irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que
governava em Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com
este auxilio, os Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e
pouco depois Athenas foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua
marinha reduzida, desorganizado o seu exercito e abolida a constituição
democratica, que principalmente concorreu para a sua grandeza e para a
sua gloria.
A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a
mesma habilidade e esplendor com que o fizera Athenas. Cyro o _Moço_
levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos, avançou até
ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto, e á
sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos
referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas
impervias da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta
retirada revelou o infraquecimento do grande imperio persa; por isso,
poucos annos depois o espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou
a reunir grandes forças e muitas allianças, mas o seu plano ficou
frustrado, porque os Persas tiveram artes de suscitar guerra interior no
seio da propria Grecia. Por sua instigação, Corintho, Thebas e Argos
formaram uma liga, em que intraram tambem Athenas e a Thessalia.
Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em terra,
restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante
de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o
oiro dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.
Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á
Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia,
acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da
depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades
e perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus
excessos tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á
falsa fé Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta.
O thebano Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a
sua patria, e reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia.
Tendo os Espartanos mandado contra estes povos colligados um exercito,
Epaminondas desbaratou-o na batalha de Leuctras, levando a guerra até ao
seio do Peloponeso. Abriu caminho até aos muros de Esparta, na qual,
comtudo, não poude intrar; mas, para a conter em respeito, edificou aos
seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos pontos fortificados.
Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes novos
dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme
a dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no
meio da sua victoria de Mantinéa.
Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do
jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o,
accrescentando-lhe a Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações,
com que foi augmentado o seu imperio, observando-se por toda a extensão
da Grecia uma grande falta de energia e um fraco espirito de
resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo
grande cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes
orações mostrava os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude
sustentar por si só, durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por
fim teve que firmar, por conselho do proprio Demosthenes, um tratado de
paz com o rei da Macedonia.
Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás
festas e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as
Thermophylas, penetrou na Phocida, e conseguiu ser adimittido no
conselho amphictionico. Os Athenienses salvaram ainda Perintho e
Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar os cêrcos. Á voz de
Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos, nas suas
immortaes _Filippinas_, os Athenienses e os Thebanos, esquecendo a sua
mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao inimigo
commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez
vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na
planicie de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a
sympathia dos Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu
ser por elles nomeado generalissimo das tropas destinadas a marchar
contra a Persia. Para preparar esta grande expedição voltou a Macedonia,
onde foi assassinado por Pausanias durante a celebração dos jogos
olympicos.
Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os
barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes
estorvar os movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este
rio n'uma noite e derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle
ensejo propicio para se libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da
cidadella, cuja guarnição degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito,
com que introu na Beocia, exigindo d'elles que lhe intregassem os
auctores da revolta. Como lh'os recusassem, deu-lhes batalha,
destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e destruiu.
Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre,
mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles
de generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus
planos de conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados
de todas as republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de
uma expedição contra os Persas. Para levar d'esse modo a effeito o
plano de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater
e partiu com um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de
cavallaria, á conquista da Persia, onde então reinava Dario Codomano.
Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que
constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar
o Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um
exercito persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de
cavallaria, derrotou este, apoderando-se depois de Sardes, que era a
chave da Alta-Asia. Epheso, Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da
costa da Asia intregaram-se-lhe.
No anno seguinte, para se oppor á continuação das suas conquistas,
levantou Dario um grande exercito e resolveu levar a guerra ao coração
da Macedonia. Memnon, seu general em chefe, á testa da expedição, tomou
as ilhas de Chio e de Lesbos. Alexandre não quiz intregar ao acaso de um
combate naval a gloria até alli alcançada; abandonou aos Persas o
dominio do mar e fez convergir todos os seus exforços para se apoderar
dos portos e cortar toda a communicação entre o exercito inimigo e a
Grecia. Tendo subjugado a Lydia, dirigiu-se para a Pamphylia sem
incontrar obstaculos; atravessou a Cappadocia, foi á Cilicia e a Tarso,
d'onde partiu ao incontro do exercito de Dario, que derrotou nos
desfiladeiros do Isso. A mãe, mulher e filhos de Dario cahiram em seu
poder e Alexandre tratou-os com a maior generosidade. Apoderou-se depois
da Phenicia, e tomou Tyro depois de septe mezes de cêrco. Subjugou em
seguida a Judéa, e tomou Damasco, onde estavam os thesouros de Dario.
Intentou destruir Jerusalem, por lhe haver recusado viveres; mas
desistiu do seu proposito, em presença das supplicas que lhe dirigiu o
summo sacerdote Jaddo.
Da Judéa dirigiu-se para o Egypto, onde bastou a sua presença, para que
todas as povoações se lhe intregasem. Foi até á imboccadura do Nilo,
onde lançou os fundamentos da cidade de Alexandria. Incaminhou-se para o
Alto-Egypto, penetrou no deserto e chegou até ao oasis em que estava
estabelecido o templo de Jupiter Ammon, e onde os sacerdotes lhe
concederam o titulo de «filho de Jupiter».
