Convém, pois, applicar remedio para evitar estes meios extremos.»

Ainda sobre o mesmo assumpto diz o _Diario de S. Paulo_:

«Os industriosos avantajam-se no modo de tirar o alheio.

«Um individuo chegou-se á estação telegraphica da estrada de ferro

ingleza, na Luz, e passou para Santos o seguinte telegramma:

«De Antonio Pereira Arruda a Albino Medon.

«Mande-me ámanhã (7 do corrente) sem falta, cinco saccos de assucar crú

e duas barricas do refinado.

«Pague o frete, e remetta para a estação da Luz, que eu estou

esperando».

«O pobre negociante, amigo do sr. Arruda, satisfez completamente o

pedido e remetteu os generos, que foram entregues na estação ao tal

Arruda, que não podia ser o amigo e correspondente.

«Mais tarde, remettendo pelo correio ao seu amigo a nota dos generos e

seus preços, teve em resposta que não lhe passára telegramma algum e

nada lhe pedira, e que até residindo em Jundiahy não viera á capital, e

que tinha sido victima de algum ladrão, sabedor de suas relações.

«Ora eis ahi um meio facil de nos provermos do necessario.

«Acautele-se, pois, o commercio contra as artimanhas e recursos dos

finos larapios.

«O sr. Albino levou tudo ao conhecimento da policia, mas o homem que se

abasteceu de assucar _crú e refinado_, usa de capa preta, e será

difficil ser conhecido. Esta gente escapa sempre da acção da

auctoridade, _mesmo por ser grande o seu numero_».

Note-se que a companhia de ratoneiros, estabelecera para theatro de suas

façanhas a riquissima provincia de S. Paulo, onde o clima é mais

supportavel, e onde com mais facilidade os taes sugeitos poderiam

encontrar trabalho, se fosse o trabalho que elles procurassem.

E não se diga que a miseria no Brazil é já a consequencia das nossas

previsões--a decadencia do imperio. Não, porque em 1860, o nosso

embaixador, o sr. conde de Thomar, assim pintava _a terra promettida_:

«Apresentam-se diariamente á porta da legação de sua magestade um grande

numero de portuguezes infelizes, pedindo uns esmola, outros passagem

para Portugal e alguns mesmo para Angola. Pertence a maxima parte

d'estes infelizes a essa classe de illudidos com as fallazes promessas

de grandes fortunas, apenas chegados a este imperio.

«É sabido que os europeus em geral soffrem nos primeiros mezes depois do

seu desembarque n'estas paragens, e não soffre a cobiça dos esploradores

d'aquellas victimas, que estejam em curativo e descanso durante as suas

molestias, antes geralmente se exige, que elles prestem em qualquer

estado de saude os serviços a que se obrigaram.

«Resulta d'este facto, como é natural, o aggravamento das molestias e

confesso que por mais de uma vez se me tem coberto o coração de luto,

vendo o estado desgraçado de alguns dos meus compatriotas.

«Soccorro a alguns com a esmola, que comportam as minhas pequenas forças

financeiras, mas declaro a v. ex.ª, que este estado é demasiado violento

para um representante de sua magestade, porque ou ha de já por

humanidade, já pelo cargo que occupa, dar esmola a estes infelizes, e

terá por isso uma grande diminuição nos seus vencimentos, a qual não

comportam as despezas diarias a que é obrigado, ou ha de recusal-a, e

será infallivel resultado: primeiro, a maior desgraça e mesmo a fome

d'esses desgraçados subditos de sua magestade; segundo: o descredito e

desconsideração do seu representante.

«No meio de muitos desgostos, de soffrimentos e difficuldades, a que se

vê exposto o ministro de Portugal n'esta côrte, devo confessar a v.

ex.ª, que nada produz em mim uma sensação tão forte, como o espectaculo

que se representa diariamente e sem a menor interrupção á porta da

legação de sua magestade.

«São bem ardentes os desejos que me animam para valer a tantos

infelizes, mas é superior a difficuldade em que me acho de remediar tão

grande desgraça.

«Não me atrevo a propor meio nenhum ao governo de sua magestade, mas

reclamo uma providencia para fazer desapparecer dos olhos do publico

este estado lamentoso, principalmente em um paiz que por ter sido nossa

colonia, não deve presenciar tão grandes miserias e desgraças,» etc.

