IX

A segunda parte do livro do snr. Augusto de Carvalho, leva-nos a demorar

um pouco mais a nossa analyse sobre a escravatura.

É incontestavel que este horroroso commercio, exercido mais largamente

depois do descobrimento da America, tinha, até certo ponto, a sua razão

de ser.

Não desculparemos por fórma alguma o systema de alguns jesuitas, usado

na catechese dos indigenas da America do sul, systema que no entender de

alguns historiadores, escravisava os indios em logar de os chamar a luz

da civilisação.

Porém, se accusam a companhia de demasiadamente interessada no seu

engrandecimento moral e material, como é crivel admittir que os seus

filiados não usasem de todos os meios para aproveitar as povoações

errantes da America, confiadas ao seu criterio religioso? Não lhes seria

mais util esse aproveitamento, do que terem de lançar mão dos filhos de

Africa, que, com mais razões do que os indios, aborreceriam os seus

_senhores_, jesuitas ou não?

Uma forte razão vem em favor da companhia: os indios das duas Americas,

geralmente fallando, são indomaveis; inimigos da civilisação, a sua vida

ha de ser sempre a dos povos errantes, até extinguirem-se. Não obstante,

a catechese dos indigenas da America do sul, trouxe maior numero de seus

filhos ao gremio da civilisação, do que os systemas usados no norte,

onde os dominadores, convencidos da inutilidade de seus esforços, lhes

dão caça, como se os indios fossem bichos de matto!

O commercio da escravatura apparece no meado do seculo XVI. A sua

existencia não póde deixar de attribuir-se ao mau systema dos governos,

que dominavam a America meridional, em quererem catholisar os europeus,

que por ventura entendessem dever procurar novas terras. Os jesuitas

eram os fiscaes do catholicismo nos novos dominios de Portugal e

Hespanha.

Se não fosse a companhia era provavel que a corrente da emigração

europêa se encaminhasse, em parte, para o sul. Se os jesuitas não

dominassem as duas côrtes, era provavel que os governos de Portugal e

Hespanha levantassem a redoma com que encobriam aos olhos dos profanos

as suas joias preciosas. Mas os padres experientes comprehenderam que

mais facil seria dominar uma nação de escravos do que uma nação de

homens livres, porque a America do sul devia ser por mais alguns

seculos, o sustentaculo de Roma; por isso é que, devido á sua

influencia, os portos d'esta parte do novo mundo estiveram fechados aos

estranhos, emquanto que se abriam aos africanos, mais faceis de

sujeitar-se aos caprichos jesuiticos; por isso é que n'um estado novo,

que nasceu talhado para moralisar os povos decadentes, se formaram umas

poucas de nações rachiticas, que até hoje ainda não poderam levantar o

jugo ferreo da indomavel companhia.

Se o jesuita Anchieta dizia que os indios, mais por medo do que por

amor, se haviam de remir, quem nos prova o contrario d'esta asserção?

O que é facto é que os colonos faziam e os indigenas desfaziam.

Houve mais tarde desregramentos n'essas _entradas_ ou _bandeiras_ de que

falla o sr. Carvalho, com o pretexto de salvar os captivos dos proprios

indigenas. «Os governadores, segundo refere Mendes Leal, nos

_Bandeirantes_, muitas vezes e por muitos modos quizeram pôr cobro

n'estes desregramentos. Mas como vigiar, acrescenta o illustre

escriptor, e colher em tão vastos e despovoados territorios os

criminosos, que todos iam feitos, que mais de uma vez se entendiam com

os mesmos capitães-móres, e não raras com os proprios habitantes?»

Estas palavras respondem ás do sr. Augusto de Carvalho, quando quer

tornar responsavel o governo da metropole de taes desregramentos.

X

Entendemos dever fazer algumas observações a respeito das _bandeiras_, a

que se refere o sr. Augusto de Carvalho, no seguinte trecho do seu

livro:

«A exemplo dos padres, os colonos, já de si inclinados a este abuso

(escravisar os indios), _e por que estranhavam os rigores d'um clima

tropical que os extenuava nos rudes trabalhos da lavoura_ (a estas

palavras que assignalamos responderemos em especial), abriram largas

ensanchas ás suas _bandeiras_, especie de caçadas de indios que lhes

forneciam escravos, a quem commettiam as mais penosas funcções da vida

agricola.»

O sr. Augusto de Carvalho, com o fim de metter os portuguezes no

torniquete, começára pela adulação. Nós protestamos contra o estratagema

porque não queremos elogios nem vituperios. Nós queremos a verdade, sem

a qual se não póde escrever a historia.

No entender do sr. Carvalho as _bandeiras_ tinham por fim, unica e

exclusivamente, escravisar os indigenas.

