de ter conquistado a Judéa, a Phenicia e diversos outros paizes,
concebeu o plano de submetter ao seu dominio as cidades livres da Grecia
asiatica, Lampsaco, Smyrna e outras. Pediram estas cidades soccorro aos
Romanos, e estes inviaram embaixadores a Antiocho, convidando-o a que
deixasse aquellas cidades em paz e a que restituisse a Ptolomeu
Philadelpho o territorio que por conquista lhe tinha tirado. Antiocho
respondeu, declarando guerra aos Romanos. Seguiu-se uma lucta em que
aquelle rei foi vencido por Scipião o _Asiatico_, que só lhe
concedeu a paz depois d'elle haver dado satisfacção aos Romanos. Mais
tarde Antiocho Epiphanes usurpou a Demetrio o throno da Syria; teve
varias guerras com os extrangeiros e tomou Jerusalem. N'aquella cidade
mandou matar grande numero de habitantes, roubou os vasos sagrados do
templo; e, voltando á Syria, deixou a Judéa governada, em seu nome, por
seus generaes, que exerceram muitas perseguições contra os Judeus.
Ordenou por uma lei que todos os povos sujeitos ao seu imperio usassem
as mesmas superstições gentilicas seguidas n'este; e, depois de ter
profanado o templo de Jerusalem, mandou n'elle collocar uma estatua de
Jupiter Olympico. Por medo das perseguições, muitos Judeus abandonaram o
culto do verdadeiro Deus e lançaram-se no seio da idolatria; outros,
fieis ás suas crenças e ás suas leis, soffreram por isso tormentos
crueis. Alguns d'estes tornaram-se muito notaveis, pela sua corajosa
resistencia ás ordens do conquistador, e pelo valor com que soffreram o
martyrio. O velho Eleazar, varão de mais de 90 annos, foi apresentado em
Antiochia ao rei Antiocho, como réu de observar a lei moysayca e de não
querer sacrificar aos falsos deuses. Não sendo possivel obrigál-o a
comer das carnes prohibidas nem a fingir que o fazia, foi cruelmente
martyrizado. Septe irmãos, conhecidos pelo nome de «Irmãos Machabeus»,
juntamente com sua mãe, que os exhortava á perseverança na lei e na fé,
soffreram os mais atrozes supplicios até expirarem, desprezando as
promessas e as ameaças com que o rei os queria vencer.
Mathatias (sacerdote da tribu de Levi), sendo já de edade muito
avançada, matou a um israelita que na sua presença, obedecendo ás ordens
de um soldado de Antiocho, ia para Sacrificar aos falsos deuses, e em
seguida matou tambem o mesmo soldado. Feito isto, retirou-se com seus
cinco filhos Judas Machabeu, João, Simão, Eleazar e Jonathas; e,
juntando os Judeus que ainda seguiam o verdadeiro Deus, foi
restabelecendo por toda a parte o verdadeiro culto e derrubando os
altares e estatuas dos falsos deuses. Cahindo doente, recommendou á hora
da morte aos filhos que com as armas defendessem a patria e a religião
contra os tyrannos. Judas Machabeu tomou logo o commando das tropas; e,
com grande valor, foi lançando fóra da Judéa os Syrios. Venceu varios
generaes de Antiocho em differentes batalhas, e reparou e purificou o
templo de Jerusalem. Morreu entretanto Antiocho; e, ainda depois d'isso,
Judas Machabeu proseguiu na guerra contra os Syrios, dos quaes libertou
completamente a Judéa.
O ultimo rei da Syria foi Antiocho II. No seu tempo, o reino da
Syria, que tinha durado por 238 annos, cahiu em poder de Roma, da qual
ficou sendo uma provincia.
CAPITULO VII
OS PERSAS
É extremamente obscura e confusa a historia dos Persas anterior a Cyro,
que viveu no seculo VI antes da era christan. Está intimamente ligada á
dos Médos.
