E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria

dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir

representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr

historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É

capaz de os ir accusar á policia!

José de Sá

Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras

mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez

de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem

impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte

noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe

d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da

adultera e do seu cumplice.

Viscondessa

Optimo! Isso é bom, bonito e eloquente. Mas eu, se não desmaio quando

vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me não rio

dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que

fizeram do seu coração um filtro de peçonha e de infames lagrimas.

Quando Martha de Villasboas foi morta, eu não fui das que se vestiram de

lucto e andaram pelas egrejas a fazer-lhe uns baratos suffragios pela

alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que

não pôde dispôr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam ás

egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a fé que ensina a rezar pela

salvação das almas, rezava em caza. Não indo á egreja, nem saindo a

irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei

bastantemente a desgraça de ambos. E, se as minhas orações valessem

perante Deus, eu pediria perdão para ella, e misericordia para elle.

Jorge

Esse grande desgraçado, se ouvisse a snr.ª viscondessa, cuidaria que

houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...

Viscondessa

Eu que tinha sido excluida das relações de Martha, fiz mais, snr.

Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a minha

amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforços para descobrir a paragem

da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha,

leval-a-ia para minha caza... _(Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha

tem entrado na sala que vão atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao

que se está dizendo: e solta com sobresalto uma exclamação quando a

viscondessa termina)._

SCENA VIII

OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA

D. Eugenia

Ah!

Pedro

Que tem V. Ex.ª?

D. Eugenia _(aproximando-se do grupo com dissimulado socego)_

V. Ex.as estavam conversando a respeito de...

Viscondessa

De frivolidades, minha snr.ª

D. Eugenia _(com muito embaraço)_

Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu

não devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Não minha snr.ª Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a

sociedade de Lisboa de ha vinte annos.

D. Eugenia

Pois sim; mas V. Ex.ª não fallou de uma senhora chamada Martha de

Villasboas?..

Jorge

Fallou, snr.ª D. Eugenia. E que sabe V. Ex.ª da pessoa que teve esse

nome?..

D. Eugenia _(encarando-o com susto)_

Nada...

Jorge _(á parte a José de Sá)_

Sabe a historia do sogro.

José de Sá _(o mesmo)_

É natural.

Viscondessa

O senhor Aranha, diz-me onde está a prima Travaços...

Pedro

Eu conduzo V. Ex.ª _(dá-lhe o braço.. Sahem)._

SCENA IX

D. EUGENIA, JORGE, SÁ

Jorge _(aproximando a cadeira)_

De Martha de Villasboas estavamos nós effectivamente conversando, minha

snr.ª Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex.ª

teria apenas nascido.

D. Eugenia

V. Ex.ª conheceu-a?

Jorge

Vi-a. Quer V. Ex.ª provavelmente que se lhe conte um episodio da

historia de seu sogro...

D. Eugenia _(erguendo-se de impeto)_

De meu sogro? Não intendo... que tem que vêr meu sogro com essa senhora?

José de Sá _(á parte a Jorge)_

Descrição. _(Sáe)._

SCENA X

D. EUGENIA E JORGE

Jorge

No semblante angelico de V. Ex.ª reluz sinceridade. Não posso crêr que a

snr.ª D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem não posso perceber o ar de

interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.

D. Eugenia

Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a

desventurada sorte d'essa snr.ª

Jorge

Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no coração o dó da mulher que teve a

infelicidade de ser amada do marido até ao extremo de ser morta por elle...

D. Eugenia

E elle amava-a!?

Jorge

Que pergunta! Pois não vê que elle a matou por ciumes?

D. Eugenia _(como aterrada)_

Matar! que horror, meu Deus!

Jorge

O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança

de deshonra eterna. O horror é viver com o pezo d'esse cadaver, não

sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais

ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se, pôr os olhos de sua

alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado,

ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que

vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e

gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os

beijos uma creança que elle chamava filha...

D. Eugenia _(com impeto)_

Então V. Ex.ª conheceu-o?

