Estavas chorando, filha?

D. Eugenia

Estava.

Rodrigo

Porque? São as primeiras lagrimas que te vejo.

D. Eugenia

É verdade...

Rodrigo

Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...

D. Eugenia

Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.

Rodrigo _(procurando no fundo do jornal)_

No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creança?

D. Eugenia

Não é romance; é aqui. _(Indicando-lhe o alto da primeira columna)._

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? _(Ella faz um gesto affirmativo)_ Pois

que é? _(Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis

palavras, e depois lê):_ «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção,

e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É

aqui?

D. Eugenia

É.

Rodrigo _(lendo)_

«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no _Bois de Bologne_, me

mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois

me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se

cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco

mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome

Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada

Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza.

Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que

matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que

não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da

senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não

esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado como é que

se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de

homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado,

julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção

não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o

jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D.

Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra

conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do

crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante

delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não

declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não

estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa

alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se

transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com

que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não

querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei

d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do

nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença;

completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao

coração da Europa, e nomeadamente ao _Bois de Bologne_, onde hontem o

vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão

melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a

pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na

historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei

dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e

esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». _(Declama):_ Mais nada.

Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!

Rodrigo

Triste? decerto foi; mas não era justo que fosse alegre. Esta mulher

deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um coração honrado; elle

matou um corrupto. Não ha comparação racional entre os dous delictos. Se

tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a

condemnação a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam

revelar a piedade abraçada á justiça; mas chorar pela criminosa que...

D. Eugenia _(atalhando-o)_

Tens razão... Perdôa ás minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste

comprehender a desgraça d'esse infeliz.

Rodrigo _(pausadamente)_

Pois não é assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no coração;

depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo;

depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam

lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentença; depois vinte annos

sem patria; e finalmente...

SCENA XIX

OS MESMOS E O VISCONDE

Visconde

Que estavas tu dizendo tão commovido, Rodrigo?

Rodrigo

Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. _(Mostra-lh'a no

Jornal)._

Visconde

Já vi.

D. Eugenia

Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.

Visconde

Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.

D. Eugenia

Sim? eu vou. _(Sáe)._

SCENA ULTIMA

RODRIGO E O VISCONDE

Visconde

Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?

Rodrigo

Eugenia é que estava chorando de compaixão da mulher que o marido matou.

Visconde

Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa

espoza como Eugenia.

Rodrigo

Então morreu innocente?

Visconde

Não.

Rodrigo

N'esse caso, o confronto não lisongêa minha mulher...

Visconde

Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando

sahiu, sentia a febre da paixão que antecede a morte do brio e do

pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. Lê as

ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde começa: _Na historia ha

duas victimas e..._

Rodrigo _(lendo)_

«Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem não lhe sei

dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e

esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.»

Visconde _(commovido até ás lagrimas)_

Vês os meus olhos enxutos? Repára, filho, que eu estou chorando...

Rodrigo

Está; mas que querem dizer as suas lagrimas?!

Visconde

Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, é... teu pae.

_(Rodrigo estremece. Corre o panno)._

FIM DO PRIMEIRO ACTO.

ACTO SEGUNDO.

A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde

se dança. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.

SCENA I

VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOSÉ DE SÁ

Viscondessa

Surpreza assim! José de Sá n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze

dias no Chiado, e não me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa,

com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu

companheiro d'hotel, sem eu saber! Há quantos annos o não encontro em

bailes, conselheiro? Deixe-me vêr se me lembro... Foi, foi, foi ha...

José de Sá

Ha 22 annos, minha senhora.

Viscondessa

Mas que maravilhosa conversão foi esta? como é que V. Ex.ª depois de

duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a

estes pedaços modernos da Babilonia antiga?

José de Sá _(sorrindo)_

Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no

inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não

achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e

tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos

que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de

cabeça de preto.

Viscondessa

Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!

José de Sá

Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são

tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é

verdadeiramente uma betarraba já curtida...

Viscondessa

Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a

occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas...

_(apontando para as senhoras que vão passando)_.

José de Sá _(mirando-as com a luneta)_

É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o

seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.

Viscondessa

De todas.

José de Sá

De todas? pois tambem V. Ex.ª terá a crueldade de não poupar uma antiga

victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado

d'el-rei nosso senhor Dom João V.

Viscondessa _(ironica)_

E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fóra dos bailes!

