III

Comparemos agora os effeitos terriveis do clima, a mortalidade dos dois

paizes Portugal e Brazil.

A mortalidade em Portugal é pouco mais ou menos de 2,59 por cento[4]; em

quanto que no imperio americano, com respeito aos emigrados portuguezes,

é actualmente impossivel dizer se está de 90 a 99 por cento, se tomarmos

na devida consideração a estatistica do primeiro semestre de 1876, que

só no Rio de Janeiro nos mostra que o numero de obitos subiu a 2:600,

_sendo o numero de fallecidos da febre amarella, de 1877_![5]

Ha quem diga que se se podesse fazer igual estatistica com respeito aos

colonos residentes no sertão, reconhecer-se-ia que 90 por cento dos

portuguezes que emigram para aquellas regiões não chegariam para

satisfazer a contribuição exegida pelo terrivel flagello!

Mas comparemos a entrada dos portuguezes em todo o anno de 1876, com o

numero dos fallecidos.

Diz o consul no relatorio indicado, que o numero de portuguezes entrados

no porto do Rio de Janeiro foi, n'aquelle anno, de 8:523. A media é, por

tanto, de 4:311,5.

Assim, pois, se o numero dos fallecidos, em um semestre, é de 2:600,

veremos que restam apenas 1:711 colonos, ou 3:422, por cada anno.

É horrivel!

E note-se que este resultado apparece logo immediatamente á chegada dos

emigrados; e os que morrem depois, ou os que ficam inutilisados?!...

O nosso illustre compatriota doutor José Rodrigues de Mattos, medico

pela universidade de Coimbra, residente na cidade do Rio de Janeiro,

respondendo á carta do sr. Alexandre Herculano, dirigida em dezembro de

1873 á _Sociedade real da agricultura em Lisboa_, observa o seguinte, em

sua nota n.º 5, a respeito do assumpto importantissimo da mortalidade no

Rio de Janeiro:

«Pois que fallei de miserias e o sr. Alexandre Herculano só encara a

emigração pelo prisma das grandezas, apresentarei outros factos, que não

se encontram nos _livros sobre colonisação portugueza_. A população da

capital do Rio de Janeiro, pela estatistica official de 1873, conta

228:743 habitantes incluidos 78:583 estrangeiros, dos quaes 53:213 são

portuguezes. Na hypothese menos favoravel ao meu calculo, todos estes

estrangeiros chegaram ao Rio de Janeiro entre as edades de 10 annos até

aos 78 annos. Pela tabua da mortalidade de Duparcieux, desde o

nascimento até á idade de 10 annos, e desde os 78 até aos 94, morre um

numero de individuos igual ao numero dos obitos comprehendidos desde a

edade dos 10 até aos 78. A grande maioria da emigração compõe-se de

individuos chegados na edade de 16 a 30 annos; em que o termo medio de

vida provavel é o maior. A mortalidade da população pelas estatisticas

dos 3 ultimos annos revelava uma media superior a 10:000 obitos. A

população de Lisboa pelo menos é igual, se não maior de 228:743: a media

da mortalidade em Lisboa é de 5:400 obitos por anno. Comparadas as

populações das duas cidades, as suas mortalidades, as respectivas

populações dos subditos naturaes dos dois paizes e a dos estrangeiros

habitadores desde os 10 annos por diante, o resultado é o seguinte na

cidade de Lisboa, sobre 53:213 portuguezes desde a idade dos 10 até aos

78 annos, morrem cada anno 1:255 individuos: sobre igual numero de

portuguezes entre as mesmas idades, morrem na cidade do Rio de Janeiro

3:125; ou melhor: a mortalidade dos portuguezes no Rio de Janeiro é

maior de 149 por cento da mortalidade de Lisboa. Estes calculos podem

ficar subordinados em relação ao numero dos habitantes da capital de

Lisboa, que se diz maior de 228:743 habitantes; bem como ao desconto dos

estrangeiros domiciliados; numero que está estimado em diminutisima

parcella. Não pode julgar-se estranha a maior mortalidade, quando em

Lisboa se conta apenas 129 medicos e cirurgiões e 82 pharmacias; em

quanto que no Rio de Janeiro existem 418 medicos e 344 pharmaceuticos

domiciliados. No bienio de 1872 a 1873 trataram-se 5:000 doentes no

hospital da sociedade Portugueza de Beneficencia; a Caixa de seccorros

de D. Pedro V tratou de molestias e deu esmolas a 18:530 portuguezes; e

nos hospitaes, das ordens Terceiras e da Misericordia ha 400 leitos

occupados constantemente por enfermos portuguezes; calcula-se que

aproximadamente regula por 16:000 infilizes que annualmente povoam os

hospitaes de caridade na população riquissima de pouco mais de 50:000

emigrados. O hospital de S. José em Lisboa recebe apenas 12:000 de uma

população calculada em 300:000 almas.»

Mas continuemos a examinar outros dados que temos á vista.

A mortalidade de Lisboa, segundo a estatistica publicada no _Diario do

Governo_ n.º 285, de 1872, é de 30,4 individuos para cada 1:000, um

pouco mais do que a da cidade de Londres, que desce a 27, e um pouco

menos do que a de Roma, que sóbe a 35. No Cabo da Boa Esperança e na

Serra Leoa, a mortalidade é de 200 individuos para cada 1:000, e a da

população portugueza residente no Rio de Janeiro, segundo o relatorio do

ministro do commercio, agricultura e obras publicas foi, em 1870, de 270

para 1:000!!![6]

O ponto de Portugal onde a mortalidade é maior, chegando a dar ao

cemiterio uma precentagem de 40,4 individuos para cada 1:000, é o

districto de Beja; mas o termo medio é o que já deixamos mencionado,

isto é, 2,59 para 100.[7]

No desenvolvimento da critica que mais adiante fazemos a um livro

publicado ha pouco[8], verão os leitores que não está dita ainda a

ultima palavra sobre a mortalidade de portuguezes no Rio de Janeiro.

Alli demonstraremos com as estatisticas das sociedades portuguezas

beneficentes, que não foi arrojada a nossa proposição quando dissemos

que a mortalidade na colonia poderia elevar-se até aos 90 casos para

cada 100 individuos.

O portuguez que emigra não vê isto; só pensa que ao fim de alguns annos

hade vir rico do Brazil, e isso lhe basta; porque não ha quem lhe diga

que, de cada milhar, vem de lá um remediado, verdade seja que vergando

ao peso das molestias adequeridas em tão insalubre paiz.

Este mal é já velho, e não vemos que os remedios vulgares o possam

debellar; por que para nós, é ponto de fé que a ambição só poderia ter o

curativo que entre nós nunca pensaram em applicar aos ambiciosos, a

escolla.

[4] Veja-se a nota n.º 1 no fim do volume.

[5] Relatorio do consul geral de Portugal no Rio, de 28 de maio de

1877.

[6] Veja-se _Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração

portugueza_. 1873.

[7] Veja-se nota n.º 1 no fim do vol.

[8]_O Brazil_, por Augusto de Carvalho.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 19 / 176 题