IV

A ambição, inerente a todos os homens, o nosso genio naturalmente

aventureiro, amante do desconhecido, que ainda assim não faz em nós

esquecer o santo amor do trabalho, nos cega a tal ponto, e esta triste

verdade vem já de seculos, que não nos deixa ver os desastres dos nossos

antepassados, que igual motivo acarretára para longe da patria e da

familia, onde, n'um momento, a terra preferida se transformava em abysmo

para os tragar.

E deixavam os que lhe sobreviviam, em tão remotas epocas, de cair no

mesmo erro? Não, porque lá estavam os mesmos interessados (sempre houve

engajadores) a apontar aos ambiciosos as minas inesgotaveis do Brazil!

Pois qual seria o portuguez capaz de ficar indiciso, á vista da

descripção dos brilhantes da mais fina agua, do oiro em pó, dos

aljofares, dos coraes, das perolas, das esmeraldas e das amethystas, que

os apologistas diziam andar aos pontapés n'este paiz de fadas? Quem

seria capaz de resistir ao aroma das poeticas flores, da poesia das

frondosas arvores, por entre as quaes se interlaçam os mais exquisitos

cipós, aroma que aos incautos, parecia atravessar esse immenso lago de

milhares de legoas, para chegar até elles? Quem não ficaria

enthusiasmado com a descripção, não menos patetica, das nuvens de

milhares de passarinhos com suas pennas de mil côres, que segundo os

poetas adejam por cima d'esse bosque immenso que esconde os pantanos

venenosos, a cascavel e a sucuriuba? Quem não escutaria de bom grado as

descripções fantasticas d'esses rios gigantes e dos _igarapés_, das

immensas cordilheiras e dos valles, das grutas mysteriosas e das cidades

encantadas d'este paraizo terreal?

Quem mostrava aos nossos antepassados o reverso da medalha? a poesia das

flores, das mattas virgens, das esmeraldas e dos rubis transformada na

poesia do tumulo, que algumas vezes era o oceano e outras o estomago do

antropophago?!

Dizem antigos escriptores, que os indios brazileiros eram mais difficeis

de domar que os dos outros pontos da America meridional, sujeitos aos

castelhanos; e que, primeiro que fundassemos ali povoações, perdemos

muitas vidas e muito sangue. As viagens eram muito difficeis. Muitos

galeões naufragavam antes de chegarem ao seu termo.

Mas que importavam estas difficuldades escondidas a quem sonhava com o

El-Dourado?

Ora, a nossa questão é que as phantasias de hoje são as phantasias

d'outr'ora; e que, para desfazel-as no espirito dos nossos illudidos

compatriotas, não bastam os estudos theoricos de qualquer commissão de

emigração. Faça-se mais. Combata-se o mal da ambição, pela escola,

offerecendo aos ambiciosos as riquezas, ainda por explorar, dos nossos

vastos dominios do continente. Nós que somos inimigo dos emprestimos

para a consolidação da nossa divida publica, porque não vemos que ella

se consolide, aprovariamos um emprestimo que tivesse por fim comprar os

terrenos quasi virgens do Alemtejo, e que, depois de divididos em

courellas, deveriam ser aforados aos trabalhadores, a exemplo do que

está constantemente praticando o primeiro lavrador d'este paiz, o sr.

José Maria dos Santos, na margem sul do Tejo, e em outros pontos

d'aquela uberrima provincia; não esquecendo a vastissima herdade da

Capella, no concelho do Redondo, dividida em courellas por aquele

lavrador aos habitantes d'esta villa, herdade que hoje está

completamente transformada em riquissimas e ao mesmo tempo pitorescas

vinhaterias.

Apregoam-se os males da febre amarella, e especialmente os maus tratos

que os indigenas do Brazil infligem aos emigrados portuguezes; e que

resultado se tira do pregão?