José de Sá _(rapido)_

Para o não perder, minha snr.ª.

Viscondessa

Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que sáe bronca

dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito,

e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vêr. Entre por essas

salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental.

Espirito! Foi tempo. Não ha hoje em dia quem saiba conversar cinco

minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bôcca.

José de Sá

Espirito de papoulas, não, minha snr.ª? Excellente coisa! Eu durmo ha

muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse

adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez

dos anjos pelo sal dos politicos.

Viscondessa

Ai! politicos! não me falle em politica que me estorce os nervos! Pois

não sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez

ir a Setubal dirigir as eleições contra o governo?

José de Sá

V. Ex.ª fez as eleições em Setubal? Isso tem graça; acho-lhe um sal,

mais sal do que Setubal exporta! V. Ex.ª fez eleições?

Viscondessa

Fiz.

José de Sá

E venceu?

Viscondessa

Venci.

José de Sá

Está claro. Venceu. O amôr vence tudo, inclusive as eleições. Um ou dois

raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a urna, fariam o

prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, ó

querida viscondessa, V. Ex.ª não receou que os irritados manes de Bocage

a satyrizassem em Setubal?

Viscondessa

Satyrizar-me, porquê?

José de Sá

Pois uma snr.ª toda poesia, toda flôres, toda céo, a combinar com as

facções o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da

satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e côr de rosa,

affeitos a volver as paginas do livro do coração, a profanarem-se na

entrega das listas de costaneira! Ó muito illustre e muito presada minha

amiga, posto que V. Ex.ª qual outra Judith venceu o Holofernes

administrativo de Setubal, não posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.ª

e as suas correligionarias começam a fazer politica, eu e os meus

correligionarios teremos de fazer meia. Este paiz é muito pequeno, e a

custo dará politica para o sexo feio.

Viscondessa

Já vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma

incapacidade para os actos do espirito.

José de Sá

Não minha snr.ª Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras

intelligentissimas e com grande capacidade.

Viscondessa

Mas com intelligencia sómente honorifica. Concedem-nos a honra da

intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creação,

obrigadissimas... _(Reparando)_ Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?

José de Sá _(intencionalmente)_

Não conheço Jorge de Mendanha.

Viscondessa

E não se lembra de ter conhecido este nome?

José de Sá

Não conheci.

Viscondessa

Eu apresento-o!

José de Sá _(áparte)_

Tem graça a apresentação...

SCENA II

VISCONDESSA, JOSÉ DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA

Viscondessa _(a Jorge)_

Apresento o snr. conselheiro José de Sá, cavalheiro pertencente á mais

selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex.ª _(Indicando

Jorge)_ O snr. Jorge de Mendanha. É natural que já se hajam visto...

_(Os apresentados apertam-se as mãos, fixando-se de um modo que deixa

entrever disfarce)_.

José de Sá

Certamente.

Viscondessa

Em Lisboa? _(Signal de começar-se uma polka. Rodrigo offerece o braço á

viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam

rapidamente)_.

Rodrigo _(offerecendo o braço)_

É a terceira polka, minha snr.ª

Viscondessa

Ah! sim? vamos...

D. Eugenia _(com distracção a Pedro Aranha)_

Sou seu par, snr. Aranha?

Aranha

Sim, minha snr.ª; mas, se V. Ex.ª...

D. Eugenia _(desprendendo-se do braço de Jorge)_

Desculpe, cuidei que... _(Sáem os dois pares)._

SCENA III

JORGE E JOSÉ DE SA

José de Sã

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a

sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justiça

do céo. Agora, vim vêr como a justiça do céo sentenciou. Quero vêr, face

a face, e sem que me conheçam, o homem que matou a alma da mulher que a

sociedade disse que morreu ás minhas mãos. Morta estava ella. Matou-a

quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar

n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentença de desterro

á suprema alçada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora,

o que presenceamos, meu amigo, faz-me desconfiar que a justiça celestial

não desce a sujar as suas balanças n'este lamaçal da terra. _(sorrindo)_

Suspeito que o meu recurso de revista foi lá em cima julgado por

desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de cá.

