Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença d

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PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO

PARA

Portuguezes e Brazileiros

BIBLIOTHECA DO POVO

E DAS ESCOLAS

HISTORIA ANTIGA

CADA VOLUME 50 REIS

TERCEIRO ANNO--OITAVA SERIE

Cada volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição

estereotypada,--e fórma um tratado elementar completo n'algum

ramo de sciencias, artes ou industrias, um florilegio litterario,

ou um aggregado de conhecimentos uteis e indispensaveis,

expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, despretensiosa,

popular, ao alcance de todas as intelligencias.

LISBOA

SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Adm. Justino Guedes

Largo do Conde Barão, 50

Agencias: PORTO--Largo dos Loyos, 47,1.º

RIO DE JANEIRO--R. da Quitanda, 38

1900

NUMERO 58

INDICE

INTRODUCÇÃO

CAPITULO I--OS HEBREUS

CAPITULO II--OS EGYPCIOS

CAPITULO III--OS ASSYRIOS E BABYLONIOS

CAPITULO IV--OS PHENICIOS

CAPITULO V--OS CARTHAGINEZES

CAPITULO VI--OS SYRIOS

CAPITULO VII--OS PERSAS

CAPITULO VIII--OS INDIOS

CAPITULO IX--OS CHINS

CAPITULO X--OS GREGOS

CAPITULO XI--OS ROMANOS

ERRATAS IMPORTANTES

Pag. Linha Onde se lê Leia-se

11 36 elementos alimentos

12 18 Amvrão Amrão

» 27 Egypto Egypto, por meio

14 26 peccado, peccado,--

» 42 altar, um altar

» 44 estão estavam

15 38 incluindo incluido

22 6 de que do que

33 19 moisaica moysayca

52 31 tomam tomaram

53 6 impervas impervias

57 33 notas novas

58 17 seis reis

HISTORIA ANTIGA

INTRODUCÇÃO

LIMITES DA HISTORIA ANTIGA--SUA DIVISÃO--TEMPOS PRE-HISTORICOS--O HOMEM

PRE-HISTORICO--EDADE DE PEDRA--EDADE DE BRONZE--RAÇAS HISTORICAS OU

PRIMITIVAS--OS POVOS DA ANTIGUIDADE

Conforme ao que dissémos no tratadinho de _Historia Universal_ (vol.

XLVI da _Bibliotheca do Povo e das Escolas_), começa a _Historia Antiga_

desde as mais remotas epochas de que possa haver-se conhecimento e

prolonga-se até ao seculo V da era christan.

N'ella se comprehende a epocha da phase brilhante dos povos orientaes, a

qual mais tarde esmoreceu perante a supremacia que vieram a adquirir as

civilizações classicas--primeiro a grega e depois a romana--na Europa,

comparativamente com os poderosos e vastos imperios da Asia e do norte

da Africa. O longo periodo da Historia Antiga fecha com o desmoronamento

do imperio romano.

A _Historia Antiga_ pode dividir-se em tres periodos, cada um dos quaes

se divide por sua vez em epochas principaes.

Os tres periodos são;--o dos _tempos primitivos_;--o dos _tempos

mythologicos_;--e o dos _tempos historicos_.

O primeiro periodo comprehende duas epochas principaes: a da _origem do

homem_, e a do _diluvio_ e da _dispersão dos homens_, segundo a tradição

biblica.

No segundo periodo notam-se tres epochas principaes que são:--a dos

_tempos idolatras_, caracterizada pela fundação dos imperios da China,

da Asia, do Egypto, e da Grecia, e pela tendencia que os povos tinham

a elevar á categoria de deuses os seus primeiros soberanos;--a dos

_tempos heroicos_, em que appareceram grandes conquistadores, fundadores

de cidades, e outros homens notaveis, que os povos, então já mais

adeantados, se limitaram a considerar na categoria de heroes ou

semi-deuses;--a dos _tempos poeticos_, ou epocha em que os prophetas e

os poetas exerceram uma acção efficaz sobre o progresso da civilização,

e deram a fórma poetica ás tradições e á legislação.

No periodo dos _tempos historicos_ (aquelle de que possuimos noções mais

seguras e mais positivas) são seis as epochas principaes, a saber:--a

_epocha legislativa_, em que sobresaem quatro personagens mais notaveis:

Lycurgo, Numa, Solon e Confucio;--a _epocha da grande gloria da Grecia_,

na qual esta nação teve a supremacia da civilização na Europa, então

começada a aproveitar pela expansão progressiva do Oriente;--a das

_conquistas dos Romanos_, que se substituiram aos Gregos na dominação e

na influencia, e alargaram consideravelmente a colonização até ao

occidente da Europa;--a das _dissenções intestinas da republica

romana_;--a do _grande explendor do imperio romano_;--a da _decadencia

do mesmo imperio_, cujo desmoronamento põe termo á Historia Antiga, e

abre com a invasão dos Barbaros do norte o periodo da Historia da

Edade-Média.

