ARTE DE LOUCEIRO
OU
TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER
AS LOUÇAS DE BARRO MAIS
GROSSAS,
TRADUZIDO DO FRANCEZ
POR ORDEM
DE
SUA ALTEZA REAL,
O PRINCIPE REGENTE,
NOSSO SENHOR,
POR
JOSE FERREIRA DA SILVA
[Illustration]
LISBOA
NA IMPRESSAÕ REGIA.
ANNO DE 1804.
_Por Ordem Superior._
_Ars dux certior._
Cic.
ARTE DE LOUCEIRO DE BARRO SIMPLES.
INTRODUCÇAÕ.
1 A Arte do Louceiro consiste em fazer vasilhas, e outras obras de
barro, que se embebe em agua para o amolecer, e se amassa e se dá depois
differentes figuras; e se fazem cozer para lhe dar solidez, conforme esta
definiçaõ, o que faz pitos, o louceiro, e os que fazem porcelana saõ
oleiros; porém fazem obras mais perfeitas do que estes de que vamos a
fallar. Assim entende-se por oleiros, os que fazem obras communs, e que
por isso se podem dar baratas.
2 A argilla[1], que se chama tambem terra barrenta, faz a base das
terras de que usaõ os oleiros, e he a proposito dar os caracteres que
a fazem particular destinguindo das outras terras. Para isto a vou
considerar em seu estado de pureza, ainda que he difficil, ou talvez
impossivel obtella sem mistura de differentes substancias estranhas, que
mudando sua natureza; humas vezes a tornaõ mais propria para as obras
de oleiro, e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos consideraveis para
purificar o barro, sem o que seria inutil.[2]
3 A argilla[3] ou barro puro he formada de partes muito finas, que se
unem muito humas ás outras; porque estando amontuadas em massa, e unidas
humas ás outras, cheguando a hum grande gráo de secura, endurecem, de
sorte que hum torraõ de argilla exactamente amassado, e bem secco,
contrahe huma dureza de pedras: por causa das suas partes serem muito
finas, neste estado he susceptivel de tomar certo polimento: he macia, e
saponacea ao toque; e por isso he que se chama a esta _terra gorda_. Ella
atrahe a humidade, o que a faz pegar a lingua se acaso a toca; tambem
se une bem ás substancias gordas; e por isso serve para tirar certas
nodoas.[4]
4 Depois de ter cortado, ou quebrado em molleculas de mediocre tamanho,
se deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega em abundancia; ella
se incha á proporçaõ que se carrega da agua e se póde desfazer huma
pequena quantidade em muita agua. Mas quando se lhe naõ lança bastante
para a reduzir a huma especie de lama, e que se amassa como adiante
explicaremos, he o que se chama _argamassar_, ella se faz glutinosa, e
fórma huma massa muito ductivel, que se póde estender sem a quebrar; de
sorte, que hum habil oleiro chega a fazella tomar differentes figuras; e
quando se usa della em massa alguma cousa mais dura, se póde fazer hum
grande vaso, com pouca grossura sem este se desfazer pelo pezo. Quando a
argilla está assim bem amassada, ou argamassada, de sorte que faça huma
massa firme, naõ he penetravel á agua, em quanto naõ sécca, por isso se
usa della nas argamaças dos tanques, ou pias de conservar agua. Por isto
he que os bancos de argilla que estaõ debaixo da terra formaõ muitas
vezes tanques sobterraneos, dos quaes nascem fontes de agua, algumas
vezes assás boa: porque a argilla, que naõ está exposta ao ar, ao sol, ou
ao vento, conserva sua humidade, ductibilidade, e a propriedade de naõ
ser penetravel a agua.
5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade da argilla para a trabalharem
na roda, e moldes; mas as argillas em seccando, quanto mais puras saõ,
mais encolhem, isto he diminuem muito do seu volume, á medida que a agua
se evapora: e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se e seriaõ inuteis
aos oleiros, se elles naõ tivessem meios de lhe empedir o encolher tanto,
como adiante diremos.