Cyro era filho de Cambyses, rei da Persia, tributario dos Médos, de cujo
rei Cyaxaro II era sobrinho.
Pela morte de Cambyses e Cyaxaro, Cyro succedeu-lhes nos governos e
reuniu o obscuro reino da Persia ao da Média. Sob o seu governo, foi a
Persia um grande imperio, ao qual estiveram sujeitos a Grande Asia, a
Asia Menor, a Syria e a Arabia.
A Cyro succedeu seu filho, tambem chamado Cambyses. Sob o mando d'este
soberano ainda mais cresceu o poderio da Persia, que se accrescentou com
a conquista do Egypto. A causa da guerra entre as duas nações foi
Cambyses ter pedido a Amasis (rei do Egypto) sua filha em casamento, e
este, inganando-o, ter-lhe inviado, em vez d'ella, a filha de Apriés.
Para tirar vingança de tal affronta, Cambyses introu no Egypto,
incontrou-se perto de Pelma com o exercito egypcio, commandado por
Psammenito (filho e successor de Amasis), batteu-o e desbaratou-o.
Depois apoderou-se de Memphis e de Sais; e em seguida imprehendeu a
conquista da Ethiopia. Para isso seguiu o curso do Nilo até Thebas, e
d'alli destacou 50:000 homens do seu exercito para irem combater os
Ammonitas e queimar o templo de Jupiter; mas aquella gente, tres dias
depois da sahida de Thebas, ficou toda sepultada nas areias do deserto,
levantadas e revoltas por um tremendo furacão. Tambem Cambyses se viu
impedido de continuar a sua marcha sobre a Ethiopia, por haver perdido,
em resultado do calor e de privações de todo o genero, as tres quartas
partes do seu exercito e por ter depois soffrido uma horrivel fome,
durante a qual os soldados se devoravam uns aos outros.
Cambyses no principio mostrára-se no Egypto com disposições para usar de
uma politica de conciliação para com os vencidos, chegando a adoptar
os titulos e os trajos dos antigos Pharaós, e fazendo-se iniciar nos
mysterios de Osiris. Porém, depois do mallogro das suas tentativas
contra a Ethiopia e contra os Ammonitas, mudou completamente de systema
e mostrou-se animado de grande intolerancia e ferocidade. Saqueou e
incendiou as cidades e os templos; mandou assassinar os sacerdotes do
boi Apis, o qual por sua propria mão apunhalou; destruiu por toda a
parte as imagens dos deuses; e por fim sahiu do Egypto para se recolher
á Persia. Quando chegou á Syria, rebentou a revolta do falso Smerdis, um
impostor que se inculcava como o irmão de Cambyses (que este assassinára
logo nos primeiros tempos do seu reinado). Apressou-se em ir desmascarar
o rebelde que usurpava o nome de seu irmão, que elle sabia estar morto;
mas, ferindo-se n'uma perna ao montar a cavallo, d'esse ferimento lhe
resultou a morte, succedida logo depois da intrada na Persia.
Herodoto e outros historiadores pintam este Cambyses como um monstro de
ferocidade, e contam d'elle varios feitos atrozes, como o de ter
assassinado com um ponta-pé dado no ventre a sua irman Meroé (com quem
tinha casado, conforme ao uso da Persia, e que d'elle estava gravida).
Morto Cambyses, succedeu-lhe no throno o falso Smerdis, que continuou a
fazer-se passar por seu irmão, e que era simplesmente o irmão de um
mago, a quem estava incumbida a administração do palacio real. Conseguiu
reinar oito mezes; mas, passados elles, septe dos mais poderosos chefes
persas urdiram uma conspiração, desmascararam-n'o, deram-lhe a morte, e
acclamaram rei o mais illustre entre elles (Dario, filho de Hystapes).
