a leste do rio Tigre; mais tarde veio a ser formado por todo o
territorio que ficava entre aquelle e o Euphrates, e comprehendeu,
juntamente com a Assyria propriamente dita, a Chaldéa, a Mesopotamia, a
Babylonia e differentes paizes tributarios. A Chaldéa foi, como o
Egypto, um dos primeiros paizes em que começou a desinvolver-se com
certo grau a civilização; os Chaldeus e os Babylonios passam por ser os
primeiros povos que fizeram descobrimentos astronomicos; deve-se-lhes a
divisão do anno em 365 dias, 6 horas e alguns minutos. É muito incerta a
chronologia da historia dos Assyrios: segundo os livros santos, a
fundação de Babylonia e de Ninive realisou-se pelo seculo XXII antes
de Jesus Christo, Nemrod foi fundador da primeira e Assur da segunda.
Nada certo se sabe sobre a historia dos povos que habitaram aquellas
cidades e ainda outras, anteriormente ao tempo de Belo que, por 1780
antes de Jesus Christo, creou o imperio da Assyria, reunindo o reino de
Babylonia com o de Ninive.
Nino, successor de Belo, alliou-se com os Arabes, derrotou os Armenios e
os Medos, estendeu o seu dominio por grande parte da Asia, e levou as
suas conquistas desde o Egypto até ás Indias. Augmentou
consideravelmente a cidade de Ninive, que dotou com palacios e outros
edificios sumptuosos. Depois de tomar a cidade de Bactres (capital da
Bactriana), casou com Semiramis, viuva do governador da mesma cidade e
uma das mulheres mais bellas d'aquelle tempo, da qual teve um filho
chamado Ninias. Pela morte de Nino, ficou Semiramis herdeira do imperio,
que augmentou com conquistas novas; subjugou a Arabia, o Egypto e a
Lybia; illustrou o seu reinado não sómente por grandes acções militares,
mas tambem pela administração do paiz e pelas assombrosas construcções,
das quaes ainda hoje existem ruinas muito notaveis. Tornou Babylonia uma
cidade magnifica e grandiosa, cingiu-a com uma muralha de 15 leguas de
circumferencia, de altura consideravel, e com cem portas de bronze em
toda a sua extensão. Era tão larga essa muralha que sobre ella podiam
passar quatro carroças a par. Construiu tambem Semiramis uma ponte
magnifica sobre o Euphrates (rio que atravessava a cidade) e em cada uma
das extremidades d'ella dois palacios. Um d'estes era a habitação
ordinaria da rainha e deposito das consideraveis riquezas que esta
recebia de todas as provincias do imperio; o outro, incimado por oito
torres de consideravel altura, era um templo consagrado a Belo, e em
cujo interior Semiramis tinha mandado collocar estatuas de oiro, de
quarenta pés de altura, representando varias divindades. Todo o interior
do templo era cheio de baixos-relevos com grande valor artistico, de
magnificas estatuas e de vasos de oiro e de prata primorosamente
trabalhados. A cidade era muito bella e cortada de lindas ruas e praças,
ornadas de opulentos palacios; mas o que sobretudo maravilhava eram os
jardins estabelecidos em terraços elevados sobre o Euphrates e
sustentados por abobadas de altura prodigiosa. Ornados das mais bellas
arvores, inriquecidos com abundancia das mais vistosas flores, eram
cortados de limpidos arroios, alimentados por agua levada áquella altura
por meio de aqueductos e de apparelhos ingenhosissimos. Davam ingresso
no jardim suberbas escadarias, ornadas de estatuas e de vasos
preciosos, em que vegetavam as mais raras flores e arbustos de todos os
paizes então conhecidos.
Na construcção d'aquellas muralhas e de outras com que opulentou
Babylonia, empregou Semiramis 2.000:000 homens durante muitos annos.
Immortalizou-se aquella rainha, não só n'isso, mas tambem na sabia
administração que exerceu nos seus estados e na organização dos seus
exercitos, em que reinou sempre a disciplina mais rigorosa e mais severa
e que ella em pessoa commandou muitas vezes.