Reina ainda bastante incerteza na sciencia da Historia ácêrca da

verdadeira epocha do apparecimento do homem sobre a superficie da Terra.

Por muito tempo foi geralmente acceito que, se tal epocha não era

exactamente contemporanea das mais antigas civilizações orientaes de que

temos noticia, pelo menos não era anterior ao actual periodo geologico,

e que o homem sómente havia apparecido pela primeira vez n'um periodo

relativamente recente e já contemporaneo da fauna e da flóra actuaes,

cêrca do logar em que as tradições de differentes povos fazem demorar o

berço da especie humana.

Os descobrimentos da Geologia, sciencia moderna mas já abundante em

resultados definidos, têem, porêm, tirado o valor áquella noção e

demonstram ser mais antiga a existencia do homem na superficie da Terra.

Com os elementos que aquella sciencia lhe fornece, a Archeologia

Pre-historica, de creação muito recente mas de rapidos progressos, tem

chegado a adquirir o conhecimento de que o homem existia desde uma

epocha muitos milhares de annos anterior á actual, tendo até chegado a

ganhar n'essas remotissimas edades um certo gráu de cultura,

traduzido no exercicio de industria, de commercio, e ainda n'outras

manifestações de actividade.

A existencia do homem primitivo, ou do _homem pre-historico_, ou de

raças humanas de que pela Historia propriamente dita não temos

conhecimento algum, é-nos revelada pelo descobrimento de instrumentos de

pedra (utensilios mais ou menos grosseiramente fabricados com aquelle

mineral, e affeiçoados a differentes usos) e pelo de fragmentos de peças

de loiça, de armas e de differentes outros utensilios de uso

domestico,--tudo em camadas de formação anterior ao actual periodo

geologico.

Estes vestigios evidentes do homem pre-historico incontram-se nas

excavações feitas nas camadas de terreno correspondentes ao periodo que

a Geologia denomina _quaternario_, periodo que é o immediatamente

anterior ao actual. Mais recentes descobrimentos, porêm, parecem provar

que a existencia do homem é ainda anterior áquelle periodo. Excavações

feitas em terrenos do periodo _terciario_ tendem effectivamente a

revelar a existencia do homem durante a formação dos mesmos terrenos. É

no terreno denominado _mioceno_ que se incontram os vestigios que levam

a essa conclusão, e d'ahi provêm o nome de _homem mioceno_ ou _homem

terciario_ ao homem que se julga ter existido no referido periodo

geologico[1].

[1] Veja-se o livrinho de _Geologia_ (vol. XXXI da _Bibliotheca

do Povo e das Escolas_).

Não acceitam ainda todos os archeologos a existencia do homem terciario;

mas a opinião que a defende vai cada dia ganhando mais terreno. O

congresso de Anthropologia e de Archeologia pre-historica, que em 1880

se reuniu em Lisboa, tratou essa questão e contribuiu muito para a sua

resolução definitiva, sendo importantes os dados que para isso

forneceram as excavações feitas no nosso paiz e os achados n'ellas

realizados pelo eminente geologo portuguez Carlos Ribeiro, ha pouco

fallecido.

A Archeologia Pre-historica divide o periodo _quaternario_, sob o

ponto-de-vista da existencia de vestigios da especie humana, em duas

epochas:--a _edade paleolithica_, ou da pedra lascada;--e a _edade

neolithica_, ou da pedra polida. A substancia de que são fabricados os

instrumentos achados, e a perfeição relativa do seu fabrico, são os

fundamentos que fornecem os caracteres distinctivos das duas edades.

Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex,

principalmente machados, talhados toscamente pela separação de lascas

tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim

o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com

fórma similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as

pelles de animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios

correspondentes a esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de

viver da especie humana foi então de extrema simplicidade, que eram

desconhecidos os animaes domesticos e a agricultura, que os homens

vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se com os fructos

silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas

naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes

ferozes. A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos

consistia em peixe e marisco. O estado social devia ser o mais

rudimentar possivel; apenas se pode considerar n'aquella epocha esboçado

o viver da familia. Aquelle modo de viver era por certo ainda mais

simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da Nova Caledonia.

Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As

armas e os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade

paleolithica por certas particularidades de fórma e pela maior perfeição

do trabalho, a qual já denuncia um mais adeantado estado de educação,

havendo entre os fragmentos de loiça e entre os objectos de ornato

incontrados alguns que revelam uma certa industria, ainda rudimentar,

mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que n'estas epochas se

practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas localidades

substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como

vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a

industria se delineava já com feições pronunciadas.

Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados

_kjoeckkenmoeddinger_ («restos de cozinha»), que são grandes

aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão,

incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle

do Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem

tambem á mesma epocha as _palafittas_, ou povoações lacustres, achadas

pela primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões

de cabanas junto das margens dos lagos, construidas sobre base de

estacaria mergulhada na agua. Nas _palafittas_ incontram-se notaveis

vestigios, que provam o relativo adeantamento da especie humana

n'aquelles tempos. É assim que a existencia de cereaes demonstra que já

havia agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado;

a de fragmentos de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.

A existencia de utensilios de metal nas _palafittas_ indica que a epocha

d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou

pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas

civilizações do Oriente. Começa n'esse ponto a _edade de bronze_, ou

aquella em que as armas e os diversos utensilios, até então construidos

exclusivamente de pedra, começam a ser substituidos por outros

fabricados de bronze.

A _edade de bronze_ variou muito em duração nos diversos paizes da

Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e

pertencendo, pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No

seu todo deve considerar-se como um periodo de transição entre os tempos

pre-historicos e os tempos historicos.

Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres

raças _semitica_, _chamitica_ e _japhetida_ (mais geralmente denominada

_aryana_ ou _indo-européa_), as quaes por isso se dizem _raças

historicas_. A existencia d'estes tres troncos primitivos é revelada

pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações

ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do

homem, Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia

humana, resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse

Noé, que era justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os

tres filhos d'elle ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um

d'elles--Sem, Cham e Japhet--indo estabelecer-se em pontos differentes

deu origem a uma raça. Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica;

Cham passou á Africa e originou a raça chamitica; e finalmente Japhet,

estabelecendo-se no oriente da Europa, deu origem á raça japhetida, ou

aryana, ou indo-europêa, assim denominada, porque na sua expansão

ulterior se estendeu até ás Indias.

A raça semitica--(ou os semitas)--apparece-nos, no decorrer da Historia

Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta

Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas

do Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do

imperio da Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e

parte das populações da Syria. Presentemente esta raça está representada

pelos Judeus e pelos Arabes. A sua importancia historica deriva

principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do

desinvolvimento a que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião

moysaica, o christianismo e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo

d'esta raça--os Arabes--, invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia

da sciencia grega, contribuindo assim para a civilização d'esta parte do

mundo.

A raça chamitica--(ou os chamitas)--povoou na Antiguidade a Ethiopia, o

Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia e da

Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos _fellahs_ do

Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos _abexins_ e pelos _tuaregs_.

A raça aryana--os aryas, os indo-europeus--foi representada na

Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o

sendo pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os

povos indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista

historico; extendem hoje o seu _habitat_ desde o norte da Europa até ás

margens do Ganges; é no meio d'elles que se passa o grande movimento do

progresso social, e a sua expansão colonizadora extende-se até aos

confins do Novo Mundo, para onde têem transplantado as maravilhas do

progresso e os mais perfeitos methodos de cultura intellectual.

Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de

variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações

filhas da differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.

O estudo d'essas differentes variedades leva a uma classificação

differente da que sob o ponto-de-vista historico fizemos, e baseada em

caracteres anatomicos que são do dominio da Anthropologia.

Os principaes povos que figuram na Historia da Antiguidade são: os

Hebreus, os Egypcios, os Assyrios e Babylonyos, os Phenicios, os

Carthaginezes, os Syrios, os Persas, os Indios, os Chins, os Gregos e os

Romanos. De cada um d'elles trataremos em capitulo especial.

CAPITULO I

OS HEBREUS

A historia dos Hebreus confunde-se no seu principio com as mais antigas

tradições da primitiva edade historica do homem. A mais antiga fonte em

que ella se estuda é o _Genesis_, no qual se acham compendiadas as

tradições da creação do homem e da primitiva dispersão das raças

historicas, em que primeiro se dividiu a familia humana.

Segundo o _Genesis_, Deus, depois de ter creado o mundo, separado a

terra dos mares, e povoado aquella de plantas e de animaes, creou o

primeiro homem, que teve o nome de Adão, e creou-lhe logo depois para

companheira a primeira mulher, que se chamou Eva. D'este primeiro par

nasceram tres filhos: Caim, Abel e Seth. O primeiro, que se deu á

cultura dos campos, matou por ciumes a seu irmão Abel, expatriando-se em

seguida e indo fundar a cidade de Henochia, que tomou tal nome do

primeiro filho (Henoch) do seu fundador. Abel exercêra o mister de

pastor. Seth, o terceiro filho de Adão, teve numerosa descendencia, na

qual se tornou notavel Noé, pelas circumstancias que vamos referir.

Em tal devassidão haviam cahido os homens, que Deus, como que

arrependido de os haver creado, resolveu exterminál-os; mas, como Noé e

sua familia conservavam vida virtuosa, no meio do viver vicioso do resto

da humanidade, determinou tambem Deus fazer excepção a respeito d'elles.