No reinado de Dario os Babylonios revoltaram-se, e foram reduzidos á
obediencia pelo estratagema de um official persa chamado Zopiro que,
havendo mutilado voluntariamente o rosto, foi persuadir os Babylonios de
que tinha sido victima da crueldade de Dario. Admittido na cidade, abriu
as portas ao exercito persa. Dario intentou depois subjugar os Gregos;
inviando contra elles um numeroso exercito, commandado por seu genro
Mardonio, exercito que foi desbaratado por Milciades na planicie de
Marathona. Quando Dario tinha apparelhado novo exercito e se dispunha
para segunda expedição, foi surprehendido pela morte.
Seu filho Xerxes, que lhe succedeu, poz-se á frente d'aquelle numeroso
exercito, cuja força alguns historiadores elevam a 1.700:000 homens, e
de uma esquadra de 1:200 navios, dirigiu-se a atacar a Grecia para
vingar a derrota de seu pae em Marathona; mas foi completamente
derrotado na batalha de Salamina, e teve que tornar a passar o
Hellesponto. No anno seguinte, novo exercito, commandado por Mardonio e
inviado com egual intento contra a Grecia, foi desfeito junto de Platéa
por Pausanias (general da Lacedemonia), e por Aristides. Xerxes veio a
morrer assassinado, no vigessimo anno de governo, por Artabano (capitão
da sua guarda). Succedeu-lhe seu filho Artaxerxes que, constrangido por
Cimon (filho de Milciades), que o venceu perto de Chypre, teve que dar a
liberdade aos Gregos da Asia.
Depois d'elle reinou Dario II, que se alliou com Sparta contra Athenas;
e a este succedeu Artaxerxes Mnemon, cujo irmão, Cyro o _Moço_, se
revoltou contra elle, com o concurso de tropas gregas, terminando a
revolta pela batalha de Cunaxa, em que aquelle principe foi morto, facto
a que se seguiu a celebre «retirada dos dez mil» picturescamente
descripta pelo historiador Xenophonte.
Pela paz de Antalcidas os Gregos da Asia tornaram a cahir sob o jugo dos
Persas--cujo imperio se ia, comtudo, progressivamente infraquecendo. O
ultimo rei foi Dario Codomano, no principio de cujo governo foi a Persia
invadida pelas tropas de Alexandre Magno, o qual, nas tres batalhas de
Granico, do Isso, e de Arbella, destruiu todo o poder d'aquella nação,
que na ultima d'ellas se rendeu á discreção do vencedor.
Durante seis seculos permaneceu a Persia confundida no immenso imperio
dos Parthos; mas, no anno 228 da era actual, Artaxerxes, filho de um
simples soldado, tendo-se elevado pelos seus meritos ás mais altas
dignidades, levantou os Persas contra Artabano, ganhou diversas
victorias e, sendo acclamado rei, fundou o segundo imperio persa. Depois
de haver reinado treze annos, com muito discernimento e prestigio,
morreu, legando a corôa a seu filho Sapor. Este devastou a Mesopotamia,
a Syria e a Cilicia; e ter-se-ia tornado senhor de toda a Asia, se
Odenato, rei de Palmyra e alliado dos Romanos, não tivesse obstado á
continuação das suas victorias e conquistas. Aprisionou o imperador
romano Valeriano ao qual, depois de o conservar por algum tempo captivo,
mandou esfollar em vida. Sapor foi, por sua vez, vencido por Odenato; e,
tendo regressado aos seus estados, foi pouco depois assassinado. Depois
d'estes acontecimentos foi successivamente infraquecendo o segundo
imperio persa. No seculo IV da era christan Sapor II tornou a
fortalecêl-o com suas conquistas, mas por pouco durou essa epocha de
renascimento. O imperio recahiu bem depressa, e a decadencia foi
progredindo até ao momento em que no seculo VII a Persia foi subjugada
pelos Arabes.
