se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o
impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que
lhe atiram. Comigo não foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de
mim a vibora que me crivava o coração de infernaes farpas; mas a
sociedade e a sua justiça vieram e bradaram-me: «Vae, condemnado; vai-te
sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem!
Vae-te n'essa leva de ladrões e facinoras; vae contar na Africa as horas
de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo
teu desforço os centenares de despejados que não consentem que tu sejas
mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidadão,
se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a consideração dos
honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse
o ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses
em publico a mão que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados
juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e
dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do
crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra
de mera convenção chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti,
assassino, que a vida humana não era inviolavel? Eras marido
amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez
annos de idolatria não imaginaste sequer que o teu amor podesse ser
assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mão que
beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos
d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? Não
importa. A vida humana é inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses
a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a são
tantos que não se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir
o dardo do coração, bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua
mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na
inviolabilidade da sua devassidão...» É assim que a sociedade falla aos
desgraçados como eu, José de Sá?
José de Sá
Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peço que
vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os
moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida
humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que
legislam para as paixões no conforto do seu gabinete. Esses taes nos
darão exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a
deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, não me perguntes se a tua
vingança está cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse
esmagado homem que hontem á noute viste cahir nos meus braços. Que
queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? Não o vês tão dobrado pela
mão da Providencia? Não lhe vias na face a escuridão profunda d'aquella
alma?
Jorge
E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?
José de Sá
Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda
não esteja fechado.
Jorge
Essa suspeita vinda de outro que não fosses tu seria ultrajante. Se nos
meus designios entrasse a morte de tal homem, eu não praticaria o
abjecto ardil de entrar disfarçado em sua casa. Hontem te disse no baile
o que alli fôra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da
sua ignominia. Não tenho mais que vêr. A vida é o patibulo d'aquelle
condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que não falte nada ao seu
supplicio até a coragem do suicidio o desamparou. Creio em ti, Deus! Não
se é perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem
chorar não são os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno
deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingança, José de Sá, completa-se
com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. Não tenho
mais que fazer em Portugal.
José de Sá
Tens. O teu coração póde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um
resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor
existe.
Jorge
A filha de Martha?
José de Sá
A tua filha.
Jorge
Minha!.. Não me afflijas. Olha que ainda se faz noite na minha alma, se
vejo a imagem d'essa creança. Minha! que absurda nova! onde foste saber
que ella era minha filha?
José de Sá
Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mão da
Providencia, por que duvidas crêr que a Providencia premeie as tuas
agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a
creança que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue,
do teu coração e da tua alma?
Jorge _(com vehemencia)_
Queres tu enlouquecer-me? queres que eu vá d'essa esperança á tristeza
mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e é minha filha?
José de Sá
Escuta.
SCENA V
OS MESMOS E UM CREADO, O CREADO COM UM BILHETE DE VISITA N'UMA BANDEJA
Jorge _(lendo)_
Rodrigo de Vasconcellos _(Declamando:)_ Que vem aqui fazer este homem?
Não lhe fallo... Em que occasião!..
José de Sá
Ha de sobrar-nos tempo. Falla-lhe; mas não deixes apagar pela rajada da
colera a ideia luminosa de que tens uma filha. _(Ao creado)_ Que entre.
_(O creado sáe)._
Vou para o meu quarto. Quando elle tiver sahido voltarei. _(Sáe)._
SCENA VI
RODRIGO E JORGE
Rodrigo _(com altivez sarcastica)_
Não sei a quem tenho a honra de me dirigir.
Jorge
Já tive a honra de lhe dizer que o perguntasse a seu pae.
Rodrigo _(com solemnidade e tristeza)_
Meu pae não me responde. Soffre em silencio, e eu receio que elle morra.
Quem é o snr. que entrou nas minhas salas, e introduziu no seio da minha
familia o escandalo e a desgraça em presença de centenares de testemunhas?
Jorge
Entrei nas suas salas, tencionando sahir d'ellas dignamente como seu pae
não costumava sahir. Não dei escandalo. Os seus convidados viram um
homem estremecer e desmaiar diante de mim sem que eu lhe chamasse sequer
infame.
Rodrigo
Lembro-lhe que está fallando com um filho do visconde de Vasconcellos.
Jorge
Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex.ª, para todos os
effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se
depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no
collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando
convidei seu pae a vêr nas doçuras da minha vida intima o soberano bem
d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo
e o coração da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma
adultera. Deshonrou-me. Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me;
esperei a sentença, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi
de Africa. Vim vêr seu pae. Vêl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel até
ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fêl-o asqueroso. Deixei-o á
Providencia, que sabe a rasão mysteriosa porque taes creaturas se fazem.
Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira.
Rodrigo
Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. Não creio.
Jorge
Informe-se.
Rodrigo
Meu pae é um cavalheiro.