Do Egypto voltou á Asia e penetrou na Armenia, indo ao incontro de um
terceiro exercito de Dario, que derrotou, apezar da grande superioridade
numerica d'este, intrando triumphante em Babylonia. Esta victoria
tornou-o senhor do grande imperio persa; e elle, para segurar as suas
conquistas, marchou em persiguição de Dario que foi morto por um
traidor do seu proprio exercito, Besso, em Ecbatana.
Alexandre tomou sob a sua protecção a familia de Dario; marchou contra
Besso, que se fizera proclamar rei em Bactriana, apoderou-se d'elle e
mandou-o matar. A posse do mar Caspio e as estradas militares que abriu
para Herat e para Nichapur patentearam-lhe as communicações com todos os
differentes pontos da Persia.
Depois de ter assentado tão vasto dominio, resolveu passar á India.
Atravessou o Indo, alliou-se com o rei Daxilo e subjugou differentes
estados vizinhos d'este. Adeantou-se até ao interior da India, onde
edificou diversas cidades, e preparava-se para atravessar o Hyphaso,
quando as suas tropas, fartas de tão longo exilio e de tanta
peregrinação, se recusaram a seguil-o e lhe pediram para voltar á
patria. Alexandre annuiu a este desejo. Depois do seu regresso, ainda
subjugou os Oxidracos e outros povos, percorreu a Média, e introu em
Ecbatana, onde falleceu o seu favorito Ephestion.
Voltando a Babylonia, foi alli alvo do maior triumpho. Recebeu
embaixadores de todas as partes do mundo, acolhendo com especial agrado
os da Grecia. Quiz fundir os Gregos e os Persas n'um só povo, por meio
de allianças e de colonias, e espalhou por todo o Oriente as idéas, a
litteratura e a civilização da Grecia. Durante um anno elaborou esses
planos, mas não poude pôl-os em execução, porque veiu a morrer aos 39
annos de edade, no anno 324 antes de Christo.
Fallecido Alexandre, os Macedonios, depois de alguns dias de
contestações e de jogo de intrigas e de ambições, escolheram para rei a
Arideu; mas bem depressa se desfizeram d'elle, bem como da familia de
Alexandre. Os generaes, que haviam sido d'este, trataram de apoderar-se
das conquistas que elle fizera, e a partilha foi origem de uma guerra
que veio a terminar com a batalha de Ipso.
Emquanto os successores de Alexandre disputavam entre si as conquistas
da Asia, a Grecia intentou recuperar a sua liberdade. Demosthenes, que
ficára sendo o inspirador do patriotismo e do partido nacional, promoveu
a guerra da independencia, que acabou por um desastre. O grande orador
sendo proscripto, invenenou-se no exilio. Com esta morte toda a
esperança se perdeu. Ainda Arato conseguiu restaurar a antiga
confederação das cidades de Achaia; e essa confederação ia talvez
extender-se, para formar uma barreira perante as ambições da Macedonia.
Mas Esparta, que se tinha novamente elevado sob o governo de Cleomenes,
correu a imbargar-lhe o passo. Cleomenes foi vencido; porêm os
Macedonios, que tinham auxiliado os Acheus contra elle, ficaram outra
vez preponderantes. Os Romanos começam a inquietar-se com essa
preponderancia, resolvem intervir, ganham a batalha de Cynocephalo,
dissolvem a confederação achaica, e declaram livres todas as cidades da
Grecia. Estas regosijam-se com o facto, sem comprehenderem que os
Romanos dividiam para dominar e absorver. Conheceram tarde o seu erro;
e, quando quizeram reconstruir a confederação e se armaram para resistir
aos Romanos, estes venceram a batalha de Leucopetra, junto de Corintho;
esta cidade foi queimada pelo consul Mummio, que commandava o exercito
de Roma; a Grecia foi declarada provincia romana, e o povo que a
habitava, e que tão brilhante papel representára na civilização do
mundo, foi absorvido na grande massa das populações sujeitas ao dominio
de Roma. Ficou a Grecia sendo governada por um pretor, nomeado
annualmente pelo senado romano. Só Athenas conservou até ao tempo do
imperador Vespasiano uma constituição republicana.
