A emigração de trabalhadores para o Brazil e os salarios de cá e de lá.
Os artistas e os salarios. O lado economico. O clima aos olhos do homem
pratico e do homem de sciencia. O clima e a febre amarella. A
mortalidade de Portugal e Brazil comparada. A ambição causante principal
da emigração. Remedios ao mal. A escolla. Colonias no Alemtejo. A
inspecção da emigração. A liberdade perante a emigração. Portugal,
Belgica e Hollanda. A riqueza do solo e suas respectivas populações
comparadas. Terrenos incultos.
I
A questão da emigração dos portuguezes para o Brazil, tem sido um
labyrintho em que muitas intelligencias se têem perdido, sem que,
infelizmente para Portugal, se tenha adiantado muito na descoberta do
verdadeiro antidoto, que deve pôr termo ao mal, que parece querer
definhar a patria; e com tudo suppõe-se que a ultima palavra já foi
dita, e que desapparecerá por consequencia o nó gordio que prendia o fio
d'esta questão transcendentissima; e a final as cousas estão no mesmo pé
em que estavam.
Sem querermos por fórma alguma accusar de inhabeis os grandes talentos,
que tem sido chamados a este campo vastissimo, por demasiado complexo,
não podemos ainda assim deixar de sentir, que o assumpto tenha sido
apenas tratado no campo da theoria, onde a habil dialectica de sapientes
escriptores caduca á vista dos mais pequeninos argumentos produzidos
pela prática.
Mas a nossa questão, escrevendo sobre assumpto tão momentoso, não se
cifra em demonstrar que os estudos baseados na theoria, em que vemos
geralmente aconselhar aos governos o respeito pela liberdade do
_cidadão_, mas á sombra da qual se commettem muitos abusos, são
perniciosos ao paiz. Não que o nosso fim é outro. É, sem tentar romper o
envoltorio do nosso espirito assaz humilde, e sem desejar ferir
susceptibilidades, seguir caminho menos trilhado e menos escabroso, com
o fim de achar a causa do mal e apontal-a aos verdadeiros medicos da
nação, para que lhe appliquem um remedio energico e salutar.
Estudemos, pois, a questão debaixo do ponto de vista da pratica, e
começemos por fazer as seguintes proposições:
--Quaes são as razões que induzem o portuguez a emigrar para o Brazil?
--Será a necessidade de obter os meios de subsistencia?
--E caso assim seja, não haverá em Portugal trabalho sufficiente para
que o portuguez necessitado obtenha esses meios?
--Ou será a ambição que o leva a dar esse passo?
Quem responder ao primeiro quesito com a affirmativa do ultimo,
parece-nos que terá respondido ao 2.º e ao 3.º; porque a quem tem
precisão de trabalhar, não faltam em Portugal os meios necessarios á
subsistencia; e esse trabalho é aqui mais bem remunerado do que no
Brazil.
Passemos a demonstrar esta asserção.
Na actualidade o portuguez trabalhador ganha, em geral, nunca menos de
500 réis diarios. Em qualquer parte do paiz se sustenta com 250.
Resta-lhe, por tanto, 250 réis. Calculemos os lucros obtidos em 10
annos, a 300 dias uteis por cada um, e teremos em 3:000 dias, 750$000
réis.
O portuguez em eguaes condições, ganha no Brazil 2$000 réis fracos. Para
sustentar-se precisa despender 1$500 réis. Resta-lhe a quarta parte do
salario; isto é 500 réis diarios. Contrahiu, antes de sahir do paiz,
para poder expatriar-se, uma divida de 200$000 réis. Chegado a terras
brazileiras, não pôde logo encontrar trabalho; alem d'isso o clima
inutilisára-o por algum tempo, se n'este comenos não vem a _febre
amarella_, que sympathisa muito com os estrangeiros...
Para estas demoras precisa contrahir mais um emprestimo de 100$000 réis.
Esta divida de 300$000 réis, moeda fraca, hade amortisal-a em 2 annos,
que representam justamente 600 dias uteis de trabalho. Calculados estes
a 500 réis, se souber economisar aquelle lucro, prefazem os 300$000 réis
em questão. Restam-lhe por consequencia 8 annos, ou 2:400 dias uteis,
que a 500 réis importam em 1:200$000 réis, ou 600$000 réis, moeda
portugueza.
Differença contra o trabalhador do Brazil:--150$000 réis fortes!
Aos que nos queiram observar, dizendo que estipulamos um salario
extraordinario--o de 500 réis--ao trabalhador de cá, diremos que á maior
parte dos trabalhadores, contractados aqui para as roças do Brazil, se
estipula um salario muitissimo inferior ao mencionado acima--o de 2$000
réis fracos,--se não falham as informações consulares, que temos á
vista; salario que costumam dar no Brazil ao trabalhador _livre_,
áquelle que vai ao acaso, e que não se deixa illudir pelos aliciadores.
E mais adiante provaremos tambem, que ha contractos feitos em Portugal
pelos trabalhadores engajados, nos quaes se estipula, como recompensa ao
trabalho no Brazil, a magra importancia de 80, 100 e 120 réis fracos,
diarios!...
Mas fallemos agora do artista, sem tratarmos das suas despezas, que para
esta classe de operarios, é sempre muito superior, e o mesmo acontece
entre nós.
O artista, em geral, ganha no Brazil, de 3$000 a 5$000 réis, moeda
fraca. Em Portugal variam entre 800, 1$000, 1$200, 1$500 e 2$000 réis,
moeda forte!
Quem quizer que se dê agora ao incommodo de orçar as despezas de
sustentação, e diga-nos depois se ha compensação possivel.
Diz um portuguez, que, como nós, examinou de perto o assumpto, que não
conhecia no Brazil qualquer logar onde um homem, com pequena familia
possa despender menos de um conto de réis por anno, tendo mesmo um viver
de proletario: a razão é, accrescenta o nosso compatriota, que sendo o
dinheiro barato, tudo o mais é caro, excepto os productos do paiz, como
assucar, café, farinha de mandioca e carne, nos lugares de producção. Um
par de botinas que em Portugal custa 2$000 réis, vende-se no Brazil por
14$000 réis; o feitio de umas calças, que em Portugal regula por 400
réis, no Brazil não se obtem por menos de 4$000 réis; uma duzia de ovos
vende-se aqui por 160 réis, e lá custa 1$000 réis; uma visita do medico
custa 4$000 réis, e diz elle que viu pagar por uma operação e curativo
de oito dias 1:600$000 réis, sendo esta quantia exigida pelo
cirurgião![1]
[1]_Duas Palavras a Brazileiros e Portuguezes_, por J. A. Torres.