Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os
fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que
passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois
de terem preparado o barro o estendem pouco a pouco sobre hum molde de
páo _c_ _est. I_, _fig. 22_, que tem a figura que deve ter o interior do
cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue;
começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro,
que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com
pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes
cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar
hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de
greda, e os de Allemanha.
303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias
de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei
precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura,
que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma
peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos
estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em
particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga
passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre
comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ
bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor
com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta
argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás
argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ
mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro
he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer
em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e
sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas,
nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas,
que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao
barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura,
e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica
dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se
encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ
refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que
elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos
bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de
manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se
poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores,
misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito
compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias,
que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ
tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas
ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o
racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ
os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e
tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ:
por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area
vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos
com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos.
304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as
experimentei.
305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de
vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de
limalha de ferro, e agua salgada.
306 Outro: seis partes de argilla secca, duas partes de _caput mortuum_
de agua forte, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de
escorias de ferro, e huma de vidro muido, e hum bocado de cal desfeita ao
ar.
307 Outro: partes iguaes de argilla secca, de amianto, talco espurio, ou
terra de gelo, ou mica.
308 Fazem-se cadinhos em figura de copos; algumas vezes se lhe faz hum
pequeno aperto por cima, formando bico: tambem se fazem triangulares,
para vasarem o metal com mais commodo. Finalmente fazem-se para ensaiar
minas de metaes preciosos; estes terminaõ em ponta _d_, para que o metal
derretido se ajunte melhor no fundo do cadinho; entaõ se lhe faz hum
pequeno pé para que elles se sustenhaõ melhor dentro, e fora do forno.
309 A respeito das capsulas, e cabeças só differem dos cadinhos por sua
figura, assim como certos cadinhos com pé, a que os Francezes chamaõ
_tutes_.
310 As mangas, ou receptaculos para os fornos de crisoes se fazem com o
mesmo barro dos cadinhos; estende-se o barro bem delgado sobre huma meza,
assim como fazem os pasteleiros; corta-se hum pedaço desta pasta para
fazer a parte de cima do receptaculo; põe-se este pedaço sobre hum molde
_a_, para lhe fazer tomar huma curvatura conveniente, e servindo-se do
mesmo molde se lhe ajusta por baixo o fundo, e por detraz outro pedaço
para fechar huma das pontas do receptaculo, estando bem justos estes
differentes pedaços, se deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ se
acaba de fazer esta peça: com huma faca molhada se lhe abrem os pequenos
buracos dos lados, e estaõ promptos para se cozerem.
311 Para fazer huma retorta o forneiro faz o corpo sobre hum torno, ou
molde de páo, como os cadinhos, e o bico em outro molde, que he huma
cavilha hum pouco curva; com a maõ aperfeiçoa a parte mais larga do bico;
e acaba soldando, e reunindo as duas peças.
_Do modo de cozer os fornos, e cadinhos._
312 Tem havido Chymicos, que pretenderaõ naõ ser preciso cozer os fornos;
porque elles servindo, viriaõ a adquirir o gráo de cozimento, que lhe
convem: eu naõ sou desta opiniaõ. Os fornos, que só saõ seccos sem se
cozerem, correm o risco de quebrar quando se faz preciso mudallos de
lugar; além disto, qualquer bocado de agua que lhe caia os humedece, e os
faz em pedaços. Por isso he preciso cozer os fornos, e os cadinhos; mas
os forneiros só daõ hum meio cozimento.
313 O forno, de que se servem os louceiros, he quadrado, e rente com o
soalho; faz-se de tijollo a abobada: quasi em pé e meio do terreno se
põe huma grade de ferro; mette-se a obra no forno, entrando por baixo da
abobada pela porta. Quando ha obras pequenas, que podem caber por entre
as grades, interpõe-se grades miudas por entre as principaes. A grade de
ferro se põe quasi pé e meio por cima do soalho do forno.