CAPITULO XI
OS ROMANOS
A Italia, como a conheciam e designavam na Antiguidade, era constituida
pela peninsula alongada, existente no sul da Europa, que se prolonga com
direcção sueste entre os mares Adriatico e Tyrrheno e na extensão de 800
kilometros. Tambem lhe pertencia a Sicilia (ilha d'ella separada por um
pequeno estreito), bem como a vasta planicie que se extende até á base
dos Alpes (que é atravessada pelo rio Pó e cuja metade superior era
conhecida pelo nome de Gallia Cisalpina). Aos pés das montanhas da
Sabina, iam incontrar-se as ferteis planicies do Lacio e da Etruria,
sobre as margens do rio Tibre. A alguma distancia da sua confluencia com
o Arno, passa este rio entre novas collinas, duas das quaes--o Janiculo
e o Vaticano--dominam a sua margem direita e as outras estão
sobranceiras á esquerda. Foi alli que se edificou Roma.
Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os
estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida
em diversas nacionalidades, estabelecidas nas seguintes regiões do
territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia, Samnio, Umbria,
etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a realizar-se
depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e
pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que
eram muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.
Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que
pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se
fundou, quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que
se deram nos seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua
primeira epocha é ainda hoje ignorada, porque como historia verdadeira
não pode considerar-se a collecção de fabulas e de tradições
maravilhosas e inverosimeis, que antigos historiadores colheram das
lendas e das crendices populares.
A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que
figuram: 1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte
Palatino a cidade de Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado
pela nympha Egeria; 3.º rei, Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa,
depois da guerra entre Horacios e Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que
foi o fundador de Ostia; 5.º rei, Tarquinio o _Antigo_, vencedor das
cidades latinas do Tibre superior; 6.º rei, Servio Tullio, o legislador,
amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o _Soberbo_, tyranno abominavel que
foi expulso pelos Romanos, sendo com essa expulsão abolida a realeza.
Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da
fundação de Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea
Silvia (filha de um rei de Alba), que fôra feita vestal (para não poder
casar nem ter descendencia) por seu tio Amulio que derrubou seu pae do
throno. Sabendo Amulio do nascimento das duas creanças, mandou-as lançar
ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar ao rio, por compaixão
deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo ellas, segundo
uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do pastor,
que dizem se chamava _Lupa_ (Loba).
Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de
aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a
Amulio, restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido
desapossado. Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam
sido creados, e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753
antes de Christo.
Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um
vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle.
Povoou a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e,
como não houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas
festas publicas, para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes
concorreram estes em grande numero com suas familias. Em meio dos
festejos os Romanos roubaram as mulheres aos Sabinos, fazendo-os fugir.
Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre os dois povos, a qual
não teve grande duração, porque as proprias raptadas, então já casadas,
intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e irmãos.
A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da
abolição da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto
Tarquinio (filho do rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do
nobre Collatino), esta convocára todos os seus parentes e os outros
nobres da cidade para lhes pedir vingança e em seguida se suicidára.
D'ahi resultou uma revolução, capitaneada por Collatino e por Lucio
Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a realeza e estabelecida a
fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos patricios, e por
isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição aristocratica. O
governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os dois
auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este
acontecimento ao anno 509 antes de Christo.
Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra
Parsenna, rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a
Tarquinio. O exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar
junto dos muros de Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi
repellido pelos Romanos com grande denodo, e Persenna veio depois a
tornar-se amigo e alliado de Roma.
Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte
de Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra
ferido mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e
energia, matou-o, cahindo sem vida sobre o seu cadaver.
Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra,
chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um
exercito numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os
nobres ou patricios, que os opprimiam, não o desobrigassem das suas
dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle
que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os
ricos e nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas,
mas não a dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se
um magistrado supremo, denominado _dictador_, com poder absoluto por
seis mezes e incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse
cargo foi escolhido Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores
armados de machados, apparecia em toda a parte, obrigando todos a intrar
na ordem, sob ameaça de morte. O povo amedrontou-se perante esta
energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou contra os Latinos.
Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e Largio
exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo
Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma
batalha decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio
o Soberbo.
Tendo depois os Romanos guerras com os Volscos e os Equos, foi
Cincinnato incarregado do commando do exercito. O lictor que ia dar-lhe
noticia da nomeação, incontrou-o com a charrua a arar o campo.
Cincinnato largou a cultura, poz-se á frente do exercito, e, em quinze
dias, derrotou os inimigos. Alcançada a victoria, o heroe voltou ao
trabalho da sua cultura agricola, que deixára interrompido. Coriolano,
que se vira obrigado a sahir de Roma, em resultado de dissenções civis
entre os tribunos da plebe e os patricios, aos quaes aquelle pertencia,
lançou-se no partido dos Volscos e recomeçou com elles a guerra contra
os Romanos. Vencido, porêm, pelas supplicas de sua mulher e de sua mãe,
retirou-se e recolheu ao paiz dos Volscos que (segundo alguns) o
assassinaram.
