Se Nobrega e Anchieta, depois de haverem esgotado a sua paciencia
evangelica, entendiam, já no descanço, «que os colonos, como refere
Rebello da Silva, só por meio da guerra poderiam alcançar do gentio o
respeito, o socego e a segurança de suas propriedades», quem melhor
estaria no caso de conhecer e remediar o mal?
Não eram os colonos atacados em suas propriedades? Quando algumas
_bandeiras_ penetravam no sertão, com o fim de reconhecer o paiz, não
eram ellas rechaçadas pelos indios?
«Em 1733, segundo o testemunho de Casal, uma frota de 50 canôas, que
representava pelo menos 400 homens, fôra inteiramente destruida pelos
gentios. De uma bandeira composta de 300 pessoas, que em 1725 saía de S.
Paulo, bem provida de tudo, só haviam escapado dois brancos e tres
negros. De outras expedições numerosas não houve uma só que voltasse.»
São demasiadamente caricatas as desculpas de alguns escriptores a favor
dos indios da America.
Concordamos que não sejam muito evangelicas aquellas phrases de Nobrega
e Anchieta; porém devemos notar que similhantes idéas nunca foram
seguidas pelos primeiros missionarios. Depois de tantas fadigas era
justo que fizessem as suas queixas contra o indomavel gentio. Taes
queixas tinha de mau uma cousa só: o aproveitarem-se d'ellas os maus
padres, que no futuro haviam de auctorisar os abusos que alguns
escriptores lamentam.
E nos principios do seculo XVII, que os jesuitas, com razão, podem ser
accusados de escravisarem os indios.
No meado do seculo XVIII eram elles, por assim dizer, os principaes
senhores das vastissimas regiões brazileiras. O governo da metropole
tinha sido até então impotente contra a força dos sectarios de Loyola.
A provisão de 12 de setembro de 1663, que retirava aos jesuitas a
jurisdicção temporal, que, como diz o sr. Mendes Leal, fôra illudida
pela poderosa influencia do padre Vieira, mostra até certo ponto a boa
vontade do governo da metropole em concorrer para a prosperidade do
Brazil. A creação de companhias colonisadoras mostra tambem os seus
louvaveis esforços.
Essas companhias foram guerreadas pelos _santos_ varões (seculo XVII).
Vejamos como é que a respeito dos novos actos do governo procediam os
descendentes de Nobrega e Anchieta:
«Uma das manifestações em que mais significativamente se patenteou o
espirito e intuitos da companhia de Jesus, diz o sr. Mendes Leal, foi a
guerra que do pulpito moveu contra as companhias commerciaes, que o
ministro por este tempo fundava e protegia a fim de desenvolver a
natural riqueza do paiz. Um jesuita, o padre Ballester, para affastar os
povos de concorrerem a estas uteis associações e emprezas,
vociferava:--_que todos os que entrassem n'essas companhias não estariam
com a de Christo_.»
Que remedio havia de dar o governo a este grande mal, que entorpecia a
marcha progressiva do Brazil? Expulsar os jesuitas. E seria facil
expulsal-os d'um estado que mais parecia dominio da companhia do que de
Portugal?
Era preciso preparar as cousas para d'ahi a quasi um seculo se realisar
essa medida salutar.
«... As consequencias d'essa expulsão, refere ainda o referido escriptor
portuguez, foram iminentemente favoraveis e proveitosas aos povos.»
E effectivamente, póde-se dizer, sem medo de errar, que desde então para
cá (1759), é que começou a florescer o Brazil.
As idéas liberaes proclamadas pela França, foram pouco a pouco fazendo
echo nos differentes povos da Europa; e Portugal, um dos paizes mais
livres, sendo um dos primeiros a tomar-lhe o exemplo, teria feito hoje
dos seus antigos dominios brazileiros uma nação essencialmente liberal.
Não o quiz assim o povo que se dizia escravisado; e Portugal, que em
1820 tinha contribuido para tornar brilhante uma das paginas da sua
historia, entendeu pouco tempo depois que não devia tolher a vontade
d'esse povo, quando se lhe apresentava em procura da carta de alforria.
O que tem feito o Brazil desde então para cá?
Promulgou leis protectoras á emigração?
Baniu os jesuitas, que o marquez de Pombal, por inimigos do progresso da
patria, expulsára de todos os dominios de Portugal?
Não: que o diga o movimento _quebra-kilos_ de Pernambuco, em 1874.