A biographia é a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na

dupla manifestação da sua actividade, e é por isso que ultimamente a

critica e a historia não prescindem da alliança da physiologia com a

psychologia. Por tal razão foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a

_Psychologia morbida nas suas relações com a historia_; que Emilio

Deschanel escreveu a _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, e que

recentemente o doutor Laborde se entregou ás lucubrações

medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre _Os homens e os

actos da insurreição de Paris perante a psychologia morbida_.

Esboçando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre

em vista a noção de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de

Platão, que definiu o homem na expressão «d'uma alma que se serve d'um

corpo», e porque, segundo uma expressão feliz de Emilio Deschanel, para

conhecer o fructo é preciso conhecer a arvore.

Posto isto como exordio já demasiadamente longo, fallemos d'um grande

genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor

nervoso, hypocondriaco, melancolico,--Beethoven.

Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem

sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se

nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vêr a musica

considerada como imperfeita imitação da harmonia que produzem os

movimentos dos corpos celestes.

Na tradição asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisação

do universo. As sete nymphas _Swaras_ são a personificação das sete

notas. _Saraswati_, filha, mulher e irmã de _Brahma_, representa a

primeira nota da escala dos sons[9].

Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta

grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas

particulares.

Seja o que fôr a musica, venha ella do céo ou da terra, dos astros ou

dos homens, bemdita seja, que nos leva após si a umas paragens ethereas

de um paraiso desconhecido. Abençoados sejaes, sacerdotes do bello, que

lançaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.

Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de

Beethoven.

Este nome é per si só uma epopêa.

Tem a grandeza do mar, e a irradiação do sol.

Em torno do berço d'este homem sublime quer a nossa imaginação que

volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da

terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em

revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais

dôces harmonias da musica universal e pelas mais dôces gravitações dos

astros melodiosos.

Todavia a historia é que não admitte hypotheses romanescas e devaneios

poeticos; e á historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da

infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de

musica os aprendera elle com violencia, e que só abancava ao piano

quando a voz paterna trovejava ameaçadora.

O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.

É um abysmo que se não póde abranger com a vista através do vaporoso

involucro. Mas ao primeiro raio de sol vôa desfeito o véo, e arqueiam-se

as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e

tudo são fremitos, movimentos, prodigios,--e apparece finalmente o mar,

pregoando Deus e assombrando os homens.

O véo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em

fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se

rarefaz ao primeiro raio da aurora.

Muito moço ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e

em Vienna, na presença de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o

que todavia não impediu Mozart de suppôr que elle reproduzia de memoria.

Então Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este

prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: «Escutai-o com attenção;

dentro em pouco ouvireis fallar d'elle.»

Luctar é o condão do genio; o mar creou-o Deus para a ebullição eterna.

Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com

o compositor Woelff.

Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o

partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de

Woelff presidido pelo barão Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa _villa_

do barão, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o

genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de

concepção, e uma imaginação estupenda, que tinha alguma cousa das noites

sombrias e mysteriosas das florestas.

Não obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de

Beethoven desde os primeiros annos.

Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros

signaes de surdez, em plena mocidade.

Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia,

lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe

que não transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de

Breuning, outra companheira da adolescencia, que fôra de certo a mulher

amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por

instancias de amigos, tomou o nome de _Leonora_, sendo que depois de

reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominação

de _Fidelio_.

Gustave Bertrand, no seu livro _Les nationalités musicales_, diz que a

opera fôra cantada n'uma época politicamente calamitosa, que o libreto

era deploravel, e que o desempenho orçára pelo libreto, com quanto os

mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter

de accusar o _maestro_ de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos

depois voltou á scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada.

Então começou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven.

Minguado de recursos, ameaçado de completa surdez, agitado pelas

nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma

dôr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia

desposado Wegeler, o amigo do _maestro_, a quem primeiro fizera a

confidencia das suas apprehensões, viu-se Beethoven compellido a aceitar

o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleão.

Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o

conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda

annual de quatro mil florins, a não sahir do territorio austriaco.