6 A argilla, pura tal, como nós ao presente a consideramos ou detodo,
naõ he atacada pelos acidos, ou muito pouco: digo muito pouco porque
em muitas argillas se pode descobrir o acido vitriolico. Esta argilla
resiste muito á acçaõ do fogo sem se derreter, e por conseguinte cozendo
se adquire huma dureza igual á dos seixos, a ponto de que certas argillas
bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo feridas com aço. Esta propriedade
parece indicar, que hum fogo muito activo as faz tomar hum principio
de defusaõ pois ainda que ella seccando indurece, com tudo naõ chega
ao gráo que lhe dá o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda de natureza
por mais secca que fique; conserva a propriedade de ser penetrada pela
agua, e tornar-se em huma massa ductivel; pelo contrario cozendo-se
muda totalmente de natureza: já entaõ naõ he argilla, he huma argamassa
muito dura, ou huma especie de area impenetravel, á agua e que naõ póde
adquirir alguma ductibilidade com este fluido.
7 Nisto a argilla differe muito das boas argamassas de cal, e arêa, que
endurecem, seccando, mas expondo-se a huma grande calcinaçaõ a perdem. A
dureza da argilla cozida he muito differente, das pedras calcares, ainda
as mais duras, como o marmore, porque estas pedras sendo expostas a hum
grande fogo, e reduzidas a cal perdem sua dureza, que parece depender em
parte da humidade, pois que ellas perdem a sua firmeza, logo que pela
calcinaçaõ, se lhe dissipou toda a humidade, que parece ser a que fórma
a uniaõ das partes; e quando fazendo a argamassa de cal e arêa se lhe
lança a humidade, ella pelo tempo toma huma dureza bem consideravel: pelo
contrario a dureza da boa argilla se augmenta á medida, que se faz passar
por hum grande fogo. A grande violencia do fogo a racha, defórma, e a
reduz a huma especie de vidro imperfeito, mas que conserva sua dureza.
Eis aqui o que me faz pensar, que a dureza da argilla cozida consiste,
em que suas partes adquirem hum principio da fusaõ ou brandura pela
grande acçaõ do fogo, e isto as une humas ás outras, brandura, que se
póde dizer, que as argillas saõ refractarias pella vitrificaçaõ, ou fusaõ
perfeita.
8 Estas observações por mais sucintas, que sejaõ bastaõ para caracterizar
a argilla pura; mas como se naõ encontra sem estar unida ás substancias
estranhas, he mais importante para a arte de que tratamos, fallar das
argillas alliadas ou com mistura, e taes como ellas se achaõ na terra,
pois desta especie he que se usa nas olarias. As obras desta se vendem
muito baratas, e por isso se naõ póde ir buscar longe de casa, como se
faz para as obras preciosas, e porcelanas; he preciso que para ellas se
use de argillas que estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla se acha
em muitos lugares em maior, ou menor profundeza da terra, se acaso se
dá attençaõ ás substancias com que se combina. Ha della muitas especies
differentes: acha-se humas vezes em grandes montes, e outras em bancos
que tem pouca espessura relativamente á sua extensaõ; em fim ella se
destribue algumas vezes pela terra por veias, que se devem seguir; a
especie de argilla naõ he sempre a mesma na continuaçaõ da mesma veia, ou
quando se tira da terra mais superficial, ou mais profunda.
9 A respeito de suas côres ao sahir da terra, he branca, cinzenta,
asulada, tirando a côr da pedra asul _Ardosia_, verde, amarella,
vermelha, e de côr de marmore.
10 Estas differentes côres de argillas só nos podem dar indicios pouco
certos da qualidade das louças que della se fará: com tudo naõ se devem
desprezar; porque estes indicios nos podem guiar a fazer experiencias
para certificar-nos da sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos nós
adiante.