Jorge

Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a

alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe

descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo

da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O

marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços

de uma esposa querida. Quando lhe elle agradecia as alegrias de seu

amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha

punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e

repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por

espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome;

mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe

assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se

matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo

contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe

duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem

chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus,

porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre

um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam

a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos

envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a

sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse

palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que

condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?

D. Eugenia

E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o

seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão

duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não

ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe

que tem nos braços uma criancinha de tres annos.

Jorge _(severo)_

Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a

criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que

cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as

pompas d'esta casa.

D. Eugenia _(vivamente agitada)_

Não entendo, snr.! Porque diz V. Ex.ª que a filha de Martha devia ter

parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo é

este de que vae estalar uma grande desgraça... Olhe que é atroz a minha

desconfiança... é horrivel... e eu receio morrer...

Jorge

É incomprehensivel o susto de V. Ex.ª! Receia morrer... porquê? A snr.ª

D. Eugenia está formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que

não ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a

historia d'um homem atraiçoado, e d'uma mulher morta...

D. Eugenia

Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?

Jorge

E quando tivesse, minha snr.ª? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem

deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex.ª incapellarem-se grandes

tormentas á volta das pessoas como seu sogro?

D. Eugenia

Mas... só duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro

foi quem perdeu Martha.... foi? _(Agitando os braços, desprende-se-lhe

uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e

estremece)._

Jorge _(rancoroso)_

Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?

D. Eugenia

Retrato! isto não é retrato... Esta pulseira deu-m'a...

Jorge _(interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)_

Seu sogro? Esse ignobil costuma dar ás esposas dos filhos os retratos

das amantes?

D. Eugenia

Jesus! Ouça-me...

Jorge

Sabe a snr.ª que este retrato é o de uma adultera que se chamou Martha?

uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta

pulseira entre as joias do noivado? _(Arroja a pulseira ao chão, e vae

pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente)._

D. Eugenia

Pois este retrato é o d'ella? _(beijando-o e soluçando)_ Oh! eu não

sabia... Vem gente... não quero que me vejam chorar... siga-me... eu

tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. _(Toma-lhe o braço e

sahem rapidos)._

SCENA XI

VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOSÉ DE SÁ

Visconde

Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as forças me

deixassem preparar para a jornada...

José de Sá

Para onde vaes, visconde?

Visconde

Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da

sociedade o Leproso de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te não

vejo, José de Sá. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Estás

ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos.

Vê-se que não inclinaste a cabeça para o peito a chorar. Não afogaste em

lagrimas, quando eras moço, os embriões d'onde te floriram as alegrias

da velhice. Não fui eu assim, José de Sá. Sabes que formidavel trance me

envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda não

levantou a mão inexoravel. Não pódes imaginar o que ha sido a minha vida.

José de Sá

Basta-me vêr-te para crêr que tens soffrido; porém, não o imaginava eu

assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que

tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um

baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a

fallar verdade; não me parecem bastantemente significativas da vida

dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.

Visconde

José de Sá, o mundo quando vê padecer os grandes criminosos, recusa

acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu

odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes

veja lagrimas nas rugas do rosto, não tem compaixão d'elles. A sociedade

crê pouco nos castigos occultos da justiça divina, porque não conhece

justiça efficaz e exemplar senão a dos carceres, dos degredos e das

forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais

miseravel e despresivel homem... quando me foi forçoso esconder no meu

antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella

hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.

José de Sá

Os teus amigos cuidaram que terias então a louvavel e virtuoza coragem

do suicidio.

Visconde

A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de

mim desgraças tamanhas, o matar-me então seria coragem? O partir a

corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio

seria coragem? Eu n'aquelle tempo não tinha o menor vislumbre de

religião, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas

circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para

não vêr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de

valor? Não. Valor é ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em

que eu não poder chorar, descrerei de Deus e então... matar-me-hei, por

intender que expiei acerbamente, e não fugi ao castigo...

José de Sá

Mas parece que fugiste do duelo.

Visconde

Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como

eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra.

Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu

apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse

atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.

José de Sá

Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta

como é que expiam.

Visconde

Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?

José de Sá

Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade

creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade troca

por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não

dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso

é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu

rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo

da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças

os gemidos da tua consciencia.

