A ambição, inerente a todos os homens, o nosso genio naturalmente
aventureiro, amante do desconhecido, que ainda assim não faz em nós
esquecer o santo amor do trabalho, nos cega a tal ponto, e esta triste
verdade vem já de seculos, que não nos deixa ver os desastres dos nossos
antepassados, que igual motivo acarretára para longe da patria e da
familia, onde, n'um momento, a terra preferida se transformava em abysmo
para os tragar.
E deixavam os que lhe sobreviviam, em tão remotas epocas, de cair no
mesmo erro? Não, porque lá estavam os mesmos interessados (sempre houve
engajadores) a apontar aos ambiciosos as minas inesgotaveis do Brazil!
Pois qual seria o portuguez capaz de ficar indiciso, á vista da
descripção dos brilhantes da mais fina agua, do oiro em pó, dos
aljofares, dos coraes, das perolas, das esmeraldas e das amethystas, que
os apologistas diziam andar aos pontapés n'este paiz de fadas? Quem
seria capaz de resistir ao aroma das poeticas flores, da poesia das
frondosas arvores, por entre as quaes se interlaçam os mais exquisitos
cipós, aroma que aos incautos, parecia atravessar esse immenso lago de
milhares de legoas, para chegar até elles? Quem não ficaria
enthusiasmado com a descripção, não menos patetica, das nuvens de
milhares de passarinhos com suas pennas de mil côres, que segundo os
poetas adejam por cima d'esse bosque immenso que esconde os pantanos
venenosos, a cascavel e a sucuriuba? Quem não escutaria de bom grado as
descripções fantasticas d'esses rios gigantes e dos _igarapés_, das
immensas cordilheiras e dos valles, das grutas mysteriosas e das cidades
encantadas d'este paraizo terreal?
Quem mostrava aos nossos antepassados o reverso da medalha? a poesia das
flores, das mattas virgens, das esmeraldas e dos rubis transformada na
poesia do tumulo, que algumas vezes era o oceano e outras o estomago do
antropophago?!
Dizem antigos escriptores, que os indios brazileiros eram mais difficeis
de domar que os dos outros pontos da America meridional, sujeitos aos
castelhanos; e que, primeiro que fundassemos ali povoações, perdemos
muitas vidas e muito sangue. As viagens eram muito difficeis. Muitos
galeões naufragavam antes de chegarem ao seu termo.
Mas que importavam estas difficuldades escondidas a quem sonhava com o
El-Dourado?
Ora, a nossa questão é que as phantasias de hoje são as phantasias
d'outr'ora; e que, para desfazel-as no espirito dos nossos illudidos
compatriotas, não bastam os estudos theoricos de qualquer commissão de
emigração. Faça-se mais. Combata-se o mal da ambição, pela escola,
offerecendo aos ambiciosos as riquezas, ainda por explorar, dos nossos
vastos dominios do continente. Nós que somos inimigo dos emprestimos
para a consolidação da nossa divida publica, porque não vemos que ella
se consolide, aprovariamos um emprestimo que tivesse por fim comprar os
terrenos quasi virgens do Alemtejo, e que, depois de divididos em
courellas, deveriam ser aforados aos trabalhadores, a exemplo do que
está constantemente praticando o primeiro lavrador d'este paiz, o sr.
José Maria dos Santos, na margem sul do Tejo, e em outros pontos
d'aquela uberrima provincia; não esquecendo a vastissima herdade da
Capella, no concelho do Redondo, dividida em courellas por aquele
lavrador aos habitantes d'esta villa, herdade que hoje está
completamente transformada em riquissimas e ao mesmo tempo pitorescas
vinhaterias.
Apregoam-se os males da febre amarella, e especialmente os maus tratos
que os indigenas do Brazil infligem aos emigrados portuguezes; e que
resultado se tira do pregão?
