouco tempo em Santos), que pela circular do mesmo

ministerio do reino aos respectivos governadores civis, citada na dita

cópia, foi sabiamente tomada a unica medida decisiva possivel na minha

humilde opinião contra a má fé e abusos de tal ordem.

«No entretanto disponho-me, como devo, estudar o modo de fazer a

proposta do accordo por v. ex.ª determinado, comquanto me pareça á

primeira vista não ter probabilidades de felicidade, por isso que no

assumpto de que se trata, nós temos sómente a pedir, não temos que

offerecer. Poderemos talvez chegar ao resultado justamente pretendido,

ampliando e completando com certo apparato a medida acertadissima

encetada já pelo ministerio do reino,» etc.

Um mez depois escrevia o mesmo diplomata o seguinte:

«Terminei o meu officio de 10 do mez proximo findo, quanto á

conveniencia d'um accordo com o governo d'este imperio, tendente a

evitar a rejeição de colonos mandados assalariar d'aqui n'esse reino e

ilhas adjacentes, aventurando com o devido respeito o meu juizo sobre a

pouca probabilidade de conseguir ajuste de tal ordem, e acrescentei que,

para obedecer a v. ex.ª, estudaria comtudo o modo de fazer a respectiva

proposta, comquanto me parecesse poder chegar-se ao resultado pretendido

por meios de mais facil adopção por parte do Brazil.

«No proprio interesse da sua colonisação reside a necessidade forçosa de

moralisar todo e qualquer contracto de locação de serviços, cujo fim

seja chamar ao imperio braços livres e gente branca, do que não póde

prescindir sem comprometter a sua existencia, arriscadissima já pela

incuria imperdoavel dos que com perfeito conhecimento de causa se não

tem occupado como deviam e podiam de promover uma emigração util.

«Assim o disse eu ha poucos dias ao sr. visconde de Maranguape, ministro

dos negocios estrangeiros, o qual procurei expressamente a fim de chamar

a sua attenção para o facto verificado em Santos com os colonos

portuguezes para ali conduzidos na barca _Santa Clara_, mandados ajustar

no Porto, e _rejeitados_ depois á sua chegada. E continuando disse que

referia o occorrido a s. ex.ª, para pedir-lhe, como effectivamente lhe

pedia, em nome do governo de sua magestade, providencias que evitassem

repetições de similhante natureza, certo de que, se não fosse bastante,

o que eu não punha em duvida, encarar o caso pelo lado da humanidade

para dar-se-me razão inteira, viriam em apoio da minha representação as

considerações moraes, as de conveniencia e de interesse, que bem sabia

s. ex.ª não serem de modo algum indifferentes para a prosperidade actual

e futura sorte do Brazil, dependente da maior ou menor affluencia de

emigrantes.

«Assim pois, conclui eu, «será v. ex.ª o primeiro a conhecer a

necessidade de algum compromisso por parte do governo imperial, para

tranquilisar o governo que represento, a respeito dos nossos

compatriotas, os quaes fiados na fé dos contractos, deixam a patria,

muito embora com vistas exclusivas de vantagem propria, e vem tão

efficazmente, tão visivelmente concorrer para o engrandecimento do

imperio».

«Para estas considerações, aliás de primeira intuição, não ha resposta,

e por conseguinte não fez o mesmo ministro outra cousa senão abundar nas

minhas idéas, com expressões que me pareceram sinceras, e em perfeito

accordo com os nossos desejos. E como eu lho havia declarado a clausula

mandada inserir por circular do ministerio do reino nos contractos de

locação de serviços para o Brazil, que de futuro hajam de fazer-se entre

nós, disse-me s. ex.ª que em harmonia com aquella disposição, _mas sem

allusão a ella_, proporia aos seus collegas uma disposição _com todo o

caracter de espontanea_, por meio da qual ficaria satisfeito o governo

de sua magestade, e acautelados os verdadeiros interesses do Brazil. O

que comtudo não poderia ter logar desde já e emquanto não estivesse em

andamento a actual sessão legislativa depois de apresentados os

relatorios dos diversos ministerios, com os quaes elle e seus collegas se

achavam muito occupados,» etc.

Na serie de documentos que temos presente, não podemos encontrar as

disposições _espontaneas_, que o governo brazileiro pretendia preparar,

quando estivesse em andamento a tal sessão legislativa!

Queremos dizer com isto, que as reclamações do governo de Portugal foram

desattendidas, naturalmente, porque ao governo _humanitario_ do Brazil,

convinha, primeiro do que tudo, consultar os _roceiros_ a respeito das

nossas pretenções, que necessariamente haviam de offender os seus

interesses!

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 61 / 176 题