Mandou por isso a Noé que construisse uma arca, na qual se mettesse com

a sua familia e com um certo numero de animaes de todas as especies; e,

feito isso, mandou á terra o diluvio, que tudo alagou e em que pereceram

todos os homens e animaes, excepto os que se continham na arca, a qual

fluctuava na superficie da agua.

Terminado o diluvio, que durou quarenta dias, e tendo baixado as aguas e

descoberto de novo a superficie da terra, poisou por fim a arca sobre o

monte Ararat, na Armenia. Sahiu d'ella Noé, com sua familia e com os

differentes animaes, e começou a cultivar a terra. Foi elle o primeiro

que cultivou a vinha, fabricou vinho e com este se embriagou.

Falavam a principio todos os homens a mesma linguagem; mas o seguinte

acontecimento deu origem a que entre elles se multiplicassem as

linguas. Tendo-se estabelecido e havendo alargado a sua occupação nas

planicies de Sennaar, entre o Tigre e o Euphrates, tornaram-se

orgulhosos do seu valor e poder, e conceberam o plano de construir uma

torre, que chegasse ao céu. Começaram a pôr em practica o seu temerario

intento; mas Deus, para castigar tamanha ousadia, confundiu-lhes as

linguagens, por fórma que elles, deixando de comprehender-se uns aos

outros, tiveram que abandonar a obra e que dispersar-se. A torre ficou,

pois, por construir-se e denominou-se _Babel_, vocabulo que quer dizer:

_confusão_. Foi aquella dispersão que deu origem á separação das tres

raças, _semitica_, _chamitica_ o _japhetida_, dos nomes dos tres filhos

de Noé--Sem, Cham e Japhet.

Pouco a pouco se extinguíra na memoria dos homens a sua historia

primitiva e as licções e preceitos que n'essa historia se continham.

Resolveu por isso o Senhor escolher entre os descendentes de Sem uma

familia, que houvesse de ser a guarda e a depositaria das antigas

crenças e tradições. Essa familia foi a de Tharé, originaria de Ur (na

Chaldéa), e que, por causa da falta de pastagens para os gados, havia

ido estabelecer-se na cidade de Haran (na Mesopotamia). Foi alli que

Deus revelou a Abrahão, filho do dito Tharé, a missão divina que lhe

destinára e como resolvêra constituil-o chefe da raça predestinada ou do

_povo escolhido_. Por mandado do Senhor fez Abrahão varias

peregrinações. O Senhor abençoou-o, prometteu-lhe grande descendencia e

disse-lhe que teria de sua mulher Sára, até então esteril, um filho,--o

que se realizou com o nascimento de Isaac.

Deus, para experimentar a fé e a obediencia de Abrahão, ordenou-lhe que

lhe sacrificasse seu filho Isaac, ao que elle sem repugnancia se

promptificou, afastando-se para consummar tal sacrificio. Quando ía a

descarregar o golpe, Deus lh'o impediu, detendo-lhe o braço e dando-se

por satisfeito com aquella prova de obediencia.

Isaac teve dois filhos, que foram Esaú e Jacob. Este ultimo, comquanto

mais novo, foi o que recebeu a benção do pae, que estava cego, e que foi

inganado, julgando que abençoava Esaú. Áquella benção, obtida

subrepticiamente, por conselhos e industria de sua mãe, Rebecca, e á

qual estava annexo o cumprimento das promessas que Deus fizera a

Abrahão, deveu Jacob o herdar o patriarchado do povo hebreu. Temendo,

porêm, a vingança de Esaú, ausentou-se para a Mesopotamia, onde, depois

de servir por muitos annos a seu tio Labão, casou com as duas filhas

d'este, Lia e Rachel.

Teve Jacob doze filhos, que são os doze patiarchas, cabeças e origens

das doze tribus do povo de Israel, nome que tambem teve o mesmo Jacob.

Esses patriarchas foram:--o 1.º, Ruben; o 2.º, Simeão; o 3.º, Levi

(cujos descendentes foram destinados ao sacerdocio e a serem ministros

do templo de Deus); o 4.º, Judá; o 5.º, Dan; o 6.º, Nephtali; o 7.º Gad;

o 8.º, Azer; o 9.º, Isachar; o 10.º, Zabulon; o 11.º José; o 12.º,

Benjamin.

Os mais velhos de entre elles começaram a ter inveja a José, por verem

que era o mais estimado de Jacob, e porfim intentaram matál-o,

lançando-o n'uma cisterna; mas, mudando de resolução, venderam-n'o como

escravo a uns madianitas, que o levaram para o Egypto, onde foi comprado

por Putiphar, creado de Pharaó, rei d'aquella nação. Serviu José a

Putiphar com tanta fidelidade, que não se prestou a um crime para que o

provocava a esposa do mesmo Putiphar. Esta, para d'elle se vingar,

accusou-o aleivosamente de falso crime e por esse motivo foi elle

mettido n'um carcere. Alli Deus revelou-lhe a significação mysteriosa de

uns sonhos que haviam tido dois dos seus companheiros de captiveiro. Um

d'estes, como Pharaó tivesse um sonho em que viu septe vaccas magras e

septe espigas delgadas, que devoravam septe vaccas gordas e septe

espigas fartas, indicou-o ao rei, como capaz de lhe interpretar o sonho.