Visconde

Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos

da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo

comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não

merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por

certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções

superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os

ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das

alegrias da honra e do amôr... e atirei-os á voragem do opprobrio e da

morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho

rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu

remorso. _(Cahe extenuado numa cadeira)._

José de Sá _(comtemplando-o, e entre si)_

Não te erguerás não, infeliz! Péza-te na consciencia o cadaver de Martha...

SCENA XII

OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO

FUNDO

Viscondessa

Ai! alli está o visconde! _(aproxima-se inclinando-se)_ Visconde!

Visconde

Minha senhora... _(levantando-se a custo)._

Viscondessa

Soubemos agora que V. Ex.ª tinha chegado, e procuramol-o em todas as

salas. Reanime-se!

Visconde

Estou bem, snr.ª viscondessa.. E V. Ex.ª tem-se enfastiado?

Viscondessa

Não me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha

de mandar sahir d'este paraizo.

Pedro

Onde todos os pomos são prohibidos.

José de Sá

E os maduros tambem? _(tregeitando como allusão á viscondessa)._

Viscondessa

Os verdes principalmente é que são prohibidos pela mesma razão que o

eram as uvas á rapoza; não acha, snr. Pedro Aranha?

Pedro

Eu acho que V. Ex.ª sabe tudo, adivinha tudo, é a arvore da sciencia

d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depôr o meu

inveterado scepticismo ás plantas de uma menina portuense.

José de Sá

E eu não admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas,

ás quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de

scepticos, e de jovens cançados d'amor que se deploram em Portugal por

versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua

rua.

Viscondessa _(ao visconde)_

Que abstracção! que melancholia! Distraia-se!.. Ó visconde _(indigitando

um par)_ quem é aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro

do menino respectivo?

Visconde

Não sei, minha snr.ª Eu conheço n'esta sala V. Ex.ª e a mulher de meu

filho. Onde está Eugenia?

Viscondessa

É uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi

passar pelo braço de Jorge de Mendanha.

Visconde

Não tive o prazer de vêr esse cavalheiro, e provavelmente já o não verei

por que vou sahir.

José de Sá

Tu não estás hospedado em casa de teu filho?

Visconde

Não, José de Sá. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os não

mortificar com a presença continuada d'uma velhice repellente...

Viscondessa

Ahi vem lamentação do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo

da mortificação!.. Ah! aqui vem a snr.ª D. Eugenia com Jorge Mendanha.

SCENA ULTIMA

OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VÃO PASSANDO

_Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se

avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pára, em

frente do visconde, largando o braço de Eugenia e deixando pender os

braços. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo._

Rodrigo _(a Mendanha)_

Tenho a honra de apresentar a V. Ex.ª meu pae. _(O visconde está fitando

convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar

fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mãos em attitude de quem

repelle uma visão, e cahe nos braços de Eugenia e de José de Sá)._

Rodrigo _(avisinhando-se com altivez de Jorge)_

Quem é o senhor?

Jorge _(apontando para o visconde)_

Pergunte-lh'o. _(Desce o pano vagarosamente)._

FIM DO SEGUNDO ACTO.

ACTO TERCEIRO

(1.º QUADRO)

Sala do hotel de Francfort.--Vêem-se gallegos atravessar carregados de

malas.

SCENA I

VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS

Viscondessa _(em trajes de viagem)_

A carroagem ainda não chegou?

Creado

Foi-se chamar, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(irritada)_

Parece que as carroagens no Porto não se mandam buscar, mandam-se fazer.

A velocidade aqui é impossivel, fóra do carroção! Ai! Lisboa, Lisboa!

Olé! _(ao creado)._

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. Mendanha já se levantou?

Creado

Parece-me que ainda se não deitou. Desde que chegou do baile tem

passeado sempre no quarto.

Viscondessa _(ao creado que está sacudindo o pano da jardineira)_

Ó sôr homem!

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. conselheiro José de Sá está com o snr. Mendanha?

Creado

Está no quarto d'elle.

Viscondessa

Está mais alguem de Lisboa n'este hotel?

Creado

Mais ninguem, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(tirando dois bilhetes d'uma carteira)_

Pegue lá: dê estes bilhetes aos snrs...