Mas não localisemos os crimes e miseria. Olhemos para outras provincias

brazileiras.

Um importantissimo jornal do imperio, o _Cearense_, trata em seu artigo

de fundo, de 19 de agosto de 1875, do assumpto importantissimo

_Segurança publica_.

As suas palavras e a estatistica dos crimes, que no mesmo logar nos

apresenta, horrorisam-nos.

Para que nos não acusem de exaggerados, vamos copiar alguns trechos do

alludido artigo da illustrada folha do Ceará.

Oxalá aproveite a lição aos nossos compatriotas, que veem no imperio um

manancial de riquezas e de felicidades futuras, e ao philosopho sr. A.

Carvalho para não assentar proposições temerarias e inconsequentes.

Falla o _Cearense_:

«Não é licito duvidar mais do estado de anarchia moral, que substituiu

ao regimen pacifico da legalidade por toda a estação do imperio, maxime

nas provincias do norte, destinguindo-se ainda d'estas a do Ceará.

«Contrista lançar-se os olhos sobre a estatistica criminal d'esta

provincia, e possuir-se a certeza de que os costumes, em vez de seguirem

o curso regular e bemfazejo da civilisação, vão-se encaminhando para o

passado sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia (?).

«Esse contraste entre o material, que progride, e a moral que recua, tem

dado que pensar aos que se interessam pela prosperidade e melhoramento

da patria com tal pertinacia, que ultimamente chegou a despertar a

attenção distraida e indolente do poder governativo.

«Na impotencia de prestar melhor e mais efficaz serviço á causa publica,

tem a opposição se limitado a apontar os males e seus motivos,

denunciando os criminosos á acção da justiça, e a negligencia policial á

acção da opinião do paiz.

«Isto, que seria tomado por outros governos como serviço e dedicação ao

interesse geral, tem valido apenas ao partido proscripto a pecha de

antipatriotico, porque denuncia o crime com suas côres vivas e os

despeitos e odios dos potentados da situação.

«Felizmente parece que a verdade, a evidencia dos factos, o poder dos

acontecimentos começam a pesar dolorosamente sobre a consciencia do

governo, obrigando-o a volver os olhos sobre o estado desolador de quasi

todas as provincias em materia de segurança publica e individual.» etc.

Depois de mais algumas reflexões.

«E para avaliar-se o incremento, que tem tido n'esses ultimos tempos a

estatistica criminal no Ceará, transcrevemos para estas columnas uma

pagina de sangue de nossos annaes.

«Desde o dia 13 de dezembro de 1874 até hoje... a imprensa registrou os

seguintes attentados perpetrados na provincia:

Assassinatos 77

Tentativas 23

Infantecidios 3

Ferimentos 148

Offensas physicas 26

Aborto 1

Estupro 1

Polygamia 1

Furtos 18

Fugas de presos 19

---

317

«Por esse quadro vê-se que durante 252 dias commetteram-se 317 crimes, o

que dá mais de um attentado para cada dia!» etc.

Effectivamente, é assombroso. Mas antes de proseguirmos no assumpto,

cumpre dizer duas palavras ao illustrado articulista, em resposta á sua

proposição:--_de que os costumes vão-se encaminhando para o passado

sombrio e desolador dos tempos barbaros da colonia_. Acreditamos

sinceramente que este trecho do seu artigo não leva em mira offender o

regimen adiministrativo do governo portuguez, quando o Brazil era nossa

colonia, regimen mau, de que nem todos os povos estavam isentos

n'aquella época; mas que, ainda assim, já mais dará logar a ser julgado

com justiça, como acabam de ser julgados os actos do governo brazileiro,

por um jornal liberal, n'uma época tão adiantada do seculo XIX. Não será

facil ao distincto jornalista apresentar-nos uma estatistica tão

monstruosa de crimes praticados no Ceará, ou em outra qualquer cidade do

imperio no longo periodo de 325 annos, que alli dominaram os

portuguezes. A Cesar o que é de Cesar.