314 Estando o forno cheio de differentes obras, levanta-se sobre a grade
de ferro huma tapagem de tijollos. Sendo feita esta tapagem sobre a
grade, fica por baixo hum espaço, pelo qual se mette a lenha necessaria
para cozer: a tapagem só chega até tocar a abobada; fica hum espaço por
onde sahe a fumaça, que naõ tem outra sahida; ella he recebida pelo tubo
da chaminé.
315 Accende-se de manhã hum pequeno fogo para esquentar, ou fazer seccar
as peças; augmenta-se pouco a pouco, e a obra em hum dia fica cozida
tendo gasto pouco menos de hum carro de lenha; prefere-se a lenha bem
secca para fazer maior chama. Deixa-se esfriar a obra hum dia, ou dous,
depois se tira, e esta em termos, de se entregar aos Chymicos.
316 Fazem-se pratos de barro para cadinhos, que saõ de varios tamanhos:
servem ordinariamente de apoio, quando se mettem debaixo dos cadinhos, e
das retortas: algumas vezes se servem delles para cubrir os cadinhos.
_Aqui apresento tambem as seguintes notas que Mr. Dymares da Academia das
Sciencias me communicou, quando já estava quasi impressa esta arte do
louceiro._
317 Em Sauxillanges, e Marzac, duas pequenas cidades de Avergne, a
primeira vizinha de Issoire, e a segunda distante de Ambert, quasi duas
leguas, e meia, se fazem cadinhos para uso dos ourives; sua figura he
conica; onde os ha de todos os tamanhos; a sua principal venda se faz em
Leaõ.
318 Os louceiros de Sauxillanges tiraõ seu barro perto de Monge no
dominio de Moye; elles naõ cavaõ mais de tres, até quatro pés de fundo;
he huma especie de Kaolin misturada com mica, e area grossa de quartz
em grande proporçaõ. Lava-se este barro para lhe tirar a area; dilue-se
o Kaolin na agua, que vai carregada delle, e a area de quartz fica no
fundo dos vasos. O Kaolin se deposita depois nas celhas, aonde se deixa
assentar todo o que a agua traz em si.
319 O barro de que se usa em Marzac he da mesma natureza, e se trabalha
do mesmo modo, que o de Sauxillanges; tira-se trinta, ou quarenta pés de
fundo, perto da povoaçaõ de Espinasse, dependente da freguezia de Marzac.
Algumas vezes se mistura o Kaolin com o outro barro argiloso, que se tira
em Champetrieres, e Castellet perto de Ambert. Desta mistura resultaõ
cadinhos mais proprios para resistir ao fogo, que os primeiros, e nestas
vistas he que se cuida muito em cozellos. O barro de Sauxillanges, e de
Marzac empregados sem mistura ficaõ bem brancos depois de cozidos.
320 Em S. Junien pequena cidade de Limousin tambem se fazem semelhantes
cadinhos destinados para os mesmos vasos, e de hum barro da mesma
natureza; tira-se de Malaise vizinha da grande estrada de Limoge para
S. Junien, e tambem duas leguas distante desta ultima cidade. Este
barro he a base de toda a louça, que se faz em S. Junien para outros
usos. Supposto que he muito branco, se coze muito mal, e he sujeito a
arrebentar ao fogo.
321 Ha tambem muitas fabricas de louça nas cidades de Duris, de
Gandalounia, e Chavagnai em Limousin. O barro, que os oleiros chamaõ
neste paiz _toupiniers_, he huma especie de Kaolin, pouco ductil; mas
o que merece attençaõ he a composiçaõ do seu verniz. Mas para o fazer
se servem da mina do chumbo de Glanges, que elles calcinaõ, e lhe
ajuntaõ por fundentes quartz branco da area, de que se servem os nossos
louceiros. Para reduzir este quartz a pó com facilidade, o põe vermelho
ao fogo, e neste estado o lançaõ em agua fria; a subita passagem do
quente ao frio reduz a pó esta pedra: depois a misturaõ com cal de
chumbo, e livigaõ estas duas substancias juntas, em huma mó.