Tendo-se ausentado no commando de uma expedição destinada a alargar os
limites dos seus estados, soube que na capital se estava urdindo uma
conspiração para a depôr e substituil-a no governo por seu filho Ninias.
Não quiz ella conservar pela força o throno, que ninguem lhe poderia
disputar; e, intregando voluntariamente o governo ao filho, absteve-se
de punir os conspiradores, e retirou-se do mundo. A população
surprehendida e maravilhada pelo seu subito desapparecimento--que
considerou sobrenatural--erigiu-lhe templos e prestou-lhe honras divinas.
Ninias foi apenas um simulacro de rei. Passou a vida na ociosidade e na
indolencia, e foi o primeiro que estabeleceu o governo do serralho.
Seguiram-se-lhe trinta e tres reis que nada fizeram pelo bem do paiz e
de que a Historia apenas faz menção. O ultimo foi Sardanapalo, cujo nome
ficou lendario e serve para caracterizar os soberanos que põem de lado
os cuidados da governação, para se darem tão sómente á ociosidade e aos
prazeres physicos. Sardanapalo, indolente e crapuloso, estabeleceu a sua
residencia em Ninive, onde passava a vida mettido n'um palacio, cercado
de mulheres, cujos habitos e adornos imitava, deixando em Babylonia o
governo intregue a valídos que de tudo dispunham. Nunca visto de seus
subditos, sempre incerrado no palacio, onde passava as noites em
libações e folgares, não lhe importavam nada os negocios publicos, e só
tratava de esconder aos olhos dos subditos os seus ignominiosos habitos.
Um dia Arbaces, governador da Média, surprehendeu-o no meio de um grupo
de mulheres impudicas, trajando como ellas. Indignado por ver que tantos
valorosos Assyrios estavam sujeitos a um monarcha desprezivel, revelou
aos seus amigos os vergonhosos habitos de Sardanapalo, ligou-se com
Belesis (governador da Babylonia), e ambos foram pôr cerco ao rei no
proprio palacio em que habitava. Depois de tenue resistencia,
Sardanapalo reduzido a circumstancias extremas, quiz apagar com um
esforço supremo de coragem a memoria da sua vergonhosa vida. Mandou
accender n'um dos pateos interiores do palacio uma grande fogueira, na
qual se queimou com suas mulheres, seus escravos e seus thesouros.
Dos restos do imperio assyrio assim desfeito, formaram-se tres grandes
reinos: o de Babylonia, o da Média, e o de Ninive ou da Assyria
propriamente dita. De Babylonia tornou-se rei Belesis, que transmitiu o
poder á sua dynastia, na qual só houve notavel o rei Nabonassar, que deu
o seu nome a uma era especial começada no anno 747, e sob cujo governo a
astronomia fez grandes progressos. Mais tarde cahiu Babylonia em poder
dos reis de Ninive.
Na quéda de Sardanapalo, o principal promotor d'ella, Arbaces, ficou
senhor do reino da Média, e tentou concentrar alli a supremacia assyria
sobre o resto da Asia. Deu certas franquias liberaes aos Medos, os quaes
por si mesmos trataram de fazer leis, dividiram-se em seis tribus, e
crearam juizes para lhes dirimirem os pleitos. Depois da morte de
Arbaces, elegeram elles para rei a Dejoces, um dos seus juizes, que
fundou a cidade de Ecbatane, onde se estabeleceu com sua familia e seu
erario, e concentrou a parte mais importante da população, constituindo
alli a capital da Média. Aquella cidade, pela sua opulencia e pelos seus
monumentos, tornou-se em breve tão celebre como Babylonia e como Ninive.
Dejoces teve por successor a Phraorto, ao qual succedeu seu filho
Cyaxaro I, que conquistou a Persia. Desde então a historia da Média
confunde-se com a do segundo imperio assyrio. Sobre a parte do antigo
imperio assyrio, de que Ninive era capital, ficou reinando, por morte de
Sardanapalo, Nino o _Moço_. Os seus successores tentaram reunir aos seus
dominios Babylonia, o que chegaram a conseguir em tempo de Assar-Haddon.