A referida folha diz ainda o seguinte:

«Não reputamos sómente um triumpho para a imprensa liberal as ultimas

circulares do ministro da justiça sobre este assumpto; pensamos que ha

ahí alguma coisa mais que o desejo de dar uma satisfação ás reclamações

dos proscriptos, por que ha a tardia consciencia d'esses cataclismos

moraes, que assolam a sociedade brazileira tão desapiedada e

cruelmente.»

Julgamos do nosso dever transcrever na integra uma das circulares a que

se refere o articulista, porque esse documento comprova a verdade das

suas allegações a respeito da criminalidade no Brazil, e corrobora as

nossas affirmações contra a sua civilisação.

«O augmento dos crimes, diz o ministro da justiça, especialmente contra

a segurança individual, vae assumindo proporções elevadas. É urgente

providenciar sobre este estado de coisas, cujo melhoramento depende em

grande parte da nomeação das auctoridades policiaes, promotores publicos

e supplentes dos juizes municipaes. Para taes cargos convém que v. ex.ª

escolha as pessoas mais capazes, por seu merecimento e prestigio de

captarem a confiança publica e manterem o respeito á lei. Na prevenção e

repressão dos crimes deve haver a maior diligencia, dando v. ex.ª ás

auctoridades a força necessaria, e não tolerando qualquer abuso ou

excesso que commetterem.»

Este documento encontrámol-o no _Jornal do Pará_, do dia 6 de agosto de

1875, a proposito do qual faz as seguintes considerações uma folha

d'esta provincia:[32]

«Em nenhuma provincia do imperio talvez se tenha esquecido tanto que a

escolha das auctoridades policiaes deve recair nas pessoas mais capazes

por seu merecimento e prestigio, do que na do Pará.

«Todos os dias nos vemos obrigados a registrar a nomeação de individuos

analphabetos, turbulentos, mal intencionados e até réus de policia para

os cargos policiaes.

«Aqui mesmo na capital tem-se lançado mão de homens estupidos, de

jogadores, de verdadeiros valdevinos para occupar os logares da policia,

como se assim quizessem escarnecer dos bons costumes e da moralidade

publica.

«Pelo interior isso então é um Deus nos acuda.

«Logares ha, onde occupam as subdelegacias os individuos mais ruins e

despreziveis.

«Não ha muito tempo um supplente de subdelegado acompanhou por muitas

noites a um assassino na embuscada que fazia á sua victima, que mais

tarde caiu traspassada por uma bala!

«Os assassinos dos dois infelizes negociantes das ilhas de Breves,

(Jurupary) tiveram por cumplice um subdelegado de policia!

«Ahi está a imprensa todos os dias a clamar contra os desaforos do

primeiro supplente da sub-delegacia de Mapuá, que entretanto acha-se no

exercicio do cargo a vexar e perseguir aos seus infelizes

condistrictanos!

«Oxalá que a recommendação do sr. ministro da justiça não fique sómente

na sua publicação e que possa ser util a esta desditosa provincia.»

No meio de todas estas coisas, o que é um facto inegavel é que as

auctoridades superiores vêem-se em difficuldades para substituir os maus

agentes.

Contra a auctoridade de Mapuá, de que nos falla aquelle jornalista,

appareceu o seguinte protesto na imprensa do Pará:

«Nunca os mapuenses se persuadiram que o ill.mo sr. capitão Diocleciano

Antero Pinheiro Lobato, muito digno subdelegado d'este districto,

passasse a administração da subdelegacia ás mãos do 1.º supplente da

mesma, Antonio Joaquim de Barros e Silva.

«Bem sabemos que o motivo d'isso foi o mau estado de saude do sr.

capitão Diocleciano; porém nós, nacionaes e estrangeiros, residentes

n'este districto, que já soffremos as arbitrariedades do sr. Barros, na

occasião em que esteve de posse da administração; sentimos bastante o

sr. capitão Diocleciano entregar a administração ao sr. Barros, sabendo

s. s. que este sr. é um dos adeptos da _Tribuna_, que ufana-se em

espalhar ao povo ignorante as infames e degradantes doutrinas d'esse

nojento pasquim.

«Quantas vezes pedimos (e algumas d'ellas pelo amor de Deus) ao sr.

Diocleciano que não passasse a administração d'esta subdelegacia ao sr.