_(Triste e concentrado)_ Ainda o não vi; mas sei que estou nas suas

opulentas salas. Aqui de certo não mora a desgraça. Os infelizes não

accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou

Martha, e atirou ás mãos da minha vingança esse cadaver, Heitor de

Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma corôa de visconde, saborea-se

nas dôces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem

um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danças. _(Ouve-se

a orchestra, por um breve espaço, durante o qual Jorge medita

concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota

acompanhando a declamação)_ E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de

minha casa, leveio-o ao intimo do meu lár, puz na sua mão a de uma

mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da

minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no coração o

despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi

dos trez o desgraçado? E ella jaz onde a infamia lhe não peza. Eu venho

de arrastar meia existencia debaixo de um céo maldito. Heitor de

Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes

tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade

respeita-o. Nos seus salões estão os sabios, os virtuosos, os ricos, e

tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas

sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra

que amava mais, lavei o sangue de minhas mãos com lagrimas em vinte

mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vêr o que

a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas á

sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz.

Respondi, José de Sá. Não me perguntes mais o que vim aqui fazer.

SCENA IV

OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAÇO DE RODRIGO

Viscondessa _(descendo para o proscenio)_

Mas o visconde não vem, snr. Vasconcellos?

Rodrigo

Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama

bastante incommodado, e com tenções de ir esta madrugada para a provincia.

Viscondessa

Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animação; mas, em

verdade, muitissimo abatido de espirito está elle! O snr. conselheiro,

não viu ha muito o visconde de Vasconcellos?

José de Sá

Ha vinte e trez annos, minha snr.ª

Viscondessa

Então não o reconhece, sem que lh'o mostrem.

Rodrigo _(á viscondessa)_

V. Ex.ª quer aqui ficar? _(sorrindo)_ Eu não posso deixar de ir ser

testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr.

Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto não intédiasse

antes da meia noute o cavalheiro que vem dos salões de Pariz.

Jorge

Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos.

Rodrigo

Mas tambem viajou na Europa...

Jorge

Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas não

frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de

V. Ex.ª não poderiam temer-se da confrontação.

Rodrigo

Ó snr. Mendanha... _(Rodrigo fica gesticulando com Jorge)._

Viscondessa _(que tem estado a conversar com José de Sá)_

Nada, polkas não quero mais. Bate-me o coração espantosamente. Olhe este

pulso, snr. Sá.

José de Sá _(apalpando-lhe o pulso)_

Valentissimo! É o palpitar dos 18 annos, é vida, é sangue que pula, que

polka n'um coração ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex.ª tem um

aneurisma...

Viscondessa

O quê?

José de Sá

Um aneurisma d'amor, não se assuste. A viscondessa já sabe que não se

morre de taes aneurismas.

Viscondessa

Acha? Este Sá é o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde é a

elegia, este é o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou

nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazão d'este rapaz...

José de Sá

Ó cruel! Póde caber tamanha vingança em alma tão dôce? Chegamos a um

tempo em que até os favos de mel se azedam! Não me disse ainda ha pouco,

minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de

annos como anachoreta selvagem?

Viscondessa

Fóra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoçam e

esvoaçam como...

José de Sá

Como morcegos nas torres da Conceição velha.

Viscondessa _(a Rodrigo)_

Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vêr seu pae assim

galhofeiro, snr. Vasconcellos.

Rodrigo _(sorrindo, a retirar-se)_

Pois eu logo que o veja, snr.ª viscondessa... Póde ser que o duelo de

espirito em que V. Ex.as tão destramente se batem, produza no meu velho

e melancholico pae uma inveja salutar. _(Sáe)._

SCENA V

JORGE, VISCONDESSA E JOSÉ DE SÁ

Viscondessa _(acautelando-se de que a ouçam os que atravessam a sala)_

Ó conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos

n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!..

José de Sá

N'aquella tragedia... ah! sim,.. Não recordemos, não recordemos...

Jorge

Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias.

Viscondessa

Se V. Ex.ª esteve em Lisboa ha 20 e tantos annos ha de lembrar-se de uma

senhora que o marido matou por ciumes...

Jorge

Injustos?

Viscondessa

Isso não. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos.

Não se recorda?

Jorge

Tenho uma vaga lembrança.

Viscondessa

Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, José de Sá? Espere... era

Silveira não era?

Jorge

Conheceu-o V. Ex.ª?

