Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumpr

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O CONDEMNADO

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O CONDEMNADO

DRAMA

EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS

SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO

COMO OS ANJOS SE VINGAM

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

PORTO

VIUVA MORÉ--EDITORA

PRAÇA DE D. PEDRO

1870

* * * * *

IMPRENSA PORTUGUEZA

Rua do Bomjardim, 181.

* * * * *

A JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO

Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no coração, meu infeliz amigo,

permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma

palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter

abafado.

N'este livro, não pude bem assignalar um leve traço do teu enorme

infortunio. Não pude, porque a tua desgraça não tem nome.

Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis

mezes, ainda não pudeste vêr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de

teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade.

Entre o teu passado e este dia de hoje--cujas horas vão já batendo na

eternidade de uma tristeza irremediavel--estás tu empedrado de assombro

a encarar no abysmo onde te resvalou a mão que beijavas e ungias de

lagrimas de felicidade.

No fundo d'essa voragem vês as tuas corôas de gloria a seccarem-se, a

desfazerem-se, a pulverisarem-se--o desabar deploravel d'uma esplendida

vida que foi a tua, ó grande espirito!

Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o pó

das tuas grinaldas, sobre as quaes vão cuspindo homens tão escassos de

misericordia, como de dignidade.

Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que receberás

sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pêso de sua cruz, mas

não á ignominia d'ella.

Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se

respeitem as cinzas d'um grande coração extremado na honra e na desgraça.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

PERSONAGENS

D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor) 28 annos

Viscondessa de Pimentel 50 »

Visconde de Vasconcellos 55 »

Rodrigo de Vasconcellos 28 »

Pedro Gavião Aranha 27 »

Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira 51 »

José de Sá 50 »

Joaquim, criado.

João, criado.

Outros criados e pessoas que não fallam.

* * * * *

A scena corre no Porto em 1857.

O CONDEMNADO

ACTO PRIMEIRO

Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e

lateraes. Dois criados estão espanando a mobilia.

N. B. _O criado João, mais montezinho que os outros, denota a estupidez

velhaca do aldeão._

SCENA I

JOAQUIM E JOÃO

Joaquim _(refestelando-se em um sophá)_

Ó João, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se não afundas.

João _(apalpando o estofo)_

Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vêr que eu vou

rebentar o fole? _(Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas)_

Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver

n'estas enxergas!

Joaquim

Isto sempre é melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim?

João

O quê? pois não fostes? Tomára-me eu lá com as minhas ovelhas. Assim que

m'alembram os nossos montes, começo a esbaguar e átrigar-me aqui dentro

do coração _(pondo a mão na barriga)_.

Joaquim

O coração não é ahi, bruto! Ahi são as reins.

João

Onde é então?

Joaquim

Aqui. _(Pondo a mão perto do sovaco do braço direito)_.

João _(com espanto)_

Aqui?! Credo!

Joaquim

Ahi mesmo. Aqui foi sempre o coração; e o bucho está aqui, salvo tal

logar _(apontando o umbigo)_.

João

O bucho aqui? aqui é a espinhela; o bucho é onde cáe a trincadeira.

Joaquim _(rindo-se com ar de ironica piedade)_

João, tu chegaste da Samardan ha quinze dias, e eu tenho palmilhado

todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde está o

bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de

barões, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo é

mundo, foi sempre aqui _(insiste na demarcação)_. Faz-te esperto, rapaz!

O patrão já me disse hontem: «Ó Joaquim, este teu primo é um burro.»

João

Eu bem ouvi. Não foi assim que te disse o patrão. O que elle disse foi:

«Ó Joaquim, este teu primo é tão burro como tu.»

Joaquim

Não disse isso.

João

Na minha salvação, disse; e cá a mim, se o patrão me torna a chamar

burro, vou-me p'ra a terra. Eu não sou burro, sou christão baptisado.

Alcunhas não nas quero. Cá no Porto é costume essa chalaça.

Joaquim

Que chalaça?

João

Todos são bichos.

Joaquim

Todos são bichos? Más maleitas me tolham, se eu te percebo!

João

Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha cá? Pois

olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava _Lobo_; depois um

_Raposo_; depois um _Leão_; depois um _Coelho_ e um _Lebre_, e outro

senhor chamado _Camello_, e outro _Pato_, e um _Rola_. Olha que

bicharia! Eu estava a vêr quando chegava um Urso e um Boi. Lá na

Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois não aveza?

Joaquim

Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino

de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos...

João _(atalhando)_

Tem bichos? Arrenego-os eu!

