102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples _D_, _Est

II_. _fig. 3_. ella se fórma de duas rodellas _E, _, semelhantes ás de

hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis

furos _G_: a rodella _F_, tem hum buraco em _H_, para receber a espiga

ou eixo _I_, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este

zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O

obreiro põe o barro sobre a rodella _E_, e com o pé que põe sobre a outra

roda _F_, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do

vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de

barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e

exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes

torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas

pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos

estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos

que se representaraõ na _Est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. Estas louças

se vendem principalmente em _Angouleme_, _Perigueux_, _Saintonge_,

_Bordeaux_. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.

103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem

de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais

alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o

vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.

104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra

e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de

encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.

105 A _fig. 2_, _M_, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas

vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e

substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados

por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe

arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.

106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem

as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se

servem delles para conservar agua. _A_ _fig. 6_, _P_, _est. II_, he huma

botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga _QQ_, e o

gargallo _R_, se solda na barriga no lugar _T_.

107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem

inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer

perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou

fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes

pôr azas, e pés.

ARTIGO V.

_Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na mesa para lhes pôr

azas, e pés._

108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a

figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam,

e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, _D_ _Est.

III_, _fig. 4_, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se

seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de

huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente.

109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se

transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as

aperfeiçoar.

110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe

percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca

de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se

inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma

cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir

para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se

indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar

por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz

pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira

o barro com hum instrumento de ferro _Y_, _fig. 1_, _Est. II_, que tem

córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos,

chamaõ-se _tournassin_.

111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas

peças, que os devem ter.

112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares,

em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de

soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas

precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ

para se perceber esta pequena manobra.

113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o

gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita,

se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros

se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a

mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da

marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao

corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo,

soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da

marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da

marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ

á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado

raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e

apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais.

Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente.

114 As orelhas _aa_, dos potes _Est. I_, _fig. 12_ se soldaõ do mesmo

modo, que as azas das marmitas.

115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous

barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça

encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se

o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em

que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro

em huma noite humedece quanto basta.

116 O corpo dos potes de tres pés _fig. 15_, _Est. II_, se faz no torno,

depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para

se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo _C_, naõ deve

ter borda com encaixe.

117 O corpo dos escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se faz ao torno;

fórma-se a barriga _a_, redonda, depois aperta-se o barro para formar

a parte cylindrica _b_, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de

barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros;

levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza

_C_, como se disse da marmita.

118 O corpo _b_. das cassarolas, etc. _Est. I_, _fig. 14_, se faz no

torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ

sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou.

119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os

feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno

hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por

baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e

os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque

será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente

o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de

grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe

huma pequena orla na borda _c_. Em fim se despega da rodella; e depois de

ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola,

como as azas dos fogareiros etc.

120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe

abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos.

121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os

esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da

rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo;

tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á

maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta

pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se

aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar.

122 _R_, _Est. II_, _fig. 10_, he hum candeeiro quasi todo feito no

torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em _a_, e em _b_, com huma

aza em _c_.

123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre

o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas;

vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio

de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da

embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella

parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.

ARTIGO VI.

_De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ._

124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para

dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores

quadrados _F_, _Est. I_, _fig. 10_.

125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo,

se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que,

em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro

com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello,

ajuntando _hum demiqueve_ de barro a dez _boisseaux_ do pó de escumalha.

Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer

hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas

como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar,

e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto

está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer

hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar,

raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar,

divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo

do esquentador _a_, e as outras duas fazem os grandes lados _bb_,

_bb_, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa

inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo

hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro

se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador;

soldaõ-se nos grandes lados _bb_, fazendo o mesmo que já disse a respeito

do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma

segunda telha chega para fazer o tampo de cima _dd_; no meio da qual se

faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o

testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira,

corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para

que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos

os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima,

como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as

vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas _ff_, e o

botaõ de testo _e_.

ARTIGO VII.

_Das obras, que se fazem com moldes._

126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se

como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao

louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo,

descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso

hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum

escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco

que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se

faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve

fazer o pé, e o que faz o testo.

127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes

segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde

por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do

molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer

hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se

despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ

as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e

tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou

aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, _bauehoir_,

especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o

fazer.