Entre os reis de Ninive, houve notaveis: Phul; Teglath-Phalasar, que
conquistou Damasco; Salmanazar, que subjugou os Israelitas (como atraz
vimos); e o terrivel Sennacherib. Reinando Sarac, Nabopolassar
(governador da Babylonia) ligou-se com Cyaxaro I, rei dos Medos, e ambos
foram pôr cerco a Ninive. Esta cidade foi tomada depois de uma sangrenta
batalha, e completamente destruida. Assim acabou, depois de 1:800 annos
de existencia, esta celebre e opulenta cidade. Nabopolassar tomou o
titulo de rei da Babylonia, que se appropriou de toda a importancia e
vantagens que desfructava Ninive e se tornou a capital do segundo
imperio assyrio.
Nabuchodonosor succedeu a seu pae Nabopolassar, tonando-se celebre
pela conquista do reino da Judéa e pela tomada de Jerusalem (cujos
habitantes levou captivos para Babylonia) e por se haver apoderado da
Phenicia e destruido a cidade de Tyro. Balthazar foi o ultimo rei do
segundo imperio assyrio que, subjugado por Cyro, cahiu no dominio dos
Persas.
A civilização dos Assyrios e Babylonios foi uma das mais notaveis, não
só da Antiguidade Oriental, mas tambem de toda a Historia Antiga. Ao
passo que vão progredindo os estudos historicos e que se vão descobrindo
novos monumentos, vai-se pondo cada vez mais em relevo a influencia que
aquelles povos exerceram no Oriente e na cultura intellectual das
populações da Grecia. A civilização dos Assyrios e a dos Babylonios
apresentam-se-nos como uma só, quer isso fosse devido á commum origem
dos dois povos, quer á mutua transmissão de conhecimentos e de usos nos
tempos historicos, podendo dizer-se que havia então homogeneidade de
meio. Apenas differem em pontos, a que os differentes caracteres dos
dois povos imprimiam feições especiaes. Os Assyrios, por exemplo, eram
sobretudo guerreiros, corajosos e intrepidos, incançaveis nos exercicios
mais violentos e conquistadores insaciaveis; os Babylonios, comquanto
tambem fossem bons soldados, tinham menos tendencia para a guerra de
conquista, o que em parte dá a razão de ter sido tão pouco duradoiro o
seu dominio. Os Babylonios representaram um papel muito importante no
commercio da Asia. Na industria, elles e os Assyrios adeantaram-se
consideravelmente, chegando a notavel perfeição, sobretudo no que tocava
a tecidos preciosos, a ourivesaria, a loiça, a esmaltes, etc. De
esculptura deixaram os Assyrios obras de alto valor e merecimento
artistico, sempre admiradas e tidas como objectos de grande estimação.
CAPITULO IV
OS PHENICIOS
Os Phenicios foram um dos povos mais notaveis da Antiguidade Oriental;
mas, apezar d'isso, escasseiam bastante os documentos historicos
directos da sua civilização. A Phenica comprehendia apenas uma estreita
faixa de terreno, entre as faldas do monte Libano e o mar Mediterraneo.
N'aquella apertada zona teve a sua evolução um dos movimentos
civilizadores da Antiguidade, cuja influencia se sente de modo
consideravel na Historia Antiga e chega ainda até nós, por meio do
alphabeto, pelos Phenicios inventado e propagado.
Os Phenicios são geralmente considerados como um povo pertencente á raça
chamitica, tendo grandes affinidades com as tribus cananéas que, uns
vinte e quatro seculos antes de Christo, se estabeleceram,
disseminando-se, nos valles do Jordão e do Oronte, e nas margens do
Mediterraneo. Comtudo elles falavam uma lingua da familia dos semitas,
muito similhante á dos Hebreus,--e as suas relações com os povos
semiticos da Palestina foram sempre muito estreitas.
Em nenhuma epocha da sua historia apparecem os Phenicios com uma unidade
nacional caracterizada, como os povos de que anteriormente tratámos.