Joaquim

Não me falles á mão; quasi todos teem bichos no nome é o que eu queria

declarar na minha proposta. Tu não inzaminaste as armas reaes que o

patrão tem nas quintas lá de riba?

João

Olha que já estive a malucar que na porta da quinta do Corgo estão as

armas do rei com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja,

teem assim as unhas _(recurvando os dedos)_. E o lacrau tem a lingua á

dependura _(figurando)_. Mas cá o patrão não se chama largato nem

lacrau, que eu saiba.

Joaquim

O animal que viste não é lacrau. O bicho que bota a lingua de fóra

chama-se leopardo.

João

Isso é nome de christão... Leonardo!

Joaquim

Leopardo, asno!

João

Tu não me chames asno, primo! Não me desfeiteies. Quem não sabe,

aprende. Então por que tem o patrão o leopardo nas armas reaes?

Joaquim

É historia antiga lá da familia.

João

Então esse bruto era da familia do patrão? Tu tamen não és pequeno

alimal, Joaquim! Estás um bom fistor! Olha se me engrampas a mim.

Olha... _(Arregaça o olho esquerdo)_.

Joaquim _(alvoroçado)_

Espana, que ahi vem gente...

SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS

Joaquim

Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde.

Visconde

Adeus. Meu filho saiu?

Joaquim

Saiu ás nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos

para o baile.

Visconde

Quando é o baile?

Joaquim

Ámanhan, senhor visconde.

João

É ámanhan, mas saberá vossa excellencia que só começa de noite.

Joaquim _(acotovelando-o)_

Cala-te ahi!

Visconde

Vão; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. _(Os criados

sáem)_.

SCENA III

Visconde de Vasconcellos

Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera não saber

que meu filho dá bailes!... Deixasse-me eu ficar na solidão do meu

desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no

coração viçoso e feliz de meu filho, para que a desgraça o não assalte

em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha

cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma

alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e

chorados ao pé d'uma sepultura!... isto é uma iniquidade! Os experientes

da vida, os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam

comsigo um fantasma funesto. Na sua presença, aos descuidados do futuro

desmaia-se a côr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados

irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos não

desculpam o velho, que sáe ao encontro da mocidade e lhe diz: «Envelhece

antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te não colha ainda

na primavera, e te não abra no rosto o sulco das lagrimas. _(Ouve-se o

rodar de sege)_. Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e

oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios,

esperando-o nos salões, d'onde a noite de ámanhan fugirá de pressa como

fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da

vida as lagrimas não podem desfazer... Para que hei de entristecel-o?

Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraça porvir

isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a

boca do abysmo. Deixal-o ser moço até que a primeira nortada do

infortunio lhe bata no rosto. _(Suspenso e recolhido)_. Não posso, não

posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouçam gemer no

parcel onde naufraguei.

SCENA IV

VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS

Rodrigo _(beijando-lhe a mão)_

Esperou muito tempo, meu pae?

Visconde

Não esperei. Onde está tua mulher?

Rodrigo

Eugenia vem já. Foi largar a capa e o chapéo, e naturalmente matar

saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile

de ámanhan.

Visconde

Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! já me viste em bailes?

Rodrigo

Certamente não. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria

rara a tentação dos bailes _(sorrindo)_; e meu pae, que deixou ha tantos

annos as salas de Lisboa, de certo não succumbiria á tentação em Lamego

ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da

capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moços, alguns dos quaes

ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela côr das

barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos

condes de Travaços, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do

gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de

Pimentel?

Visconde

Muito bem.

Rodrigo

Póde vêl-a aqui ámanhan.

Visconde

Essa dama ainda folga em bailes?

Rodrigo

Porque não? Representa uns trinta e cinco annos.

Visconde _(sorrindo)_

É mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis.

Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com

um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico,

pouco exemplar nos costumes, e... _(Mudando de tom)._ Deve ter branco o

formoso cabello loiro que tinha...

Rodrigo

Agora é negro.

Visconde

Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile:

essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando

garbosamente como quem sacode dos hombros o pêso de meio seculo. Mas o

ridiculo dos bailes não é o mau; o mau, o péssimo é o que é triste, é o

que não póde ser visto senão por olhos que choraram muito...

Rodrigo _(interrompendo-o)_

Vai o pae entristecer-se... e começou tão bom, tão ironico...

Visconde

As minhas ironias, Rodrigo, são sempre amargas; mas o fel que ellas tem,

todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversação.

SCENA V

OS MESMOS E D. EUGENIA

D. Eugenia _(beijando a mão do Visconde)_

Como está, meu pae?

