he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois
que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e
quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida
de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da
capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da
abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros,
que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre
cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ
a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e
continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco
a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo
por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ
o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta,
ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por
cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se
introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera
a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta
vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.
260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos
grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto
dos Suissos.
261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de
tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro
preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para
fazer a louça melhor, ou inferior.
ARTIGO XII.
_Do oleiro de fogareiros._
262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os
Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que
fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei,
pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros,
e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito
differente da pratica dos outros oleiros.
263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que
tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a
ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros
oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está
já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he
muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para
isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes,
como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer
esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste
caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum
crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para
os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e
continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á
maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga,
do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer
manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que
a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.
264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de
Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo
guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se
põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem
fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho
de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó,
como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque
elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta
maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o
ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para
os fogareiros.
265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros
oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ,
quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que
destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma
meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou
fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem
os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a
pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro,
que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os
fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.
266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido
sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a
primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados
para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma
massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.
267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros
oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar
suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.
268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos;
pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular;
elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou
com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma
parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.
269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos,
e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira,
e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ
a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas
fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.
270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os
fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que
se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de
consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa
para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.
271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo
modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer
os igualamentos.
272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa
bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles
para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos
fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem
muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a
figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ
muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em
caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig.
14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados.
273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os
Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as
argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma
grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de
ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço
de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por
cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho
de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais
fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro,
que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar
os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que
prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de
ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa
dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga
com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas
fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem
fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos
Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu
vou tratar com alguma maior individuaçaõ.
274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem
quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_,
e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as
de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis
saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e
laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ
formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe
sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza
cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se
põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem
ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem
estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se
abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do
fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar
he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma
abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e
todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes
acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar
o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha
sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas
de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas
vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais
compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para
accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor,
se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo
cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende
da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta
ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem
á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha:
e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa,
que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e
ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim
huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he
preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho
da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ
pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico,
que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.
275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da
fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor,
conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para
outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando
se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ
registros.
276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ
escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo
tempo falta para operaçaõ.
277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas,
e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_;
ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está
o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da
fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos
delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando
tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro,
que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por
carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos
para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos
cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio
quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar
com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha
huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum
grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem
mesmo vapores de carvaõ.
278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se
accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro
_a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para
fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta
corrente de ar.
279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte
debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter
ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha
_dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta
fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha;
esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do
fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas
quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo
fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ,
e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo
_ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum
calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo
frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo
_C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer
esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he
muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.
280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer,
que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias
que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma
trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma
passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a
grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada
para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se
tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê,
inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o
carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha
consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum
principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por
cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que
esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior
huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar
quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de
ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos,
e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.
281 A _fig. 17_, _est. II_, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado
para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo
consideravel.
282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro
de barro de cadinhos; _a_ he o cinzeiro; _b_ lugar onde se põe o fogo;
_c_ he huma tapagem, que cobre todo o forno; _d_ he huma torre, onde se
põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta
_e_: enche-se de area a capacidade _c_, _f_, e nesta area he que se põe
os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este
forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para
entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso,
que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa,
e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas
_g_, _e_, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta _h_, da torre
_d_, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se
consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum
meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas
_g_, _e_, e algumas das que estaõ na cuberta da torre _h_: por meio disto
o carvaõ, que se pôs na torre _d_, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco
na parte _b_, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a
torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser
preciso haver com elle algum cuidado.
283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem
estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu
modo de trabalhar.
284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com
argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.
285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha
deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado
de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os
pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez
o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz
outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo,
tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura,
do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe,
mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos
de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir
bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo
interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo
faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno
chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma
huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.
286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os
dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa
altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e
deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as
desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que
teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar
o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois
o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em
quando pule a obra, como já fica dito.
287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que
por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar
este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida
grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto
naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros
instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.
288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do
fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro
disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi
como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de
hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz
por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e
se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como
se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a
enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por
fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as
portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda
mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis
obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes,
ou em roda.
289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as
aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as
peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou
quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno.
290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro _a_, a
fornalha _b_, e o laboratorio _c_ saõ formados da differentes peças,
que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem
ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os
oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro
por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima
formaõ a peça _c_, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe
com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado
consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças
humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno
parece ser de huma peça só.
291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o
barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido;
e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos
molhados por naõ seccar.
292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes
alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace
toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto
ajuda muito a conservar os fornos.
293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se
faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que
os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço
de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr
a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se
amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros,
he mais duro, do que o dos outros oleiros.
294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com
moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos.
295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que
acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe
daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por
differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.
296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos,
e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do
que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o
barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro
do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e
fazello mais compacto.
297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ
em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ molde, _c d_, _fig.
22_, _est. I_.
298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos
com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ
precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo
violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes
derretidos.[25]
299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum
fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si
muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro.
Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas
faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era
mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se
precipitava depois.
300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro
derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a
mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida,
reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla
he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo
cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes
iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e
seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.
301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que
elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros
os fazem em moldes.