Aqui ha tempo, quando a imprensa portugueza se levantava indignada
contra os morticinios do Pará, navios continuavam a ir cheios de
emigrados para aquellas paragens! Esses mesmos navios conduziam para a
Europa ou para a Africa os repatriados, que não podiam supportar os
disturbios dos paraenses!!!
Os portuguezes que em 1835 e 1848, poderam, a muito custo, escapar ao
punhal dos _cabanos_, regressavam, pouco tempo depois, ás provincias do
Pará e Pernambuco, theatros onde se representaram tão horriveis
dramas!!!
E que haviam elles de fazer? Quem os incitava aqui ao trabalho que traz
a independencia?
Os terrenos incultos estavam, ao tempo, na mão dos morgados. Extinctos
estes, a missão dos governos não estava finda: era preciso que esses
governos lançassem mão dos terrenos, reunil-os aos baldios e
offerecel-os aos ambiciosos. Assim protegeria a agricultura, a nosso
ver, a unica fonte de onde jorra a prosperidade dos paizes predestinados
pela natureza a grandes emporios agricolas.
Os portuguezes emigravam então, como emigram hoje, porque não tem havido
ninguem que os attraia seriamente para as riquezas do nosso solo.
Mas ainda é tempo. Que os males passados sirvam de exemplo para evitar
os males futuros, e emquanto se não providenceia como é de urgente
necessidade, prohiba-se a emigração para o Brazil, quando alli haja a
febre amarella.
Dizemos isto sem medo que nos alcunhem de anti-liberaes; e áquelles que
nos replicarem que atacamos os direitos do cidadão, responderemos, que
para a maior parte dos _cidadãos_ que emigram comprehenderem bem os seus
deveres, precisam de ir para a escolla. Queremos dizer com isto que em
Portugal se descura muito da escolla, o melhor antidoto contra a febre
da emigração.
V
Se a instrucção do povo é o remedio infallivel que preferimos applicar
ao mal da emigração, não é menos certo que esse remedio só pode curar
com lentidão, o que desejariamos fosse curado rapidamente.
Attrahir o trabalhador a novas fontes de riqueza no próprio paiz, era já
um cauterio cujos effeitos não são tão lentos como os da escolla.
Referimo-n'os ás colonias agricolas no sul de Portugal, Alemtejo e
Algarve. Quem fundará essas colonias? O capital, desde que o capital
encontre garantia no governo, garantia que se traduza em isenção de
contribuições para as colonias que se estabeleçam com caracter de
protecção ao trabalhador, que é ao mesmo tempo garantia para a
agricultura do paiz e, por consequencia, para o proprio capital
empatado.
É assumpto vastissimo, o da fundação das colonias no Alemtejo, e as
luzes de que dispomos não são sufficientes para dizermos o que baste
para o desenlace d'uma questão demasiado complexa. Com tudo, parece-nos
que aquelles que nestes ultimos tempos tem querido dar impulso á
agricultura na provincia mais vasta e mais rica que possuimos,
desconhecem um pouco a materia.
Nós quizeramos vêr _retrogradar_ os nossos habilissimos estadistas de
hoje, até aos tempos primitivos da monarchia, em que se fundaram essas
povoações que para ahi vemos medrar, cujos alicerces foram devidos unica
e exclusivamente ao trabalho agricola de colonos nacionaes e
estrangeiros--estes da região do norte; porque nos tempos _retrogrados_,
não se tinha em menos conta o cruzamento das vigorosissimas raças do
norte da Europa com as semi-indulentes do meio dia: prova de que á testa
dos negocios publicos não estavam uns certos miopes da actualidade, que
entendem beneficiar o paiz colonisando o Alemtejo com familias
italianas.
Mas que se fazia então?
Fazia-se o que se não faz hoje. Então como na actualidade, os governos
do estado precisavam de dinheiro. Então julgavam, e julgavam bem, que a
riqueza brotava do solo; e o solo era explorado para produzir essa
riqueza que nós vimos empregar nas emprezas arrojadissimas, que fizeram
grande este paiz que nascera pequenissimo.