Os Persas foram celebres no tempo de Cyro pela sua austeridade e pela
sua coragem. As creanças (segundo conta Platão) recebiam uma educação
propria para d'ellas formar bons cidadãos, uteis á patria. Até á edade
de dezesete annos permaneciam fóra da casa paterna, intregues a
educadores, especialmente incumbidos de lhes inocularem no espirito os
dictames da coragem e da virtude.
O imperio era dividido em provincias, governada cada uma por um
_satrapa_, que recebia directamente ordens do rei. Era tida em especial
consideração a agricultura, e muito honrados os que a exerciam; os
cultivadores mais activos e laboriosos eram recompensados e admittidos
uma vez em cada anno á mesa do soberano. A administração da justiça
estava confiada a varões sabios e prudentes, e os juizes que
prevaricavam eram punidos com a pena de morte. A legislação não se
limitava a comminar penas contra os crimes e delictos; tratava tambem de
os evitar, inspirando o horror ao vicio e o amor á virtude.
Os Persas eram monotheistas; adoravam uma só divindade, que era Mithra
(o Sol); os emblemas da omnipotencia do Creador eram entre elles os
fogos sagrados, mantidos com o maior respeito e solicitude. Os _magos_,
ou sacerdotes, eram homens notaveis pelo seu saber, pela sua gravidade e
pela austeridade da sua vida; eram os sabios e os jurisconsultos da nação.
Depois da epocha de Cyro, intregaram-se os Persas a todos os excessos de
devassidão; dissolveu-se a disciplina do exercito; os grandes da nação
abandonaram a existencia viril, que os distinguia, e cahiram na inacção
e na ociosidade, o que foi uma das principaes causas da decadencia e da
quéda, do imperio.
CAPITULO VIII
OS INDIOS
Dá a Geographia a denominação de India a uma extensa peninsula, situada
ao sul da cordilheira do Himaiaya, que é uma das de maior altitude no
mundo. Divide-se a peninsula em tres regiões differentes:--1.ª, o
_Hindustão_ propriamente dito, constituido pelo territorio das duas
bacias do Indo e do Ganges;--2.ª, o _Deccan_, peninsula situada ao sul
d'aquella região e que termina no cabo Comorim;--3.ª, a _India central_,
constituida pela zona de planaltos, que se extende, do occidente para o
oriente, desde o mar de Oman até ao golpho de Bengala.
As populações que habitam a vasta peninsula indiana podem classificar-se
do seguinte modo:--a raça aryana, ou hindú (Gujarati, Bengali, etc.),
que é a que predomina no Hindustão; a raça dravidica (Tamul, Telinga,
Karnataka, etc.), predominante no Deccan; os restos das raças primitivas
(Ghond, Bhilla, Kolaria, etc.), estabelecidos nas diversas regiões da
India central.
A historia da raça aryana divide-se em quatro periodos, que podem
chamar-se: _vedico_, _epico_, _brahmanico_ e _buddhico_.
No _periodo vedico_, e em epocha que não pode determinar-se com
precisão, uma parte do grupo dos Aryas orientaes destacou-se, constituiu
uma nação á parte (os _Hindus_), que se dirigiu para o valle de Cabul
(antigamente, Kubha), atravessou o rio Indo e extendeu-se pelas campinas
de Pendjab (antigamente, Panchanada).
Grande numero dos hymnos que figuram no celebre _Rig-Veda_ referem-se a
factos, que se passaram n'este primeiro periodo historico, caracterizado
pela immigração e pelo primitivo estabelecimento da raça aryana em
terras da India. Quando esta raça alli chegou, incontrou o territorio
occupado por differentes populações que, ou eram aborigenes, ou pelo
menos tinham longo tempo de habitação n'aquellas paragens. Parte d'estas
populações foi absorvida e assimilada pela raça invasora; outra parte
foi pouco a pouco destruida em luctas porfiadas de seculos. A principio
os Aryas não formavam uma nação unica, mas conservaram-se por muito
tempo divididos n'um certo numero de tribus, as mais notaveis das
quaes foram a dos _Bharatas_, a dos _Iksuakus_ e a dos _Pauravas_, que
chegaram ainda independentes até ao periodo historico seguinte, e vieram
a ser troncos das poderosas dynastias que então se estabeleceram em
terras do Hindustão.
