71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre

huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no

barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle

tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para

lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ

_voguer_.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como

fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando

alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma

camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos,

e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o

volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura

de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ,

as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar

de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra

os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro

maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe

fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos

consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe

todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que

elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar

seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame

de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de

vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem

os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os

ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ

se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas

obras do que para outras.

72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as

caldeirinhas quadradas _F_, _fig. 10_ _est. I_, outras só se fazem na

roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares _K_, _fig. 11_,

que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os

vasos de tres pés, as marmitas _fig. 12_, os escalfadores _fig. 13_, as

caçarolas _fig. 14_, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e

orelhas se põe de fóra á maõ.

73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno;

tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei

alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.

_Do modo de fazer os vasos na roda._

74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente

a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o _torno_. Quasi todos os

oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça

fina vidrada.

75 Descripçaõ da roda de ferro _aa_ _Est. I_, _fig. 5_, he o meio da

roda, que tem a pequena roda _bb_, em alguns lugares se chama _gimble_,

sobre o qual está a obra _cc_, em que se trabalha. No meio _aa_, se

ajuntaõ os raios da roda _dd_, que saõ de ferro. Nesta figura só se

vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios

vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui

representada pela linha _ee_; o meio _aa_, diminue de grossura em _ff_,

e ainda mais em _gg_, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na

figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo _g_, que

fica bem seguro por huma cruz de páo _hh_, e pelas prisões _ii_. Em

primeiro lugar he preciso conceber, que o meio _aa_, a parte _ff_, e o

cylindro pontuado _g_, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo

lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo,

que está no centro do pedaço de páo _g_, no qual póde virar; que este

cylindro pontuado, que tem a parte _ff_ assim como este que nos temos

chamado o _meio aa_, por cima do qual está a pequena roda _bb_, sobre a

qual está a obra _cc_. Aqui se vê, que os raios _dd_, saõ obliquos, de

sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em _aa_; _K_

saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as

bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de

feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que

chamaõ _atelle L_, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o

obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano

perspectivo _fig. 17_.

76 _A_ he o meio da roda: _b_ a pequena roda, que sustenta em si a obra

_c_, na qual se trabalha: _d_, os raios da roda _ee_, cambas da roda: _f_

a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na

_fig. 1_, perto de _g_: _h_ a taboa que esta segura aqui por huma massa

de gesso: _k_ as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de

feita: _l_, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: _m_, taboas

grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe

os pés como se vê _fig. 16_, e _17_; estas especies de assento para os

pés se chamaõ _poiaes_: _n_ saõ as obras já acabadas: _o_, bôlos de barro

para fazer outras obras: _p_, os pilares, ou pés direitos, que sustém as

mesas _k_, _l_.

77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para

se poder ver a roda por baixo: _g_, a parte cylindrica, que entra em hum

buraco fundo feito na peça _g_: _f_, parte cylindrica mais grossa; _aa_,

o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios _d_: _ee_, a camba: _p_ saõ os

encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas _k_,

e o assento _l_: _m_, lugar de pôr os pés.

78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de

ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu

peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como

ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações

a seu respeito.

79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum

movimento circular rapido, com hum páo _a_, _est. II_, _fig. 4_, que se

chama virador. Vê-se nesta _fig. 4_, hum obreiro disposto para pôr a roda

em movimento; está sentado no assento _l_, os pés estaõ nos entalhes dos

lugares de ter os pés _m_; e com huma ponta do virador _a_, toca em hum

raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular,

que ella conserva bem tempo para o obreiro, _fig. 5_, poder formar hum

vaso.

_Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra

fina._

80 Esta roda _a_, _fig. 18_, _est. I_, he de páo, e tem de grosso tres ou

quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento

mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro _b_,

que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da

mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena

_c_, sobre a qual está a obra _d_; o obreiro _h_, estando assentado

hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada _i_, tem muitas vezes

as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo _b_, lhe passa por

detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo

lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na

travessa _g_, da mesa: _f_, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o

pé esquerdo sobre a travessa _g_, apoia o pé direito ligeiramente sobre,

a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular,

que se communica a roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_. Como

esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar

a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou

retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se

naõ póde fazer com a roda de ferro.

81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita

cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a

roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.

82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo _b_, entre as pernas, se

servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a

roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a

facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.

83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita

regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador,

ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a

pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a

roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de

virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça,

estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar

novo movimento.

84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir

o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para

obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de

París já naõ fazem uso da roda de ferro.

_Trabalho do Oleiro sobre a roda._

85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas,

mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo

huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre

o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas

as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a

posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe

a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ _atelli_; elles tem

muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem:

alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas

tambem alguns saõ de páo.

86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu

trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza:

porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo

huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e

se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais

grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo,

mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados;

com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras

obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro

chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir

de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque

estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum

vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se

he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro,

faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos,

etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas

circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que

trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.