Aqui ha tempo, quando a imprensa portugueza se levantava indignada

contra os morticinios do Pará, navios continuavam a ir cheios de

emigrados para aquellas paragens! Esses mesmos navios conduziam para a

Europa ou para a Africa os repatriados, que não podiam supportar os

disturbios dos paraenses!!!

Os portuguezes que em 1835 e 1848, poderam, a muito custo, escapar ao

punhal dos _cabanos_, regressavam, pouco tempo depois, ás provincias do

Pará e Pernambuco, theatros onde se representaram tão horriveis

dramas!!!

E que haviam elles de fazer? Quem os incitava aqui ao trabalho que traz

a independencia?

Os terrenos incultos estavam, ao tempo, na mão dos morgados. Extinctos

estes, a missão dos governos não estava finda: era preciso que esses

governos lançassem mão dos terrenos, reunil-os aos baldios e

offerecel-os aos ambiciosos. Assim protegeria a agricultura, a nosso

ver, a unica fonte de onde jorra a prosperidade dos paizes predestinados

pela natureza a grandes emporios agricolas.

Os portuguezes emigravam então, como emigram hoje, porque não tem havido

ninguem que os attraia seriamente para as riquezas do nosso solo.

Mas ainda é tempo. Que os males passados sirvam de exemplo para evitar

os males futuros, e emquanto se não providenceia como é de urgente

necessidade, prohiba-se a emigração para o Brazil, quando alli haja a

febre amarella.

Dizemos isto sem medo que nos alcunhem de anti-liberaes; e áquelles que

nos replicarem que atacamos os direitos do cidadão, responderemos, que

para a maior parte dos _cidadãos_ que emigram comprehenderem bem os seus

deveres, precisam de ir para a escolla. Queremos dizer com isto que em

Portugal se descura muito da escolla, o melhor antidoto contra a febre

da emigração.

V

Se a instrucção do povo é o remedio infallivel que preferimos applicar

ao mal da emigração, não é menos certo que esse remedio só pode curar

com lentidão, o que desejariamos fosse curado rapidamente.

Attrahir o trabalhador a novas fontes de riqueza no próprio paiz, era já

um cauterio cujos effeitos não são tão lentos como os da escolla.

Referimo-n'os ás colonias agricolas no sul de Portugal, Alemtejo e

Algarve. Quem fundará essas colonias? O capital, desde que o capital

encontre garantia no governo, garantia que se traduza em isenção de

contribuições para as colonias que se estabeleçam com caracter de

protecção ao trabalhador, que é ao mesmo tempo garantia para a

agricultura do paiz e, por consequencia, para o proprio capital

empatado.

É assumpto vastissimo, o da fundação das colonias no Alemtejo, e as

luzes de que dispomos não são sufficientes para dizermos o que baste

para o desenlace d'uma questão demasiado complexa. Com tudo, parece-nos

que aquelles que nestes ultimos tempos tem querido dar impulso á

agricultura na provincia mais vasta e mais rica que possuimos,

desconhecem um pouco a materia.

Nós quizeramos vêr _retrogradar_ os nossos habilissimos estadistas de

hoje, até aos tempos primitivos da monarchia, em que se fundaram essas

povoações que para ahi vemos medrar, cujos alicerces foram devidos unica

e exclusivamente ao trabalho agricola de colonos nacionaes e

estrangeiros--estes da região do norte; porque nos tempos _retrogrados_,

não se tinha em menos conta o cruzamento das vigorosissimas raças do

norte da Europa com as semi-indulentes do meio dia: prova de que á testa

dos negocios publicos não estavam uns certos miopes da actualidade, que

entendem beneficiar o paiz colonisando o Alemtejo com familias

italianas.

Mas que se fazia então?

Fazia-se o que se não faz hoje. Então como na actualidade, os governos

do estado precisavam de dinheiro. Então julgavam, e julgavam bem, que a

riqueza brotava do solo; e o solo era explorado para produzir essa

riqueza que nós vimos empregar nas emprezas arrojadissimas, que fizeram

grande este paiz que nascera pequenissimo.