Hoje que a terra é a mesma--ainda immensamente rica;--pede-se ao visinho
uma esmola, outra e outra (até fechar-nos a porta, desenlace que sempre
deve esperar quem muito pede e muito gasta), para fazer face ás despezas
do estado; em logar de nos prepararmos previamente para essas despezas,
descobrindo com a enchada, no centro da provida terra como os nossos
antepassados, as minas que alli deixa intactas a nossa imprevidencia.
É que é mais facil pedir emprestado!
Os que pedem emprestado podem saber muito de economia politica; porem
não sabem ser bons lavradores--dos que semeam para colher, dos que
amanhando a terra, dão que fazer a muitos braços, tornando-os
independentes do visinho, que é avaro com os taes emprestimos.
Mas se o nosso economista, estuda, estuda no gabinete; depois chega-lhe
á porta uma alluvião de amigos, que o elevára á _proeminencia_... de
estar encerrado no tal gabinete; acorda-o do lethargo que podia
salvar-nos; mostra-lhe o estomago vasio; e o economista, que póde muito
bem ser um _touro_, não tem mais remedio senão ceder... porque a
alluvião de amigos representa a _giboia_ collosal da nossa politica!
Que fazer?
Pedir emprestado ao visinho; senão sujeita-se a ser engulido!
E não digam que os nossos economistas não são mais previdentes do que o
inexperiente viajante que, de mãos vasias, no meio da floresta, não
pôde, para salvar-se, atirar com a posta ao reptil!...
Haverá alguem que possa fazer de Hercules; que empunhe a massa e esmague
a cabeça da serpente que para ahi se arrasta em volta do manso
bezerro--o povo?
Se ha, que venha e... faça um emprestimo, mas um emprestimo colossal.
Com o dinheiro emprestado fundará colonias no Alemtejo e no Algarve;
porém colonias perfeitamente montadas, convidando-se para as compor, não
só as familias d'aquellas regiões, mas as das provincias do norte de
Portugal, que costumam sair para o Brazil; e se lhe apparecerem pelo
gabinete os taes senhores _giboias_ de estomago elastico, metta-lhes uma
enchada na mão, e ensine-lhes o caminho do campo em desbravamento, onde
se converterão, de simples bichos, em optimos trabalhadores e uteis
cidadãos.
Não haverá para ahi quem se convença, que isto de estar continuadamente
a pedir dinheiro emprestado para pagar emprestimos é um erro economico?
Contraia-se, pois, um emprestimo para o fim indicado, que os lucros hão
de chegar, não só para satisfazer essa divida, como as já contrahidas e
que jámais poderão ser pagas pelo systema rotineiro; e até mesmo cremos
que d'esses lucros sobejará para supprir algumas faltas dos golotões
reptis... se por desventura nossa ainda os houver.
Terminaremos estas observações dizendo, que conhecemos alguns
cavalheiros, lavradores no Alemtejo, que, tendo comprado algumas
herdades lhes offereciam hoje, tres ou quatro annos depois do _amanho_,
200 e 300 por cento de lucro!
Nós estamos convencidos que a isto se deve chamar lucro, se, como
acontece a muitos pontos da lei social, não está tambem invertido este
principio, sobre que assenta a lei economica.
Venha um governo, que, proseguindo no caminho aberto pelo rei Diniz, se
não envergonhe do cognome de--_lavrador_--com que a historia glorificára
aquelle grande portuguez, mais amigo do seu paiz, na epocha do
obscurantismo, do que o são todos os economistas presentes, que empunham
o facho, d'onde dizem que brota a _luz_, mas que infelizmente nos
encaminha para o abysmo da _destruição_.
E haverá governo que queira _achincalhar-se_ com o cognome
de--_lavrador_?!
Não será mais bonito appelidar-se antes _banqueiro_, _accionista_,
_director de qualquer cousa_, _jornalista_, _litterato_, e até mesmo...
_pastelleiro_?!
Escolham, escolham... mas vejam que da escolha depende o futuro da
patria.