A segunda parte do livro do snr. Augusto de Carvalho, leva-nos a demorar
um pouco mais a nossa analyse sobre a escravatura.
É incontestavel que este horroroso commercio, exercido mais largamente
depois do descobrimento da America, tinha, até certo ponto, a sua razão
de ser.
Não desculparemos por fórma alguma o systema de alguns jesuitas, usado
na catechese dos indigenas da America do sul, systema que no entender de
alguns historiadores, escravisava os indios em logar de os chamar a luz
da civilisação.
Porém, se accusam a companhia de demasiadamente interessada no seu
engrandecimento moral e material, como é crivel admittir que os seus
filiados não usasem de todos os meios para aproveitar as povoações
errantes da America, confiadas ao seu criterio religioso? Não lhes seria
mais util esse aproveitamento, do que terem de lançar mão dos filhos de
Africa, que, com mais razões do que os indios, aborreceriam os seus
_senhores_, jesuitas ou não?
Uma forte razão vem em favor da companhia: os indios das duas Americas,
geralmente fallando, são indomaveis; inimigos da civilisação, a sua vida
ha de ser sempre a dos povos errantes, até extinguirem-se. Não obstante,
a catechese dos indigenas da America do sul, trouxe maior numero de seus
filhos ao gremio da civilisação, do que os systemas usados no norte,
onde os dominadores, convencidos da inutilidade de seus esforços, lhes
dão caça, como se os indios fossem bichos de matto!
O commercio da escravatura apparece no meado do seculo XVI. A sua
existencia não póde deixar de attribuir-se ao mau systema dos governos,
que dominavam a America meridional, em quererem catholisar os europeus,
que por ventura entendessem dever procurar novas terras. Os jesuitas
eram os fiscaes do catholicismo nos novos dominios de Portugal e
Hespanha.
Se não fosse a companhia era provavel que a corrente da emigração
europêa se encaminhasse, em parte, para o sul. Se os jesuitas não
dominassem as duas côrtes, era provavel que os governos de Portugal e
Hespanha levantassem a redoma com que encobriam aos olhos dos profanos
as suas joias preciosas. Mas os padres experientes comprehenderam que
mais facil seria dominar uma nação de escravos do que uma nação de
homens livres, porque a America do sul devia ser por mais alguns
seculos, o sustentaculo de Roma; por isso é que, devido á sua
influencia, os portos d'esta parte do novo mundo estiveram fechados aos
estranhos, emquanto que se abriam aos africanos, mais faceis de
sujeitar-se aos caprichos jesuiticos; por isso é que n'um estado novo,
que nasceu talhado para moralisar os povos decadentes, se formaram umas
poucas de nações rachiticas, que até hoje ainda não poderam levantar o
jugo ferreo da indomavel companhia.
Se o jesuita Anchieta dizia que os indios, mais por medo do que por
amor, se haviam de remir, quem nos prova o contrario d'esta asserção?
O que é facto é que os colonos faziam e os indigenas desfaziam.
Houve mais tarde desregramentos n'essas _entradas_ ou _bandeiras_ de que
falla o sr. Carvalho, com o pretexto de salvar os captivos dos proprios
indigenas. «Os governadores, segundo refere Mendes Leal, nos
_Bandeirantes_, muitas vezes e por muitos modos quizeram pôr cobro
n'estes desregramentos. Mas como vigiar, acrescenta o illustre
escriptor, e colher em tão vastos e despovoados territorios os
criminosos, que todos iam feitos, que mais de uma vez se entendiam com
os mesmos capitães-móres, e não raras com os proprios habitantes?»
Estas palavras respondem ás do sr. Augusto de Carvalho, quando quer
tornar responsavel o governo da metropole de taes desregramentos.
X
Entendemos dever fazer algumas observações a respeito das _bandeiras_, a
que se refere o sr. Augusto de Carvalho, no seguinte trecho do seu
livro:
«A exemplo dos padres, os colonos, já de si inclinados a este abuso
(escravisar os indios), _e por que estranhavam os rigores d'um clima
tropical que os extenuava nos rudes trabalhos da lavoura_ (a estas
palavras que assignalamos responderemos em especial), abriram largas
ensanchas ás suas _bandeiras_, especie de caçadas de indios que lhes
forneciam escravos, a quem commettiam as mais penosas funcções da vida
agricola.»
O sr. Augusto de Carvalho, com o fim de metter os portuguezes no
torniquete, começára pela adulação. Nós protestamos contra o estratagema
porque não queremos elogios nem vituperios. Nós queremos a verdade, sem
a qual se não póde escrever a historia.
No entender do sr. Carvalho as _bandeiras_ tinham por fim, unica e
exclusivamente, escravisar os indigenas.