Creado

Ahi vem o snr. conselheiro. _(sáe)._

SCENA II

JOSÉ DE SÁ E VISCONDESSA

José de Sá

Que madrugada é esta! V. Ex.ª, á uma hora da tarde, já radiosa, em trem

de viagem!

Viscondessa

Não dormi nada, tenho os nervos em convulsões, estou doente, e vou para

Lisboa no _Lusitania_ que sáe ás duas horas felizmente. Que me diz á

scena melodramatica do baile?

José de Sá

Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.

Viscondessa

Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo é d'um

anachronismo e máo gosto revoltantes! Se os maridos atraiçoados começam

a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os salões hão de

tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um

bravo de Veneza em veteranos.

José da Sá

Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de

lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu

acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os

ares carregados e funebres da _vendetta_, e esmurraçasse na Praça Nova

ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma

_toilette_ mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes,

para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão, sinto dizer-lhe,

conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito

luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade

media. Que diz?

José de Sá

Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de

Pimentel.

Viscondessa

Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me

vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira

dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O

visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e

d'elle? Isto é verdade: que diz?

José de Sá

Ainda não disse nada, minha senhora.

Viscondessa

Bem sei que não disse nada. O snr. Sá ensaia-se para estadista n'esta

diplomacia de _boudoir?_ Parece-me que desperdiça a sua infinita

sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas

insignificantissimas.

José de Sá _(sorrindo)_

Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex.ª Se continua a

injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!

Viscondessa

Mas rebata isto, snr. Sá. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de

Martha? Reviver miserias...

José de Sá

Minha senhora, não bula V. Ex.ª n'ellas, que a memoria de Martha é

sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.

Viscondessa

Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota

curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabeça

de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos

concorridas?

José de Sá _(ironico)_

Não reparei n'esse escandalo!

Viscondessa

Não? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graça e

que profundo mysterio não teria o apaixonar-se Eugenia... _(rindo)._

José de Sá

Ora, minha senhora... V. Ex.ª traz a sua formosa cabeça repleta de máos

romances... Bem se vê que os seus nervos andam destemperados pelo terror

das tragedias... _(ouve-se o rodar da sege)._

Viscondessa

Ahi está a sege... Adeus. _(apertando-lhe a mão)_ Vou por casa de

Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a não poder vêr de relance.

José de Sá

Vae auscultar-lhe o coração a vêr se effectivamente está apaixonada pelo

meu amigo?

Viscondessa

Quem sabe?... quem sabe...

José de Sá

Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja

mais arriscado que o de Eugenia...

Viscondessa _(fazendo-lhe uma mezura á antiga)_

_Ça n'est pas gentil, mon cher. Au revoir._

José de Sá _(cortejando-a profundamente)_

Sempre admirador e sempre admirado. _(A viscondessa sáe)._

SCENA III

JOSÉ DE SÁ E UM CREADO

Creado

O snr. Mendanha mandou-me saber se V. Ex.ª já estava a pé.

José de Sá

Diga-lhe que estou aqui.

SCENA IV

JOSÉ DE SÁ E DEPOIS JORGE

José de Sá

É necessario revelar a este infeliz as minhas esperanças de ainda

podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao coração a

certeza de que é sua filha. _(Examinando a carteira)_ Felizmente que

tenho comigo a carta. Se não alcanço nortear-lhe o espirito para outro

destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomeçar as

desventuras d'este malfadado homem. _(A Jorge que entra)._ Descançaste?

Jorge

Nem levemente: começo a vêr novos abysmos.

José de Sá

Tambem eu, Jacome.

Jorge

Esta minha vinda a Portugal...

José de Sá

Eu não t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingança,

fizeste bem não me consultar. Eu te responderia que uma grande

calamidade não justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que

venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a

honra que ensanguenta as mãos só póde a allucinação desculpal-a, e que

um assassinio premeditado vinte annos é um acto de selvageria, se a

demencia o não desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com

um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudança de

nome não podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.

Jorge _(interrompendo-o e levantando-se com impeto)_

O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam · 第 3 / 6 段