José explicou com effeito ao rei o sentido d'aquella visão.

Surprehendido e maravilhado Pharaó com a sabedoria d'elle, elegeu-o para

seu ministro, e deu-lhe grandes honras e distinções. José casou com a

filha de um sacerdote de Heliopolis, da qual lhe nasceram seus dois

filhos Manassés e Ephraim. Como ministro, e gozando toda a confiança do

rei, organizou a arrecadação dos cereaes, de modo que, quando chegaram

os septe annos de fome, symbolizados nas septe vaccas magras e nas septe

espigas delgadas do sonho, o Egypto estava provido contra a escassez e

ainda poude efficazmente soccorrer as povoações proximas, nas quaes se

não tinham adoptado eguaes providencias.

A escassez de alimentos, que tambem se sentiu em Chanaan, terra onde com

sua familia habitava Jacob, obrigou este a mandar ao Egypto seus filhos,

a comprar trigo. Soube da chegada d'elles José e, sem se lhes revelar

como seu irmão, obrigou-os a declarar quem eram e a deixarem em poder

d'elle, em refem, a Simeão, emquanto iam a Chanaan a buscar-lhe

Benjamin, o irmão mais novo.

Obrigados a voltarem ao Egypto, por causa da fome que continuava,

conseguiram que Jacob, apesar da sua repugnancia, deixasse ir

Benjamin; e então José, dando-se a conhecer aos irmãos, entre lagrimas

de alegria, mandou-lhes que voltassem a Chanaan, a buscar Jacob e toda a

familia. Assim aconteceu, indo toda a familia de Jacob estabelecer-se no

Egypto. Alli viveu ainda Jacob 17 annos, vindo a finar-se na edade de

147, depois de abençoar seus filhos, com bençãos mysteriosas e

propheticas, vaticinando que na descendencia de seu filho Judá estaria o

imperio e o governo do povo, até vir ao mundo o Messias, que havia de

remir o peccado de Adão. Fallecido Jacob, ficaram residindo no Egypto

seus filhos, nas terras que, em attenção a José, lhes havia dado o

Pharaó, e nas quaes tiveram numerosa descendencia.

Permaneceram os Israelitas ou Hebreus no Egypto por espaço de 217 annos.

No decurso d'estes, os Egypcios, desconfiando d'elles, opprimiam-n'os

cruelmente, obrigando-os a trabalhos duros, e o rei mandava matar-lhes

todos os filhos recem-nascidos do sexo masculino, os quaes eram lançados

ao Nilo. Nascendo Moysés, filho de Amrão e de Jocabed, esta conseguiu

occultál-o por espaço de tres mezes; mas, não o podendo conservar

escondido por mais tempo, lançou-o áquelle rio, dentro de um cesto.

Estando a filha do rei a banhar-se no rio, viu a creança, salvou-a e

deu-lhe o nome de Moysés, que quer dizer: «salvo das aguas». Depois

levou-o para a côrte, onde foi creado e passou a mocidade.

Deus, condoido de quanto os Hebreus soffriam entre os Egypcios, resolveu

livrál-os da oppressão, fazendo-os sahir do Egypto, por meio de

assombrosos milagres. Foram esses prodigios obrados por intermedio de

Moysés e de seu irmão Arão, apparecendo primeiro Deus a Moysés no monte

Horeb, e mandando-lhe que fosse á presença de Pharaó, a pedir-lhe que

deixasse sahir do Egypto o povo de Israel. O rei, bem longe de acceder

ao pedido, antes redobrou a perseguição.

Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença de Pharaó,

para lhe mostrarem como era vontade de Deus o que lhe pediam, lançou

Arão na terra uma vara que levava na mão, e a vara logo se converteu em

serpente. Quiseram os magos imitar a transformação, convertendo tambem

outras varas em serpentes; mas a serpente em que se tornára a vara de

Arão devorou todas as outras. Continuou, apezar de tudo, a obstinação de

Pharaó; e Deus, para mais claro aviso e para castigo, mandou ao Egypto

as dez pragas, que assolaram todo o paiz.

