na sepultura, e o coração na misericordia de Deus. Quando comecei a...
cavar o abysmo da minha victima... Leonor já tinha dois annos e meio, e
fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia
dizer-me: «Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem mãe» E ficou.
_(Eugenia, que tem ouvido muito alvoroçada este dialogo, n'este lance
corre em grande transporte aos braços de Rodrigo)._
D. Eugenia
Graças, graças, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do céo! Agora sim,
que toda a minha alma respira desopprimida! És meu Rodrigo! _(Ajoelhando
aos pés do visconde)_ Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o
coração, e de sobre esta creança um affrontoso opprobrio!
Visconde _(enleado)_
Que é?! que diz, Eugenia?
D. Eugenia
Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que
morreu... Sou a orfã que a mãe de Deus guiou até ao coração de seu filho.
Visconde _(agitadissimo)_
É isto febre, meus filhos? é o delirio dos ultimos arrancos? Não me está
esta senhora dizendo que é filha de Martha?!
D. Eugenia
Sou... sou...
Visconde
Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia
para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e
extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa
como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz,
virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou,
Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os
dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu
berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a
despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais
rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para
a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame!
Fui eu... eu fui o algoz... _(Resvala á cadeira, soluça e prosegue:)_
Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na
agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu
pae que me perdôe. Dize-lhe que é um agonisante que lh'o pede... Um
homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus,
não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a
teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas...
Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo
de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...
SCENA III
OS MESMOS, E PEDRO ARANHA
Pedro _(a D. Eugenia)_
Se V. Ex.ª quizesse sahir á primeira salla, encontraria seu pae.
D. Eugenia
Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!
Visconde
Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de
Vasconcellos lhe pede perdão.
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JOSÉ DE SA E JORGE DE MENDANHA
Jorge _(com as costas voltadas para o visconde)_
Aqui estou, Leonor. _(Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar)._ Não
ajoelhes. Se algum de nós deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada
estás do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espaço de
vinte e um annos. Agora, o que pódes dar-me é lagrimas. Eu t'as recebo
como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. _(Rodrigo
approxima-se)_ Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre
coração de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa
saber que ella é rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de
fortuna, como não podiam dar-me um instante de paz, não se perderam.
Poderás enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas não forem de
angustias tamanhas como a minha.
D. Eugenia _(ajoelhando)_
O perdão, meu pae!
Jorge
Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!
D. Eugenia
O perdão... para o pae de meu marido. _(O visconde está erguido e
amparado nos braços de Pedro Aranha e José de Sá)._
Jorge _(sem olhar para o visconde)_
A misericordia dos homens não póde ser mais indulgente que a de Deus.
Quando esse homem não sentir sobre a consciencia o pezo da justiça
divina, o meu perdão ser-lhe-ha inutil. Eu não posso perdoar-lhe a elle,
por que Deus ainda me não perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua mãe.
Elle... que morra a choral-a. _(Aponta-o sem o vêr)._
FIM.
* * * * *
COMO OS ANJOS SE VINGAM
DRAMA EM UM ACTO.
PERSONAGENS
FRANCISCO DE VALLADARES--30 annos, esposo de
D. ALBERTINA--entre 20 e 25 annos.
D. ANTONIA DE VALLADARES--irmã de Francisco de Valladares, 25 annos.
CONSELHEIRO SOUSA--pae de Albertina.
JOÃO LOBO--medico, entre 30 e 40 annos.
LEONARDO--creado velho.
Uma creada, nova.
* * * * *
COMO OS ANJOS SE VINGAM
ACTO UNICO
Ante-camara espaçosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado.
_João Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina sáe de pós elle._
SCENA I
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
Albertina _(com vehemencia e receio)_
O nosso doente continua bem, não é verdade, snr. Lobo?
João Lobo
Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste.
Albertina _(afflicta)_
Sim?! Peorou?
João Lobo
Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes...
Albertina _(sobresaltada)_
E tornou a febre, meu Deus?
João Lobo
Sim, ha o quer que seja.... e póde ser que isto não passe d'um
accidente... mas... Que está V. Ex.ª cogitando? Suspeita que alguma
impressão moral...
Albertina _(preoccupada e abstrahida)_
Nada... Eu hontem de tarde sahi para vêr minha mãe. Demorei-me uma hora;
e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada.
Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicação
d'um ar tão desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi
inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem.