Viveram sempre em cidades separadas, com chefes independentes, de
jurisdicção limitada a certa porção de territorio. Era o ultimo limite
da descentralização governativa. Comtudo sempre uma cidade exerceu
hegemonia entre todas as outras povoações phenicias. As duas cidades
que, como grandes centros politicos e commerciaes, exerceram
successivamente essa hegemonia foram Sidon e Tyro. D'ahi provêm a
divisão da historia da Phenicia em dois periodos: o _sidonio_ e o _tyrio_.
No primeiro periodo, Sidon (que foi a mais antiga das cidades phenicias
de que ha memoria nos livros dos historiadores) exerceu a supremacia da
influencia sobre as demais populações, organizou grandes expedições
maritimas e teve um grande movimento de expansão colonizadora. Thutmés
I, rei do Egypto, fez acceitar pelos Phenicios a sua suzerania; mas esse
facto foi-lhes antes util do que prejudicial, porque lhes proporcionou a
faculdade de commerciarem no Egypto, passando a estabelecer feitorias
nas cidades do _delta_, e chegando até a terem uma colonia sua
estabelecida n'um bairro especial de Memphis, por elles exclusivamente
habitado. N'essa epocha navegaram por todo o oriente do Mediterraneo, e
chegaram até Chypre, sendo com o auxilio d'elles que esta ilha ficou
submettida ao dominio dos Egypcios. As suas tendencias e habitos
commerciaes levaram-n'os á ilha de Creta, á Cilicia e até ao Mar-Negro,
estabelecendo por toda a parte colonias e feitorias. No Occidente
alargaram-se pelo littoral do norte da Africa e estabeleceram colonias
nos territorios em que hoje existem as regencias de Tripoli e de Tunis.
Cruzando-se alli com a população indigena, deram origem ao povo dos
liby-phenicos, que chegaram a adquirir importancia na Antiguidade.
Pelo interior da Asia extenderam as suas relações commerciaes até ao rio
Tigre e á Arabia.
Pelo seculo XIII antes da era christan os Phenicios de Sidon tinham
chegado ao maximo estado de adeantamento e de influencia. Foram então
victimas dos Philisteus, que se haviam estabelecido entre a Phenicia e o
Egypto. Sidon foi tomada e destruida por estes; e a hegemonia phenicia
passou depois para Tyro, começando então o segundo periodo da historia
d'este povo.
N'esse novo periodo, Tyro, succedendo a Sidon como centro do dominio
colonial dos Phenicios, elevou-o bem depressa ao auge da prosperidade. A
direcção, porêm, que imprimiu ao movimento de expansão colonizadora teve
que ser diversa. As populações gregas tinham-se ido desinvolvendo pelas
duas margens do mar Egeu, e não só obstaram a que os Phenicios fossem
por alli estabelecendo novas colonias, mas chegaram a desalojál-os de
algumas posições adquiridas. Por isso os Tyrios tiveram que abandonar
aquelle caminho e trataram de espalhar-se para os lados do occidente do
Mediterraneo, que ainda estava desimbaraçado. Foi assim que se occuparam
em estabelecer colonias e feitorias na Sicilia, na Sardenha, na Corsega,
em Malta, nas ilhas Baleares, nas costas da Gallia, e nas da peninsula
iberica, ao mesmo tempo que na margem meridional do mesmo mar alargaram
tambem os seus dominios, fundando as cidades de Utica e de Hippona. Por
fim, transpuseram o estreito hoje chamado de Gibraltar, indo fundar
estabelecimentos pela costa occidental da Europa, onde se suppõe que
chegaram ás costas da Gran-Bretanha, e indo tambem para o sul, onde
talvez chegassem a aportar ás ilhas Canarias e ás de Cabo-Verde.
Então o poderio phenicio chegou ao maximo esplendor e teve a sua edade
de oiro. Reinava Hirão I, que foi contemporaneo dos reinados de David e
de Salomão nos Hebreus. Com estes reis teve elle alliança e por tal modo
promoveu a grandeza phenicia, que a influencia d'esta chegou a sentir-se
consideravelmente em Jerusalem, onde Astarte (uma divindade dos
Phenicios) teve culto, sendo esse um dos actos de idolatria, com que por
vezes os Israelitas offenderam a Deus.