Visconde

Bom. Vejo que está excellente a minha filha. Ainda não perdeu as boas

côres que trouxe da provincia.

D. Eugenia

Quem me lá dera outra vez!

Visconde

Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca

chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia

a minha Eugenia?

D. Eugenia

A primavera ainda vem tão longe...

Visconde

E depois que lá estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha

quinze dias, do baile de ámanhan, e dos bailes que...

D. Eugenia _(interrompendo-o)_

Não, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes é o

contentamento de Rodrigo. Elle está acostumado a estes recreios, e acha

n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se não tivesse

sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira

habituar-se á vida cá de fóra, o geito e o acanhamento da clausura não

se perde.

Visconde

A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade

elegante...

D. Eugenia

Aos costumes da sociedade elegante, não, senhor; ao contentamento de

Rodrigo, sim.

Visconde

Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peço que empenhe todo o valor do seu

coração em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e

ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e

amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das

folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de

baile, apparecem nos tapetes umas flores sem viço, que muitas vezes

symbolisam corações sem innocencia. Corações e flores perderam a candura

e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respiração.

Rodrigo _(sorrindo)_

Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas. Ainda ninguem viu os

vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento!

Visconde

Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem dá um baile precisa

mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao

Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisação tem

apostolos e martyres. Ora vá.

D. Eugenia

Janta comnosco, sim?

Visconde

Póde ser.

D. Eugenia

Até logo, _(apertando-lhe a mão--Sáe)_.

SCENA VI

VISCONDE E RODRIGO

Visconde _(com gravidade)_

Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e

ficas avisado para, na presença de tua mulher, nunca me desafiar a

discutir comtigo em assumptos de corrupção social. Agradece tu ao acaso

a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. Não a

illustremos; ouviste, Rodrigo? Não a illustremos... Bem vejo que estás

no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes

damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado;

queres que elle refulja á luz dos bailes. Vaes entrando com ella por

estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana

se assoalha; onde os corações como que andam á vista nos seios

descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...

Rodrigo

Jesus! que imaginação! Meu pae está illudido com a sociedade.

Visconde

Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!

Rodrigo

Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de

fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá

não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade

de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae

encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam

virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço

rico e considerado, não encontro meu pae?

Visconde

Não. Quem te disse a ti que eu não fui um... um villão?

Rodrigo

Se meu pae houvesse sido um villão, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o

que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra

de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens,

apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. É isto que eu

conjecturo do seu passado.

Visconde

Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou

incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de

velho e de pae. _(Pausa)_. Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae

confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao açoute com

que a Providencia o fere. A força da alma, a probidade, a indole

generosa que se me formou na educação, perdi-as, e foi nos salões que as

perdi. Não me foi necessario immergir na lama das orgias para de lá

sahir libertino. Nunca ahi desci. Foi nas salas que o meu coração se

encheu da peçonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os

mais vulgares sentimentos da honra, não salvando sequer a coragem, esse

derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara

aos assassinos em duello. Dos bailes é que eu sahi infamado e infame aos

meus proprios olhos. Imaginas tu o que é isto de sentir-se um homem

infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da

pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espaço de

vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braços quando eras menino, e

dizer-te muitas vezes: «Ó filho, ó creatura innocentinha, pede á

misericordia divina que se dê por contente com o immenso calix de

amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de

lagrimas de sangue.» _(Soluça)_.

Rodrigo

Meu querido pae, que extraordinaria dôr é essa!? O seu espirito sombrio

está exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem nos seus

crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, não teriam esquecido...

Visconde

A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas não esqueças

tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, vê sempre estas lagrimas

através das alegrias dos teus bailes, e escuta-me lá algumas vezes como

se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se não

pódes defender-te d'estes prazeres traiçoeiros, meu filho, consente que

tua mulher se não aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa

que ella se fique na quietação da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu

voltarás mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes

sem coração, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de

teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te não

falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de

mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram, é luz que

nos vai procurar a todas as voragens. Abysma-te; mas não a desvies do

berço de teu filho; não quebres o sagrado laço, que Deus formou entre a

alma que se está formando, e a alma de mãe, onde é preciso que arda um

grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes.

SCENA VII

OS MESMOS E JOÃO

João

Fidalgo, está alli um senhor que se chama...

Rodrigo

Como se chama?

João

Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo;

e mais tenho-o debaixo da lingua, como lá diz o outro. _(Recorda)_ Elle

tem dous nomes de bichos.

Rodrigo

De bichos?!

João

Sim, senhor fidalgo; mas não é dos que vem cá a casa.