SCENA II
OS MESMOS E D. ANTONIA
João Lobo _(comprimentando-a)_
V. Ex.ª nos vae dizer se alguma impressão moral póde explicar a tristeza
e abatimento em que encontro seu mano.
D. Antonia _(desdenhosa)_
Já a mana Albertina me fez a mesma pergunta. Acho curiosa a indagação!
Eu não sei se meu mano recebeu impressões moraes...
João Lobo _(sempre sereno e risonho)_
É que eu deixei-o hontem socegado e alegre...
D. Albertina
É verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi;
depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras...
havia não sei que desconfiança e mysteriosa intelligencia entre meu
marido e...
D. Antonia _(atalhando-a)_
E eu?!
D. Albertina
Sim... pareceu-me...
D. Antonia
Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo!
D. Albertina
Injusta, não. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. Não vá o doutor
cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa
entender... Que mal lhe fiz? que injustiças minhas a offenderam?
_(Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares)_ O
Francisquinho chama. _(Corre ao quarto)._
SCENA III
JOÃO LOBO E D. ANTONIA
João Lobo
A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmão é
melindroso. Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida estão
mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixão, que os fios
partem-se...
D. Antonia _(impaciente)_
Mas que fiz eu ou que disse?!
João Lobo
Não sei o que V. Ex.ª disse ou que fez. O que sei é que a snr.ª D.
Antonia odeia sua cunhada.
D. Antonia
Que calumnia! odeio minha cunhada!
João Lobo _(sempre sereno)_
E, se puder perdêl-a, perde-a.
D. Antonia
Porquê?.. por que hei de eu querer perdêl-a?..
João Lobo
Não lhe respondo. O meu silencio pede á sua consciencia que responda,
minha senhora. E se V. Ex.ª calar a voz da consciencia, verá como ahi na
sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe...
D. Antonia
O quê?..
SCENA IV
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina _(alvoroçada)_
Elle está tão inquieto!.. Vamos lá, doutor... _(suspende-se)_ Vá... vá!
_(O doutor entra na alcôva)._
SCENA V
D. ALBERTINA E D. ANTONIA
D. Albertina _(com brandura e commovida)_
Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim.
D. Antonia
Eu! que teima! que aleivozia!
D. Albertina _(rapida e a meia voz)_
Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser
uma digna irmã de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado
vingar-se de mim calumniando-me.
D. Antonia
Que me accuse! É original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a
deshonestidade da minha vida! Dê-me licença. Retiro-me que não vá ser
contagiosa a minha deshonestidade! _(Sáe rindo uma rizada nervosa.
Albertina encaminha-se para a alcôva guando o doutor vem sahindo)._
SCENA VI
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
D. Albertina
Já?! que tem elle?
João Lobo
Mandou-me sahir: quer estar só.
D. Albertina _(com espanto)_
Mandou-o sahir?!
João Lobo
Terminantemente; mas com delicadeza.
D. Albertina
Então que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido
possa...
João Lobo
Possa o quê, minha senhora? Enlouquecer? é o que V. Ex.ª quer perguntar?
Não ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.
D. Albertina
Então é certo? O Francisco póde enlouquecer?!
João Lobo
Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr.
Francisco Valladares está febril; não está doudo... Aquella febre tem o
ardor d'uns infernos que costumam accender-se n'uns corações
perversissimos...
D. Albertina _(atalhando-o)_
O coração de meu marido é bom, snr. Lobo.
João Lobo
Não me entendeu, snr.ª D. Albertina... Seu marido desconfia da minha
probidade.
D. Albertina
Como? desconfia?!
João Lobo
E da virtude de V. Ex.ª... desconfia tambem.
D. Albertina _(tremula e anciada)_
Não póde ser, não póde ser! _(Faz menção de correr para a alcôva: o
medico sustem-a com um gesto)._
João Lobo _(a meia voz)_
Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos está aconselhando
muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada
começou hontem a obra infame do descredito de V. Ex.ª Era preciso
dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente,
porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do
direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justiça. É sempre
assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da
hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o pé e
cahir com estrondo. O grande caso é cahir sem estrondo. Ora seu marido,
minha nobre senhora, não me julga melhor nem peor do que sou julgado
pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje
talvez preferisse a morte á fraqueza de me chamar... Eu, porém...
D. Albertina _(interrompendo-o)_
Mas então é preciso que eu me defenda já, e na sua presença, snr. Lobo!..