Ayres do Cazal, um dos escriptores antigos mais conscienciosos, diz o

seguinte a tal respeito:

«Da-se no Brazil este nome--_bandeira_--a um numero indeterminado de

muitos homens, que providos d'armas, munições e mantimentos, necessarios

para a sua subsistencia e defeza, entram nas terras possuidas pelos

indigenas com algum intuito, v. g. de _descobrir minas, reconhecer o

paiz, ou castigar as hostilidades dos barbaros_.»

Os escriptores mais abalisados são de opinião, que devido ás excursões

dos _bandeirantes_, é que se tornou conhecido o immenso territorio

brazileiro.

Vejamos o que diz Ferdinand Diniz a tal respeito:

«Intentámos, no começo d'esta noticia, escrever rapidamente a historia

das expedições prodigiosas, devidas aos paulistas, durante o decimo

setimo e o decimo oitavo seculo; fizemos ver que todas as grandes

explorações que deram a conhecer o interior do Brazil, são resultado da

sua perseverança (dos _bandeirantes_).»[30]

Os padres da companhia, com respeito ás _entradas_, são assim defendidos

pelo citado historiador:

«Grande injustiça haveria em julgar os jesuitas do decimo sexto seculo,

e seus trabalhos, segundo as idéas, que póde inspirar o systema das

missões. Ali possivel é vêr projectos ambiciosos conciliar-se com boas

intenções: nos primeiros trabalhos executados pelos padres da companhia

no Brazil, tudo foi desinteressado; e, se necessario fosse, a relação de

suas fadigas e padecimentos poderia proval-o. Nobrega mereceu o titulo

de--_apostolo do Brazil_--que nos conferem todas as narrações; Anchieta,

que trabalhou sem descanço por espaço de quarenta annos na conversão dos

indigenas, e que não temia ficar só como refem entre as mãos dos Tamoyos

para salvar a colonia, offerece ainda um caracter mais sublime; o padre

João d'Aspicuelta, o padre Antonio Perez, o padre Leonardo Nunes, e

tantos outros, os auxiliaram com um zelo, que só póde apreciar quem tem

vivido nas florestas, ou repousado n'uma choupana india. Muito falta

para que elles obtivessem os resultados, que no Paraguay se

manifestaram» etc.

Lacordaire, auctoridade insuspeita na questão vertente, accrescenta, com

respeito ás expedições dos _bandeirantes_, que «se o padre era severo

antes de absolver os _bandeirantes_, informava-se cuidadosamente do

objecto da empreza, e só dava a absolvição _quando se tratava de

descobrir minas_; porém o maior numero nada indagava a este respeito, e

recommendava sómente, em termos geraes, que tratassem com affabilidade

os indios, que no caminho encontrassem, para attrahil-os ao gremio da

egreja.» etc.

A _bandeira_ punha-se a campo. «Então começava com toda a sua energia a

lucta do homem com a natureza terrivel do deserto. Indispensavel era

muitas vezes com o machado abrir caminho na espessura dos bosques,

acampar por espaço de semanas inteiras em terras alagadas e pestiferas,

desprezar os rios trasbordados, as cachoeiras, a frecha do indio

emboscado, o ardor d'um sol vertical durante a estação calmosa, as

chuvas abundantes da quadra opposta, a fome e as doenças; era, n'uma

palavra, d'absoluta necessidade arrostar todos os perigos, que a

imaginação póde conceber. _Em todo o logar em que a terra era vermelha e

offerecia certos indicios, que o chefe da expedição conhecia, este

mandava examinar o solo; se encontravam algum ouro_, as passadas fadigas

esqueciam, e trabalhos d'exploração sem demora começavam: _em caso

contrario iam ávante_.»

Houve _bandeirantes_ (chefes das expedições do interior), que

escravisavam os indios; mas de similhantes actos não póde ser accusada a

maioria dos _bandeirantes_, os colonos e o governo da metropole, nem tão

pouco os jesuitas do XVI seculo. Estes foram expulsos de S. Paulo,

segundo affirma o historiador que viemos de referir, porque, obtendo um

breve do papa, excommungavam os possuidores de indios!

Até ali, como convinha a quem desejava chamar á obediencia de Roma novos

proselytos, em substituição dos que tinham abraçado os principios d'uma

philosophia mais racional, os padres da companhia, só levavam em mira um

novo intento. Depois, quando viram que os seus esforços iam tendo bom

exito, não tanto como desejavam, é que arrancaram a mascara da

hypocrisia, que fez da America meridional um convento de frades

fanaticos, que os governos do senhor D. Pedro II tem consentido no

Brazil.

[30]_Le Bresil._

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 43 / 176 题