Rodrigo

Dos que vem quê?

João

D'aquelles fidalgos, que se chamam Leões, Lobos e Camellos.

Rodrigo

Burro!

João

Tambem não é burro... Ah! _(sacudindo a mão direita)_ Parece-me que me

lembra. Um é assim, um nome de passarôlo grande, que se chama.... Ora o

diabo.... que se chama.... Não é corvo, nem pato, nem milhafre, nem...

ah! é Gavião.

Rodrigo

Gavião?

João

Saberá vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal.

Rodrigo _(ao pae)_

Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavião Aranha.

João

Aranha! é isso mesmo. É Aranha.

Rodrigo

Vai de pressa; que entre. _(João sáe)_.

SCENA VIII

O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIÃO ARANHA

Rodrigo

Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que não sei

d'elle.

Visconde

Vou sahir. Até logo.

Rodrigo

Permitta que eu lhe apresente o Aranha. É um excellente rapaz, o melhor

coração de cátavento que ha no mundo. Eil-o ahi está! _(Vem entrando

Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braços)_ Não ha que duvidar. É o Pedro

Aranha. Como estás tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara

espirituosamente franceza.

Pedro

Americano-ingleza, se dás licença. Estas barbas procedem de Nelson, e

dão-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos.

Rodrigo

Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos salões de

Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro,

aperta a mão ao melhor dos paes.

Pedro

Respeitosamente aperto a mão ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous

mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia.

Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do

senhor visconde.

Visconde

Quem se lembrará de mim na America Ingleza?

Pedro

Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha.

Visconde _(recordando-se)_

Jorge de Mendanha! Não tenho a mais leve lembrança de tal nome! D'onde é

elle?

Pedro

Provinciano, não sei de qual provincia.

Visconde

Deve ser velho.

Pedro

Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara é de

maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem

certo relevo litterario, e as maneiras são aristocraticas, sem pretenção.

Visconde

E disse que me conheceu?

Pedro

Não, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa

excellencia.

Visconde

Provavelmente é algum dos muitos rapazes da minha criação no collegio

dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que já são mortos. Jorge

de Mendanha!... não me posso lembrar. Senhor Gavião Aranha, conversem,

que hão de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa

excellencia. Demora-se no Porto? Creio que não é daqui...

Pedro

Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no

Porto, e casado, parti sem demora a vêr se conseguia ainda usurpar á

esposa alguma da muita amizade que elle me deu.

Visconde

Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. _(Aperta-lhe a mão, e sáe)_.

SCENA IX

PEDRO E RODRIGO.

Pedro

Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu vossê a

minha ultima carta?

Rodrigo

Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.

Pedro

Não recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me pela Asia dentro, e

voltei á America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.

Rodrigo

Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de

descripções romanticas, não ousou profanar o esconderijo onde me foragi

com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.

Pedro

Venha cá vossê. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia

do seu casamento. Todos os pormenores são pontos essenciaes d'esse

solemnissimo desmentido ás tuas grandes theses de celibatario defendidas

nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto

do coração.

Rodrigo

Esqueleto do coração!... Ó ignorante, aprende que o coração é musculo.

Pedro

É musculo ôco; eu tambem já sabia isso, mestre; tambem fiz do peito

amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres

meio delidas na superficie rugosa do coração, encontrei o musculo, de

que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?

Rodrigo

Isso.

Pedro

Isso quê?

Rodrigo

O vacuo do coração; mas a plenitude da alma, que é outra casta de entranha.

Pedro

Entranha! a alma é entranha! Collocas a essencia immortal na categoria

do figado e do baço! Deixemos essa questão á Academia real das

sciencias, e vamos á historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma

historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a

vulgaridade do matrimonio. Vamos ás peripecias. _(Em tom emphatico de

narrador)_ Era uma formosa tarde de estio....

Rodrigo

Não tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.

Pedro

Não?!

Rodrigo

Vê lá se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja,

mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas

parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a

nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a

Evora, perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram

fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas,

muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!

Pedro

Sim: temos já duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor

pelo cemiterio!

Rodrigo

Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar.

Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço

e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica

nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse

alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um

pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua

Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára, como compensação, que em poucos

annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que

poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga.

Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza

reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e

mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que

pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um

scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença

de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei

a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte

minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de

nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia.

Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se

para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.

Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia.

Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma

menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com

poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava

dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e

repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas

orphans.

As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse

filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza

de que não é filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a

supposição de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a

procedencia de algum desgraçado amor, obrigava talvez a curiosidade a

não devassar o mysterio de que minha prima não tinha a menor elucidação.

Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha,

expirou nos braços da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom

supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados

dias.... Vê lá se te estou estafando com a historia.

Pedro

Homem, não vês o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados

dias...

Rodrigo _(proseguindo)_

Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe não lisongeava a

alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle.

Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certidões necessarias ao

casamento. Nada obtive; apenas um antigo capellão do recolhimento me

disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de

Eugenia, entrára no convento em 1837 e morrêra em 1849 sem ter escripto

nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria

um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D.

Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No

pensar do capellão esta dama era fidalga, porque o padre que a

confessava uma vez dissera que a secular tinha tão nobre sangue como

espirito. Este padre confessor era já fallecido quando o procurei em

Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis

indagações. Obtive dispensa das mais urgentes certidões, e casei com

Eugenia... Por esta occasião meu pae perfilhou-me.

Pedro

Tu eras filho natural? Eu não sabia.

Rodrigo

Não? Nem eu. Só depois que sahi do collegio dos nobres e fui á

provincia, é que os criados me contaram que minha mãe era uma formosa e

pobre moça que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae

perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para

si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.

Pedro

E dizias que não tinhas romance!...

Rodrigo

Romance não é; é o que os romancistas não sabem pintar: a felicidade

perfeita. Eugenia é boa como todas as mães extremosas. Tenho um filho de

seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente

e doce alma da mãe. Eu não tinha direito a tanto contentamento sem

intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus,

e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.

Pedro

Que linguagem! que transformação! Deixei-te sceptico a respeito de

mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a

respeito dos meninos. Acho-te um coração cheio dos tres e unicos

elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a

religião que recebe os bens e os males da vida como favores da

Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo.

Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um

supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando não tinha

esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu á

proporção dos capitaes, não é verdade?

Rodrigo

Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.

Pedro

Ah! tu já não tens credores?! _(baixo)_ Transgrediste o solemne

juramento que fizemos em Lisboa de não pagar a uzurario que abuzasse da

nossa innocencia do juro da lei?!

Rodrigo

Meu pae mandou pagar tudo e a todos.

Pedro

E não te amaldiçoou?

Rodrigo

Não.

Pedro

Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!

Rodrigo

Disse-me isto sómente: «Se houvesses contrahido dividas no valor do que

possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por óra és rico; mas,

se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinará o caminho da infamia.»

Pedro

Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve

passar para a nova edição do _Thesouro de meninos_!

Rodrigo

E tu não pagaste áquelle dos oculos verdes?

Pedro

A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham

oculos verdes. Eu não paguei a nenhum. Sou equitativo, e não distingo

credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei

não pagar.

Rodrigo

Teu pae provavelmente pagou...

Pedro

As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e

Roma, se meu pae pagava as minhas dividas não pagando as d'elle! Os meus

credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia não

ha avô que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raça insoluvel

desde meu vigesimo quarto avô D. Ordonho, principe gothico, até mim, que

tambem não pago porque me não chamem gothico, como éra meu vigesimo

quarto avô D. Ordonho.

SCENA X

OS MESMOS E D. EUGENIA

_D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz menção de retroceder

vendo um estranho_

Rodrigo

Entra, Eugenia. _(Ella entra com uma carta aberta.)_ Quero apresentar-te

ao meu amigo Pedro Gavião Aranha.

Pedro

Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante

das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de

auzencia.

D. Eugenia

O Rodrigo já me tinha fallado de V. Ex.ª com muita estima; e eu tenho

muito prazer em vêl-o n'esta casa. _(Voltando-se a Rodrigo)_ Chegou

agora esta carta da condessa de Travaços. Vê.

Rodrigo _(depois de a lêr mentalmente)_

Pede um convite para o baile... _(reflectindo)_ Ó Pedro Aranha, como se

chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?

Pedro

Jorge de Mendanha.

Rodrigo

Ora ouve lá: _(lê)_. «Minha querida, senhora. Peço-lhe que obtenha do

Rodrigo de Vasconcellos um cartão de convite para um sugeito de fóra que

foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.

Da sua prima e amiga etc.»

Pedro

Oh! cá está o homem! E é singular coisa! Quando sahi da America estive

com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vão V. Ex.as vêr um

homem de romance.

D. Eugenia _(com simplicidade)_

Então quem é esse homem?

Rodrigo _(risonho)_

Essa pergunta assusta-me! Alvoroça-te a prespectiva d'um homem romantico?

D. Eugenia _(sorrindo ingenuamente)_

Nunca vi nenhum...

Rodrigo

Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!

