cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao
forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar;
além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem
a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças
depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ
algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do
forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando
verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a
economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a
pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente _est. II_,
_fig. 11_, e _12_. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas,
e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que
lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando
esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças,
que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de
mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo,
e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas
substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado,
que he possivel e se julga conveniente.
147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a
louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.
148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual
áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças,
e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz,
quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos
lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos,
que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor
conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a
louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra
fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas.
149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos;
cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó
sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o
seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente.
Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e
allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da
sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme;
mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre
hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer
medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se
possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum
grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz.
150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer
hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz:
a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area,
produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o
que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar;
que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter
lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos
da cinza.
151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo
violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer
o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder
vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he
conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a
decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto
experiencias decisivas.
152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem
obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que
elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum _quartz_
fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo
poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma
vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o
moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem
olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por
differentes modos.
153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo
que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco
a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do
forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se
quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se
tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o
verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos
vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa
facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e
este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do
que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais
delgada, e por isso menos sujeita a correr.
154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes
a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando
as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos,
pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ
tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se
tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços
de barro, que se prendem aos vasos.
155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas
provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a
respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia
de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum
zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações
uteis.
156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito
a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche
ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei
das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio,
porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo
fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se
publicará.
_Da louça de Prá em Forez._[24]
157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules
em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.
158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de
quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias,
e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas
olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia.
159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ,
hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá
nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon,
e Vanche.
160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro
escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais
grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho.
161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas.
162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou
mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda.
163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete,
ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com
barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com
argamassa de cal, e area.
164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ
com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas
primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se
augmenta, e se faz muito activo.
165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em
pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se
livigaõ com pedras muito duras _Est. II_, _fig. 11_, e _12_. _G_, _H_.
166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos
vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o
corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para
servir para outros vasos.
167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e
quando o verniz está secco, se põe as louças no forno.
168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com
o chumbo, como acima se disse.
169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem
os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias
em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados
juntos, como já fica dito.
170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos.
_Louça de Franche ville em Lyones._
171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos.
172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de
cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se
acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos
elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e
mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque
neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel.
173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o
côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area.
174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza.
175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da
especie de barro de que a fazem.
176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama
_gaubino_, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta,
que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se
descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de
cinza supporta muito melhor as suas influencias.
177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem.
Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro.
178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer
a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma
massa de ferro como se faz em Prá.
179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos,
e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em
que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro,
separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente
se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem
estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e
quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada.
180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde,
se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da
mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o
verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do
chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado:
este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes,
porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar.
ARTIGO XI.
_Das Louças, que se chamaõ de greda._
181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla
he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as
substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem
obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ
a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a
louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura,
sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas
quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil
de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem
rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande
fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha
qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha,
em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles
rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos:
esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana,
quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por
isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se
quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao
contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla
ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz
lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada,
e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade,
mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes
cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria
senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que
poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais
commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana.
Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir,
senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras
pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que
tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas
do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me
parece digna de sua attençaõ.
182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de
Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas
qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei
ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas
louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita
a esta qualidade de obras.
183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma
freguezia, que ainda agora se chama _S. Germano da olaria_; porém ellas
se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e
ladrilhos. Na freguezia de _Savignier_, onde ha quatorze oleiros,
que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas
qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar.
Em _Chapelle-au-Pot_, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros;
porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no
de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.
184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro
de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie,
se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas
só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de
mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha
veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em
quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle;
o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de
tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de
louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum
pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas
as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo
quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só
se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem,
passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado
do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os
oleiros de París daõ ao seu.
185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer
notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ
os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi
seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem
cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem
se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto
cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se
tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.
186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro,
põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella
se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se
tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma
cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de
area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os
oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por
quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e
trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre
huma roda de ferro _est. II_, _fig. 4_, e _5_. ou de páo que se faz mover
com o pé _fig. 18_, _est. I_; porque os oleiros de Savignier se servem
de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma
palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente,
do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o
verniz.
187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em
pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos
dos oleiros dos suburbios de S. Marçal _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. só
com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha
sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a
distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo
de chaminé _C D_, _fig. 3_. _est. I_; mas na parte baixa _C_, se formaõ
pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se
metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos.
Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze
de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua
embocadura só tem quasi seis pés de alto.
188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de
abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro
tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se
acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa
oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.
189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas,
naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de
París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas
(_cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido_) de páos grossos, e
quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.
190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he
muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena
louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.
191 Em _Zimmeren_, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na
provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa,
de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se
cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou
por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor
do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos,
que se tem feito em Montereau.
192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta
louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que
contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo
trabalhar nestas louças.
193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de
argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria;
porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo
nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços
de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de
qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.
_Das Louças de S. Fargeau._
194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e
Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he
huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas.
O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se
pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra
a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás
nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta
louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em
S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de
hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos
mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que
ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis
aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor
a acçaõ do fogo.
195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça,
procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o
seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que
pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria
as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de
dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar.
Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau,
com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ
que dista huma, ou duas legoas da cidade.
196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he
cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca,
que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma
greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte.
Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga,
quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr
amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a
côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ:
para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.
197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura,
que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta
argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que
elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ
forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes
dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os
vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ
mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como
se fossem envernizados.
198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e
puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e
escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.
199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous
pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com
o enxadaõ, ou enxada.
200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre
elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ
nas maõs, ou debaixo dos pés.
201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento,
que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e
depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París.
202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem,
que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este
sentimento he geral em todas as olarias.
203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser
amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros
de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada
de barro.
204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com hum páo,
como se vê representado na _est. II_, _fig. 4_, e _5_.
205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os
oleiros de París, como fica dito.
206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he o mesmo
que fica representado na _est. I_, porém he hum pouco metido pela terra;
de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem
quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do
forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de
largo, onde ha maior largura, e seis de alto.