Ayres do Cazal, um dos escriptores antigos mais conscienciosos, diz o
seguinte a tal respeito:
«Da-se no Brazil este nome--_bandeira_--a um numero indeterminado de
muitos homens, que providos d'armas, munições e mantimentos, necessarios
para a sua subsistencia e defeza, entram nas terras possuidas pelos
indigenas com algum intuito, v. g. de _descobrir minas, reconhecer o
paiz, ou castigar as hostilidades dos barbaros_.»
Os escriptores mais abalisados são de opinião, que devido ás excursões
dos _bandeirantes_, é que se tornou conhecido o immenso territorio
brazileiro.
Vejamos o que diz Ferdinand Diniz a tal respeito:
«Intentámos, no começo d'esta noticia, escrever rapidamente a historia
das expedições prodigiosas, devidas aos paulistas, durante o decimo
setimo e o decimo oitavo seculo; fizemos ver que todas as grandes
explorações que deram a conhecer o interior do Brazil, são resultado da
sua perseverança (dos _bandeirantes_).»[30]
Os padres da companhia, com respeito ás _entradas_, são assim defendidos
pelo citado historiador:
«Grande injustiça haveria em julgar os jesuitas do decimo sexto seculo,
e seus trabalhos, segundo as idéas, que póde inspirar o systema das
missões. Ali possivel é vêr projectos ambiciosos conciliar-se com boas
intenções: nos primeiros trabalhos executados pelos padres da companhia
no Brazil, tudo foi desinteressado; e, se necessario fosse, a relação de
suas fadigas e padecimentos poderia proval-o. Nobrega mereceu o titulo
de--_apostolo do Brazil_--que nos conferem todas as narrações; Anchieta,
que trabalhou sem descanço por espaço de quarenta annos na conversão dos
indigenas, e que não temia ficar só como refem entre as mãos dos Tamoyos
para salvar a colonia, offerece ainda um caracter mais sublime; o padre
João d'Aspicuelta, o padre Antonio Perez, o padre Leonardo Nunes, e
tantos outros, os auxiliaram com um zelo, que só póde apreciar quem tem
vivido nas florestas, ou repousado n'uma choupana india. Muito falta
para que elles obtivessem os resultados, que no Paraguay se
manifestaram» etc.
Lacordaire, auctoridade insuspeita na questão vertente, accrescenta, com
respeito ás expedições dos _bandeirantes_, que «se o padre era severo
antes de absolver os _bandeirantes_, informava-se cuidadosamente do
objecto da empreza, e só dava a absolvição _quando se tratava de
descobrir minas_; porém o maior numero nada indagava a este respeito, e
recommendava sómente, em termos geraes, que tratassem com affabilidade
os indios, que no caminho encontrassem, para attrahil-os ao gremio da
egreja.» etc.
A _bandeira_ punha-se a campo. «Então começava com toda a sua energia a
lucta do homem com a natureza terrivel do deserto. Indispensavel era
muitas vezes com o machado abrir caminho na espessura dos bosques,
acampar por espaço de semanas inteiras em terras alagadas e pestiferas,
desprezar os rios trasbordados, as cachoeiras, a frecha do indio
emboscado, o ardor d'um sol vertical durante a estação calmosa, as
chuvas abundantes da quadra opposta, a fome e as doenças; era, n'uma
palavra, d'absoluta necessidade arrostar todos os perigos, que a
imaginação póde conceber. _Em todo o logar em que a terra era vermelha e
offerecia certos indicios, que o chefe da expedição conhecia, este
mandava examinar o solo; se encontravam algum ouro_, as passadas fadigas
esqueciam, e trabalhos d'exploração sem demora começavam: _em caso
contrario iam ávante_.»
Houve _bandeirantes_ (chefes das expedições do interior), que
escravisavam os indios; mas de similhantes actos não póde ser accusada a
maioria dos _bandeirantes_, os colonos e o governo da metropole, nem tão
pouco os jesuitas do XVI seculo. Estes foram expulsos de S. Paulo,
segundo affirma o historiador que viemos de referir, porque, obtendo um
breve do papa, excommungavam os possuidores de indios!
Até ali, como convinha a quem desejava chamar á obediencia de Roma novos
proselytos, em substituição dos que tinham abraçado os principios d'uma
philosophia mais racional, os padres da companhia, só levavam em mira um
novo intento. Depois, quando viram que os seus esforços iam tendo bom
exito, não tanto como desejavam, é que arrancaram a mascara da
hypocrisia, que fez da America meridional um convento de frades
fanaticos, que os governos do senhor D. Pedro II tem consentido no
Brazil.
[30]_Le Bresil._