11 Em geral se preferem as argillas brancas, ou escuras ás amarellas,
vermelhas ou verdes, e algumas vezes ás que tem mistura de differentes
côres. Estas côres dependem de huma tintura metálica, sulfurea, ou
bituminosa; por que, como dissemos, no modo de fazer pitos, ha argillas
que augmentaõ á alvura quando se cozem, porque a substancia apparente que
alterava a sua côr era destructivel pelo fogo, e as outras cozendo-se
ficaõ vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi negras. Parece que estas
côres fixas saõ causadas pelas differentes substancias metálicas, que se
dissolvem com os acidos especialmente o vitriolico: porque he preciso que
estas substancias colorantes se reduzaõ em particulas muito subtis, pois
estas argillas de differentes côres parecem muito macias, e impalpaveis
entre os dedos, e homogenias quando as cortaõ. As substancias tenues de
que acabamos de fallar, raras vezes alteraõ os barros communs, de que ao
presente fallamos. Digo raras vezes, porque algumas vezes as podem tornar
fussiveis: o que em alguns casos he grande defeito. Outras vezes lançaõ
vapores que fazem mal ao verniz, ou vidrado com que se cobrem: disto
fallarei em outra occasiaõ.
12 Segundo a qualidade dos barros, e uso que delles se faz chamaõ-se
barro de tijollos, de ladrilhos, de panellas, de cadinhos, e pitos.
13 Muitas vezes os oleiros se servem de argillas, que tem substancias
heterogeneas mais sensiveis, como a _mica_,[5] _pyrites_[6] terras
calcareas[7] arêas de differentes naturezas, e fragmentos de diversas
qualidades da mina.
14 Naõ fallo aqui destas substancias, que se achaõ em grandes pedaços,
e que os oleiros apanhando-as, quando amassaõ o barro, as lançaõ fóra;
mas das que se achaõ em molleculas assás grossas, e que se persente
nos dedos, e se vê quando se corta hum pedaço de barro, com tudo
insufficientes para se tirar a maõ todas estas materias de qualquer
natureza, que sejaõ, prejudicaõ mais, ou menos a louça, quando seu volume
he hum um pouco consideravel, porque naõ se podem fazer obras asseadas,
e nem a superficie fica lisa. He verdade que desfazendo esta argilla
em muita agua, e passando-a para outro vazo depois de precipitadas as
substancias mais pezadas, se tiraõ argillas quasi isentas de partes
heterogeneas, e que serveriaõ para obras mais delicadas; mas esta
preparaçaõ do barro que se póde empregar em obras de louça fina requer
muitas manobras, quando se está fazendo louça grossa; e assim dos
barros areentos só se usa para fazer tijollos ou telha; para a louça se
escolhem veias de barro mais puro, e isento de huma mistura grosseira,
ou de natureza, que altere a bondade da louça. Vem a proposito entrar em
algumas individuações a este respeito, porque principalmente da natureza
destas misturas resulta a differente qualidade dos barros; e o oleiro que
se estabelece em hum lugar, deve procurar todos os meios de conhecer a
natureza do barro, de que se deve servir, sem se arriscar a perder muitas
fornadas, e arruinar-se.
15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he
ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar,
e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos
contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para
as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em
agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a
natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ
misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos
tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes
a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois
passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que
segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e
assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados
para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque
destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das
argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da
lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe
daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas
saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr.
Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito
dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com
a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito
nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior
tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade,
inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na
superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia
eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias
calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com
substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça.
He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas
naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte
se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias
vitrificaveis.
16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao
cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou
quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com
difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o
mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz
das louças que estaõ visinhas.
17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o
encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ
proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos
que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a
quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande
fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com
tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a
todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os
saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde
conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado
de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande
quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria
muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que
pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em
muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que
precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ
muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a
louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa
corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por
muito magro.
18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla
fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel
sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas
fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ
poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o
encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem
fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis
communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz.
19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com
facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a
vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito
communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem
pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis.
20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas
se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido
muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e
conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á
natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e
do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito
cuidado.
21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda,
commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem
á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado,
quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito,
he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que
saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira.
Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria,
e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido
commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o
que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em
muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga
de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da
arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte
da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao
fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse
á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que
naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a
porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças
communs.
22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla
macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ
muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que
argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na
ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta
conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ
com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as
empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo
ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que
saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito,
cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando
a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ
devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros,
alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis
ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes
de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os
vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro;
mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he
preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e
deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho.