D. Eugenia

Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não

encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos

que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos

elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve

ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.

Pedro

E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o

mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares

que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É

eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo

e cathedratico. Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro

com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos

acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é

uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para

meninos do côro.

Rodrigo _(sorrindo)_

Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros

de Portugal. _(Indica Pedro)_.

Pedro

Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu

fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por

tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação

anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de

todas as nações.

Rodrigo

Tudo portanto que não foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma

tosquia, é urso. Obrigado, snr. Gavião Aranha. Dá alvará de urso aos

seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios

annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na

sua pessoa.

Pedro

O que?

SCENA XI

OS MESMOS E JOÃO

João

Está lá em baixo uma fidalga n'um carrão.

Rodrigo

N'um carrão?

Pedro

Hade ser carroção. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover

por bois?

Rodrigo _(a João)_

É carroção ou carroagem?

João

É sim senhor.

Rodrigo

O quê?

João

É uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante.

Rodrigo

_Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante._ Entendeste, ó

Pedro?

Pedro

Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem

tem certo pittoresco, e um sabor classico.

D. Eugenia _(rindo)_

Falla á moda de Traz-os-montes.

Rodrigo

Essa coisa é puxada por bois ou cavallos?

João

São eguas, fidalgo.

Rodrigo _(a Pedro que ri)_

Este é o creado que te annunciou com dois bichos. _(Para João)_ Quem é a

senhora?

João

Um dos moxillas disse que é a snr.ª D. Viscondessa de Pimentel.

Rodrigo _(com as mãos na cabeça, comicamente)_

Ai! ai! ai!

Pedro

Pois está no Porto a viscondessa de Pimentel?

Rodrigo

Eu vou recebel-a á portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia.

Deixas-me fugir, sim, meu amor?

D. Eugenia _(sorrindo)_

Pois sim. _(Rodrigo e João sahem)_.

SCENA XII

D. EUGENIA E PEDRO

Pedro

A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex.ª esta arara de conserva?

D. Eugenia

Conheço-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaços, e

fui visital-a depois ao hotel de Francfort... É a primeira vez que vem cá.

Pedro

Mas ridicula até á commiseração, não é verdade?

D. Eugenia

Não... Faz-me dó! Tenho muitissima pena das senhoras que se não resignam

com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo

em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu

tinha muita compaixão quando se riam d'ellas.

Pedro

Ella ahi está explendida de antiguidade como uma cathedral!

SCENA XIII

OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL

_A viscondessa é uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda,

e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postiços. Nos

trejeitos e meneios exagera um desembaraço ridiculo, com o intento de

affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se

não desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de

esmerada educação e pratica da melhor sociedade._

D. Eugenia _(indo ao encontro da Viscondessa)_

Senhora viscondessa, como está V. Ex.ª?

Viscondessa

Muito nervosa. E V. Ex.ª? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua

sahida no intervalo do 2.º acto. Pedi ao primo Travaços que soubesse se

algum motivo extraordinario alem do _spleen_... oh! o _spleen_!.. é uma

calamitosa enfermidade esta, não acha?.. depois soube felizmente que o

snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razão da sua

sahida...

D. Eugenia

Ah! sim... Eu sahi porque... _(sustendo-se)_.

Rodrigo _(a Pedro)_

Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha.

Viscondessa _(com alvoroço)_

Pedro Aranha! Pois está aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia

conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias...

Pedro _(apertando a mão da viscondessa)_

Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex.ª

Viscondessa

Vem de Pariz?

Pedro

Da Suissa, minha senhora.

Viscondessa

Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens,

e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, não é assim?

Pedro

Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa.

Viscondessa

Eu amo as soberbas descripções d'esse paiz! Já pedi ao visconde que me

mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em

nações montanhosas. Ha certos espiritos que querem as nações chatas como

elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das

serranias! É desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a

mais desgraciosa semsaboria que suba ás agulhas do Marão ou da serra da

Estrella onde ha muito ár puro. Vejam que curteza de alentos! Para

certas almas o ar é ar em toda a parte. Vêr o mar do rochedo de Santa

Helena ou da Trafaria é igual. Tudo é agua: não é assim, snr. Aranha?

Pedro _(ironico)_

Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu

bom senso em castigar os espiritos canhestros...

Viscondessa

Pois não é assim?

Pedro

Irrefutavelmente é assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V.

Ex.ª _(a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)_

D. Eugenia

Vão sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o

snr. Aranha.

Pedro

Não me dispenso da honra e do prazer, minha senhora.