87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para

dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei

hum mealheiro _Est. I_, _fig. 19_. Vou explicar como se faz esta pequena

peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e

feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou

pedaços: o que parece difficil de executar.

88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se

quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta

a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie

de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar,

e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter

o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime

com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada

em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente

o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se

introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ

rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro;

finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra,

despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.

89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as

bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo,

he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá

suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou

vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda;

para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira

em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou

outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra

he pequena, ou com hum arame se he grande.

90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem

na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras,

nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.

91 Os vasos communs de flores _n_, _fig. 17_, _est. I_, se fazem

inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do

que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas

com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ

que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para

outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma

borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos

se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se

servem do calibre.

92 Os vasos de despejos _A_, _B_, _D_, _fig. 20_, _est. I_, se fazem por

duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que

pela outra _b_, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe

quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros

_viret_. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta _b_, fica

mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da

roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi

se deixou; acaba-se a ponta _a_, mais larga, que deve receber em si a

ponta _b_, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes

vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo

a respeito dos vasos em dous _E_, _C_, _fig. 20_, ou que se dividem em

dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar,

que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se

fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove

pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em

dous como _E_, _C_, a parte _A_, _B_, que corresponde a huma serie de

tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz

com tubos de maior diametro, e as divisões _E_, _C_, se fazem com tubos

de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ

precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum

pouco _est. II_, _fig. 7_. o que explicarei com brevidade; e tendo posto

o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar _est. II_, _fig. 8_,

com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para

cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde

pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos,

que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ

separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por

isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer

a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se

representou em _A_, _B_, _C_, _D_, _fig. 20_, _est. I_. Começo outra vés

a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda.

93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc.

como _I_, _Est. I_, _fig. 12_, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum

bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro

a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio;

depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo

do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum

botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca.

Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se

aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica

isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro

que está na roda.

94 Os testos de fogareiros, e escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se fazem

pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais

compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da

bocca do escalfador.

_Como se podem formar obras no torno com hum calibre._

95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos,

como o da _fig. 18_. Elle tem huma roda _a_, hum eixo _b_, que tem a

roda pequena, ou prato _c_, sobre o qual está a obra _d_. Está claro

que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar

para diante, ou retirallo da obra _d_, á vontade do obreiro certamente

formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra,

tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só

póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem

ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a

sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por

dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer

uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou

explicar.

_Como se fazem no torno vasos grandes de jardim._

96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com

tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande

_ee_, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os

salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou

cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso _Est. I_, _fig. 21_;

faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo _l_, e outro o testo

_m_, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo,

etc. Vou agora explicar como se faz o corpo _L_, sobre a mesa _B_, _Est.

I_, _fig. 21_. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical

_hh_, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no

meio da mesa _aa_, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum

cachimbo de páo _g_, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada

_bb_, assim he preciso conhecer que o páo vertical _hh_, vira livremente

sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com

firmeza a potencia _ii_, que deve puxar o calibre _ee_, que algumas vezes

forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do

vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com

a maõ, que vai sobre a mesa em _o_, e com a outra maõ tirando o barro,

quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que

as peças de páo quadradas _bb_, assim como a mesa _aa_, devem estar bem

firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que

se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu

barro sobre a mesa _aa_, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra

lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao

vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre _ee_, he o que deve

aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre _ee_, he huma taboa pouco

grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que

o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que

se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo

quadrada _ii_, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este

calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia _ii_,

he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso,

o calibre _ee_, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura

apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o

calibre _ee_, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro

o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi

igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de

mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem

formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça

mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de

páo _g_, e tendo tirado o páo _hh_; como tambem o calibre _ee_, pega-se

no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo _hh_, que o atravessa

em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro

calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve

dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre

a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum

instrumento proprio para isso _Y_, _Est. II_, _fig. 1_, e formar-lhe

aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao

oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o

fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que

vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos

he o mesmo.

_Vasos grandes de barro cozido._

97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado,

vidrados por dentro, que chamaõ _talhas_, _A_, _fig. 20_, _Est. II_,

elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para

evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas

talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que

saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e

com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no

Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi

todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do

Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.

98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos

oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os

vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de

hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em _Campagne_

feitos, em _Saint Fargeau_, vidrados por dentro; os que se vendem em

París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.

99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos

grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de

meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ

sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para

fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins

algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de

conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia

de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr

Desmarais me fez ver no calendario _Limousin_ do anno de 1770 hum artigo,

que julguei dever introduzir aqui.

100 Hum quarto de legoa distante de _Montmoreau_ que fica seis legoas

ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade _Saint Eutrope_, e quasi todos os

habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas

empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados

em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo

de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer

differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e

salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos

grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.

101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil,

que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he

humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum

pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar:

porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos

miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.

Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas · 第 2 / 8 段