João Lobo
Não, minha senhora. As commoções e luctas que necessariamente
acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr.
Valladares. É cedo. Seu marido por emquanto apenas vê em V. Ex.ª o anjo,
e em mim o tentador. _(sorrindo)_ D'um pobre diabo _(desculpe V. Ex.ª a
phrase plebea)_; d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um
sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos.
Não se impaciente, minha senhora. Olhe que não está sósinha. Quando mais
opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que vê
sempre ao seu lado... a Providencia.
D. Albertina
Mas o meu silencio póde condemnar-me.
João Lobo
Quando a interrogarem responda; mas não provoque altercações. Espere que
seu marido se fortaleça; não queira V. Ex.ª curar uma alma enferma como
a delle. Qualquer balsamo o irritará. E quando eu lhe disser que se
vingue restaurando a sua dignidade, então será tempo de salvar o seu
nome... e o meu. Não posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.
D. Albertina _(apertando-lhe a mão muito affectuosamente)_
Adeus, meu bom amigo... Não o desampare... _(D. Albertina vae á porta da
alcôva, escuta, e hesita; vae levantar o fêcho quando a porta se abre)._
SCENA VII
D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES
_Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo.
Veste um rob de chambre_
D. Albertina _(tomando-lhe o braço)_
Pois tu levantas-te, meu filho?
Francisco de Valladares
Estou bom... não vês, Albertina? Sinto-me forte. _(Senta-se prostrado)._
D. Albertina
Ardem-te as mãos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses?
Francisco de Valladares _(após uma longa pausa, em que conserva o rosto
escondido nas mãos)_
Quero sahir. O dia está sereno.
D. Albertina
Pois tu queres sahir em convalescença tão arriscada?! Não vês que pódes
recahir!
Francisco de Valladares
A recahida é a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bôcca d'um
abysmo. A morte quando se aproxima é bella; só vista ao longe, é
horrivel. _(Ergue-se)_ Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche.
D. Albertina
Pela tua vida te rogo que não vás, meu querido filho.
Francisco de Valladares
A minha vida!.. por que me não pedes antes pela minha honra?
D. Albertina
Pois sim, peço-t'o pela tua honra...
Francisco de Valladares
E pela tua...
D. Albertina _(com dignidade)_
O quê? Que me pedes tu?
Francisco de Valladares
A ti?.. que me deixes morrer...
D. Albertina _(muito commovida)_
E tu queres morrer?
Francisco de Valladares
Honrado.
SCENA VIII
OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA
Leonardo
Está aqui o snr. conselheiro Sousa. _(Sáe. D. Albertina vae ao encontro
do pae e beija-lhe a mão)._
Conselheiro
Ólá! a pé! Optima convalescença, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam
vinte dias de cama!..
Francisco de Valladares
Estou melhor.
Conselheiro
E tu como estás, filha?
D. Albertina
Bem; e a mamã peor?
Conselheiro
Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse
dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos á volta da cama.
Já lá estão tuas irmãs.
Francisco de Valladares
Póde ir; eu mesmo insto que vá.
Conselheiro
Tenho ahi a sege; não te demores na _toilette_. _(Sáe Albertina)._
SCENA IX
O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES
Conselheiro
Não seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe
um certo rubor nas faces...
Francisco de Valladares
É signal de bom sangue, quando não seja de nobre vergonha.
Conselheiro
Como?
Francisco de Valladares _(inquieto)_
Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florença... É um
clima restaurador; quem lá não póde viver sente-se morrer mais
suavemente. Os grandes infelizes devem pensar em morrer onde as agonias
lhes sejam menos crueis. Vou só... quero ir só. Estou intratavel,
impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.
Conselheiro
Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o não deixará ir só.
Francisco de Valladares
Deixa... ha de deixar. Não admitto contradicções que poderiam matar-me...
Conselheiro _(com assombro)_
Matarem-no!.. quem?
Francisco de Valladares
E para quê?! Eu não embaraço a passagem a ninguem! _(Com exaltação de
louco)_ Passem! Praça ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para
me atravessar á bôcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o
coração, mas deixem-me a honra salva.
Conselheiro _(áparte)_
Está perdido!
SCENA X
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina
Estou prompta, meu pae. _(Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com
serena altivez)._ Até logo, Francisco.
Conselheiro
O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido?