Rodrigo _(á viscondessa)_

Senhora viscondessa. Eugenia, até logo. _(beija-a. A viscondessa aperta

a mão dos dois que sahem)_.

SCENA XIV

D. EUGENIA E A VISCONDESSA

Viscondessa

Teve carta da prima condessa?

D. Eugenia

Sim, minha snr.ª

Viscondessa

Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico. É esse Jorge de

Mendanha de quem lhe falla a prima. É portuguez, e vem de Inglaterra

recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo

conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e

fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito.

Perguntei-lhe, quando se tomava o café, se tinha conhecido, nos bailes

do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um

sorriso indescriptivel, e disse: «conheci». E se a visse hoje,

conhecel-a-hia?--perguntei eu «Graças á solidez da sua belleza, (disse

elle) a viscondessa de Pimentel é ainda a depositaria da insigne

formosura de Francisca d'Almeida». Não podia dizer uma amabilidade com

tanto e tão delicado espirito, pois não? Ha não sei que de puro

parisiense n'isto, _un beau trait d'esprit_ não vulgar em portuguezes,

acha?

D. Eugenia

Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que

elle é velho, mas muito romantico... _(sorrindo)_.

Viscondessa

Velho?! não, minha snr.ª.. _(Vê-se ao fundo o visconde)_. É homem de

quarenta e poucos mais; mas V. Ex.ª ha de vêr um gentleman, um

_distingué_, _un homme à bonnes fortunes_ como lá se diz.

SCENA XV

AS MESMAS E O VISCONDE

Visconde _(com mal reprimido azedume)_

A mulher de meu filho não sabe francez, snr.ª viscondessa.

D. Eugenia

Ah! o pae!.. Estava ahi!

Viscondessa

Com effeito! é possivel que eu tenha o tão desejado jubilo de vêr o snr.

visconde!? Ha que infinitos annos o não vi! Que doce surpresa!.. mas, ao

mesmo tempo, _(com a mão na fronte, pensativa)_ que turbilhão de

recordações melancolicas! Vê? não posso vencer a commoção! _(Leva o

lenço aos olhos)_ .

Visconde _(sorrindo)_

São os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha

snr.ª? Ainda bem que V. Ex.ª me não sensibilisa com o espectaculo

pungente da decadencia, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Pois creia que padeço infinitamente, visconde. Fóra de Lisboa, recobro

forças e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta

d'isto; Lisboa está estupida; a vida d'esta sociedade é a proza chilra

das sociedades gastas, sem feição, toda safada em relevos, um _cancan_,

uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa

do nosso tempo...

Visconde _(com intenção ironica)_

A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.ª...

Viscondessa _(sem attender á interrupção)_

Resolvi sahir instada pelo primo Travaços. Vim, e sinto-me melhor. Acho

certa novidade nos costumes, nas maneiras, no _ensemble_ da vida

portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.ª

como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me

dessem occasião de vêr a V. Ex.ª

Visconde

Muito grato ao obsequio...

Viscondessa

Não me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? Não quer saber de alguem?

Visconde

Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dirá V. Ex.ª? Umas

morreram, outras envelheceram. Não me parece aprazivel o passearmos em

um cemiterio a lêr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V.

Ex.ª folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte

espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.

Viscondessa

Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex.ª abafa o seu antigo espirito com o

pezo dos crepes! Aqui está o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no

campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me ás experiencias

agricolas. Ao fim de oito dias, snr.ª D. Eugenia, as minhas ideias eram

pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde,

trate de viver, e deixe á morte o cuidado de o apanhar, quando estiver

distrahido. V. Ex.ª acha sensato estar-se a gente a vêr morrer todos os

dias? Eu não. É uma doidice que não abre as portas de Rilhafoles, nem as

da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades

contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua

especie dá cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas visões.

Visconde _(ironico)_

Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex.ª ideias funeraes, e usurpava

á sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de

ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vêr assim. Minha

querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae.

Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe

dizer. Remoce este animo arido, e não o deixe voltar á aldeia. E adeus,

visconde. Até amanhã. Conversaremos muito... Ah! é verdade! Ó visconde,

olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que lá

me conheceu ha vinte e tantos annos...

Visconde

Eu já hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na

America ingleza.

Viscondessa

Está no Porto.

Visconde

No Porto?!

Viscondessa

E vem ámanhã ao baile.

Visconde

Tenho certa curiosidade de o vêr.

Viscondessa

É extraordinario!

Visconde

Que singularidade são as do homem, viscondessa?

Viscondessa

É o _incompris_!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance.