128 Com o instrumento de alimpar, chamado _tournassin_, se tira por

dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por

onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso.

Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas

como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas,

porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ,

aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais

utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.

ARTIGO VIII.

_Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas._

129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que

usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se

poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na

arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que

saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança,

o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he

superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de

fornos.

130 Da parte da bocca por detraz da _Fausse-tire_ se arranjaõ os vasos,

que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos

risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para

despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno _LM_, _fig. 8_, _est.

I_, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve

descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a

fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.

131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros

de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes

ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem

a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira

camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum

tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio

vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê _fig. 9_, _est. I_; mas,

como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de

lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da

lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos

dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir,

os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o

mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos,

ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em

distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra

a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba

fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com

mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou

menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais

tempo, se se trata de cozer louça de greda.

ARTIGO IX.

_Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes

de S. Antonio para cozer suas obras._

132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do

forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado

na _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_, tanto para cozer os ladrilhos como

as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ

mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo

a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes

fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum

forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ

vou agora dar.

133 A _fig. 1_, _est. III_, representa a altura do forno, visto por

fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, _C D_, do

plano _fig. 2._ que he tomada rente ao nivel do forno. _A_, he o fogaõ

ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas

letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro

desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do

forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio

para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em _A_, _fig.

3_, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno;

depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até _E_, e o distribue por

dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em

pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o

calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia

pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade

possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve

ter o atiçador.[19]

134 A abobada _F_ _fig. 4._ que cobre a parte superior da fornalha tem

os buracos _aaa_, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em _F_

_fig. 2._ se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima

de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos _aaa_, he que passa

o ar quente da fornalha, _A_, _fig. 4._ para o corpo do forno _G_, que

está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este

corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada _H_, _fig. 4._ a

qual tem os buracos _bbb_, do mesmo modo que a abobada _F_; e isto mesmo

se vê tambem na _fig. 5._ em _H_; e por estes buracos he, que o ar quente

passa do corpo _G_, _fig. 4._ ao corpo _I_, aonde se põe as louças, que

se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno

se esquente, no corpo _I_, he maior o calor do que no corpo _G_, que ao

principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.

135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum

buraco _K_, _fig. 4_. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais

quatro buracos _K_, _fig. 1_. e _5_. Estes cinco buracos servem para dar

sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a

sobir até ao alto do forno.

136 Enche-se a camera _G_, _fig. 4_. por huma porta _L_, _fig. 1_, e

_4_. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo

que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só

huma pequena abertura em _M_, _fig. 1_. para dar sahida a huma parte da

fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para

cozer a obra. Por cima desta pequena abertura _M_, ha huma parede como

de huma chaminé de cozinha, e hum tubo _N_ _N_, _fig. 1_, e _4_. para

conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.

137 A camera ou o corpo superior _I_, _fig. 4_. se enche de louça, que se

quer cozer em branco, por huma porta que está em _O_, e que se fecha,

quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura

semilhante á que fica notada em _M_, _fig. 1_, e, como se naõ receia

incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz

cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno _I_, por huma

escada _P_. _fig. 1_.

138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo

pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de

lenha rachada.

ARTIGO X.

_Do verniz ou vidrado, que se põe na louça._

139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a

agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro:

misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem

sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de

huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém

dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis

a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a

devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de

verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os

alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum

barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes

vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area

no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois

os vidraõ, para poderem reter a agua.

140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito

grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando

se tratar da louça fina.

141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do

chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os

oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que

impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma

côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia,

deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se

servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo

huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum

estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por

dous modos, como agora vou a explicar.

_Primeiro methodo._

142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ

perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se

piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela

peneira.

143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a

cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]

144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó

muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro

destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de

lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as

preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ

das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz,

por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a

area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o

chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado.

O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este

esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou

cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21]

Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que

he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido

granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz

o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra.

A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou

nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz

dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda

cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o

pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua,

em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se

espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por

todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem

envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro,

nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.

145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do

modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o

barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este

methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque

o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito,

e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o

inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras

com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta,

levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está

derretendo.

Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas · 第 3 / 8 段