D. Albertina
Eu ainda não ouvi fallar em viagens.
Conselheiro _(encarando-os alternadamente)_
A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas...
D. Albertina
Entrou, mas ha de sahir. _(Com resolução. Aproxima-se do marido
tocando-lhe no hombro)._ Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer.
Vamos, meu pae. _(Sáem)._
SCENA XI
FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO
Francisco de Valladares
Pois esta mulher sabe que me é suspeita a sua lealdade, e não se
justifica? Não seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse
ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? _(Tange uma campainha
com phrenesi. Apparece Leonardo)._ A snr.ª D. Antonia?
Leonardo _(com ar de maliciosa candura)_
A snr.ª D. Antonia está a conversar no jardim. V. Ex.ª quer que a chame?
Francisco de Valladares
A conversar... com quem?!
Leonardo
Com o visconde de Espinhal.
Francisco de Valladares
E esse homem está no meu jardim?!
Leonardo
Não, snr.: está no jardim do visinho.
Francisco de Valladares
Chama essa senhora. _(Leonardo sáe)._
SCENA XII
FRANCISCO DE VALLADARES
N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e
atormenta o travor da peçonha que está dilacerando uma familia. Assim
que a doença me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo
para me abafar. _(Inclina a cabeça para o peito; demora-se um instante,
senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se)_ Eu não quero morrer!
Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lição
aos infames, e um exemplo aos que não acceitam de boamente o seu
opprobrio. _(Reflectindo)_ É impossivel. O meu coração não podia
enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o
receio... Estará ella innocente?..
SCENA XIII
O MESMO E D. ANTONIA
D. Antonia
O mano chamou?
Francisco de Valladares
Chamei.
D. Antonia
Eu tinha ido ao jardim vêr as suas araucarias. Estão lindissimas.
Francisco de Valladares
Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se não descuidasse um momento
dos seus deveres n'umas relações amorosas em que a vi muito arriscada. O
visconde do Espinhal é um homem que tem perdido no conceito da sociedade
algumas senhoras na posição da mana Antonia. O mundo, que despreza as
mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de
conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua
reputação. Á justiça ou á dignidade dos irmãos e dos maridos responde
com o duello; e á moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu,
prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe
pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi á mana que terminasse essa
perigosa inclinação. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?
D. Antonia _(hesitante)_
Cumpri, mano Francisco.
Francisco de Valladares
É sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros é tão sincera como
quando se absolve a si?
D. Antonia
Não percebo...
Francisco de Valladares
Mentiu; mas está perdoada com a condição de desmentir-se das suspeitas
que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua
cunhada. Chamo a sua consciencia á presença de Deus. Diga, mana Antonia,
que viu? em que funda as suas desconfianças?
D. Antonia
As minhas desconfianças?..
Francisco de Valladares
Sim; não me obrigue a repetir o que está bem impresso na sua lembrança.
D. Antonia
Eu já disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que
inspiram suspeitas até certo ponto... sim, eu desconfiei porque...
Francisco de Valladares
Essa hesitação parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado
a pobre Albertina...
D. Antonia
Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.
Francisco de Valladares
Bem. Diga então lá desembaraçadamente. _(Vê-se ao fundo Leonardo que
escuta por entre o reposteiro)._
D. Antonia
Disse e digo que Albertina faz ostentação de virtudes que não tem.
Francisco de Valladares
Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o coração
distrahido...
D. Antonia
Foi isso.
Francisco de Valladares
E que Albertina amava o doutor Lobo.
D. Antonia
Justamente.
Francisco de Valladares
Agora venham as provas que hontem lhe não pude pedir porque Albertina
entrou.
D. Antonia
As provas!
Francisco de Valladares
Tem as provas?
D. Antonia
Para que quer o mano saber... São coisas que o affligem, e lhe aggravam
os padecimentos.
Francisco de Valladares
Não me dê razões parvas. _(Ergue-se convulso)_ Responda! Mando que
responda! As provas?
D. Antonia
Não se exaspere. Eu vou satisfazêl-o... Quando o medico sahiu uma vez do
seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salêta, e demorou-se algum tempo
a conversar com elle, tendo-lhe as mãos apertadas nas d'ella. Outra vez,
a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o
medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui
eu que a vi abraçada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me
disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege...
Francisco de Valladares
Que pessoa?
D. Antonia
Certa pessoa...
Francisco de Valladares _(irritado)_
O nome?
