lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo
muito differente dos de París.
208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas
he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo
para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno,
e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a
louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria
derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que
a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos
vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do
quente para o frio.
209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ
para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da
mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer,
he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde
ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro
cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor.
210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais,
ou menos vitrificaveis, a que chamaõ _Latier_; este _Latter_ vem das
fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte
vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro.
211 Achaõ-se estas substancias espalhadas sobre a terra; ainda que junto
a S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; presume-se que as houveraõ
antigamente. Reduzem a pó por meio de huma maquina de dous pilões que
se faz mover por huma manivela, e de huma roda; estes pilões na ponta
debaixo levaõ huma chapa de ferro, como a dos pilões de socar casca de
curtume. Quando se precisa pouca quantidade de verniz, se pulverisaõ as
materias, de que acabo de fallar em hum gral com maõ de ferro; passaõ-se
por huma peneira de cabello; este pó entaõ está da côr de cinza, e os
oleiros o chamaõ _Latier en laquet_, (escoria para verniz).
212 Applica-se este verniz ao barro crú, porém bem secco; para o pó se
pegar, se humedecem os vasos em agua, e se pulverisaõ exactamente com
este pó, que fica muito adherente, quando se derrete pela acçaõ de hum
grande fogo, e se encorpora a superficie do barro.
213 Como se applica sobre estes vasos crús, o mesmo fogo, que coze o
vaso, faz derreter o verniz, que se torna escuro côr de castanha, e muito
duro.
214 Para os vasos de barro branco mais expostos ao fogo se mistura com a
escoria huma pouca de cinza fresca passada por peneira. Dizem os oleiros,
que sem isto, o verniz se queimaria. No meio do comprimento do forno se
põe simplesmente as escorias; e na ponta, aonde ha menos fogo, se ajunta
ás escorias hum bocado de cal de chumbo para ajudar a fusaõ.
215 Este verniz, como já disse, toma huma côr da castanha muito unida, e
brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros de París; mas he preciso hum
grande fogo para o fazer derreter: e nisto convem com louças que se cozem
em greda e todas as de S. Fargeau saõ desta qualidade.
_Modo de procurar as louças huma côr negra, que de algum modo supre o
verniz._
216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as
louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ
panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma
só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias
para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular:
porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo
suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ
preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria.
217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza
de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser.
Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se
inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se
sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando
ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a
esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz
huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se
abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça.
_Louça de Inglaterra._
218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava
em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias
sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do
falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que
se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que
as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me
remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça
poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ
desta arte.
219 _Comté de Nordhumberlane._ Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle
se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a
qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de
Inglaterra.
220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o
carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga
direito algum.
221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem
lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres,
na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria
para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha
grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até
Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras.
222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes
voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle
ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada,
que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura
de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo
acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito
facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura
que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos
oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem
vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.
223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer
a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos.
224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma
mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr
cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na
composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como
se segue.
225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira,
que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos
compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este
moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de
diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas,
postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem
consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de
hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que
o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas
pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem
de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se
servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro
pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical.
226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira
calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada,
se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma
peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho,
e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia,
o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma
peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se
prepara do modo seguinte.
227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire,
de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a
pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle
custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais
o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes,
agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla
desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em
que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da
pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura.
228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da
agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ
da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que
for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla,
e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o
calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para
esta opperaçaõ.
229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia
formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha
para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma
chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe
nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente
para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar
liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar
tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada.
230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já
meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras
finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o
melhor modo de queimar o gesso he o seguinte.
231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso
branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em _Franche
Comté_; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois
se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de
espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que
delle sahem, se chama a isto _fazello ferver_. Continua-se até se julgar
bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo
que se quer.
232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas
differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes
moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a
aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde
que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e
que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro,
e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se
por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum
bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule
humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar.
233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes
semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro:
em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum
buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica
huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do
bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este
vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim
que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao
pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que
depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza.
234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para
fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem
consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita
deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres
aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado
grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas
pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro;
nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre
outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas,
conforme o tamanho da fornalha.
235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e
barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em
roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas
cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada
huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da
fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo;
logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar.
236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se
servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a
qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a
côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade
de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim
que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas,
e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas
está em termos de ser vendida.
237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer.
238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita
ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo,
com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta
louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas
principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de _Stafford_. A
sua descripçaõ tambem se ha de dar.
239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito
compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se
pode dizer, que se avisinha muito a ella.
240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que
se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a
pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de
magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a
maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se
de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta
louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente
ao calor.
241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra;
para isto se tem hum licôr, que se chama _goldsize_ ou mordente, que se
traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos;
com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma
cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro
batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos
lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma
pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé;
o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a
chama sahem pela chaminé.
242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça
grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado
por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito
maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco,
que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de
distancia de hum centro a outro.
243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de
fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em
Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se
fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para
a cobrir de hum bom verniz.
244 _Louça do Condado de Stafford_. As minas de carvaõ tem dado lugar a
hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças
da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas.
Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e
nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na
louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e
fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum
grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e
aonde ainda se tira carvaõ.
245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies,
quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se
dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas
as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem
hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do
Tamisa.
246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e
livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura
com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer
humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua
assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello,
para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro
tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já
pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina.
Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em
Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de
cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente
pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura
ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava
a argilla.
247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de
huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de
pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes,
como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira
ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções.
248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla
passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira,
e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a
mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e
pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois
se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta
ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo.
249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os
caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ
semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou;
a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por
outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até
ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta
para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum
homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a
louça.
250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ
sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras,
se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça
de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja
prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho,
que se quer dar a peça.
251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum
rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se
põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua,
se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza
a parte exterior do prato, ou tijella.
252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes
sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ
tirar as peças, que nelles se formaraõ.
253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz,
para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra
as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno,
aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na
mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza,
nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes
peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se
lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo
barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser.
Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar
inteiramente antes que se ponha no forno.
254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas
em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda
cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada
de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem
meter nellas.
255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o
que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados
em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre
greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com
isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem
para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas
outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a
louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se
rejeitaõ.
256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos
semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha,
consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte
oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior.
Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça
envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da
envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. _Outra
differença_: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de
buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito
em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé,
depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco
principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes
buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ
se tapaõ: seu uso adiante se dirá.
257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras,
e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma
pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba
de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do
meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima
caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro,
de figura conica.
258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que
atura quarenta, e oito horas.