Seguiu-se a guerra contra os Veientes,--um dos povos etruscos, inimigo
eterno dos Romanos, que todos os annos renovava as hostilidades. Os
Fabios, familia nobre de Roma, offereceram á republica um concurso
poderoso e extraordinario, fazendo por si sós uma guerra particular
contra os Veientes; mas foram horrivelmente derrotados, ficando os
trezentos patricios, que compunham este pequeno exercito, todos mortos
junto a Cremera. Notaveis victorias vingaram, porêm, depois esta
derrota; differentes generaes romanos ganharam grandes batalhas e se
apoderaram das praças fortes do inimigo. Os Veientes eram tão poderosos
que, cercados na sua cidade, defenderam-se durante dez annos dos
Romanos, os quaes haviam jurado não voltar a Roma sem haverem tomado
a valorosa povoação dos Veientes. O juramento cumpriu-se e a cidade foi
tomada.
Por esse tempo Roma tratou de aperfeiçoar as suas instituições e a sua
legislação, adoptando algumas das leis vigentes na Grecia. Crearam-se os
_decemviros_, para exercerem o poder em vez dos dois consules. As leis
que adoptaram de Athenas foram pelos Romanos gravadas em doze tábuas, o
que lhes originou a designação de _leis das doze tábuas_. Teve pouca
duração a instituição dos decemviros, que foi por sua vez substituida
pela de dois consules. Esta substituição fez-se por exigencia do povo,
cançado da tyrannia dos decemviros e dos excessos dos nobres. O povo
ainda obteve outra victoria: estabeleceu-se que os consules tanto
pudessem ser eleitos entre os patricios como entre a plebe, e que se
pudessem fazer casamentos entre individuos de differentes classes sociaes.
Seguiram-se outras guerras, de algumas das quaes tratámos atraz, em
differentes capitulos, a proposito dos outros diversos povos, como a de
Tarento, a de Pyrrho, a de Syracusa, as tres guerras punicas, a dos
Corinthios, e a da Hespanha, que os Romanos submetteram tambem. Todas
estas guerras tiveram como resultado dar a Roma uma vastissima dominação
no mundo.
Assim, no anno 130 antes de Christo, dominava ella desde o littoral da
peninsula iberica até ao centro da Asia Menor. Estava sujeito ao seu
dominio quasi todo o antigo mundo.
Mas a conquista de tão vastos e tão ricos paizes tinha tido sobre os
costumes dos Romanos uma influencia desastrosa. Tinham estes renunciado
á sua antiga simplicidade e tinham aberto as portas ao luxo. Os nobres
tinham-se tornado crapulosos e perdularios; o povo, accessivel á
venalidade. D'ali proveio a decadencia que a pouco e pouco produziu a
ruina da republica e da liberdade.
Catilina, um nobre romano, eivado de todos os vicios da sua classe,
aproveitando-se da ausencia dos exercitos, que estavam na Asia
combatendo contra Mithridates, concebeu o negro plano da perda da
patria, tendo por cumplices alguns dos seus mais nobres compatriotas.
Incontrou porêm a opposição patriotica dos consules Cicero e Antonio; o
primeiro, nos seus eloquentes discursos, punha em evidencia as
conspirações do traidor e concitava contra elle o patriotismo da plebe;
o segundo marchou contra o exercito com que Catilina vinha, da Etruria
sobre Roma e desbaratou-o. Catilina foi morto no combate.
Novas calamidades esperavam, porêm, a republica romana. No meio do
excessivo poderio e da dissolução dos costumes, quando Roma celebrava as
victorias alcançadas por Pompeu no Oriente, a grande influencia e o
grande prestigio d'este general despertou a inveja de outros generaes e
outros nobres ambiciosos, como Metello, Crasso e Cesar.
Aspirando Cesar a ganhar poder, Crasso a augmentar o seu, e Pompeu a
conservar o que possuia, facil foi aos tres ambiciosos combinarem-se
para se apoderarem da republica. Distribuindo elles a sua força commum,
Cesar assenhorou-se da Gallia, Crasso da Asia, e Pompeu de Hespanha;
cada um tinha um grande exercito sob as suas ordens, por fórma que o
imperio do mundo ficou assim dividido entre aquelles tres dominadores.
Mas a concordia que apparentavam entre si era unicamente o resultado do
receio que cada um d'elles tinha dos outros. Morto Crasso, bem depressa
se rompeu a harmonia entre Cesar e Pompeu. Este, apoiado pelo senado,
intimou Cesar para que abandonasse o seu governo e o commando do seu
exercito. Cesar, em vez de obedecer, marchou sobre Roma e fez sabir
d'ahi Pompeu e todos os seus partidarios. Seguia-os até á Hespanha, onde
bateu todos os logar-tenentes de Pompeu, e passou depois á Grecia, onde
se incontrou com este na Thessalia, perto de Pharsalia. Vieram ás mãos
os exercitos de um e outro, a victoria ficou indecisa; mas, tendo-se
afastado Pompeu do campo,--o seu exercito, perdendo a força moral, foi
completamente destroçado.