D. Antonia
O visconde do Espinhal.
Francisco de Valladares
Já o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? _(muito agitado)_ Então
está perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A
deshonra da mulher de Fracisco de Valladares é propalada pelo visconde
do Espinhal. _(Fita a irmã rancorosamente, travando-lhe do braço)_ Se
ella estiver pura, é preciso que a senhora vá ser infame longe d'esta
casa onde morreu sua mãe... _(Francisco de Valladares sáe impetuosamente
a entrar no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona.
Leonardo sáe apressado a dar-lhe o braço)._
SCENA XIV
OS MESMOS E LEONARDO
Francisco de Valladares
Onde estavas, Leonardo?
Leonardo
Passava no corredor quando V. Ex.ª ia cahir.
Francisco de Valladares
Eu não cáio. Deixa-me só. _(Entra no quarto)._
SCENA XV
D. ANTONIA E LEONARDO
Leonardo _(com respeito)_
Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua mãe. A menina é
christã, e não ha de faltar-me.
D. Antonia _(com sobranceria)_
Que quer?
Leonardo
Que se arrependa emquanto é tempo, e vá dizer a seu mano que a senhora
faltou á verdade na intriga que armou á sua pobre cunhada. Faça-me isto,
porque a senhora é catholica.
D. Antonia
Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim?
Leonardo
Isto não é atrevimento, senhora; é confiança e amisade de creado antigo.
D. Antonia
Os creados antigos são sempre creados, entendeu? _(Menção de sahir)._
Leonardo
A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? _(Á bôcca da scena)._
D. Antonia
Diga.
Leonardo
Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a
não desfizer, desfaço-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico,
que me preso de ser.
D. Antonia _(alto)_
Que meada? que meada?
Leonardo
A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja lá. Seu mano
está alli pertinho, e a demanda póde ficar acabada aqui n'esta sancta
hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mãesinha que vá dizer a seu
irmão que não disse a verdade. A senhora disse a verdade até certas
alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex.ª
bem me percebe, e a consciencia lá lhe está gritando; porque a menina é,
foi, e ha de ser sempre catholica.
D. Antonia _(afogando os impetos da ira)_
Que petulante! que villão!
SCENA XVI
OS MESMOS E UMA CREADA
_Leonardo fica ao fundo, escutando ao quarto de Francisco Valladares,
emquanto a creada se aparta com D. Antonia_
Creada _(a meia voz, e rapidamente)_
O snr. visconde mandou saber se havia alguma novidade.
D. Antonia
Elle ainda está no jardim?
Creada
Está, sim, minha senhora.
D. Antonia
Vê se o passas para a sala do meio... Preciso muito fallar-lhe. Quero
sahir d'esta casa quanto antes.
Creada
O peor é se Leonardo dá fé... Veja se o entretém cá para dentro... _(Sáe)._
SCENA XVII
D. ANTONIA E LEONARDO
D. Antonia
Venha cá, Leonardo.
Leonardo
Minha senhora.
D. Antonia
Explique-me essas embrulhadas que esteve atrapalhando. Não o entendi.
Leonardo
Não?! pois então logo lhe explicarei. São horas de dar o lunch ao snr.
Francisquinho. _(Vae a sahir)._
D. Antonia
Espere.
Leonardo
Tenha paciencia que está o doente esperando. _(Sáe)._
D. Antonia
O maldito desconfiou!..
SCENA XVIII
D. ANTONIA E O CONSELHEIRO SOUSA
Conselheiro _(a D. Antonia com severidade)_
Seu mano, senhora?
D. Antonia
Está no seu quarto.
Conselheiro
Avise-o de que o estou esperando.
D. Antonia
Elle ahi vem. _(Sáe)._
SCENA XIX
CONSELHEIRO E FRANCISCO DE VALLADARES
Conselheiro
Snr. Valladares, minha filha descreveu-me com mais lagrimas que palavras
a infelicidade com que a Providencia a está castigando porque me
desobedeceu. O snr. Valladares soffre tambem porque induziu minha filha
a rebellar-se contra a vontade de seu pae. Adivinhei que Albertina seria
desgraçada; mas nunca me feriu o coração o receio de que o snr.
diffamasse minha filha com affrontosas suspeitas. Albertina tem um
defensor; sou eu, é seu pae. Accuse-a na minha presença.
Francisco de Valladares _(com enfado)_