Barros e Silva citando a s. s. os actos que o sr. Barros e Silva

praticou, quando esteve exercendo o cargo da subdelegacia o anno

passado, já afugentando os habitantes, outras vezes ameaçando-os com

prisões.

«Este sr. Barros e Silva tem por costume insinuar aos devedores da maior

parte dos commerciantes d'este districto para que não paguem, e com

especialidade quando os credores são portuguezes, por que este sr. jurou

d'esde 1835 odio aos «gallegos» phrase do sr. Barros, quando quer dizer

portuguez.

«Á vista d'isto, sr. capitão Diocleciano, pedimos-lhes que, logo que o

seu estado de saude permitta, assuma a administração de subdelegacia, a

fim de evitar que o seu 1.º supplente ponha em execução os seus actos de

verdadeiro despotismo, como é de costume».

Esta queixa foi em parte attendida pelo governo da provincia. Eis como

se expressa o _Liberal do Pará_ de 8 de agosto:

«Vimos no expediente do governo de 24 do passado um officio do sr.

Benevides ao chefe de policia, exigindo informação sobre as accusações

feitas em artigo d'este jornal contra o primeiro supplente da

subdelegacia de Mapuá, actualmente em exercicio, Antonio Joaquim de

Barros e Silva.

«Como era de suppôr, o castigo d'essa auctoridade ficou no tal officio;

pois consta-nos que, achando-se Barros na capital n'essa occasião,

_desfez tudo_, continuando por tanto a gozar de inteira confiança da

administração.

«Veio-nos á idéa esta occorrencia ao recebermos uma carta d'aquelle

districto, em que se nos diz o seguinte do dito 1.º supplente:

«O nosso heroe, para destruir as accusações que pesam sobre si, apenas

chegou, anda de porto em porto, revestido do caracter de auctoridade,

exigindo dos moradores attestados para provar que é um santo homem, e

que morre d'amores pelos portuguezes.

«Aos que repugnam attestar o que elle dita, responde: Conte commigo!

«Em 30 de dezembro publicou o _Liberal_ um artigo d'aqui, acompanhado de

attestados de brazileiros e portuguezes do districto, provando que essa

auctoridade tem ameaçado aos subditos de Portugal, e esses attestados

jámais foram contestados.

«Em julho do passado foi o honrado commerciante portuguez José G. de

Lemos victima das ameaças do mesmo sr., de que foram testemunhas os srs.

capitão Diocleciano Lobato e João A. Lobato e outros brazileiros; assim

como os portuguezes José Antonio Lopes e Theotonio Antão da Cruz.

«Os brazileiros que contestarem que Barros é _tribuno_, fal o-hão com

medo de sua vingança.

«Tambem não duvidamos que encontre elle portuguezes que lhe passem

attestados n'esse sentido, porque esses devem ter ainda mais a temer do

seu odio do que os nacionaes!»

Os portuguezes residentes no interior, com medo do odio das auctoridades

brazileiras, passam attestados beneficos n'um dia a favor d'aquelles de

quem receberam maus tratos em outro. A triste verdade é esta.

O que é inegavel é que as auctoridades superiores do Brazil, ou se

voltem para a direita ou para a esquerda, só encontrarão maus agentes de

policia; ou, o que é peior, agentes que precisam ser policiados, segundo

a phrase do _Liberal do Pará_.

E a quem devemos nós attribuir tão grande mal?

O _Cearence_ responde assim:

«Os habitos e costumes d'um povo, suas virtudes e vicios, são feituras

de suas instituições politicas ou civis, d'um governo liberal ou

despotico.»

Concordamos: porém se o mal que assola a sociedade brazileira, é

derivado do dominio despotico do tempo, em que era colonia Portugal,

parece que 50 annos d'uma administração de casa deveria ter salvo o

imperio do abysmo, para onde o vemos precipitar-se.

Nós, como acontecia ao povo brazileiro, tambem arcámos com o jugo de

ferro do despotismo. Comtudo, atirámos com esse jugo para bem longe; e

podemos dizer, sem jactancia, que Portugal é na actualidade um dos povos

que goza de mais liberdade.

[32]_Liberal do Pará._

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 54 / 176 题