Logo depois se começou, porêm, a manifestar a decadencia da Phenicia.
Duas causas poderosas concorreram para ella: as luctas civis dentro de
Tyro, com successivas revoluções, e os progressos das navegações e da
colonização dos Gregos que vieram a deslocar as dos Phenicios. N'uma
d'aquellas resoluções, que occorreu durante a menoridade do rei
Pygmalião, foi assassinado o regente do estado e teve que
expatriar-se sua viuva Elisa, que com os seus partidarios foi para a
Africa, onde fundou a cidade de Carthago. Esta Elisa é a rainha que
figura com o nome de Dido na _Eneida_ de Virgilio.
A diminuição do dominio no exterior e a fraqueza do poder no interior,
fizeram que a Phenicia fosse successivamente invadida pelos Assyrios,
pelos Babylonios e pelos Egypcios. Do dominio d'estes tres povos passou
depois ao dos Persas, a que se submetteu voluntariamente, e porfim veio
a ser conquistada por Antigono, um dos generaes de Alexandre Magno, que
a assediou com uma numerosa frota e a venceu, passando ella ao dominio
d'aquelle imperador, que substituiu na Asia a dominação dos Persas.
CAPITULO V
OS CARTHAGINEZES
Crê-se geralmente que a cidade de Carthago foi fundada, (como acima
dissémos) por Dido, pelos annos 888 antes da era christan; comtudo ha
quem affirme que ella havia sido edificada antes, pelos annos 1059, por
uma colonia phenicia de Tyro.
Seja como fôr, o que é certo é que os Carthaginezes apparecem-nos, pelos
annos de 540 antes de Christo, constituindo já uma republica de certa
importancia. N'essa epocha alliaram-se com os Etruscos e forneceram-lhes
trinta navios para o ataque da Corsega.
A republica de Carthago tinha um senado e duas assembléas populares, que
elegiam os magistrados incarregados da administração civil e os generaes
incumbidos do commando dos exercitos. O senado era formado por todos os
cidadãos notaveis por sua edade, nascimento, riqueza ou merito pessoal.
Carthago, nas suas guerras, empregava unicamente soldados extrangeiros
assalariados, para não despovoar a republica que occupava apenas uma
limitada área de 75 leguas quadradas, e para que os seus cidadãos não
abandonassem o commercio, que era a fonte da riqueza e do poderio do
estado. A Numidia e a Hespanha forneciam-lhe a sua cavallaria; a
Gallia, a Liguria e a Grecia, a sua infanteria; e as ilhas Baleares, os
seus fundibularios, tão notaveis pela destreza.
Os Carthaginezes foram senhores da Sardenha; tiveram estabelecimentos
seus na Hespanha e na costa da Sicilia. Eram habeis e ousados
navegadores,--o que, junto á vantajosa posição geographica de Carthago,
foi causa do seu ingrandecimento e riqueza.
Durante dois seculos viveram em paz com os Romanos, com os quaes
celebraram tratados, que estabeleciam os limites reciprocos da navegação
e regulavam o commercio entre aa duas republicas. Mas a crescente
prosperidade de Carthago começou a inspirar inveja aos Romanos, e esse
sentimento mais tarde ou mais cedo devia accender a guerra entre as duas
nações. Foi o que succedeu.
Tendo-se originado guerra na Sicilia entre os Mammertinos e Hierão (rei
de Syracusa), pediram os primeiros soccorro aos Romanos, emquanto Hierão
recorreu ao auxilio dos Carthaginezes. Tal foi a causa das guerras entre
Carthaginezes e Romanos, conhecidas pelo nome de _guerras punicas_ (do
latim _Poeeni_, que a principio queria dizer «_Phenicios_», mas que
mais tarde se ampliou em significação, comprehendendo os Carthaginezes).
