VIII

Na primeira parte do seu livro, mostra-nos o snr. Augusto de Carvalho

alguns conhecimentos sobre os principaes fundamentos das colonias, nos

estados do norte da America, que vieram, passados dois seculos, pela

bocca do seu primeiro cidadão, Washington, declarar livres os treze

estados, que haviam de constituir uma das nações mais importantes do

mundo.

Concorreram muito para esse engrandecimento razões valiosissimas. Uma

d'ellas foi, sem duvida, o desinteresse dos europeus emigrantes pelas

dissensões politicas e religiosas dos seus paizes, nos XVI e XVII

seculos. A superstição não lhes era peculiar. A politica, no seu

entender, não devia adaptar-se á religião, nem esta áquella. Uma e outra

deviam ser independentes; mas essa independencia fallecia nos paizes

cansados. Os emigrantes, homens novos e liberaes, protestavam contra

todas as seitas officiaes, como offensivas do direito natural; e porque

os seus protestos não podiam ser ouvidos por quem se entretinha mais com

a politica do que com o engrandecimento da patria, preferiram antes

procurar novas terras, onde livremente podessem entregar-se de corpo e

alma ao trabalho, que é a vida dos povos.

As leis mais adequadas ás colonias foram estabelecidas entre si,

chegados á America. A sua religião e a sua politica resumia-se apenas no

engrandecimento da patria adoptiva. Esse amor, pela sua independencia,

fôra-lhes sempre combatido, até que em 4 de julho de 1776, entenderam os

colonos dever sacudir o jugo que os opprimia.

Porém esses caracteres summamente independentes, que abalaram o mundo

com o seu amor á liberdade, reconheceram a necessidade da escravatura; e

não sabemos se como nós accusamos os jesuitas, elles tambem accusariam

os seus _priests_ calvinistas, lutheranos, quakers, rhinoburguezes,

conventicularios e arminianos, de introduzirem na America do norte o

deshumano trafico.

O que é facto é que--e diga-se isto, ao menos, para desculpa dos

dominadores da America do sul--os differentes estados do norte, possuem

ainda hoje, para cima, de tres milhões de escravos!

É verdade que a sua população é superior a 30 milhões de habitantes, e

que os 4 milhões de escravos, que possue o Brazil, estabelece uma grande

desproporção, relativamente superior aos seus dez milhões de habitantes.

Mas os Estados Unidos foi um dos primeiros povos que acceitou a

divisa--igualdade e fraternidade--; e não só por esta circumstancia,

como tambem porque a corrente da emigração europêa era e é fabulosa para

o norte, já mais deveria, depois da proclamação da republica, consentir

o horroroso commercio. E embora elle tivesse existido antes da

independencia, não devia, passado quasi um seculo, apresentar-nos as

suas estatisticas, em que figura, como gente escrava, a decima parte da

sua população!

Porque não baniu a escravatura dos seus dominios?

Não faltava aos seus homens d'estado a razão que presidiu ao gabinete de

7 de março, do imperio americano, e, antes d'este, á maior parte dos

gabinetes europeus, em cujo numero figura Portugal. Porém, os americanos

do norte, além da divisa--igualdade e fraternidade--que a todo o mundo

apontam, tem outra, que a todos occultam--a conveniencia de salvaguardar

os interesses da sua agricultura, que é o engrandecimento da republica.

O que é um facto inquestionavel, é que a tolerancia religiosa dos

inspirados pela côrte romana, intolerancia que ainda hoje domina os

principaes estados do sul da America, é que collocaram o governo do

Brazil na coalisão de adoptar medidas urgentissimas, a fim de remediar o

grande mal da falta de braços, que de dia para dia vai definhando a

agricultura.

O governo brazileiro não devêra ter libertado os escravos, sem primeiro

ter creado as leis proficuas que regulam o trabalho. A abolição

immediata do imposto de exportação, devia desde ha muito, ser lei do

estado. Mas o que de fórma alguma deve existir é o artigo 5.º da sua

constituição politica.

Não foi com similhantes empecilhos que progrediram os Estados Unidos da

America do norte.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 42 / 176 题