Mas estas considerações feitas ao _Cearence_, a proposito dos crimes
commettidos no Brazil, affastaram-nos um pouco de respondermos mais de
perto ás affirmativas do auctor do livro o _Brazil_. Reatemos, pois, o
fio da resposta; mas para isso assignalemos aquella phrase do ministro
da justiça do imperio:
«O augmento dos crimes, especialmente contra a segurança individual, vae
assumindo proporções elevadas.» etc.
Ora, queremos nós dizer, que, se deve attribuir-se á miseria e falta de
trabalho os crimes commettidos em Portugal, no Brazil, onde não parece
haver miseria e aonde não parece faltar trabalho, os crimes que viemos
de descrevêr, devem ser levados á conta da má indole do povo.
Mais claro:
Os crimes commettidos em Jurupary, na riquissima provincia do Pará, em
que portuguezes foram victimas, e assassinos e ladrões alguns subditos
brazileiros, não podem ser levados á conta da miseria do povo
brazileiro; porque o Brazil é apresentado aos portuguezes necessitados
como o seu salvaterio contra os crimes de furto e roubo!
A que devemos então attribuir aquelles crimes?
Antonio Ferreira Gomes, brazileiro, accusado de roubar 150 contos de
réis, a seus patrões, em casa de quem occupava um dos primeiros logares,
fôra incitado pela miseria a commetter tão grande crime?
E fallamos de proposito n'este facto, para dizermos mais, que aquelle
réu fôra absolvido pelos tribunaes do Rio de Janeiro, emquanto que um
portuguez de menor edade, accusado de roubar 10$000 talvez que para
matar a fome, fôra condemnado um dia antes, pelo mesmo tribunal, a dois
annos de prisão com trabalhos![33]
No Brazil praticam-se d'estas e não inferiores façanhas; os tribunaes em
Portugal condemnam os Antonios Gomes, quando _piscam os olhos_ ás
authoridades!
Eis aqui está um phenomeno que a alta capacidade do auctor do _Estudo_
não poderá explicar facilmente.
Outro phenomeno, não menos digno da attenção do illustre historiador,
será aquelle, d'um brazileiro remediado e um portuguez adolescente,
necessitado, commetter o mesmo crime--roubo--_na terra da promissão_!
Que faria esta gente, se estivesse em Portugal?
Quem sabe?... talvez fossem dois homens de bem!...
A Inglaterra um dos paizes mais ricos, e que tem sempre á testa da
administração do estado os politicos mais eminentes, conserva,
premanentemente, nas ruas de Londres uma grande parte da sua população
miserabilissima.
Ora se a pobresa é o principal incentivo do crime, que seria dos
habitantes abastados da grande cidade? O numero de portuguezes
soccorridos, só no Rio de Janeiro, no periodo de 10 annos, desde de 1862
a 1871, foi de 47:116! Ora, se se podesse estabelecer o tal principio,
estes 47:116 necessitados deviam pôr em serios embaraços a população do
Rio!
O auctor do livro o _Brazil_, além de outros argumentos obtusos,
apresenta-nos, para os fazer vingar, a seguinte conclusão:
«Quem está bem no seu paiz não emigra; esta é que é a verdade das
verdades: ninguem o contestará.»
Se a _emigração_, tomada n'um sentido muito restricto, se estabelece
pela mudança dos animaes d'um logar que _julgam mau_, para outro que
_suppozeram bom_, qual o motivo porque aquelles 47:116 portuguezes
necessitados, não regressaram á patria, aonde já sabem que nunca poderão
passar peior que no Brazil?
É porque estavam n'uma posição muito mais miseravel do que quando
emigraram: não têem os meios para repatriar-se, além de alguns
acharem-se completamente impossibilitados.
O facto de emigrarem muitos portuguezes para o Brazil, não é razão
sufficiente para que digamos, que a emigração para esta região é
conveniente para elles; nem tampouco prova que a necessidade
impreterivel os obriga a dar tão errado passo.
É isso que temos sustentado e sustentaremos, em quanto tivermos do nosso
lado a razão.
É provavel que n'um futuro, que não póde vir muito proximo, modifiquemos
as nossas idéas; porque, emfim, _le monde marche_, e nós mui crentes no
grande principio do philosopho, acreditamos que o Brazil se
transformará, assim como acreditamos na transformação de outros povos
semi-barbaros.
Já o dissemos e nunca nos cansaremos de repetir:--emquanto o Brazil não
reformar completamente as suas leis, por fórma que os povos emigrantes
não vão esbarrar no imperio com o temeroso dilemma da controversia
politica e religiosa, que tem n'estes ultimos tempos tomado demasiadas
proporções no Brazil, a emigração europêa será uma ficção.
Porque é preciso assentar bem n'esta verdade:--o povo portuguez não é
aquelle, que, por si só, póde supprir o Brazil de braços laboriosos para
a cultivação das suas terras immensas. Nunca o pôde fazer, quando esta
parte da America pertenceu a Portugal.
É preciso lançar as vistas para outros povos europeus, cuja tendencia
para a emigração não seja inferior á nossa.
Ha difficuldade em alliciar hespanhoes ou italianos, porque estes
preferem as republicas hespanholas, assim como nós preferimos o Brazil.
Os francezes e os inglezes, povos essencialmente industriaes, teem as
suas colonias ou os Estados-Unidos para receber a população que lhes
sobeja. A Allemanha, esse grande paiz que n'estes ultimos annos tem
fornecido á America do norte o seu maior nucleo de emigração, não
poderia ser tentada pelos escriptos do sr. Augusto de Carvalho e outros?
Não podia. E dizemos, não podia, não porque falte ao distincto
historiador, applicando-se um pouco mais ao estudo, a intelligencia para
poder vir a ser um optimo _engajador_; mas porque os allemães estudam o
assumpto da emigração com toda a proficiencia e não precisam lá de quem
lhes indique o paiz que devem preferir. No mesmo caso está a Inglaterra.
Outra razão: Se os emigrados portuguezes, residentes no imperio, se
sujeitam ao regimen brazileiro, em cujo paiz encontram as demasias do
odio de raça e não poucas vezes a excessiva intolerancia religiosa; os
allemães, além de não concordarem com as leis civis do imperio, descrêem
completamente das leis que estabelecem a tolerancia religiosa, que ha de
ser sempre uma ficção, emquanto a governação do Brazil estiver nas mãos
do seu clero reaccionario; leis que esse clero poderia reformar, se não
fôra o receio de descontentar os estrangeiros, na maioria conservadores,
que, unidos aos brazileiros descontentes, e de idéas mais avançadas,
fariam grande resistencia a uma refórma tão retrógrada.
[33] Veja-se _Questões do Pará_.