FIM.
NOTAS
[1] Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, gorda, muito cheia de
arêa, de que usaõ para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ barro
de fornos: este barro vem unido com arêa ferruginosa; porém na verdade
argilla, e barro, saõ dous termos synonimos.
[2] Estes trabalhos consistem em differentes lavagens que naõ podem
servir para as louças communs por serem muito baratas.
[3] Ha poucas argillas puras, pela maior parte trazem diversas uniões.
Destinguem-se muitas especies 1º. argilla branca em Alemanha _Weisser
thon_. Esta he a mais pura, e mais propria para as obras de louça, tambem
serve para pitos, de que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca
no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece a ponto de dar faiscas
de fogo. 2º. A argilla cinzenta em Alemanha _Schwarzgrauer thon_ menos
pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria para a louça fina,
e só serve para a grossa. 3º. A argilla negra, que toma esta côr dos
mineraes, de que está carregada, bem lavada e preparada póde servir para
louça. 4º. A argilla azulada he a mais commum de todas, della se fazem
tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he a mais fussivel de
todas; serve para cobrir as outras obras inferiores. Ella tem muita
impureza, e por isso se passa por peneira antes de a pôr em obra. 6º.
A argilla amarella tirando a preto, he magra misturada com arêa; serve
para pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ vaõ ao fogo:
os Alemães a chamaõ _Schulf_. 7º. Argilla esponjoza, que se naõ póde
trabalhar na roda, he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla
cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.
[4] Para ter conhecimento exacto da natureza destes barros, se deve
consultar Vallerio, M. Pott, e o Diccionario de Chymica de Maquer.
[5] A mica he huma especie de pedra folhada, brilhante refractaria: ha
de muitas especies. Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, cheias de
muitas partes brilhantes. As partes brilhantes da mica se asemelhaõ ao
talco.
[6] Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ a pedaços de mina por seu
pezo, e côr resplandecente; e com effeito contém alguma especie metálica;
porém raras vezes, e em pouca quantidade; e tem muito enxofre, e arsenico.
[7] Terras calcareas saõ aquellas, que expostas a hum sufficiente gráo de
fogo adquirem todos os caracteres de cal viva.
[8] A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, e sem mistura de terra;
a que se lança na agua, e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he
preferivel á dos rios; se esta estiver carregada de pedra.
[9] _Molde_: os louceiros chamaõ assim hum caixilho de madeira, em que
elles formaõ os ladrilhos, e tambem, cavados em gesso, que servem para
fazer com o barro differentes ornatos. 38 _est. I_, _fig. 5_.
[10] Comparando todos os fornos, conhecidos em França, Suissa, Alemanha,
e Hollanda os mais engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ de
cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad em huma Memoria que vem no
Tom. IV. da Arte de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.
[11] _Lingueta_, he a separaçaõ dos ladrilhos, que termina alguns fornos
de louça, por baixo da qual estaõ as aberturas, chamadas _creneaux_ 49,
52, 130.
[12] _Crenaux_, he a abertura, que se faz no forno, ou para dar huma
communicaçaõ ao ar quente, ou para escapar a fumaça 50, 134.
[13] _Fausse-tire_, he a separaçaõ da abertura, que formaõ os ladrilhos,
separando a fornalha do corpo do forno. 50.
[14] Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno calor, que se chega á
louça 36 horas primeiro a esquentalla só para depois lhe chegar fogo
forte.
[15] _Chasse_; grande fogo de chama, que se faz no fim do cozimento com
feiches de lenha, ou madeira rachada. 53.
[16] _Gâchis_ especie de argamassa, ou mistura de huma porçaõ de gesso em
pó com argamassa de cal, e arêa. 62.
