VII

«Os portuguezes que de futuro emigrarem para o Brazil, com o fim de se

dedicarem ao commercio, perderão infallivelmente o seu tempo; porque

sendo a lavoura o seu unico sustentaculo, esta, como já demonstrei no

capitulo precedente, ha de definhar-se á proporção que lhe forem

faltando os braços escravos.»

Escrevemos estas palavras em um livro que ahi corre impresso;[34] e se

as repetimos n'este logar, é para reforçal-as mais, respondendo ao mesmo

tempo ás seguintes phrases de contentamento do auctor do _Brazil_:

«Nem só á commissão (de emigração) devemos esta prova de lealdade e

franqueza. Felizmente ainda ha n'esta terra de gloriosas tradições

caracteres honrados e amigos da verdade.»

Agora é preciso saber a razão d'este enthusiasmo e... d'este enigma,

porque aquelle trecho respondia a este da commissão de emigração:

«Não é de menor interesse para o commercio do reino (a emigração livre),

ao qual, de preferencia, pedem todos os artigos a que estão habituados;

e, desde os vinhos até ás cebolas nacionaes, a circumstancia de estar o

Brazil povoado pelos portuguezes abre-nos extensissimo mercado,

offerecendo igualmente Portugal numerosos consumidores aos productos

brazileiros. Se ainda quizermos olhar com attenção para a agricultura

nacional, encontraremos que os emigrantes repatriados teem dado em todo

o reino, principalmente na provincia do Minho, auxilio importante, pelos

capitaes que teem importado, á industria agricola. Se lançamos a vista

sobre as cidades, villas e aldeias, alli encontraremos palacios

sumptuosos, casas elegantes, casaes commodos, tudo edificado com o

dinheiro que os emigrados de hontem trouxeram da emigração.»

Todas estas conveniencias apontadas pela commissão e que tanto

alvoraçaram o auctor do livro o _Brazil_, são trazidas a Portugal por

alguns de seus filhos, que, a tudo se dedicavam, menos aos trabalhos

rudes do campo.

Os generos alimenticios, que em grande escalla exportamos para o Brazil,

toda a gente sabe que é para gasto de gente abastada. O portuguez

trabalhador, dando-se-lhe ainda que ganhasse 2$000 réis fracos por cada

dia, já mais poderia alimentar-se d'aquelles generos excessivamente

caros alli; alem de que, como diz o sr. Carvalho, o colono é

_ambicioso_, e quem padece de tal molestia despreza as despezas

superfluas.

Está provado, que o consumo dos taes generos, quer haja a emigração de

trabalhadores, quer não, ha de existir em quanto o Brazil puder

sustentar a sua prosperidade.

E d'ahi não os esportamos nós tambem para os outros paizes da Europa?

Pertender-se-ha affirmar que os emigrados portuguezes são só os seus

consumidores?

Vamos agora emittir a nossa humilde opinião a respeito de outras

conveniencias.

É certo que a affluencia de capitaes a este paiz, procedentes do Brazil,

tem sido assombrosa n'estes ultimos tempos; pena é que elle em geral se

empregue na agiotagem e desprese a agricultura e a industria, razão

porque acreditamos muito pouco na prosperidade que para ahi dizem nos

veio trazer o dinheiro vindo do Brazil.

Mas se o portuguez é _ambicioso_, mal de que soffrem quasi todos os

capitalistas de _todas_ as nações do mundo, excluindo talvez os

brazileiros, razão por que as fortunas portuguezas são relativamente

muito superiores no proprio imperio, por que é que affluem actualmente

os capitaes a este paiz?

A resposta é simples e muito logica:--é por que esses capitaes já não

encontram no Brazil tão facil e lucrativo emprego.

«D'aqui a 10 ou 15 annos, quando estiver extincta a escravatura no

Brazil, sem que o governo tenha remediado este grande mal; e os

lavradores, faltos de recursos materiaes, liquidarem as suas fortunas, e

procurarem, como é natural, melhor emprego para o seu capital, chegará

então o grande imperio americano ao ultimo gráu da sua decadencia;

porque uma vez livre o elemento escravo, que no Brazil é e ha de ser

sempre a alma da lavoura, ninguem mais poderá fazer trabalhar o preto

que, (em geral), com o salario de um dia, se julga habilitado para comer

15 ou 20.»

Estas palavras que em outro logar deixamos escriptas,[35] e que

procuraremos auctorisar com a opinião de entendedores mais respeitaveis,

provam até á evidencia que o commercio do Brazil vive da lavoura, e que

decahindo esta, não mais poderá aquella aspirar á gloria alcançada por

muitos portuguezes em épocas passadas. A prova da nossa asserção está em

que os capitalistas residentes no Brazil, tratam n'este momento de

procurar melhor emprego a seus capitaes.

Mas julga o auctor do _Brazil_ que o melhor meio de tentar os nossos

compatriotas, é mostrar-lhe o resultado adquirido por outros portuguezes

que foram mais felizes, por terem encontrado tempos melhores, e alem de

tudo isto, porque se dedicavam a outros misteres, como nunca nos

cançaremos de repetir?...

Ás seguintes reflexões da commissão de emigração:

«Temos por tanto 3 de cada 10 emigrantes perdidos no total da emigração.

Em vinte annos 75 por cento d'este formoso capital terá desapparecido.

Reduzindo a metal o que este trabalho representa, e dando 120$000 réis

ao trabalho produzido por cada emigrado annualmente, 34:000 emigrados

representando 4:080$000 réis cada um, em 20 annos fazem 81:600$000 réis.

É egual a esta somma de trabalho perdido a somma de capital entrado

pelos que voltam ricos? A commissão não póde investigar tão fundo».

A isto, como diziamos, responde o illustre historiador, com uma

simplicidade incrivel:

«Nem era preciso, entendemos nós.»

E depois transcreve da _Correspondencia de Portugal_ um artigo que, se

por um lado elogia o Brazil, por outro mostra até certo ponto a sua

decadencia.

«Do abençoado Brazil, diz o jornal citado, tem-nos vindo ultimamente

cabedal e alguns homens activos e emprehendedores» etc.

Para que desamparam o Brazil, este cabedal e os homens activos e

emprehendedores?!

Não é alli a fonte da riqueza, aonde a actividade humana póde mais

facilmente encontrar o premio do seu trabalho?!

[34] Veja-se _Questões do Pará_.

[35] Veja-se _Questões do Pará_.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 56 / 176 题