Beethoven, grato a esta consideração já então muito para estranhar, e

hoje impossivel, fixou residencia em Vienna.

Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do

anno.

Cortadas as suas relações com o mundo exterior, doente, melancolico,

quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava

pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a

despeito da opinião geral de que a posição perpendicular é a que menos

favorece os actos do espirito, e a mais adversa á inspiração.

Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina dos _Grotesques de la

musique_, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:

«A posição horisontal é evidentemente a mais favoravel ao trabalho da

intelligencia, á expansão do espirito, e isso concebe-se. O nosso

cerebro é a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de

idéas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas

humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor;

todos os physiologistas vol-o dirão. Quanto mais este liquido affluir

facilmente á caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir

idéas ou vapores.

«Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a

_Candida_, gozava de vigorosa saude quando poz mão na _Henrieida_.

Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede

onde gostava de se deitar para compôr; foi onde elle pensou as suas

deliciosas obras primas, _Paul et Virginie_ e a _Chauniére de la

Nature_. Quando em seguida compoz as _Harmonies de la Nature_ e quiz

explicar o phenomeno das mares pela liquidação dos gelos polares, já a

rede estava velha, e não pôde servir-se d'ella.».

Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a

sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de

subito respeito, e crianças, velhos e mulheres não o deixavam de saudar

com estas palavras: «_Alli vai Beethoven!_» saudação que o _maestro_ não

podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admiração.

Como n'essas longas horas de excursão campestre ou urbana redemoinhariam

na alma de Beethoven as recordações dolorosas de melhores tempos! A

imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de

apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com

aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor

observação dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor

de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram

dissenções de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos

de outr'ora. Todavia a distancia não pôde endurecer o coração, porque,

na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:

«Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se

possuisse um collete de pêllo de coelho, costurado pelas vossas mãos,

minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa é

do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mãos, e depois

tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: é

poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha

de Bonn.

Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em

Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora só me resta conserval-o n'um

guarda-roupa, como um objecto que me é muito caro porque vem de vós...»

Ah! o coração namorado palpita ainda sob estas formulas respeitosas da

epistolographia. É manifesto. O collete, costurado pelas mãos de Leonor,

queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando

umas recordações sempre vivas.

Foi satisfeito o pedido? Foi e não foi. Em vez d'um collete, recebeu

Beethoven uma gravata, o que não é menos significativo, porque uma

gravata, dada por uma mulher, é o mesmo que dizer-nos ella: «Com este

delicado esparto estrangula tu todas as palavras que não sejam para mim.»

Beethoven agradeceu epistolarmente: «A bella gravata, obra de vossas

mãos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem

doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordação do

tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vêr como sois generosa para

commigo...»

Em 1806 o nome de Leonor é substituido pelo de Julieta, em tres cartas,

das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo

entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias,

as circumstancias, obrigaram Beethoven a lançar este véo transparente

sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia não póde

duvidar.

Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que

sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior,

já bruxoleante.

De longe a longe descia um raio de sol aos carceres d'aquella alma. Os

nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descançavam por

momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta

favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.

Á surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro

mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.

O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito

de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do

ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.

Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do

maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o

governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava ás verberações de

Beethoven. «Escrevei uma collecção de psalmos de penitencia,--dizia elle

a Hummel--e dedicai-os á imperatriz.» Era ainda a Hummel que elle

confidenciava entre afflicto e pensativo: «Sois feliz, porque não vos

falta uma mulher que vele por vós. Mas eu, ai de mim, _povero_ que sou!»

N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboçou no papel a casa onde

nascera Haydn; pendurou o desenho á beira do catre, e por mais de uma

vez revelou que lhe era consolação estar contemplando as paredes dentro

das quaes viera á luz do mundo um grande homem.

Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava a duas pessoas

que acabavam de entrar no seu quarto: _Plaudite, amici, comoedia finita

est._ Nas horas que lhe restaram de vida parece que não mais referveu

nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada

por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como

lhe chama Deschanel. E é certo que os livros de Goethe e as partituras

de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. São

como os grandes lagos, que ora se anilam sob um céo transparente, ora se

revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.

Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes

Beethoven costumava sentar-se para descançar dos seus longos passeios,

mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o

pouso devoluto, não contam ás gerações os monologos do _maestro_, nem

quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...

[8] _La Prose, leçons faites a la Sorbonne._

[9] _Traité complet de la theorie et de la pratique de

l'harmonie, par Fetis._

* * * * *

Raphael

A MR. PELLEREAU

Era um talento enorme.

O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os

primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.

Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos

Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.

O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre

as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.

Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com

todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.

Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e

disse-lhe:--Parte.

E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa

no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia

formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.

Dias depois entrava no _atelier_ de Perugino, em Perugia. Um artista

hospedava outro.

A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser

mais alguma cousa do que um simples hospede,--ambicionava ser discipulo.

Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre

inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede

nem o quereria já como rival.

Tinha dezesete annos.

Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a

mão, e Perugino ficára vencido.

Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas

dimensões, o celebre _Sposalizio_, cujo assumpto delicado e formoso é o

_Casamento da Virgem_.

O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo,

respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na _maneira_ do mestre.

Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura

quebrar as gramalheiras da imitação.

É a época da liberdade.

Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na

reforma artistica por que ia passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael

foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da

pintura.

Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e

mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.

Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a

arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em

campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde

podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o

seu anjo da guarda;--a gloria o sonho de todas as horas.

Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e

dividindo o tempo com a arte e com o amor!

Fóra do _atelier_, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a

_fioraia_; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres

d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que

o seu pincel a reproduziu espontaneamente na _Bella Jardineira_, a

primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na

galeria do Louvre.

Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava

travada a lucta entre os poderosos athletas.

Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia

envolver-se n'um manto de roçagante magestade.

Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O

torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do

mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor,

deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.

O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era

Bramante, tio de Raphael.

O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael

despediu-se da _fioraia_ e aceitou, entre triste e distrahido, umas

flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença

ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia

lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...

Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz

para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados

rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.

Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel

era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano.

Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do

seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:--a

Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.

O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante

do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os

_frescos_ que os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era muito e

ainda não era tudo;--começava a realisação do sonho.

E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma

sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a

Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença

artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem

siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros.

Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre

que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael

o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho

artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante,

aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos o _Juizo

Final_, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á

capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo

e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida

transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia

consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece

aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de

outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos á _Santa

Cecilia_ de Raphael, exclama arrebatado: «_Anch' io son pittor!_»--La

Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no

fogo da inspiração.

Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano e não póde

conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael

estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»

E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho

d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a

gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição

artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos

ruidosos de Mozart.

Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam

coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e

Giotto.

Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura;

Brunelleschi levanta o zimborio de _Santa-Maria-del-Fiore_; Colombo

descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as

trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a

consciencia individual;--Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci

rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois

d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade

media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a

arte.

Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e

portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no

catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em

Magdalena e na Virgem. Da religião catholica nasce a poesia moderna. É

um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores

architectos.

As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.

A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura

a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau,

a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na

historia sagrada mais que a historia da humanidade.

Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira,

um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel

a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre.

Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de

voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros

notabilissimos--_Galathea_ e _Psyché_.

Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio

d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as

opiniões; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e

Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa,

como a de Bellini e Beethoven.

Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa

compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos

vêr n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes

que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos

antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos

prazeres desregrados e ás expansões vehementes.

Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus

cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros,

davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.

Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, _fornarina_, a filha do

padeiro.

Muitas vezes, emquanto pintava a _Galathea_, abandonava a paleta para ir

vêr _fornarina_, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da

segunda metade da vida de Raphael.

Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se

esbate n'um azul delicioso, _fornarina_, que estava cuidando d'umas

flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir

passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim

das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das

estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.

--Raffaelo! exclamára a _fornarina_.

--Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu

tenho ciumes d'ellas.

--Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já

te não lembras de Florença?...

--Ah! sempre cruel e formosa!

--Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os

encantos da _fioraia_.

Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos · 第 7 / 9 段