Jorge
Em relação a mim, seu pae é um villão. Desejo que V. Ex.ª não torne
irrisoria esta nossa já longa, primeira e ultima pratica. Parece-me
irracional, senão insensata a noticia que me dá do cavalheirismo de seu
pae, quando eu lhe conto uma historia...
Rodrigo _(com desdem)_
Vulgar.
Jorge
São vulgares na sua familia estas historias? Semelhante cynismo vae mal
e indecorosamente a um marido! Bom será que sua senhora não se
familiarise com historias assim vulgares, principalmente se aos
infamissimos personagens se dá o nome de cavalheiros.
Rodrigo
Minha mulher não tem que vêr com a nossa entrevista, snr.
Jorge
De accôrdo. Respeito-a muito. Nunca vi lagrimas mais dignas da virtude.
É pena que ella chore n'este tremedal...
Rodrigo
Insisto em affirmar que meu pae é cavalheiro. Não ouso condemnar as
fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum
homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com tão elevados conselhos e
exemplos.
Jorge _(sorrindo)_
Exemplos!
Rodrigo
Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traçou. Adivinhei que
elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no
vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e só. Ha
trez dias soube a causa da sua longa expiação--expiação emfim acabada,
porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e
estende os braços para a bemaventurança da sepultura. No entanto, se
elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex.ª
encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe não
fugiu; mas fugiu á horrenda contingencia de matar o homem que tinha
offendido. Permitta Deus que meu tão honrado quanto infeliz pae
restaure, pouco que seja, de suas forças, e V. Ex.ª conte com um peito
bem a descoberto do seu ferro, se á sua vingança se fazem necessarias
algumas gottas de sangue.
Jorge
Regeito. Eu quero que seu pae viva.
Rodrigo
Sem embargo d'essa sarcastica concessão de vida, cumpre-me dizer ao snr.
Silveira: primeiro, que tenho um só nome, e que o não mudarei quando
houver de insultar o mais valente, ou o mais covarde; segundo, que,
morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto
assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as
cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na
posição alta onde os vituperios de V. Ex.ª não deviam chegar; terceira,
que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira terá
a coragem que inculca.
Jorge
Eu tenho apenas inculcado desprêso; e d'hora em diante não poderei senão
inculcar o tedio que o snr. Vasconcellos me está fazendo. _(Aponta-lhe a
sahida da sala)._
Rodrigo
Concluiremos n'outra parte. _(Sáe)._
SCENA VII
JORGE E JOSÉ DE SÁ
José de Sá
Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se estão
encadeando outros elos á corrente das tuas fatalidades!.. Como evitarás
o duelo?
Jorge _(serenamente)_
Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou
profundamente. Via-se ali um filho, nobre coração de filho. D'uma vez
divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um
desgraçado digno de compaixão, eu creio que lhe diria: «Peça a Deus que
quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a sós
com o fantasma que o arrasta á sepultura...» E, depois, que immensa
piedade me fez a mulher d'este moço, aquella doce alma que se desfazia
em prantos pedindo-me commiseração...
José de Sá
Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado
pela tua presença, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho
desafia-te. Irás ao campo. Se o matas, matarás um homem que quiz, com ou
sem razão, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua
vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de
insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas
desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas
precisão de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as
leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae
n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que não odeia. Que
rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga
creatura que hontem chorava diante de ti com a uncção do anjo que pede
commiseração para a perversidade humana? Não te disse ella que, se
tivesses uma filha, os odios entranhados em teu coração sahiriam nas
primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar
essa, filha de cujo amor depende a tua regeneração. Vejamos se ainda ha
n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanças fallecerem,
joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para
morrer entretido.
Jorge
Vamos... conta-me o teu sonho.
José de Sá
O meu sonho, se sonho é, começa na deploravel noite em que D. Martha
sentindo aproximar-se a morte...
Jorge
Depressa.
José de Sá
Antes de expirar escreveu uma carta.
Jorge
A quem?
José de Sá _(tirando a carta da carteira)_
Á irmã que tinha no convento da Encarnação. Lê.
Jorge _(examina a lettra com grande commoção)_
Lê tu... Não posso.
José de Sá _(lendo)_
«Minha irmã, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro
envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que
Leonor é filha de meu marido. Elle disse que não era seu pae quando eu
lhe pedi que a não desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao
ir d'esta vida á presença de Deus. Se elle a desamparar, dá-lhe tu
metade do teu pão. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha.»
D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu do convento, e entrou em
tua casa, quando a irmã era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na
volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha.
Indaguei na Encarnação; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada.
Jorge
E soubeste depois?..
José de Sá
Quem o sabia era um teu creado velho que já o havia sido do pae de
Martha; mas esse disse-me que jurára a D. Maria da Gloria nunca divulgar
a residencia da filha de sua irmã.
