II

Se o preço dos salarios no Brazil e o custo da vida não compensa o

sacrificio que o portuguez vae fazer, emigrando, o clima insupportavel

dos tropicos deve desvanecer-lhe completamente as tentações ambiciosas

de ser rico n'um paiz onde o sol e a humidade inutilisa a saude do

europeu.

Soccorramo-nos de opiniões mais authorisadas do que a nossa, e encaremos

a questão do clima brazileiro pelos dois pontos de vista, o da pratica e

o da theoria, para assim satisfazermos aos espiritos mais exigentes.

O pratico, aquelle que vio as cousas de perto, diz o seguinte:

Demorei-me bastante tempo no sul do imperio e tive occasião de fazer as

seguintes exactas observações: o thermometro centigrado não sóbe no

estio a mais de 35 graus, assim como não desce no inverno a menos de 5,

acima de zero. Mas o que ha de notavel é a variedade da temperatura na

mesma estação. De um momento para o outro o thermometro marca a

differença de 6 graus. Na quadra mais fria eu observei dias de 25 e na

mais quente a de 16 graus.

Para quem não possue uma natureza previligiada, estas grandes e rapidas

variações são muito sensiveis, principalmente emquanto se não está

aclimado. Eu usei sempre na mesma quadra roupa de duas estações, que

alternava segundo as alterações que se davam na atmosphera; e quem não

tiver esta prevenção ha de forçosamente soffrer.[2]

Não nos parece que o trabalhador possa ter d'estas prevenções, que

custariam dez vezes mais o salario porque elle contracta o serviço que

vae prestar no Brazil, admittindo ainda que ao trabalhador seja

permittido usar de resguardos na lavoura.

O homem de sciencia, que não é extranho ao viver dos tropicos, porque

reside no Brazil, e d'ali nos alumia com a vastissima luz da sua

profunda intelligencia, diz o seguinte a respeito do clima brasileiro:

Bucener, Lind, Hunter, Zimmermam, etc, pelos resultados das suas

experiencias e observações, opinam quasi unanimes em que nos paizes

situados entre os tropicos, ou seja na America, Africa, Asia, com poucas

excepções, as raças que habitam a Europa, quando passam a viver entre os

tropicos, declinam physica e moralmente na razão da maior latitude das

suas naturalidades, para a menor latitude da localidade tropical. A

calorificação do animal europeu perde quatro graus na temperatura do

sangue; a respiração é mais frequente, as pulsações do coração mais

rapidas, 15 systoles a 20 por minuto em todas as idades; o sangue, e as

secreções e excreções alteram-se nas qualidades e propriedades, bem como

a fibra alimentar, o figado e o apparelho gastico funccionam mal; a

pelle fica laxa, excitada; permanentemente depauperam-se as forças

organicas pela excessiva transpiração, que conduz ao estado de

enfraquecimento geral de funcções animaes; effeitos causativos da

fraqueza organica.

Os diversos estados de accumulações electricas na atmosphera, as

mudanças sensiveis da temperatura em um mesmo dia, a variedade dos

ventos, as tempestades e chuvas, precedidas ou succedidas a um grau de

calor ou vento fresco, occasionam e produzem as diversidades de

molestias de pulmão, das vias gasticas, da pelle, das mucosas, das

febres intermittentes e typhoides, das molestias ephemeras e de systema

nervoso: sempre ameaçando a vida nos diversos estados mais ou menos

agudos, mais ou menos chronicos. Os europeus que conseguem acostumar-se

a estas alternativas estranhas á sua economia, nem por isso conseguem

readquirir a mesma natureza organica e vital, como no paiz d'onde

procederam; e transmittem ás suas gerações um germem enfraquecido,

d'onde resulta a progressiva degeneração dos paes a filhos, que bem

depressa conduzirá até á extincção da especie.[3]

N'esta meia duzia de linhas do distincto escriptor, firmadas nos estudos

dos naturalistas citados e na sua propria observação vemos nós um grande

antidoto contra a febre da emigração para o Brazil, se nós e o nosso

compatriota Torres, ao trascrevel-as, tivessemos a felicidade de as ver

lidas por aquelles a quem as destinamos.

Esperemos comtudo pelo futuro.

[2] Auctor citado.

[3]_Interesses portuguezes_, por J. R. de Mattos.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 18 / 176 题