23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se
servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a
differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de
Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que
saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ
brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á
natureza da porcelana.
24 Do que acabamos de dizer, se vê que hum oleiro, quando julga ter
adquirido os conhecimentos necessarios sobre a natureza do barro, de que
se deve servir, naõ está ainda no ponto de poder fazer indagações; porque
há barros, que, só podem admittir hum mediocre cozimento: outros, que
saõ os melhores, requerem ser cosidos em hum grande fogo. Para adquirir
estes conhecimentos, o oleiro deve fazer as primeiras fornadas com muita
attençaõ, e examinar o estado das obras, para se conduzirem melhor nas
fornadas seguintes. Mas quando o oleiro se estabelece em hum lugar,
aonde se costuma trabalhar em certos barros, está dispensado de fazer
as experiencias de que acabamos de fallar, aproveitando-se das que tem
feito, os que usaõ de trabalhar nelles.
25 Nas bordas do bosque de Orleans, ha hum lugar, que se chama _Nibelle_,
onde ha muitos oleiros, que fazem vasos de huma argilla bem pura, que
cozendo-se fica preta, e naõ podem ir ao fogo. Esta louça he de hum
tecido muito fechado: e assim para os utensis de cozinha misturaõ hum
barro branco, e magro com esta argilla; mas a agua trespassaria estas
louças se naõ fossem envernizadas.
26 O trabalho dos oleiros he pouco mais, ou menos, o mesmo em todas
as Provincias, onde se trabalha em barro. E assim vou explicar com
individuaçaõ a pratica dos oleiros de París, e quando houver occasiaõ
farei notar em que elles differem de outras partes.
ARTIGO I.
_Trabalho da louça, segundo o uso de París._
27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, de _Gentillis_, ou _Areueil_
os que o cavaõ, seguindo as veias do barro bom, o tiraõ em pedaços quasi
cubicos, e vai para casa dos oleiros em carros, como vem o cascalho, ou
pedras.
28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no em covas, onde fica mais, ou
menos tempo para _invernar ou apodrecer_, como se diz em outros lugares;
de sorte, que o barro, que foi cavado no Outono, fica na cova todo o
Inverno, e he tanto mais facil de trabalhar, quanto mais tempo está na
cova. Em alguns lugares, os oleiros deixaõ ao ar o seu barro, e o movem
com enxadas todo o Inverno, por este meio o fazem mais ductivel.
29 Este he o mesmo barro que serve para fazer ladrilhos, e obras
de louça. Com tudo elle he mais preto, ou mais branco, conforme a
profundeza, de que foi tirado: há alguns, que vem misturados com estas
duas côres, e este se julga hum pouco melhor que os outros, porém todos
se gastaõ sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. Começo agora a
explicar o que respeita aos ladrilhos.
ARTIGO II.
_Dos ladrilhos, e modo de amassar o barro, com que elles se fazem._
30 Quando se tiraõ da cova pedaços grandes de barro, he preciso cortallos
em pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso se põe huma taboa _A_
_fig. 1_, _est. I_, sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim huma
pequena celha _B_ sem fundo em huma ponta: lança-se nesta pequena celha
seis baldes de agua com pouca differença, depois se põe hum bôlo de barro
sobre a taboa _A_, que dissemos se punha sobre a ponta sem fundo da celha
_B_. O oleiro corta em pequenos pedaços este bôlo de barro com huma faca
de dous cabos _D_ _fig. 2_; e logo que vai cortando o barro o vai lançando
na agua da celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, na manhã
seguinte está bem brando, para se poder trabalhar; porque bastaõ oito
horas para ficar sufficiente para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.
31 As aparas das obras, que ainda naõ foraõ cozidas, se misturaõ com o
barro novo; este barro das aparas, que já tem a liga da arêa, e já foi
posto em camada amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro
novo.