Jorge
Porque?
José de Sá
Porque não queria atirar aos desprêsos do mundo a filha d'uma senhora
assassinada...
Jorge
Nada me disseste...
José de Sá
Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te lá mortificações. Além
de que a delicadeza impunha-me o dever de te não fallar da creança que
tu não julgavas tua filha.
Jorge
Mas esta carta...
José de Sá
Esta carta está em meu poder ha dois annos.
Jorge
Quem t'a deu? Maria da Gloria? Então onde está Maria da Gloria? onde
está minha filha?
José de Sá
Quando ha dois annos voltei da Exposição de Pariz, encontrei no meu
escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um
empregado do hospital de S. José, pedindo-me que chegasse lá para
negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou
uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que
declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em
perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se
voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento
onde tua filha estava, expirou golfando sangue.
Jorge
E afinal? onde está minha filha?
José de Sá
Até hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias nos conventos de
Lisboa; mas tu vaes lançar mão de recursos em que tenho toda a confiança.
Jorge
Quaes? Que esperanças me dás, José de Sá?
SCENA VIII
OS MESMOS E UM CREADO
Creado
Procura V. Ex.ª o snr. Pedro Gavião Aranha.
Jorge _(a José de Sá)_
Já será o cartel? _(ao creado)_ Que entre. _(O creado sáe)._
José de Sá _(sorrindo)_
Jacome, olha que temos de procurar tua filha.
Jorge
Na eternidade?
SCENA IX
OS MESMOS E PEDRO ARANHA
Pedro _(cortejando-os)_
Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha missão é triste...
Jorge _(risonho)_
Eu havia adivinhado a sua missão triste.
Pedro
Que tinha V. Ex.ª adivinhado? Isso é extraordinario!
Jorge
Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos?
Pedro
Não, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter
sangue, será o de suas lagrimas. V. Ex.ª entrando n'aquella casa,
fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma
creancinha que me parece condemnada a não poder dizer o nome de seus paes.
Jorge
Que lhes fiz eu?
Pedro
Creio bem que V. Ex.ª, trasido na onda da fatalidade, senão antes pela
mão da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, não as
promoveu voluntariamente. O snr. Jacome da Silveira quando entrou em
casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D.
Eugenia, decerto não podia prever que ia separar os dois esposos
dilacerando-os pelo coração.
Jorge
Não o entendo, snr. Aranha!.. Que é? Eu separei e dilacerei os corações
dos dois esposos! Que tenho eu que vêr com um ou outro? A snr.ª D.
Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a
sua historia, e chorou, não sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha
uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o
possuira e lh'o dera...
Pedro
O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua mãe.
Jorge
Isso é falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e
foi amante de... _(sustendo o impeto de colera)_.
Pedro
Sem duvida nenhuma. O retrato da snr.ª D. Martha é o que a snr.ª D.
Eugenia tem na pulseira.
Jorge
Não me diga pois que o retrato é da mãe d'essa senhora.
Pedro
Affirmo a V. Ex.ª que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos é filha de D.
Martha de Villasboas, e que a pulseira não a houve do sogro, mas sim de
D. Maria da Gloria, irmã de sua mãe.
Jorge _(rapido)_
Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, José de Sá? Repita o snr...
Pedro
Que o filho do visconde está casado com uma senhora cuja filiação ainda
hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex.ª foi o marido de sua mãe, e
tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que
V. Ex.ª, desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsára uma menina
chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e
d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou.
Esta deploravel senhora está hoje apertada na cruelissima angustia de se
vêr apontada por V. Ex.ª como filha do pae de seu marido. Este conflicto
é pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade está exaltada por
sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruição rapida que a
paixão e a vergonha estão fazendo n'aquella desoladissima
senhora--vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno,
e como suspeita filha do cumplice de sua mãe, e esposa de seu proprio
irmão! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que
occultasse o mysterio do seu nascimento. «Não posso, bradou ella,
sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situação. Se o visconde
é meu pae, receio vêl-o morrer ás mãos do matador de minha mãe; se meu
pae é Jacome da Silveira, eu não posso deixar de me abraçar n'aquelle
grande desgraçado, e dizer-lhe que sou sua filha!»
Jorge _(interrompendo-o com as mãos fincadas nos braços d'elle)_
Ouça, snr... Ella chamou-se Leonor? É filha de Martha? Foi ella mesma
que lhe disse: «eu sou filha de Martha?»
Pedro
Quem poderia dizer-m'o senão a snr.ª D. Eugenia?
Jorge
José, como comprehendes tu isto?
José de Sá
Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo á borda d'um abysmo
em que tarde ou cedo cahirias.