_(O visconde solta um frouxo de riso)_ De que se ri, visconde?

Visconde

De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...

Viscondessa

Espantar-se! de quê?

Visconde

Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex.ª pinta o homem, que, se nos

conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.

Viscondessa

Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..

Visconde

E, se elle é maior de 50 annos, e finge o _incompris_, o incognito, o

romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser

ridiculissimo. Não me tente, minha presada snr.ª, que eu sou capaz de

vir ao baile para não morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com

uma aureola de mysterio.

Viscondessa _(dando-lhe com a luneta no hombro)_

Maganão! Cuida que toda a gente lhe ha de _fazer cauda_ na via dolorosa

da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o

pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos não affoguemos em

diluvio de lagrimas. _(Com intenção.)_

Visconde _(pensativo e abatido)_

Eu é que não posso rir-me; mas sei que ha corações que não soffrem o

pezo das consciencias que nada pezam.

Viscondessa

Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que não me esqueça

furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando

vinha subindo.

D. Eugenia

Sim, minha snr.ª, vamos colher quantas V. Ex.ª quizer.

Viscondessa

Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da

providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. _Sahem._--_(O

visconde senta-se alquebrado)_.

SCENA XV

O VISCONDE E DEPOIS JOÃO

Visconde

_Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da

consciencia_, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha...

Estas allusões moraes e penetrantes resaltam ás vezes das consciencias

mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...

João _(entrando com o «Commercio do Porto»; e, como não vê o visconde,

que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)_

Não enxergo ninguem. _(Começa a lêr, e vae sentar-se n'outra poltrona,

que tem as costas voltadas para a do visconde)_ Deixa-me vêr se ainda

leio por cima. Acho que é inglez, isto. Será? Não me parece. Quem sabe

lêr n'estes _coisos_ é cá o meu primo Joaquim que já foi entregador ou

redactor ou não sei quê d'uma trapalhada d'estas. _(Lendo no alto da

primeira pagina) Po, lí, po, lí tí, ca, in, ter, na. Politega eterna._

Isto acho que é a respeito da religião, ou lá da eternidade do outro

mundo. Vamos vêr o que diz dos governos: _(Lendo na quarta pagina)

Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando)_ Não é aqui. Ha-de

ser mais abaixo, _(lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro._ Linguas

de bacalhau! Isto é chalaça aos deputados... _(O visconde tosse. João

levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e sáe da sala

derreando-se para não ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia

por outra porta)_.

SCENA XVI

VISCONDE E D. EUGENIA

D. Eugenia _(aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)_

Como está triste! que tem, meu pae?

Visconde _(erguendo-se)_

Grande pezar de já ter sido alguma hora alegre, minha filha.

D. Eugenia

Parece qué a visita da viscondessa o contrariou.

Visconde _(pegando do «Commercio», e lendo mentalmente ao mesmo tempo

que conversa)_

O conhecimento d'esta senhora não lhe convem, Eugenia. Estas mulheres,

emancipadas da opinião publica aos vinte annos, não costumam ser as mais

uteis amigas na velhice.

D. Eugenia

Amiga! Eu apenas a conheço, e não sinto a menor inclinação para ser

amiga de tal senhora.

Visconde _(lendo sempre. Declamação vagarosa)_

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve

saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa

de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que

não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A

viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas

conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido

possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos

de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas

contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas

amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por

tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para

censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente

que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral

são assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente.

Vivamente agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia

se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se

com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D.

Eugenia tem reparado na commoção do visconde)_. Até já, Eugenia.

D. Eugenia

O pae está tão pallido!

Visconde

Pallido! Não sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao

jardim. Volto já. _(Sáe)_.

SCENA XVII

D. Eugenia, _(só)_

Elle ía tão mudado e sobresaltado! E estava a lêr com tanta inquietação!

Que seria? que viu elle n'este jornal?! _(Pega do jornal e corre os

olhos pela primeira pagina)._ Que é isto? _(estremecendo)_ Este nome...

Jacome da Silveira! _(Faz menção de lêr agitadamente, e lê alto): Cego

pela paixão feroz do ciume matou..._ Pois elle vive, meu Deus! Que

commoção tão funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me

traga desventuras! _(Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de

Villasboas!_ São estes os nomes!.. O desgraçado vive!.. Ainda o verei? E

poderia amal-o, se o visse? Oh! não... Eu vejo sempre o cadaver

d'ella... _(Senta-se a soluçar)._

SCENA XVIII

D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS

_(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)_

Rodrigo _(reparando)_

O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam · 第 1 / 6 段