Chins, habitantes do _Celeste Imperio_ ou _Imperio do Meio_. Até ao
seculo XXII antes de Christo os imperadores eram electivos; d'aquella
epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão,
modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher
entre os filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de
succeder-lhe).
O imperador Yu foi fundador da dynastia dos _Hia_, que durou quatro
seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz
tyrannia. A segunda dynastia, a dos _Chang_, foi fundada por um principe
de merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e
veio a acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um
tyranno abominavel, desthronado por Wu-Wang, principe de _Tehéu_, que
contra elle se revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo
«tribunal da historia», cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes
assegurava a independencia. Durante esta dynastia os reinos feudatarios
da China, que já desde antiga data existiam, augmentaram até ao numero
de 125, e na China constituiu-se um verdadeiro feudalismo. Este, porêm,
acabou em perfeita anarchia; o imperador chegou a absoluta impotencia, e
um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao céu (prerogativa
exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo imperador
d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos _Thsin_ que, destruindo
todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio o
grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella
transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e,
para impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a
_grande muralha_, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se
porêm, tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo
incendio dos livros. Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do
seu reinado e pretendeu assim apagar os vestigios do passado. Não poude,
felizmente, matar todos os sabios, nem destruir todos os livros. A
monarchia chineza, que n'aquella data foi perturbada por tão violento e
insensato reformador, voltou depois á sua tradicional quietação; os
sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz augmentou
consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de
dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões dos
Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram causa da divisão da
China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes houve
differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang
tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu
robustecer o imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás
repetidas Invasões mongolicas. Estas invasões continuaram durante a
Edade-Média, e são já estranhas ao assumpto do presente livrinho.
É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas,
apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que
por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas
d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua
fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem
conservado a respeito do resto do mundo.
A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é
simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um
extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de
castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido
principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.
Confucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como
que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem
que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e
para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem
teve auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na
práctica das doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio
politico e religioso na China.
Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna
sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das
relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e
entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes
capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com
todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a
cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a
conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de
que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e
participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão,
ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a
verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou alheio; a
sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a
dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).
Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o
principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam.
Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações
seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do
homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que
Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.
CAPITULO X
OS GREGOS
Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região
constituida por uma pequena porção de territorio do continente europeu,
e pela peninsula que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo
continente, entre o mar Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado
Archipelago) ao oriente. Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas
que ha nas proximidades d'aquella região. As diversas populações que na
Grecia vieram a ter importancia historica derivaram-se todas da raça
aryana, da qual constituiam um grupo especial (o hellenico). Este grupo,
pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, constitue um dos
mais nobres da historia, e formou uma individualidade distinctissima
atravez dos seculos.
Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros
habitadores da Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros
povoaram com suas tribus a Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram
n'estes paizes os primeiros fundamentos da civilização, e por toda a
parte deixaram nos seus monumentos provas eternas da sua actividade e
das suas poderosas aptidões. Desappareceram, porêm, sem que sobre o seu
destino ulterior haja tradição segura.
Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas
tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa
trazer-lhe os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura.
Foi assim que Cecrops, oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica,
reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas
veio a ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis
do casamento e instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os
pleitos. Do mesmo modo na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio
e edificou Cadméa, emtorno da qual se elevou mais tarde a cidade de
Thebas. Dano introduziu em Argos algumas das artes do Egypto; e Pelops,
phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua raça se espalhou por toda
a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento dominante d'aquella
epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, sua primeira
habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, á
custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.
Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens
de grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos
salteadores, dos oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua
vida a combater todos os flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos
agradecidos as honras de semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua
força e das suas vantagens pessoaes. Entre outros foram notaveis
Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas tradições poeticas: os Argonautas
e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em busca do _vellocino de
oiro_; os septe chefes que foram cercar Thebas, infamada pelos crimes de
Oedipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio Minos; etc.
Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a
capital de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o
ultimo resto do dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo
(rei de Troya), fez uma viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou
para a sua patria Helena, mulher de Meneláu (rei de Esparta ou
Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais Gregos aos Troyanos,
estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por aquelles declarada
a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta expedição,
levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este principe
iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu,
Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já
muito avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos
não houve batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e
habilitada a continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta
de Heitor, que a commandava e que morreu ás mãos de Achilles. Os
Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando
no campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os
Troyanos recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal
occultavam-se os mais bravos d'entre os Gregos, que assim se
introduziram na cidade, cujas portas abriram ao resto do exercito. Desse
modo cahiu Troya, sendo Priamo assassinado ao pé dos altares. Os
principes gregos que não haviam morrido na lucta, voltaram a caminho da
sua patria; mas grandes infelicidades os esperavam. Uns morreram na
viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo desviados do caminho
por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem aos seus
paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram
victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação
em regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.
Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi
impossivel apurar-se a verdade.
Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados
por dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e
transferiram a preponderancia para as mãos de novos povos. Estas
revoluções, e outras que mais tarde houve, deram logar a varias
correntes de emigração; e ao longo das costas da Asia Menor, da Africa,
da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, que cresceu e
prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. Foi assim
que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na
Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia);
e em Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em
contacto com as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução
civilizadora, de que Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.
Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da
divisão da Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica
conservou a sua unidade nacional, pela communidade da lingua e da
religião, pela celebridade de alguns oraculos (o de Delphos
principalmente, ao qual concorria gente de todos os pontos do mundo
grego), e por algumas instituições geraes que conservavam estreitos os
laços moraes das populações entre si.
Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o
apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A
viuva do rei Polydecto, seu irmão, offereceu-lhe com a sua mão de
esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho
Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se
mostrassem contra elle irritados pela sabia administração que usára como
regente, durante a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou
por muito tempo, estudando a legislação dos outros povos e voltando a
Lacedemonia, depois de uma ausencia de dezoito annos, com o intento de
fazer adoptar reformas importantes nas leis do reino. A pythonisa de
Delphos apoiou com a sua auctoridade religiosa as reformas propostas; e
os Espartanos, fatigados das suas dissenções intestinas, que laceravam o
estado, acolheram-n'as favoravelmente.
As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre
os Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo
subjugado. Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas
soberanas; os do senado, composto de varões de edade superior a sessenta
annos; os da assembléa geral, que podia acceitar ou regeitar as
propostas feitas pelo senado ou pelos reis; enfim, os dos _ephoros_,
magistrados annuaes, que administravam a justiça. As suas leis civis são
muito mais notaveis e de muito maior alcance; e tiveram por fim
estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a tal fim,
dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e
9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos,
Lycurgo prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as
refeições publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos
Espartanos o commercio e a cultura das artes e das lettras,
sujeitando-os todos a eguaes exercicios physicos, com a mira de formar
cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao mesmo fim era dirigida a
educação das creanças, que mais pertenciam ao estado do que á familia; a
creança que nascia disforme, matavam-n'a.
Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e
robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e
imprehendeu a do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com
a qual teve duas guerras, (uma que durou vinte annos e a outra
dezesepte). As victorias n'estas luctas alcançadas deram grande nomeada
aos Espartanos, que no seculo VI antes da era christan eram considerados
como o primeiro povo da Grecia.
Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua
organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a
repetidas perturbações. A grande desegualdade dos haveres tinha dado
origem á formação de duas classes: a dos _eupatridas_, ou senhores das
terras, e a dos _thetas_, ou servos que as cultivavam. Além d'estas duas
havia ainda a dos escravos propriamente ditos.
A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se
uma nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu,
disputaram entre si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre
muito ciosos da sua liberdade, aproveitaram este ensejo para a
reivindicarem completamente; declararam que depois de Codro não havia
ninguem digno do titulo de rei e puzeram á testa da republica um
primeiro magistrado a que deram o nome de _archonte_, e cuja auctoridade
era muito limitada. Durante mais de tres seculos foi esta magistratura
vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo tornou-se electiva, e as
funcções de _archonte_ foram limitadas a dez annos. Mais tarde ainda, o
poder foi distribuido por nove _archontes_, cujo mandato durava um anno.
D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de partidos, rivalidades e
desordens.
Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que
fossem superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as
formular Dracon, homem de virtudes austeras e que gosava da estima
geral. Dracon apresentou um codigo de leis de tal severidade, que
revoltaram os espiritos mais exigentes e que não puderam ser executadas.
Como novas dissenções puzeram em novo perigo o estado, recorreu-se a
Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem foi dada a
missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição fundada
em principios racionaes e estaveis.
Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um.
Os cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer
cargos publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos
a votar nas assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros.
Decretou a pena de morte contra todo o _archonte_ que se embriagasse, e
declarou excluido da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de
vida depravada. Estabeleceu que os _archontes_ se informassem da
occupação de todos os cidadãos e que declarassem infames os que
persistissem na ociosidade, depois de por ella terem soffrido tres
condemnações. Decretou que o estado sustentasse até á edade de vinte
annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no serviço da patria.
Das leis draconianas apenas conservou as que eram dirigidas contra
os assassinos. Não fez lei penal contra o parricidio, porque não julgou
possivel que tal crime se commettesse em Athenas. Para tornar duravel a
sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de madeira, e depois sahiu
de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria das antigas
nações do Oriente.
Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos
tinham re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia
de Pisistrato, o qual, sem abolir a constituição, exercia tal
influencia, que dominava todos os magistrados. Pisistrato duas vezes foi
expulso do poder e de Athenas; mas duas vezes conseguiu recuperar o
governo, que por fim conservou até á morte. Depois d'esta succederam-lhe
seus dois filhos Hipparco e Hippias, que governaram conjunctamente; mas
em seguida houve novas e continuadas dissensões, até ao tempo de
Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas de
Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu
poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o
producto das minas de prata de Laurion.
Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes,
que salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e
Xerxes, de que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.
Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo
que se lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e
excellentes estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo
irrequieto e o seu espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os
ardores que podiam ser prejudiciaes á causa publica, para só dar livre
curso a todas as tendencias conducentes ao ingrandecimento da patria e á
sua victoria contra os ataques dos inimigos.
Por esta epocha appareceu Pericles--homem de tal merito, que deu o seu
nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da
civilização do mundo.
Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais
notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido
em todos os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto
nascimento destinado a ser chefe do partido aristocratico, que no começo
da vida d'elle tinha a maior influencia em Athenas, esposou a causa do
povo, fazendo-se chefe do partido democratico. Fez reformas profundas,
em que cerceou as attribuições dos altos poderes do estado em beneficio
do povo. Em virtude d'essas reformas, todas as funcções publicas,
ainda as mais elevadas, ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais
humildes, contanto que a sorte ou a eleição a ellas os chamassem.
Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado
vasto, para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu
numerosas colonias que não formaram, como as anteriores, cidades
independentes da metropole, mas sim fortalezas e estabelecimentos
militares que mantinham na sujeição a Athenas os paizes onde existiam.
Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas;
cuidou tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens
eminentes que então havia na raça hellenica, os quaes todos para lá
concorreram, como para a capital da intelligencia. Celebravam-se alli
festas esplendidas, que attrahiam enorme concurso de todas as povoações
gregas.
Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que
o mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então
alli brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos
conhecidos; Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel;
Aristophanes, o maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais
illustre dos seus artistas; Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios,
pintores bastante celebres; Anaxagoras e Socrates, philosophos
notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos de primeira ordem vieram
Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. Athenas teve por
aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», como lhe
chamaram, mas tambem a mestra do mundo.
Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á
frente de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de
proseguir na guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado
de combater, havia ella acceitado os seus tributos em vez de
contingentes militares e continuára por si só a sustentar a lucta, no
interesse commum. Depois da guerra, continuou a cobrar os mesmos
tributos, pretextando que precisava estar prompta para impedir uma nova
invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro estar a pagar
para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. As suas
queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as
suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias
de Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse
ás das cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A
principio houve só hostilidades parciaes; mas mais tarde tornou-se
geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses)
pelos Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela
designação de «guerra do Peloponeso».
Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para
outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que
tem o seu nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que
contava com a guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á
Sicilia, que teria sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio,
não fosse privado do commando do exercito. Alcibiades retirou-se então
para Esparta, d'onde dirigiu duros golpes contra a sua patria. Os
Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, em resultado da pouca energia
de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da esquadra e do exercito
atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos e os soldados
reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para Athenas.
Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram
vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em
Athenas rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a
um conselho superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e
a uma reunião de 5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa
do povo; mas pouco depois um exercito que operava em Samos fez uma
contra-revolução, restabelecendo o governo democratico e acclamando
Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com a sua vinda
restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas
batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como
no mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram,
porêm, o resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da
vitalidade de Athenas.