--Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que

o meu amor é só teu. Não falles da _fioraia_, que é apenas uma

recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que

te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa.

Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando

nas faces da _Galathea_ o colorido da _fornarina_! Quero deixar o teu

retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se

visses a _Galathea_, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura

animada pelo meu amor.

--Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?

--Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.

--Ah! E o amor da _fornarina_ ha-de extinguir-se um dia como as flôres

da _fioraia_. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres

pintado a _Galathea_. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de

subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua

vida. Que resta da _fioraia_? A _Bella-Jardineira_. Que ha-de ficar da

_fornarina_? A _Galathea_. Ella era mulher do povo; eu tambem sou.

Cabe-nos a mesma sorte;--o esquecimento. O teu amor é um capricho de

artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu

coração. O artista copia, mas o homem não ama.

--Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o

espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance

extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de

esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o

cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se.

O espirito dos artistas é lava;--queima, escalda, por isso o corpo

succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que

os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...

--Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo

perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um

sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar

tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não

falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não

succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou

pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que

bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer

inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!

Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no

seio.

D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento

do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o

navio que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento

precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao

saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de

Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.

--Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu

pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento,

na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em

sorrisos...

--Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria?

Fallas d'um quadro que perdeste! E a _Disputa do Santo Sacramento_? E a

_Escola de Athenas_? E _Psyché_? E _Galathea_?--a _Galathea_ que sou eu,

que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde

ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu

nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das

realezas do mundo--a gloria!

Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de

Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo.

Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára

o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia

italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.

A _Transfiguração_, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis,

foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha

n'esta composição--escreve Valentin no seu livro _Les peintres

celébres_--figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão

novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os

artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»

Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da _Transfiguração_,

quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se

pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se

demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S.

Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente

atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.

Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos

de Raphael.

--Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso.

Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa

esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,--é

amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me da

_Glycera_. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado

trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se

extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso

espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...

N'este momento entrava Julio Romano.

Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado

colhia nos braços Fornarina para a tirar da camara onde ella sentia os

pés chumbados ao pavimento.

Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio

Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma

propriedade que possuia perto do Vaticano.

Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu

ao Creador a grande alma.

O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de

preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro da

_Transfiguração_.

Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro,

alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a

epopêa da sua gloria...

[10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.

* * * * *

Luiz Rossel

Quasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava

a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do

tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas

denegridas pela polvorada da communa.

Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte,

na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem

dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido

pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas

Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de

indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E

a commissão não se lembrava talvez de que per si mesma impunha uma nova

pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia

melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes

criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da

morte durante cento e oitenta dias de carcere!

Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.

Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo

a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas

quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração.

Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi,

das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!

O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente

as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa

observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á

commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.

«De todos os pontos da França--escrevia o padre Passa--vos dirigem esta

supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis

mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus,

para se preparar para a morte.»

«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de

Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha

compaixão? Rossel desertára das tropas de Versailles para as tropas da

communa.

Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que

desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente

condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort,

espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da

amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na

revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.

Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos

que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados

em que tudo será pelo melhor,--embora o melhor venha longe. Era um

nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de

susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e

humanas.

Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra

na republica:

«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu

comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas,

para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a

guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que

se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»

E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes

republicanos, acrescentava:

«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um

cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de

vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós

vos preparaes.»

Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da

nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos

ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as

desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado

pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a

desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a

Gambetta estas palavras:

Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me

lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de

contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós.

Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não

foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas

secretarías,--e muito pouca policia.»

O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871

escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:

«Meu general:

Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á

disposição das fôrças governamentaes que se possam constituir. Instruido

por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous

partidos em lucta no paiz, _colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle

que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes

culpados das capitulações_.

Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em

suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha

confiado o governo de 4 de setembro.

Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de

despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia

auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por

determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho

datado de 5 do mez corrente.

Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do

material, do estado em que deixo o serviço.

Tenho a honra de ser,

Meu general,

Vosso muito obediente e dedicado servo

_L. Rossel._»

Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz,

não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança

vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier

e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda

assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma

consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então

foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por

mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam

indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não

acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na

propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se a _cour martiale_,

cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este

tribunal,--escreveu elle--é o maior sacrificio que eu tenho feito e que

eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as

circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil,

estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um

tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de

morte.

Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar

dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu

poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos?

Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir

ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma

explicação razoavel para o meu procedimento,--é que eu me sacrifiquei á

Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui

successivamente encarregado, mas não recusei nenhuma. N'estes momentos

de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal

entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as

medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a

organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa

vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé

por serem numerosas e constantes.

«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,--diz

elle--mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um

assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta

recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»

Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na

organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por

obstaculos cada vez maiores.

A designação de--regimentos,--que elle adoptára, em vez de--brigadas--,

para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de

legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta

combinação», escrevia Rossel de proprio punho.

A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados,

sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a

aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo,

e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento

do inimigo. Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura

reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos

regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua

authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas

immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de

que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.

Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois

fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera

pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não

obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão,

accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver

aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para

realisar a traição.

Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha

pouco tempo, no _Diario de Noticias_:

«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma

cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é

mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da

communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham

obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas

poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que

devia cumprir as ultimas vontades da communa, e fuzilou Rossel.

Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe

causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa

gente!»

A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das

quatro paredes do carcere.

A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem,

desvairaram-n'o.

«Quando me juntei á insurreição--escrevia Rossel do caderno das suas

notas intimas--não contava com o successo, não esperava chegar a uma das

primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra

civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar

era em Paris.»

Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam

estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.

Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á

commissão d'indultos--sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel,

antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até

no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o

consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares.

Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava.

Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz

recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez

retrocedido á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da

ordem, que era a causa da patria.

Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A

manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira

esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si

as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as

balas,--as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em

França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava

resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.

Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os

comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se

sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o

padre Passa, seu director especial.

Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais

queridas pessoas da sua familia,--sua avó:

«A mistress Isabella Campbell:

Adeus, madrinha, amo-te.

28 de novembro de 1871.

Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.

Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente

agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»

Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos depois de ter recebido a

particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião

christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações,

ao qual ninguem póde assistir sem chorar,--Rossel não mentia.

Depois da patria, como elle amava a familia!

«Não posso supportar--escrevia no carcere--que se faça soffrer meus

paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco

preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo

pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha

parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução,

dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa

agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de

me ensinarem a amar o meu paiz.»

São docemente dolorosas estas palavras:

«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos

que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me

lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena,

continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis

tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e

minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á

noite. Mr. Passa havia-nos socegado!

«Mas eu tenho confiança--diz minha mãi--eu tenho confiança; elles não te

farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do

ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me

prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz

por fazer alguma cousa para ella.

A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.

«Tambem a ti--lhe digo-eu--tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo,

ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»

Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.

Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve

morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus,

salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a

chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade.

Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a

porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram

de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se.

Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly,

abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e

acompanhado pelo padre Passa.

Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley

e escreve a suas irmãs,--crentes e nobres corações de mulher, de

certo--que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!

Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no

seu quarto, embriagando-se para a morte.

Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo

de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.

Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como

se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel

Merlin, seu juiz, está presente.

Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao

seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.

Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.

Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se

dispensa o ultimo regalo;--morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma

taberna.

Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o

filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na

cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade;

agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.

Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de

Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e

pousa os labios descorados no travesseiro.

O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e,

instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho,

orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.

Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças

latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,--Bella e Sara, e

dizia-lhes commovido:

--Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até

que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.

A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças,

levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.

A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez

justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia

que o reclamára. Famosa ironia da republica!

O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o

mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos

opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe

pertencia.

A França escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.

Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos · 第 8 / 9 段