32 O barro, de que usaõ os oleiros de París, ou venha de _Areueil_, ou
_Gentillis_ he muito gordo, e por isso naõ póde servir sem liga: he
preciso ligallo com arêa para diminuir-lhe a força, e fazello assim
encolher menos. Talvez seria mais expediente, e mais economico trabalhar
o barro com a máquina representada na arte de fazer os pitos; mas segundo
o uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando o barro com os pés. Para
isto, os oleiros de París, costumaõ misturar duas celhas de barro novo,
huma de aparas, se as há, e cinco cestos de arêa: diminuindo-se a arêa,
ficaõ mais duros os ladrilhos; porém custaõ mais a trabalhar. Seja como
for, os barros de _Belleville e Areueil_ ambos saõ bons, e finos, tem
poucos seixos; sua côr tira a amarella.[8]
33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda
aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum
cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com
a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro
das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa
em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo,
põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de
barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum
bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante
se dirá.
34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas,
e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto,
como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua
postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque
o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se
firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo
o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o
mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada
passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro;
onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior
parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e
separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços
este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por
causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte.
Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma
coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta
as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como
fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o
do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle
o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira,
e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes,
para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em
termos de servir, como vamos explicar.
35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso
precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em
termos de servir.
36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente
por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla
com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os
oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de
lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e
se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os
differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado:
nos lugares brilhantes está a argilla mais pura.
_Como se moldaõ os ladrilhos._
37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer
tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem
de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os
distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados
mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a
figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que
chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior _fig. 3_,
os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ;
elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ
para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos
ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o
barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos
de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais.
38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o
tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ
de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e
comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o
molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro,
que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado
regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos.
Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém
fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares,
quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se
fazem senaõ quadrados, ou de seis panos _fig. 3_, e tambem alguns meios
tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas.
Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo
tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles;
se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso
encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ.
39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro
ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum
ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o
ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos
pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em
algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes
côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr
pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos
simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer
figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os
oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces.
40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este
molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que
devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque
ficaõ mais delgados quando se batem.
41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa _a b_, _est.
I_, _fig. 4_, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta
taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo _g_, de tres ou
quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares
se chama _urquain_ na ponta deste pedaço de páo _dd_ está posto hum vaso
cheio de agua _ee_, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ
plaina _ff_ e por diante está o caixilho, ou molde _gg_. Alguns põe da
parte esquerda do moldador hum bôlo de barro _h_, destinado para encher o
molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina _ff_. Outros
tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro _H_, que está
sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de
arêa _i_, e se deve ter sobre a meza hum lugar _k_, para se porem as
obras já moldadas.
42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado
de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo _g_ _fig. 4_,
põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro
comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser
mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem
cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina _ff_ _fig. 4_;
molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente
por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que
deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e
mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as
outras _k_ _fig. 4_, e como este barro he amassado duro, se póde passar
de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa,
que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre
que se põe.
43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que
se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas
de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e
seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ
molhar.
44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a
parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima.
45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum
banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso.
Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas,
aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o
oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como
o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ,
se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente
pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer
as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto
baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar
abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se
communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já
bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do
que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro
partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede,
defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco
secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro
posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro _est. I_, _fig.
5_, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente
do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello
curvo _fig. 6_, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros
chamaõ _molde_.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia.
As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o
barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da
maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem
bem seccos.
46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse
quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada
hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença
porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os
ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por
moldes, como os pequenos.
47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem
seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em
parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.
48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz
como vamos a explicar.
_Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem._
49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se
servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o
que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades
de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente
para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois
fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de _Saint
Antoine_ para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que
estaõ mais em uso nos arrabaldes de _S. Marceau_; elles vem representados
na _est. I_, _fig. 7_, _8_, _9_. A _fig. 7_ representa o plano do forno;
a _fig. 8_ he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha _A_,
_C_; e a _fig._ 9 he huma divisaõ transversal pela linha _G_, _H_, da
_fig. 7_: _A_ he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se
põe madeira para esquentar o forno, como se vê de _A_, até _B_, _fig.