Viscondessa

Não. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle

Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca

vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que não

recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em

alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o

desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa selecção das

amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a

despenhassem no abysmo. _(Rindo)_ Ha assim muitos maridos que rodeam as

mulheres de anjos; mas Satanaz que é indisputavelmente mais esperto que

os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue ás vezes

pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos

tristes e até certo ponto compromettidos. É o que aconteceu ás

irreprehensiveis amigas da pobre Martha--umas creaturas que andaram

pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a

no céo, para poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo...

José de Sá

Intrepida lingua, snr.ª viscondessa! Espada de dois gumes!

Viscondessa

A minha lingua não é intrepida, é portugueza.

José de Sá

Seja; mas os mortos que durmam em paz.

Jorge

Mas eu pediria á snr.ª viscondessa que me relacionasse com todos os

mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Terá V. Ex.ª a bondade

de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja attenção só póde ser

captiva de grandes desgraças? _(José de Sá com ar de enfado vae ao fundo

e torna)._

Viscondessa

Sim, eu resumo a historia em duas palavras para não ferir a

sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor

de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua

intimidade. Não sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou

interceptou a correspondencia. O que penso é que Martha não soube

esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma

escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que

eu conheço, e o conselheiro tambem conhece, não acha?

José de Sá

Eu conheço muitas esposas excellentes.

Viscondessa

Mascaradas?

José de Sá _(apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo braço de

Pedro Aranha)_

Ahi tem um modelo de esposos.

Viscondessa

Cazou ha anno e meio.

SCENA VI

OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA

D. Eugenia

Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomára eu tambem fugir.

Pedro _(a D. Eugenia)_

A snr.ª viscondessa é hoje muito generosa com V. Ex.ª

D. Eugenia

Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr.ª viscondessa?

Pedro

Se V. Ex.ª quizer, despovoa-lhe as salas onde se dança. Basta

annunciar-se que a snr.ª viscondessa está aqui derramando as perolas do

seu espirito.

Viscondessa

Cuida que está lisongeando uma _femme savante_ de Moliere este Trissotin

em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peçonha que o

appellido quando quer ter um espirito de ventosa.

Pedro

Eu sou das aranhas que não tecem a sua teia em todas as ruinas.

José de Sá _(áparte)_

Bravo! estão bonitos!

D. Eugenia _(ouve-se a orchestra)_

Vai dançar-se, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Eu não vou dançar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado

com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro Sá. Estou a

imaginar-me com vinte e dois annos. Isto é bom e innocente recreio. Se a

gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos.

D. Eugenia _(a Jorge)_

E V. Ex.ª está triste?

Jorge

Ó minha senhora, não...

D. Eugenia

Está; pois eu não vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de

Rodrigo e como eu...

Pedro _(ao novo signal da mazurka)_

Vamos, minha snr.ª? _(Sahem. Movimento dos pares atravessando no

corredor)._

SCENA VII

VISCONDESSA, SÁ E JORGE

Viscondessa

Já viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que

não gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa

companhia lhe é mediocremente agradavel; não acham?..

Jorge

Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada ás

salas. É do Porto?

Viscondessa

Nada, não é; mas eu tambem não sei d'onde seja. Este casamento de

Rodrigo dá dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em

Portugal.

Jorge

Os romances portuguezes póde ser que sejam semsabores; mas as tragedias

tem um não sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos á tragedia,

snr.ª viscondessa, á tragedia interrompida.

Viscondessa

Pois eu não conclui?

Jorge

Não minha snr.ª V. Ex.ª chegou ao ponto em que...

Viscondessa

Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se á

justiça. Ajude-me a recordar, snr. José de Sá? Que explicações deu o

Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?

José de Sá

Silveira não deu explicação alguma, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(com impeto)_

Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me

lembro! ora esta! pois V. ex.ª não era o amigo intimo de Silveira? Não

passava os dias com elle no Limoeiro?

José de Sá

Passava, minha snr.ª

Viscondessa

Então aqui tem o melhor informador que V. Ex.ª podia encontrar. Conte o

que sabe, conselheiro. É verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de

que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que é feito d'ella, sabe?

José de Sá

Não sei.

Viscondessa

Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria!

Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma

historia de corrupção social.

José de Sá _(sorrindo)_

Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para

não ser tolo. Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras

apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que

não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que

insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias

de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua

gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e

infamias a perdoar?

Jorge _(severamente)_

A perdoar!

Viscondessa

O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam · 第 2 / 6 段