os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes
das Tulherias. Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame
Napoleão. D'antes a côrte era em Pariz; agora está em Versailles.
D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se
em Satory e Marselha.
D'antes applaudia-se Luiz Napoleão; agora applaude-se Adolpho Thiers.
Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; ámanhã apedrejar-se-ha o
presidente da republica.
Ora aqui está porque eu não sou monarchico nem republicano,--porque não
quero ser cousa nenhuma.
O meu posto é do lado da justiça; onde ella estiver, estou eu. É ainda
por esta razão que eu protesto contra as palavras que a _France_ atirou
para cima do tumulo de Rossel. A _France_ declara que se absteve de
fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. A
_France_ fez o que devia; não ha motivo para encarecer-se.
Depois, quando o tribunal pronunciou o seu _veredictum_, quando a
sentença foi executada, a _France_ enumera as circumstancias aggravantes
que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal,
sentenceia um cadaver.
Recorda a _France_ que Rossel encarregado de julgar o commandante de
batalhão, Giraud, no dia 19 de abril, fôra implacavel para com o réo,
accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os
debates, apostrophando:
--Mas finalmente desobedeceu!
Foi ainda Rossel que lera a sentença de morte a Giraud e que escrevera
estas palavras ao cidadão Laperche:
«É prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo
levante a coronha para o ar ou arvóre a bandeira parlamentar.
«É prohibido, _sob pena de morte_, continuar o fogo depois de se ter
dado ordem para o suspender, etc.»
«Estas lembranças--pondera a _France_--bastam para dizer o que elle foi
durante o seu commando, para dar uma idéa do que teria sido na victoria.»
E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar a
_France_. Uma vez chefe, Rossel não podia dar exemplo de cobardia, assim
como, uma vez vencido, não o deu tambem. Não trepidou diante da morte, e
se Giraud, que fôra julgado traidor aos seus, não teve a coragem de
agradecer a justiça que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz
Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:
--Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.
Não satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os
odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da idéa
que o sacrificára a elle.
Eu não defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar
na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e
prender Rochefort.
Entre Rochefort e Rossel a desproporção é immensa. Rochefort é um
aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel
era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util á causa da idéa
que defendesse.
Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para
a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel
está morto.
Mas a republica é o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a
protecção, dizem!
Rochefort está preso, ámanhã será amnistiado, fulminará o governo que
lhe perdoou, por que Rochefort é d'estes homens que estão sempre do lado
da opposição, e recomeçará a negociar litterariamente com a _Lanterne_
ou o _Mot d'ordre_.
Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de
communistas francezes. Como é que estes homens poderam enganar a
vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?
Fugiram, salvaram-se, estão contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo
viverão tranquillamente em França.
Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.
Estrondearam as espingardas;--a folha cahiu.
10 de dezembro de 1871.
* * * * *
PHYSIOLOGIA ROMANTICA
HISTORIA D'UM NERVOSO
I
Minha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.
Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria;
recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções
dynamicas.
Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada
fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos
mortos, do inferno e do diabo.
Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava
porém todos os seus direitos educativos.
Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude
era minha mãi. Resguardava-me o peito com flanellas, prohibia-me que
comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.
Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se,
nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico.
Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me
arraigavam mais no espirito os seus habitos.
N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança
que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.
Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz
tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles
tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas
familiares, desistiu.
Estudava eu instrucção primaria.
O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade
intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia
estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.
Iamos poucas vezes ao theatro.
As noites de nossa casa eram tristes.
Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada
rezava ao som da minha leitura.
Não sei porque, mas eu odiava o theatro.
Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem
morresse n'um espectaculo...
II
Fiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um
padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns
e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.
Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A
concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me
melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e
do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos
agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada
velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.
Comecei a adoecer frequentemente.
Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau,
que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas
feiras, antes de ir para a aula.
Esta predilecção pelo culto religioso provinha de certo da minha
educação biblica e caseira.
Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.
O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanças como eu não se
vingavam.
Eu suppunha o padre muito em relação com as cousas futuras, e tremi da
prophecia.
III
Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.
Estudei francez, e logica nas aulas publicas.
Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.
Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus
condiscipulos e achava-me rachitico.
Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.
Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.
Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a _Menina e moça_ de
Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi
mais livros, e li-os todos.
Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda;
eram simplesmente desastradas.
Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava
doudamente namorado pela litteratura.
Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um
curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A
esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei
para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu
patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia
tyrannica.
Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia
surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu
autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa
triste, concentrado, apprehensivel.
Tinha então dezoito annos.
A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido
convidado para a maçonaria.
Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular
sobre a maçonaria.
Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a
maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram
tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social
que a imprensa se propunha resolver. O jornalismo afigurou-se-me a mais
poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio
no pensamento humano.
Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube
que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.
Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista
procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das
minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e
revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.
IV
Eu amava.
A minha amada era rosada e loura.
Tinha nas tranças o que o céo tem de mais formoso--o sol; e nas faces o
que a primavera possue de mais puro--as rosas.
Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia
operado em mim.
Sentia-me assombrado.
Tinha vagas aspirações, desejos indefinidos.
Queria ser grande.
Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia
politica.
O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir
ao olympo das grandezas sociaes.
Comecei a escrever artigos politicos, e já uma vez por outra se fallava
no meu nome.
Por esse tempo uma facção militante offereceu-me um circulo.
Eu endoudecia de felicidade; começava a vêr realisarem-se os meus desejos.
Sahi eleito.
Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.
O meu temperamento desvairava-me.
Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a
cada momento a marcha da governação publica.
Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os
hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.
Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi
os recursos com que vivia modestamente.
Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a facção
ministerial, sob promessa d'um despacho.
Renunciei dignamente, e lancei mão do facto na camara para fulminar o
ministro do reino.
Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo,
na esperança de ser nomeado conselheiro d'estado.
A maioria ficou por tanto sendo governamental.
Ergui-me para fallar.
Fui impetuoso, violento, audaz.
O presidente notou-me que eu estava fóra da ordem, e retirou-me a palavra.
Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a
resolução da presidencia.
Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.
Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mãi.
Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.
Dei-me pressa em partir.
Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada
tinha morrido.
V
Vi-a no caixão.
Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranças os reflexos da eternidade.
As rosas da face tinham desmaiado.
Em volta da sala havia crepes.
Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.
Ao longe dobrava um sino.
Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.
Se a alma é immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para
outra vida?
Se não é, para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?
Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.
Tiraram-me da sala, quando eu já não dava accôrdo de mim.
Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.
Estive muito tempo sentado no leito até que me fosse possivel atinar com
a realidade.
Não sahi n'esse dia, não sahi tambem nos immediatos.
Comecei a lêr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a
cabeça humana.
Queria devassar os mysterios d'além-tumulo.
Tinha visões, dôres dilacerantes.
Chamei um medico, que me disse que as visões eram gastricas e as dôres
nevralgicas.
Aconselhou-me distracções, passeios, agitação.
Desobedeci, e continuei a viver recluso.
Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi
que a minha pertinacia começava a aborrecer aos meus amigos.
A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.
Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir
immediatamente para o campo.
Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de
administrador d'uma casa no Minho.
Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.
Offereci os meus serviços, que foram aceites.
O rio Lima passa perto da casa que eu administro.
O sitio é formoso e saudavel.
Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a
dirigir as maltas.
Ao domingo ou caço ou pesco.
Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura é a do jornal que eu
assigno.
Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.
Estou d'uma carnação razoavel, sem todavia estar gordo.
Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.
Posso rir-me de vós, ó nervosos esgrouviados, que tendes visões,
idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.
O clarão do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.
Dentro em pouco sereis cinzas.
O adelgaçamento da raça toma um incremento prodigioso.
Os vossos filhos são amarellos e intanguidos; já me não parecem
creanças, mas futuras congestões visceraes, dyspepsias, catarrhos
vesicaes, nevralgias e affecções calculosas.
Pobres d'elles, por vossa causa!
Um unico meio póde ainda conservar-vos, a vós, e remil-os a elles d'uma
catastrophe imminente.
Um grande medico que vos póde salvar,--a Hygiene!
Vêde bem que a questão do temperamento é uma questão nacional, porque os
nervos da patria começam a ter contracções dolorosas.
Na estatistica dos temperamentos, o nervoso é o predominante.
Pois bem. Resta um unico meio de salvação, o regimen hygienico.
VI
Costumai-os desde pequenos á gymnastica, não á gymnastica violenta do
trapezio, mas á suave gymnastica de quarto.
Mandai comprar-lhes a _Gymnastique de chambre_, escripta em allemão por
Schreber e traduzida em francez por Delondre.
Chegando a primavera, atirai-os para o campo.
Deixai-os correr, saltar, e cahir,--e cahir tambem.
Vêde bem que é preciso desenvolver-lhes o systema muscular.
Urge reformar esta raça enfesada que se está eximindo a cada passo de
servir o exercito nacional por não chegar ao estalão.
Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se
narcotisam com o charuto, que se requeimam com o _grog_, e se desvairam
com o romance.
E as raparigas! ah! e as raparigas!
Como ellas querem ser pallidas e languidas!
Aos dezoito annos começam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem
nevroses,--classicas e romanticas--, como as classificou Balzac na
_Physiologia do casamento_.
Havieis de vêr estas moçoilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam
tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!
Vós, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.
Tendes uma transparencia etherea.
Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da
superficie da terra e subir ao ar em vapor.
Depois haverá uma epidemia europêa, porque vós, particulas deleterias,
corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem hão-de cahir
fulminados.
Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente
organisada, o tufão não logrou empolgar.
E da serra da Estrella baixará um beirão que zombou das correntes
atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de
canapé a Viriato.
E d'esta mulher e d'este homem nascerá a raça futura.
E a proposito de vós, ó gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas
mumias que foram desfeitas por um sôpro...
FIM