Jorge
Vá dizer-lhe que está aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o
rosto de lagrimas quando a deixei no berço aos trez annos. Diga-lhe que
ajoelhei com ella nos braços, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo
no coração que se despedaçou quando a infernal duvida m'a desentranhou
do peito, e eu a repulsei, exclamando: «não és minha filha». Nas
primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra
compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de
rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada,
punha-me na face a mão e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos
aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: «pae». Eu despertava, e
cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre
o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a
no céo, parecia-me vêl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que
passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que
reuniu em si quantas agonias Deus pôde crear n'um dia de cruel
omnipotencia. Eu não podia então chorar como hoje. Deus não me deu a
esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que
viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo
ainda me apparecia e dizia: «Espera» Chegaram. Sinto as lagrimas.
Sinto-as no coração, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me
suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. _(sorrindo)_ Deus!.. Onde
hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraça, um acaso, um
accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao
marido? ao filho do meu algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha
filha não é um bem com que Deus me premeia... É uma nova esponja de fel,
que me dão para eu matar a minha sêde d'amor e de felicidade. Não
existe... Leonor está morta para mim... para sempre morta... meu Deus!..
Deixai-me choral-a segunda vez. _(Esconde o rosto soluçante entre as
mãos)._
FIM DO PRIMEIRO QUADRO
2.º QUADRO
Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada á beira de um berço com
armação de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo,
com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente.
SCENA I
D. EUGENIA E RODRIGO
Rodrigo _(com muita brandura)_
Eugenia...
D. Eugenia _(levantando-se)_
Meu bom anjo, estavas aqui?
Rodrigo
O sorriso da creancinha alumiou a escuridão da tua alma?
D. Eugenia
Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe está gemendo o coração...
_(beijando o rosto da creança)_ Eu não posso com tantas agonias,
Rodrigo! _(abraçando-o impetuosamente)_ Espedaça-me o arrependimento de
não te haver dito o nome de minha mãe... Eu sei que teu pae me daria o
pão da subsistencia ainda que não fosse causa da morte d'ella; mas minha
tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome
de minha mãe; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se
compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da
pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia,
lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das
manchas do opprobrio da minha infeliz mãe. Mas o que ella me não disse
foi que eu não poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella não
quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irmã assassinada. Nem me revelou
quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a
duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a
nossa familia. Se elle não é meu pae, Rodrigo, que me és tu a mim? Não
vês que o marido de minha mãe dirá que eu sou tua irmã, e que o nosso
filho herda a deshonra d'esta nossa união impossivel... impossivel, meu
Deus!
Rodrigo
Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creança?!
D. Eugenia
Não m'o perguntes a mim, que morro de afflicção! Ensina-me a ter
animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa
situação tão negra! Que te diz o coração, filho?
Rodrigo
Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril,
perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e...
D. Eugenia _(interrompendo-o anciada)_
Não perguntes que pódes matal-o. Se elle tem de morrer, que vá sem a
terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena
d'elle como de ti. Não lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? Ó
Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha!
_(Esconde o rosto nas mãos)._
Rodrigo
Ahi vem o pae...
SCENA II
OS MESMOS E O VISCONDE
_O visconde vem amparado por dois creados_
Rodrigo _(adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)_
Óptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. _(Rodrigo e Eugenia vão
recebel-o dos braços dos creados, e conduzem-o á cadeira)._
D. Eugenia
Está muito melhor...
Visconde
Estou, filha.
Rodrigo
Que sente agora?
Visconde
Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que
chega a noite da morte. _(Fitando Eugenia)_ Como está desfeita a sua
formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, começa a morte a sua obra
de destruição... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como não
conheceu mãe nem pae, o grande amor filial que tinha no seu coração,
deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto...
Cheguem para aqui o berço. Quero vêr o meu Álvaro... _(Approxima Eugenia
o berço)_ Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos.
Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. _(A
Eugenia que faz menção de o tirar do berço)_ Não, não. Deixal-o
dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de têl-a. Para os grandes
desgraçados o sepulchro é suave e socegado como o berço das creanças.
Eugenia, venha aqui... Não chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu
viver.
D. Eugenia
Eu não choro... o pae ha de restabelecer-se. _(Rodrigo gesticula a
Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a não veja)._
Rodrigo
Meu pae. _(Espera instantes que o pae levante a cabeça)._
Visconde
Eugenia?
Rodrigo
Foi lá dentro. Na ausencia d'ella, faço uma pergunta a meu pae, e da
ousadia lhe peço perdão.
Visconde
Pergunta.
Rodrigo
Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira,
tinha filhos?
Visconde
Uma filha.
Rodrigo
Que se chamava...
Visconde
Leonor. Uma creança entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes
alguma coisa d'essa menina?
Rodrigo
Meu pae soube que destino lhe deram?
Visconde
Não. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella
tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegára de
filha aleivosamente, mas digno de desculpa...
Rodrigo
Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?
Visconde