[17] Com ladrilhos de duas côres só assentados com differentes posições,
se podem formar muitas vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem
fazer até 86 variedades.
[18] _Voguer_ amassar á maõ.
[19] O forno dos oleiros Alemães he muito simples; he quadrilongo, de hum
comprimento proporcionado a força de cada fabrica, da altura de hum homem
pouco mais, ou menos. A parte superior tem a figura de hum ovo, ou he
chata, e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada para conservar
o calor. O interior, se faz de tijolos, e com abobada, as paredes de huma
parte, e outra devem ser fortes.
[20] Os oleiros Alemães para as suas obras communs se servem só do
lithargirio, a que chamaõ _Glatte_, _Silberglatte_. Piza-se, passa-se
por huma peneira, e liviga-se sobre huma pedra. Para que o lithargirio
naõ corra muito, se lhe ajunta huma igual quantidade de area branca, e
fina. Esta mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; lança-se huma
quantidade sufficiente no vaso, que se quer envernizar, e que já está
cozido, move-se e se despeja aquella quantidade, que sobra, e já naõ
pega. Passado hum quarto de hora, já se póde levar o vaso para cozer o
verniz. O vaso com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. Se o
verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, e cheio de graõs.
[21] Querendo-se que o esmalte seja branco, misturaõ-se cinco partes de
estanho com vinte de chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro no
forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar algumas horas antes
de se lançar nella o chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o chumbo,
para isto deve ser o forno de reverbéro. Deve-se mover o metal com
huma espatula de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se lança o
estanho, e se move do mesmo modo, até que este tambem se converta em
cinzas. Augmenta-se o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; entaõ se
diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, movendo-as sempre com a espatula.
Misturaõ-se estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; põe-se tudo
em hum vaso descoberto, e se põe nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se
evapora, a materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; porém o
sal só se ajunta para facilitar a fusaõ. Piza-se a materia calcinada
em hum gral de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma pedra, com
huma quantidade de agua sufficiente, para a tornar de huma consistencia
liquida. Cahindo sobre o verniz qualquer bocado de gordura, por pouca
que seja, desmancha todo o trabalho, porque os metaes tornaõ a tomar sua
primeira fórma, e o verniz desaparece de cima dos vasos, em que se tinha
applicado. O pó, cahindo sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos
buracos.
[22] O _quartz_, he huma pedra dura, côr de leite, meia transparente, e
vitrificavel, que se acha em muitos lugares, especialmente nas minas.
Ainda que o _quartz_ se vitrifica, quando se mistura com huma argilla
vitrificavel, ou chumbo; com tudo por inadvertencia se inculcou esta
substancia; he melhor substituir o spath, fusivel que se vitrifica mais
facilmente.
[23] Frittar, he calcinar a materia do vidro, para separar della todos os
corpos gordos, que dariaõ alguma côr suja ao vidro.
[24] Naõ ha aqui país algum, em que se naõ faça louça para o uso dos
seus habitantes: ellas saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade
dos barros; mas todas se fazem sobre os principios já explicados. Hum
observador attento podera contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar,
que habita, applicando-se a examinar as differentes qualidades de barro,
suas composições, e suas misturas.
[25] As operações Chimicas naõ se podem fazer, senaõ em cadinhos cozidos
para poderem resistir a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor
muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente de quebrar, passando
do quente para o frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem
soffrer estas variações, e ao mesmo tempo conter os metaes derretidos por
hum grande espaço. Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte de
Porcelana.
Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com huma boa argilla
refractaria, misturada com duas partes de area de mediana grossura,
separando-se a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece o barro,
e naõ o deixa encolher, nem rachar, nem fazer-se muito compacto, sendo
cozido; A area deve ser de huma grossura mediana, sendo fina, os cadinhos
se quebraõ. Mr. Pott diz mais que os cadinhos destinados para fundiçaõ
de vidros, naõ devem levar area grossa, nem calháos, ou outras materias
semelhantes, que saõ sujeitas a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta
a argilla o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; a mistura se faz
com partes iguaes, ou duas desta argilla cozida; duas, e meia, e ainda
tres, e huma só da argilla nova, quanto melhor he esta tanta maior porçaõ
admittem da outra cozida; e deste modo se fazem os grandes cadinhos para
as fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero de experiencias
a este respeito: elle misturou a argilla com as caes metallicas, ossos
calcinados, pedras calcares, talco, amianto, pedra pomes, esmeril, e
muitos outros, e de todas estas experiencias naõ lhe resultou hum cadinho
sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, que se poderiaõ fazer
cadinhos melhores do que todos os conhecidos. Para isto se precisaria
ter huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias piritosas, e
ainda de barros ferruginosos; este deveria ser lavado com cuidado para
separar-lhe a area, e depois misturallo com duas, ou tres partes de
argilla cozida, e pizada grosseiramente. Os cadinhos formados em moldes
deveriaõ ser cozidos em hum fogo muito forte.
EXPLICAÇAÕ DAS FIGURAS.
_Estampa I._
_Figura 1._ _B_, tonel, em que está a agua, para cortar o barro, e o
diluir, a estampa _A_, o barro _C_, que se corta, o instrumento _D_, que
serve para cortar este barro.
_Figura 2._ _D_, instrumento, com que se corta o barro.
_Figura 3._ _H_, molde para fazer tijolos de seis faces _G_, _fig. 5_.
_Figura 4._ meza para moldar, _ab_, sustida pelos pés _ee_, _g_,
_urquain_, que he huma pedra dura, sobre que se põem o molde _dd_, _e_,
vaso cheio de agua, _f_, plano, _k_, obras postas humas sobre as outras,
_h_, barro amassado para encher o molde, _i_, monte de area para se
espalhar sobre o _urquain_.
_Figura 5._ _na vinheta_, monte de barro prestes para se trabalhar.
_Figura 6._ cutelo curvo para cercear os tijolos.
_Figuras 7. 8. e 9._ representaõ o forno, de que se servem quasi todos os
oleiros, maiormente para cozer os tijolos.
_Figura 7._ representa o plano do forno ao nivel do terreno. _A_, entrada
da fornalha. _AB_, onde se faz o fogo, como se mostra pelas mesmas letras
_fig. 8_. _K_, _I_, separações dos ladrilhos, entre os quaes ha espaços
vasios, para que o ar quente se communique ao forno. Esta separaçaõ,
que divide a fornalha do interior do forno, se chama _la-fausse-tire_.
_F_, hum vaõ, ou buraco da porta, chamado _tetin_. Por este lugar se
entra no forno para lhe arranjar a louça: e em estando cheio, se fecha
este _tetin_ com hum muro de tijolos, a que chamaõ _la Languete_, em
baixo desta, ha duas portas, ou aberturas _L_, _fig. 8_. que se chama
_creneaux_, ou, como dizem os Louceiros _carneaux_: por estas aberturas
passa a fumaça para o tubo do chaminé _CD_, _fig. 8_. que representa a
vista do forno pela longitude. _AB_, he a fornalha: _KL_, assoalho do
forno. Vê-se acima do _K_, _la fausse-tire_. _A_, _E_, _M_, he a abobada
do forno; em _LM_, está a _lingueta_, abaixo de _C_, os _creneaux_, e
_CD_, tubo da chaminé para descarga da fumaça. Vê-se em _a_, os tijolos
da fornalha postos em carreira, para sustentar os tijolos, de que se
enche o forno.
_Figura 9._ he huma vista do mesmo forno transversal pela linha _GH_, da
_fig. 7_. por baixo em _AB_, estaõ tijolos de assoalhar, ou vasilhas de
commodidades, sobre que se arranjaõ as louças, com que se enche o forno.
