259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho,

he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois

que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e

quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida

de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da

capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da

abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros,

que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre

cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ

a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e

continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco

a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo

por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ

o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta,

ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por

cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se

introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera

a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta

vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.

260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos

grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto

dos Suissos.

261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de

tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro

preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para

fazer a louça melhor, ou inferior.

ARTIGO XII.

_Do oleiro de fogareiros._

262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os

Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que

fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei,

pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros,

e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito

differente da pratica dos outros oleiros.

263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que

tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a

ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros

oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está

já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he

muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para

isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes,

como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer

esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste

caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum

crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para

os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e

continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á

maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga,

do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer

manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que

a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.

264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de

Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo

guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se

põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem

fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho

de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó,

como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque

elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta

maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o

ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para

os fogareiros.

265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros

oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ,

quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que

destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma

meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou

fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem

os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a

pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro,

que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os

fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.

266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido

sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a

primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados

para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma

massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.

267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros

oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar

suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.

268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos;

pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular;

elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou

com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma

parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.

269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos,

e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira,

e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ

a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas

fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.

270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os

fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que

se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de

consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa

para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.

271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo

modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer

os igualamentos.

272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa

bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles

para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos

fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem

muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a

figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ

muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em

caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig.

14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados.

273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os

Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as

argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma

grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de

ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço

de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por

cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho

de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais

fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro,

que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar

os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que

prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de

ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa

dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga

com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas

fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem

fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos

Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu

vou tratar com alguma maior individuaçaõ.

274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem

quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_,

e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as

de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis

saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e

laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ

formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe

sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza

cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se

põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem

ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem

estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se

abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do

fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar

he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma

abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e

todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes

acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar

o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha

sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas

de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas

vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais

compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para

accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor,

se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo

cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende

da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta

ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem

á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha:

e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa,

que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e

ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim

huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he

preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho

da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ

pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico,

que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.

275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da

fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor,

conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para

outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando

se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ

registros.

276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ

escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo

tempo falta para operaçaõ.

277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas,

e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_;

ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está

o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da

fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos

delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando

tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro,

que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por

carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos

para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos

cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio

quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar

com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha

huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum

grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem

mesmo vapores de carvaõ.

278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se

accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro

_a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para

fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta

corrente de ar.

279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte

debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter

ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha

_dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta

fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha;

esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do

fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas

quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo

fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ,

e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo

_ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum

calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo

frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo

_C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer

esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he

muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.

280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer,

que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias

que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma

trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma

passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a

grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada

para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se

tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê,

inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o

carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha

consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum

principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por

cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que

esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior

huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar

quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de

ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos,

e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.

281 A _fig. 17_, _est. II_, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado

para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo

consideravel.

282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro

de barro de cadinhos; _a_ he o cinzeiro; _b_ lugar onde se põe o fogo;

_c_ he huma tapagem, que cobre todo o forno; _d_ he huma torre, onde se

põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta

_e_: enche-se de area a capacidade _c_, _f_, e nesta area he que se põe

os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este

forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para

entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso,

que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa,

e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas

_g_, _e_, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta _h_, da torre

_d_, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se

consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum

meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas

_g_, _e_, e algumas das que estaõ na cuberta da torre _h_: por meio disto

o carvaõ, que se pôs na torre _d_, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco

na parte _b_, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a

torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser

preciso haver com elle algum cuidado.

283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem

estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu

modo de trabalhar.

284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com

argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.

285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha

deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado

de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os

pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez

o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz

outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo,

tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura,

do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe,

mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos

de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir

bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo

interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo

faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno

chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma

huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.

286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os

dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa

altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e

deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as

desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que

teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar

o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois

o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em

quando pule a obra, como já fica dito.

287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que

por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar

este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida

grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto

naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros

instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.

288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do

fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro

disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi

como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de

hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz

por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e

se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como

se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a

enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por

fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as

portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda

mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis

obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes,

ou em roda.

289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as

aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as

peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou

quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno.

290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro _a_, a

fornalha _b_, e o laboratorio _c_ saõ formados da differentes peças,

que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem

ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os

oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro

por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima

formaõ a peça _c_, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe

com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado

consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças

humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno

parece ser de huma peça só.

291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o

barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido;

e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos

molhados por naõ seccar.

292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes

alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace

toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto

ajuda muito a conservar os fornos.

293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se

faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que

os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço

de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr

a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se

amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros,

he mais duro, do que o dos outros oleiros.

294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com

moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos.

295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que

acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe

daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por

differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.

296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos,

e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do

que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o

barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro

do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e

fazello mais compacto.

297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ

em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ molde, _c d_, _fig.

22_, _est. I_.

298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos

com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ

precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo

violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes

derretidos.[25]

299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum

fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si

muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro.

Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas

faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era

mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se

precipitava depois.

300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro

derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a

mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida,

reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla

he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo

cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes

iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e

seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.

301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que

elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros

os fazem em moldes.

Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas · 第 6 / 8 段