Essas pragas foram as seguintes: a primeira consistiu em se converter em

sangue a agua dos rios e das fontes do Egypto, morrendo todos os

peixes; a segunda, n'uma innumeravel multidão de rans que intravam por

todas as casas; a terceira, n'uma quantidade enormissima de mosquitos e

de outros insectos, que tornavam a vida insupportavel; a quarta, n'uma

abundancia de moscas, que perseguiam atrozmente homens e animaes; a

quinta foi uma peste que matou um numero enorme de pessoas e fez tambem

grande devastação nos animaes; a sexta foi uma epidemia de chagas

hediondas e repugnantes, que appareciam nos corpos dos Egypcios e dos

animaes; a septima, uma grande chuva de pedra, acompanhada de terrivel

trovoada, ficando destruidas por ellas as arvores, plantações,

sementeiras e pastos; a oitava foi o apparecimento de uma nuvem de

gafanhotos, que tambem produziram incalculavel estrago nos campos; a

nona manifestou-se por umas trevas muito espessas, que por tres dias

escureceram o Egypto, excepto a terra de Gessen (logar em que habitavam

os Hebreus, aos quaes não chegou nenhuma das pragas); a decima consistiu

na morte de todos os primogenitos egypcios, desde o filho de Pharaó até

ao do escravo mais humilde, e tambem na de todos os primogenitos dos

animaes.

Movido finalmente Pharaó pela decima praga, consentiu que os Hebreus

sahissem do Egypto. Na noite do dia 14 do mez de Nisan, que corresponde

ao de março, sahiram, pois, os descendentes de Jacob da terra dos

Pharaós, em tão grande numero, que só homens armados e capazes de

pelejar eram mais de 600:000. Guiava-os um anjo por meio de uma columna,

que de dia era formada como que de uma nuvem, e de noite era de fogo.

Esta columna precedia os Hebreus e indicava-lhes o caminho atravez do

deserto. Caminhavam por este, quando Pharaó, de novo indurecido, se

arrependeu da concessão que fizera, mandou armar todos os seus carros

bellicos e sahiu com um numeroso exercito, a perseguir e captivar outra

vez o povo de Israel, que ia já perto do Mar Vermelho. Vendo-se de novo

perseguidos pelos Egypcios, os Israelitas começaram a murmurar contra

Moysés, por havel-os mettido n'aquelle perigo; mas este exhortou-os a

que tivessem Esperança em Deus e, extendendo uma vara, que levava na

mão, sobre o Mar Vermelho, as aguas dividiram-se para um e outro lado,

deixando no meio um caminho enxuto, pelo qual passaram a salvo os

Israelitas. Chegando os Egypcios e vendo as aguas divididas, intraram no

mesmo caminho para os perseguirem; mas, estando já todos n'elle, Moysés

levantou outra vez a vara sobre o mar e as aguas voltaram á sua posição

natural, ficando submerso todo o exercito de Pharaó.

Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem

perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas

ceremonias um cordeiro.

Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até

ao deserto,--onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar

delicioso que cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os

Israelitas peregrinaram no deserto até intrarem na terra da promissão.

Com elle se alimentavam, colhendo cada um diariamente uma certa medida,

por fórma que, se queria guardar alguma porção para o dia seguinte, logo

o manjar se corrompia. A peregrinação pelo deserto durou tanto tempo,

porque assim o determinou Deus, em castigo das murmurações e falta de fé

dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os retrogradar para o

deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.

Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as

taboas da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e

dictou-lhe as outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo

seu povo. Emquanto Moysés estava sobre o Sinai--que foi por quarenta

dias e quarenta noites--pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um

deus que adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou

um bezerro de oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual

offereceram sacrificios. Quando Moysés desceu do monte e teve noticia

d'este acto de idolatria, depois de orar ao Senhor--em desaggravo de tão

grande peccado,--em signal de indignação, quebrou as taboas da lei,

mandou aos levitas que matassem os Israelitas que incontrassem no

caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro de oiro, e supplicou a

Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a final.

Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do

Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez

preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo

foram confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de

Levi feitos ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este

templo, que era portatil, e se chamava tambem _tabernaculo_, acompanhava

o exercito e era dividido em duas partes: na interior, que se chamava

_sancta sanctorum_, estava a arca do testamento, e só intrava o summo

sacerdote; na exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e

um candelabro com septe lumes.

Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas na

terra da promissão, a cuja vista havia morrido Moysés, na edade de 120

annos e depois de ter abençoado o povo.

A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina

ou Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela

denominação de _reinos dos Cananeus_. Morto Moysés, ficou com o governo

do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que

metesse os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras

pellas differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer

varios povos e reis, e que conquistar varias cidades da Palestina.

Dividida esta pelos povos de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima

parte dos fructos da terra aos levitas.

Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos

juizes, dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e

Sansão. D'este ultimo contam os livros santos que, sendo ainda muito

moço e sahindo-lhe ao incontro um leão, o despedaçou logo; depois matou

de uma vez trinta Philisteus; e de outra, depois de haver quebrado umas

cordas muito fortes com que o tinham amarrado, matou mil Philisteus com

a queixada de um jumento. N'outra occasião, incerrado pelos Philisteus

na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as portas da cidade e

levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de outras,

deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira

causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem

jámais cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que

Sansão adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram

áquelle os cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.

Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o

indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido

os cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus

ao templo de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão

duas columnas do mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio

abateu, morrendo esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio

Sansão.

O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante

o governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o

que Deus concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e

esse foi o primeiro dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme

ás leis e ao temor de Deus, mas depois faltou a uma e outra coisa,

pelo que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo

muito valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias,

que desafiava o exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David,

perseguiu-o e não quiz depor o poder; mas afinal, vencido na guerra

contra os Philisteus, suicidou-se. Introu então David na posse pacifica

do governo, comquanto tivesse que sustentar guerras contra os

Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e os habitantes de

Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os materiaes

necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a

construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento

para o seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves

peccados que tinha commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e

practicou muitos outros actos de soberano justo e sabio.

A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e

sagaz, e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e

prosperidades. Durante todo o tempo que governou, conservou em paz o

reino de Israel; foi temido e respeitado pelos principes vizinhos,

muitos dos quaes eram seus tributarios; as suas frotas levavam-lhe

grande quantidade de oiro e de materias preciosas; floresceu o commercio

em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos reinos estranhos.

Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo grandioso, para

a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande numero

de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar

de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.

Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu,

mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome

de «juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam

juntas e tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e

cada uma das mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com

Salomão, para que decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao

meio o menino disputado e que se désse metade d'elle a cada contendora.

Uma das mães acceitou a sentença; mas a outra clamou que antes se désse

o menino inteiro e vivo á sua rival. Assim concluiu Salomão que a

verdadeira mãe era aquella que não consentia na morte da creança. Mandou

por isso que esta lhe fôsse intregue.

Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o

seu povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida

prevaricou, edificando templos aos falsos deuses, adorados por

mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe

com certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi

reprehendido pelo Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então

o livro sagrado chamado _Ecclesiastes_, que figura no Novo Testamento e

em que mostrou a vaidade das grandezas humanas.

A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico,

que, pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não

só o não faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como

escravos. Vendo e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão,

acclamando por seu rei a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as

tribus de Judá e de Benjamin ficaram na obediencia de Roboão, que se viu

obrigado a fugir precipitadamente para Jerusalem.

Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a

Roboão chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a

Jeroboão, denominou-se Reino de Israel.

Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que

fez adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos

Israelitas cahirem em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus

successores, os 21 reis que governaram Israel por espaço de 254 annos,

findos os quaes foi o reino destruido pelos Assyrios e seu rei

Salmanazar, que tomou Samaria e levou captivas as dez tribus de Israel.

No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que

Roboão e muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a

idolatria; por isso foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou

aos seus inimigos. O reino de Judá durou por 468 annos, contados do

principio do reinado de David. Os peccados dos Judeus foram causa de

Deus os intregar aos Chaldeus que, governados por seu rei Nabucodonosor,

tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram o templo do Senhor, e levaram

os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro chamou-se o «captiveiro de

Babylonia» que durou por mais de 70 annos.

Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e

Chaldeus, o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias

batalhas e tomou Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus

que regressassem á sua patria, o que se effectuou sob o mando do summo

pontifice Josué e de Zobadel. Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro

cuidado foi a re-edificação do templo, a qual não poderam logo levar

a effeito por lh'o impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim

concluil-a Zorobabel, mediante o auxilio de Dario I. por pouco durou a

independencia dos Hebreus. As reformas de Esdras, nas quaes se

comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de outras nações, e

a dissolução das familias até então constituidas contra esse preceito,

originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos,

ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado,

subjugaram os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista

de Alexandre se confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas

ao dominio d'aquelle imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e

os Samaritanos, aos quaes os primeiros não permittiam a intrada no

templo de Jerusalem. Os Judeus não constituiam assim já um povo, mas uma

simples communidade religiosa ou uma casta sacerdotal, isolada no meio

das outras populações do grande imperio persa.

Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno,

submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de

Alexandre foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do

Egypto e da Syria. Com os Machabeus chegou a recobrar a sua

independencia, sendo Aristobulo proclamado rei; mas repetidas guerras

civis deram logar á intervenção dos Romanos na Palestina, chegando

Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde essa epocha em estado de

incompleta servidão.

Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo

Herodes incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde

augmentaram as dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre

Judeus e Romanos, o que levou Nero a mandar Vespasiano, seu general,

para reduzir completamente á obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi

interrompida pelo regresso de Vespasiano a Roma, para assumir o governo

imperial, e só veio a ser ultimada pelo imperador Tito, que foi em

pessoa á Palestina com um exercito de 60:000 homens. Á vista do exercito

romano, applacaram-se as contendas civis que havia em Jerusalem, e esta

cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo verdadeiramente

heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima obra de

defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus, perdida

toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em

seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada

de Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O povo Hebreu

perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de

continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres

particulares da sua raça e da sua religião.

Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de

Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro

annos antes da era actual (ou era christan).

CAPITULO II

OS EGYPCIOS

As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram

subjugadas, ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo

isthmo de Suez. Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos

monumentos historicos. Aquelle povo conquistador, que alli se

estabeleceu, veio a constituir o que na Historia Antiga é conhecido pela

denominação de _povo egypcio_.

Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que

se presume ter sido nos primordios _theocratico_ ou _sacerdotal_. Parece

provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de

civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da

era de Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia

egypcia, a qual durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do

Egypto por Cambyses. O dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a

Thebas, cidade fundada pelo mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este

monarcha accrescentou consideravelmente o seu territorio, construindo

diques para impedir que o Nilo continuasse a alagar os seus campos

marginaes. Nos terrenos assim conquistados ao rio, e na extremidade do

_delta_ d'este, edificou uma cidade grande e importante, que teve o nome

de Memphis.

Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios

muito obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes

dynastias, a mais notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador

Snervu, e que se denominou «a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós

immediatos successores de Snervu foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se

tornaram celebres por haverem mandado construir as tres grandes

pyramides, que foram destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na

planicie de Gyzeh, na margem esquerda do Nilo, a breve distancia de

Memphis, são aquellas pyramides os mais notaveis monumentos da

civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de altura, a de Khavrá

138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30 annos, por

100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.

Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas

grandes obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um

grande numero de canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes

regiões do sólo, afim de lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as

inundações.

Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou

_Pastores_) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A

invasão, comtudo, não se extendeu além do _delta_ do Nilo e do baixo

Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos

Hyksos que porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis,

descendente dos antigos reis do Egypto.

Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros)

Moeris que executou differentes obras muito importantes, no numero das

quaes figura o famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado

a receber as aguas do Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o

Egypto de ser totalmente inundado. Este lago fornecia agua, por um

grande numero de canaes, a differentes zonas que fertilizava.

Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi

o primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que

subjugou, e outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a

conquista da Asia; e, tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino,

bateu e derrotou os Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios;

submetteu a Thracia, a Colchida, e chegou até ás margens do Ganges.

Deixou por toda a parte inscripções, commemorando as suas victorias.

Regressando aos seus estados, dedicou-se a promover o progresso das

artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e accrescentou ás suas

glorias militares a de ter fundado instituições politicas e promulgado

leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude resistir a

essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria,

ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos

seus deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu

maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a sua decadencia,

que as perturbações intestinas contribuiram bastante para precipitar. A

Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria, sempre

insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade

nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos

estados independentes. As rivalidades entre estes differentes estados

levou-os a admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli

fôra sempre vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios

disputaram o paiz e fizeram conquistas que, comquanto não fossem

duradouras, comtudo apressaram bastante a ruina da nação. Depois de

expulsos aquelles dois povos, o Egypto ficou sendo governado outra vez

por principes independentes. No delta do Nilo havia doze d'estes

principes, os quaes constituiram uma confederação, formada dos seus

estados, a que se chamou _dodecarchia_. Um d'aquelles principes, porêm,

chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros principes e

restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha,

ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer

voltar ao seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as

lettras, as bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco

as grandes obras de irrigação que estavam--havia muito--suspensas.

Sustentou-se no throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no

reinado de um dos seus descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de

certa prosperidade, a que logo poz termo a conquista persa, realizada

por Cambyses. Desde esta até á conquista por Alexandre Magno medeiam

dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram politicamente uma

existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois da morte de

Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns

cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.

Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo

da Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos

dos seus philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo

instruir-se nas sciencias ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em

tempo uma idéa muito exaggerada do estado a que a sciencia havia chegado

no Egypto. Attribuem-se a este povo conhecimentos mathematicos, e

especialmente astronomicos, muito adeantados; mas não é averiguado que

os possuisse em tal desinvolmento,--e bem poucos vestigios existiam

d'elles, quando alli foram da Grecia, Eudoxio e Platão. A religião,

as artes e a philosophia, é que floresceram muito notavelmente n'aquelle

paiz. As ruinas innumeraveis de que todo o seu sólo está coberto,

bastariam para attestar o grande estado de esplendor a que elle chegou.

A historia das artes apresenta alli muito mais caracteres de certeza do

que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os templos, os palacios,

os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem puderam ainda

destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde os

Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do

Egypto, os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções

colossaes que se vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres

mais notaveis são as de que atraz falámos).

O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes

em nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao

poder sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa

distincção das castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á

qual se seguia a dos guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos

trabalhadores (divididos ainda estes em diversas classes, que nunca se

confundiam). A todo o egypcio era prohibido sahir da condição em que

nascêra e abraçar profissão que não fosse a de seu pae.

CAPITULO III

OS ASSYRIOS E BABYLONIOS

Historia Antiga · 第 1 / 6 段