Hoje que a terra é a mesma--ainda immensamente rica;--pede-se ao visinho

uma esmola, outra e outra (até fechar-nos a porta, desenlace que sempre

deve esperar quem muito pede e muito gasta), para fazer face ás despezas

do estado; em logar de nos prepararmos previamente para essas despezas,

descobrindo com a enchada, no centro da provida terra como os nossos

antepassados, as minas que alli deixa intactas a nossa imprevidencia.

É que é mais facil pedir emprestado!

Os que pedem emprestado podem saber muito de economia politica; porem

não sabem ser bons lavradores--dos que semeam para colher, dos que

amanhando a terra, dão que fazer a muitos braços, tornando-os

independentes do visinho, que é avaro com os taes emprestimos.

Mas se o nosso economista, estuda, estuda no gabinete; depois chega-lhe

á porta uma alluvião de amigos, que o elevára á _proeminencia_... de

estar encerrado no tal gabinete; acorda-o do lethargo que podia

salvar-nos; mostra-lhe o estomago vasio; e o economista, que póde muito

bem ser um _touro_, não tem mais remedio senão ceder... porque a

alluvião de amigos representa a _giboia_ collosal da nossa politica!

Que fazer?

Pedir emprestado ao visinho; senão sujeita-se a ser engulido!

E não digam que os nossos economistas não são mais previdentes do que o

inexperiente viajante que, de mãos vasias, no meio da floresta, não

pôde, para salvar-se, atirar com a posta ao reptil!...

Haverá alguem que possa fazer de Hercules; que empunhe a massa e esmague

a cabeça da serpente que para ahi se arrasta em volta do manso

bezerro--o povo?

Se ha, que venha e... faça um emprestimo, mas um emprestimo colossal.

Com o dinheiro emprestado fundará colonias no Alemtejo e no Algarve;

porém colonias perfeitamente montadas, convidando-se para as compor, não

só as familias d'aquellas regiões, mas as das provincias do norte de

Portugal, que costumam sair para o Brazil; e se lhe apparecerem pelo

gabinete os taes senhores _giboias_ de estomago elastico, metta-lhes uma

enchada na mão, e ensine-lhes o caminho do campo em desbravamento, onde

se converterão, de simples bichos, em optimos trabalhadores e uteis

cidadãos.

Não haverá para ahi quem se convença, que isto de estar continuadamente

a pedir dinheiro emprestado para pagar emprestimos é um erro economico?

Contraia-se, pois, um emprestimo para o fim indicado, que os lucros hão

de chegar, não só para satisfazer essa divida, como as já contrahidas e

que jámais poderão ser pagas pelo systema rotineiro; e até mesmo cremos

que d'esses lucros sobejará para supprir algumas faltas dos golotões

reptis... se por desventura nossa ainda os houver.

Terminaremos estas observações dizendo, que conhecemos alguns

cavalheiros, lavradores no Alemtejo, que, tendo comprado algumas

herdades lhes offereciam hoje, tres ou quatro annos depois do _amanho_,

200 e 300 por cento de lucro!

Nós estamos convencidos que a isto se deve chamar lucro, se, como

acontece a muitos pontos da lei social, não está tambem invertido este

principio, sobre que assenta a lei economica.

Venha um governo, que, proseguindo no caminho aberto pelo rei Diniz, se

não envergonhe do cognome de--_lavrador_--com que a historia glorificára

aquelle grande portuguez, mais amigo do seu paiz, na epocha do

obscurantismo, do que o são todos os economistas presentes, que empunham

o facho, d'onde dizem que brota a _luz_, mas que infelizmente nos

encaminha para o abysmo da _destruição_.

E haverá governo que queira _achincalhar-se_ com o cognome

de--_lavrador_?!

Não será mais bonito appelidar-se antes _banqueiro_, _accionista_,

_director de qualquer cousa_, _jornalista_, _litterato_, e até mesmo...

_pastelleiro_?!

Escolham, escolham... mas vejam que da escolha depende o futuro da

patria.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 20 / 176 题