7_, e _8_; de _B_, até _C_, he a capacidade interior do forno, aonde se
arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; _C_, _D_, _fig. 8_,
he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do
interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo
perto do pavimento do forno em _C_, he preciso, que a corrente de ar,
que entra pela boca _A_, passe ao tubo _D_, pelos buracos _C_. Deste
modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de _M_, _fig. 8_;
o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama
_Lingueta_,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em _C_, e tornar ao
tubo _C_, _D_. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se
distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais
estreito na sua entrada _K_, _I_, _fig. 7_, do que no fundo, os lados em
_G_, _H_ naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia;
arrumando lenha nos dous lados, como se vê na _fig. 7_, e como adiante
explicaremos. _F_, _fig. 7_, he huma porta, por onde se entra no forno
para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e
se accende o fogo.
50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em
_I_, _H_, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa
entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros _crenaux_[12],
para que o calor do fornete _A B_. se communique o forno. Esta separaçaõ,
recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se _la fausse-tire_, a qual
se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que
dure o mais que for possivel.
51 Como a parte de diante do forno está tapada em _I_, _K_, pela
_fausse-tire_[13] he preciso carregallo pela abertura _F_, e começa-se,
formando as tres primeiras ordens da parte da _fausse-tire_, para isto
se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte,
como se vê em a _fig. 8_, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro
pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo
da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do
ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se
arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na _fig.
7_, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho,
e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos
ladrilhos da ordem inferior.
52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos
ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas
de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos
de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos
lados as achas de lenha, como se vê _fig. 7_, e além de huma ordem de
achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê _fig. 7_, segundo a linha
de _G_, e _H_, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos
de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas,
ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as
paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede
do fundo do forno, que se chama _Lingueta_. Quando as achas de lenha,
que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda
do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos
maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura _F_,
_fig. 10_; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de
fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos;
porém por naõ fechar a entrada _F_, se começa, enchendo primeiro o lado
opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura _L_, que se fecha
por huma parede de tijollos, como já dissemos.
53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de _K_,
a _L_, e sete de _K_, a _I_, para cozer os ladrilhos se gasta carga,
e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a
tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha
_A_, _B_, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros _la
chasse_.[15]
54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he
preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos,
que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he
preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se
apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade
sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer,
talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.
55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre
_A_, e _B_, _fig. 7_, e _8_; isto se continúa trinta e seis horas, para
que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe
resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no
forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois
se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca,
e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos
lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem
para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na
fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando
pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.
ARTIGO III.
_Das obras de ladrilho._
56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro,
he preciso fallar aqui dellas.
57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com
elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa,
betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo
aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando
os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ
encolher tanto o barro.
58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de
agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho
atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se
torna quasi em arêa pura.
59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ
fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que
se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em
uso.
60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o
gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas
obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou
misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas,
e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar
pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar
alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter
acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a
ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os
ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle
naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche
o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ
pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade
sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ
elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ
se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao
barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum
ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa
boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como
se fôra o gesso vivo.
61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava
ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender
com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os
ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me
pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos;
e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e
ferrugem com facilidade.
62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem
o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou
betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ
_gâchis_,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se
demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus
ladrilhos.
63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem
assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel,
e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou
tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte,
e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está
prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe
dar alguma consistencia.
64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso
puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se
assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado
o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o
peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que
sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder
dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo.
65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se
passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo
batido tome alguma firmeza.
66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como
os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura;
recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar
sobre as vigas.
67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento
preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da
peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos,
examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem
he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos
feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem
direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo
se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma
cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda
na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a
curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como
esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que
estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela
naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos
angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra
dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas
obliquas.
68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento
por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou
argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique
a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma
extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os
pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos
ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres
e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta
régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre
todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da
régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas
pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça.
Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o
ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e
põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os
ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por
cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima
se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e
assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar
carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ
sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio.
69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos,
postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura,
que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os
ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que
se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas,
e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ.
Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar,
por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de
alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe
dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os
ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por
muitos modos.[17]
ARTIGO IV.
_Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro,
que serve para fazer os ladrilhos._
70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo
barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla
he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros
chamaõ bom barro; tira-se de _Arcueil_, e de _Vanvres_, como para o
ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os
ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar
mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.