Durante todo o periodo vedico o viver dos Hindus teve a natureza
pastoril, e a sua organização sociologica distinguiu-se pelo caracter
patriarchal. Ainda entre elles não havia o regimen das castas, que só
mais tarde veio a apparecer.
O periodo _epico_ ou _heroico_ decorreu desde que os primeiros hindus
intrados na India passaram o rio Sarasuati até que, deslocando-se
progressivamente, chegaram á foz do Ganges. Este periodo foi
caracterizado pela immigração continuada e pelas luctas entre os que
primeiro tinham occupado uma localidade e os que, vindo mais tarde, os
obrigavam a abandonal-a e a progredir na immigração.
Deu-se durante este periodo um curioso phenomeno historico. Chegando os
primeiros hindus á peninsula indiana, por muito tempo limitaram a sua
occupação a uma zona de territorio que tinha por limite oriental o rio
Sarasuati. Novas tribus, descendo tambem o valle de Cabul, obrigaram as
primeiras, que tinham começado a estabelecer-se nas planicies de
Pendjab, a abandonar as posições primitivas e a ir successivamente
immigrando de localidade em localidade. Isto deu como resultado o
phenomeno de uma enorme massa de população a deslocar-se, com movimento
lento e secular ao longo de uma vasta região, até que esse progredir
parou na imboccadura do Ganges.
Estas deslocações successivas originaram grandes guerras entre as
differentes tribus; e não só essas luctas, mas tambem as que houve entre
os Hindus e os povos que primitivamente occuparam aquelles territorios,
assignalaram todo o periodo epico. A mais antiga das luctas conhecidas
entre as tribus aryanas é designada na Historia por «guerra dos dez
reis», e deu-se entre a tribu dos Bharatas (cabeça de uma confederação
de dez nações, que tinha por chefe o celebre Vishuamitra) e a tribu dos
Tritsus (a que presidia o egualmente celebre Vasista). Esta ultima tribu
havia passado o Sarasuati antes da das dez nações; e depois, tendo
occupado territorio, oppunha-se á passagem d'ella, que ia invadir-lh'o.
Por occasião d'aquella guerra, conseguiu deter o movimento dos rivaes;
mas mais tarde viu-se obrigada a ceder o logar perante o impeto, cada
vez mais irresistivel, de novas ondas de população que invadiam a India.
Ao passo que as tribus invasoras iam occupando definitivamente
territorios e iam assentando posições, iam-se formando dynastias. As
duas mais importantes d'este periodo foram: a chamada _Solar_, que
reinou sobre os Tritsus ou Kosalas e teve a sua capital em Ayodhia; e a
_Lunar_, que reinou sobre os Bharatas e teve a sua capital em
Hastinapura. Entre dois ramos da dynastia _Lunar_ houve uma tremenda
guerra; foi entre os Kurus e os Pandus. Depois de varias phases que a
grande lucta apresentou, os Kurus foram por fim inteiramente
desbaratados pelos Pandus, que ficaram reinando em Hastinapura. Com esta
guerra terminou o periodo epico ou heroico.
No _periodo brahmanico_ os Pandus, vencidos os Kurus, ficaram
constituindo uma poderosa dynastia, á qual foi facil, com o andar dos
tempos, subjugar as diversas populações aryanas que occupavam aquella
região. Formada assim uma grande e opulenta nacionalidade, em breve esta
se sentiu naturalmente animada de tendencia expansiva, mandando
successivas expedições a colonizar o Deccan, o qual tentou conquistar
arrancando-o ás nações dravidicas, que até então o haviam occupado. A
historia d'estas guerras deu assumpto ao grande poema indio o _Ramayana_
que tem por thema fundamental a conquista do sul da India e da ilha de
Lanká (hoje Ceylão) pelos Aryas. Nada, porêm, positivo se apura
n'aquelle poema com respeito aos factos intimos da referida
guerra,--porque o caracter do _Ramayana_ é inteiramente mythico; e só um
grande esforço de interpretação chega a explicar os seus episodios e a
significação dos seus personagens.
Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da
historia antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social
que n'esta despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe
dos guerreiros, que até então fôra a primeira em categoria e
consideração, cedeu o logar á dos sacerdotes, que ficou sendo a
aristocratica e preponderante. O regimen que desde aquella epocha
dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas raizes, é o
chamado _regimen das castas_. Por esse regimen a sociedade é dividida na
India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada cada uma
d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma
seguinte:--1.ª a dos _brahmanes_ ou sacerdotes;--2.ª a dos _kshatrias_
ou guerreiros;--3.ª a dos _vaishias_ ou commerciantes;--4.ª a dos
_sudràs_ (a infima) ou dos servidores. Esta ultima julga-se que provêm
dos restos da população aborigene, que os Aryas não poderam anniquilar
nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social com aquella
fórma e aquelle mister degradantes. No chamado «Código de Manu» está
expressa e formulada esta fórma do regimen estabelecido na sociedade
indiana.
Ao _periodo brahmanico_ succedeu o _periodo buddhico_, que fecha a
historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica soffreu
um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo VI
antes da era de Christo appareceu na India um homem de talento
extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e
infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz
vizinho do Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na
Historia) de Buddha (ou _sabio_). Philosopho de temperamento, aos vinte
e nove annos de edade abandonou o palacio paterno, as riquezas e o
direito á realeza para viver no deserto, investigando a verdade. Nove
annos depois, fortalecido o espirito com as meditações da solidão,
voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina ás multidões,
reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,--expondo os seus principios,
(quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições
sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que
depois foi seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina
como uma simples reforma; mas ella tendia á ruina completa do
brahmanismo, substituindo ao regimen das castas o principio da egualdade
de todos os homens perante a lei moral, e ás falsas virtudes prégadas
pelos brahmanes a práctica do bem. Ás promessas de salvação (isto é, da
união com a essencia divina) só concedida pela religião antiga aos
brahmanes, substituia a capacidade, para todos os homens, de gozarem da
bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia com o
privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e
os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina
admittia seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia
ter por objecto distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia,
que devia consistir na resistencia contra os nossos maiores inimigos, os
prazeres dos sentidos; a pureza, que era a victoria adquirida por
aquella resistencia; a paciencia, que consistia em soffrer os males
imaginarios e os transitorios; a caridade, laço de união entre os
homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade.
Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem
com a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo
enorme.
Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a ordem
estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde Christo) que aos
principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte, os
discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o
primeiro concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois
de septe mezes de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e
no corpo das doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e
terceiro concilio, que se reuniram, um no seculo V e o outro 150 annos
antes de Christo.
Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a
religião antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á
sombra dos quaes viviam e desfructavam commodidades, honras e
distincções, começaram uma lucta feroz contra o buddhismo, chegando a
desincadear contra os seus proselytos uma atroz perseguição. Entre
outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde Ceylão até ao
Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem poupar
a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu
resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo
espalhou-se no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China,
na Indo-China e em Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de
seguidores, sendo comtudo poucos os que practicam as doutrinas e os
preceitos de Buddha na sua pureza.
A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo
progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da
grammatica e da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só
ficaram monumentos grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza
artistica. Prosperaram, porêm, algumas industrias entre os Indios.
CAPITULO IX
OS CHINS
Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições
maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é
certo é que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas
tradições mais ou menos certas conhecimento de factos anteriores 3:500
annos a Christo,--e, desde o seculo XXVI da mesma era, historia
positiva que apresenta seguidos annaes.