Houve tres _guerras punicas_ designadas por sua ordem chronologica:
primeira, segunda e terceira.
A primeira guerra punica durou do anno 264 a 241 antes de Christo.
N'ella os Romanos, comquanto muito menos prácticos do que os
Carthaginezes na arte de navegar, começaram por uma brilhante victoria
naval. Perto das ilhas de Lipari, batteram a frota de Carthago e
metteram-n'a a pique. A frota romana era commandada por Duilio Nepote, a
quem por isso Roma ergueu uma estatua. Cornelio Scipião, general romano,
expulsou os Carthaginezes da Corsega e da Sardenha. E Regulo, depois de
tomar Chypre, chegou triumphante deante de Carthago; mas, vencido por
sua vez por Xantippo (general lacedemonio que fôra em soccorro dos
Carthaginezes), foi aprisionado. Inviado, sob palavra, a Roma para que
negociasse a troca dos prisioneiros, Regulo aconselhou, pelo contrario,
o senado a que não intrasse em taes negociações,--pelo que, voltando a
Carthago, soffreu morte cruel.
Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia;
mas, emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio
Pulcher, era completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois
de uma grande victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio,
sobre os Carthaginezes sob o mando de Amilcar, celebrou-se a paz com
a condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas
entre a Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo
annual de 2:200 talentos.
A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para
compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra,
trataram de alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar
Barcas subjugou uma grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena.
Os Romanos, que não podiam ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos
seus rivaes, começaram a inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram
dos Carthaginezes que firmassem tratados, pelos quaes se obrigassem a
não extender as suas conquistas alêm do Ebro e a respeitarem Sagunto,
que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de Amilcar, depois de se
haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a Sagunto e
deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.
Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes
victorias, chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio)
a estar seriamente ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar
a Annibal os soccorros pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha,
na Sicilia e na Macedonia, e mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal
com um novo exercito de Hespanhoes e de Gaulezes. A desorganização, a
heterogeniedade d'estes elementos, e a sua indisciplina, valeram aos
Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam chegado. Alêm d'isso o
soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu destino, porque
aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o mando
dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo
desbaratada toda a sua gente.
Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi
cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia
para acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado
nas planicies de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan.
Esta victoria de Scipião poz termo á segunda guerra punica.
No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e
deram-lhe o cognome de _Africano_.
Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi
uma lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas
povoações e de grande extensão de territorio; os Carthaginezes
appellaram para Roma, porque Massinissa era alliado dos Romanos; mas o
senado de Roma, promettendo-lhes justiça, deixou que aquelle rei
permanecesse na posse dos territorios de que se tinha apoderado. Para
apparentar uma arbitragem, inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a
cidade rica e prospera, sentiu reviver o odio contra a rival de Roma. E
voltando, sempre terminava os seus discursos no senado pela phrase, que
ficou celebre: _delenda Carthago_ («deve ser destruida Carthago»). Tendo
os Carthaginezes repellido um novo ataque de Massinissa, Roma pretextou
que houvera violação do tratado de paz de Zama e declarou a terceira
guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou por um cêrco a
Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome. Scipião
Emilio, o segundo _Africano_, general romano, tomou a cidade e
arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio
carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de
_Africa_. Foi isto no anno 146 antes de Christo.
CAPITULO VI
OS SYRIOS
Nada se conhece ao certo dos tempos primitivos da historia da Syria. A
historia dos seus reis confunde-se inteiramente n'aquella epocha com a
dos monarchas assyrios. Até ao desmembramento dos estados de Alexandre,
a Syria foi successivamente invadida pelos reis de Ninive, pelos de
Babylonia, pelos Persas em tempo de Cyro, e finalmente pelo dito
Alexandre. Depois da morte d'este, Nicator Seleuco (um dos seus
generaes) começou a fundação do grande reino da Syria, appellidado
tambem «reino dos Seleucidas» do nome do seu fundador. A Nicator Seleuco
succedeu no throno Antiocho Soter, que bateu os Bithyneos, os Macedonios
e os Galates.