_Figura 10._ _T_, caldeirinha quadrada, feita a maõ, e sobre a meza de
aperfeiçoar.
_Figura 11._ alguidar, ou gamela commum de louça.
_Figura 12._ especie de fogareiro chamado _toupine_.
_Figura 13._ escalfador.
_Figura 14._ pequena cassarola.
_Figura 15._ roda dos oleiros vista em golpe.
_Figura 16._ roda dos Oleiros, vista de perfil.
_Fig. 17._ roda dos Oleiros, vista em plano _aa_, meio da roda _ff_,
arvore da roda, que víra em huma peça de madeira, que se acha acima
de _g_, a qual se conserva segura pela cruz _hh_, e as prisões _ii_,
acima do meio _aa_, está o prato _bb_, em que anda a obra _cc_, que se
trabalha. Os raios da roda se assignalaõ em _dd_, e as peças da roda
volteadas em _ee_, _K_, as taboletas sobre que se põem as louças _n_,
que se querem trabalhar sustentadas tambem como o assento _l_, que he
inclinado pelos montantes _pp_. Avista-se pela parte de dentro as peças
entalhadas, que servem de assento ao trabalhador.
_Figura 18._ _A_, trabalhador que faz hum vaso na roda de fazer louça
fina.
_Figura 19._ hum mealheiro, que tambem bem chamaõ _cache-maille_.
_Figura 20._ _A_, _B_, _C_, _D_, _E_, serve para fazer ver como se fazem
ao torno as vasilhas para as decentes commodidades, como estes potes se
ajustaõ huns com os outros pelas bocas, como se fazem os potes de duas
bocas _E_, _C_.
_Figura 21._ _A_, modo de fazer hum vaso com o calibre. O vaso está
firme, o calibre he que víra.
_Figura 22._ _d_, cadinho com o molde _c_, sobre que o fazem.
_Estampa II._
_Figura 1._ 7. _tournassin_, ou _tournassir_, serve para aperfeiçoar o
fundo dos potes, que se fizeraõ ao torno. Este instrumento he de ferro,
que se tem de differentes tamanhos, e de diversas fórmas.
_Figura 2._ vaso de greda de Picardia, mais delgado, do que os jarros
cobre-se por fóra do vime para se preservar. Os que receiaõ da agua,
que se guardou em vasos de metal, mandaõ pôr em baixo hum registo, ou
chave, de que se servem, como de huma fonte de cobre. Querendo-se que
este fique proprio para clarificar a agua, põem-se-lhe placas de estanho,
que descançaõ em aneis salientes pela parte de dentro, que o Oleiro
faz em lugares assignalados pelas linhas de pontuaçaõ _a_, e _b_. He
ainda melhor substituir as placas de estanho com testos de greda quasi
semelhantes a de _M_, proporcionando o seu tamanho, ao diametro interior
do vaso, e se põem area entre estes dous testos.
_Figura 3._ vaso grande de barro, chamado _pounes_, do qual se servem
para salgar as carnes, para fazer as pequenas lexivias, e para conservar,
nos jardins, agua, que se destina para os regamentos. Faz-se em hum torno
_EFG_, que se assemelha a huma lanterna de moinho. _IKL_, he o seu eixo
que se firma na terra, e _u_, faz andar á roda brandamente a lanterna
_EF_, e a proporçaõ que vai virando se fórma o vaso, accrescentando
rolos de barro huns sobre outros, que se une com huma peça, chamada
_atelle_.
_Figura 4._ _na vinheta_, obreiro, que imprime na roda hum movimento
circular com huma vara, ou páo _a_, chamado _tourneire_, este obreiro se
assenta no assento inclinado _l_, e põem os pés nos entalhes _m_.
_Figura 5._ obreiro, que imprimindo muito movimento na sua roda, faz
entre as suas maõs hum jarro.
_Figura 6._ garrafa, ou redoma de greda, cujo bojo se faz ao torno.