aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas
contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as
mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_,
e eu nunca dei outra.
Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:
«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»
Se não se offende peço licenca para lhe dizer que eu estou na innocente
persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão
importante, a não ser alguma physiologia official _ad usum delplini_.
Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica,
quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas
elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_
me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente
resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz
em S. Bento.
Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir.
Adiante.
Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis
reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a
educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:
«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»
O meu amigo crê que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que
qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me,
por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer que haja
equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas
e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive
em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu
amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia
especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas
creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta,
é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de
sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle
estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o
coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que
não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a
força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em
geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas
para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina,
por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas
almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a
indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a
crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e
prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das
ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das
ambições domesticas legitimas.
Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve para lá ir comer ou
dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma
companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato,
que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho.
D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com
as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós
lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta
nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a
que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado
social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos
sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos
obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a
litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de
sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns
respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos
salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela
rua.
A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com
o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.
Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor
dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e
logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham
utopia ridicula a emancipação da mulher e não acham grotesca a
emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e
brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a
mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza
de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos
medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do
trabalho intellectual da mulher!...
Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á
opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a
mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia
nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam
as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a
perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós,
pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem
distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos
á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses
direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa
d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a
historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois
démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal
a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao
homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo!
Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e é com effeito
essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa,
indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta,
que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do
termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de
aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do
trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.
A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que
usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a
não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial,
educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que
quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira
preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido
usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o
principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o
trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é
preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher
actualmente.
É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel
Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo
numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a
mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução
d'essas questões. Por exemplo: as questões de beneficencia, de
instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia,
com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só
o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução
completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do
ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços.
Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa,
esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da
hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da
frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de
todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a
sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos,
todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da
mulher contemporanea.
Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação
amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada
mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e
politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me
assustam as consequencias legitimas de principios que considero
verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de
utopista, de exaltado e de revolucionario.
Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o
meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis.
Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a
coragem que me dão as minhas profundas convicções.
Vou terminar por hoje.
O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas
muito boas é muito bonitas ácerca do _Genio do Christianismo_ de
Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por
ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar
de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um
bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso
tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como
livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me
dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se
quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que
não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém
d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre
seu amigo e admirador,
Bragança, 3 de março de 1872.
_Alexandre da Conceição._
* * * * *
Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
_Meu bom amigo:_
Conservo-me impenitente.
Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter
já começado a cantar-me piedosamente o _De profundis_.
Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do
imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me
com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e
benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos
contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a
entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se está contorcendo
nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.
Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião, que se me afigura
sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde
comecei a pugnar.
A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de
demonstração em demonstração até chegar á verdade final,--a conclusão.
Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á
força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella
cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.
A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe,
desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque
muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma
ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes
poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que
pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por
isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com
a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia,
não devaneia, não sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um
calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte,
póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como
Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia,
como Lamartine.
Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e
essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio,
em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo
mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido
e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das
vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico
para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se
transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina
florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E
resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para
outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz
intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos
salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando
á porfia com o echo melodioso do seu ideal...
Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a
gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta
mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem
fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.
Disse eu e repito-o:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»
Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou
uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa
gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender
toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe
analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo
a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á
cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva
uma ou outra rarissima excepção, é escrever a _Illiada_, e ser Homero.
Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá
melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton,
apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com
Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é
intuitivo.
O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de
pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de
viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e
as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas,
da ultima crise sociologica.
É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico,
primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então?
Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que é a razão, mata
aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.
O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de
suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das
sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor
aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social,
para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em
mathematica. A inspiração de que brotaram as _Alvoradas_ era dôce,
gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma,
desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da
poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a
levantar plantas.
Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar
pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de
melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para
isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa,
mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus
primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abençoada esmola_--e
desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e
que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.
Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.
Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar
as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado
pela pressão da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe
ha-de dizer isto mesmo.
Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda,
livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das
suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e
eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_
mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas
fileiras.
Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos
escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito,
entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu
conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta
intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu
mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe
permittem resistir á minha lastimavel dialectica.
Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.
Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me
obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas
palavras de Paulo Janet:[7]
«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa
parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual
seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a
massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não
está _averiguado_, tem razão, e a isso não era eu estranho.
Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e
Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do
pensamento.
Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.
Adiante.
Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas
convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das
quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou
tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me
demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se
estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens
que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os
philosophos e os legisladores.
Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.
Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D.
Antonio da Costa no seu livro--_A instrucção nacional_. Permitta-me,
pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico
escriptor, e que me defenda com elle.
É preciso, é indispensavel, é urgente promover a instrucção da mulher,
que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes,
sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas
18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.
Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de
dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.
Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota
a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se,
entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que
possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes
que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam
caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora,
não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem
para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mãi e
esposa.
Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?
Digo que não,--convictamente digo que não.
Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo
portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,--a
mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque
não desejo desmembrar a familia.
«Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da
intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida
para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras
politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade
igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as
funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa,
costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia
domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as
victimas da desigualdade cujo principio combateis.»
Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica?
Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas.
Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que
soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe
disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_--é
evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»
Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos
placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e
crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu
quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.
Isto penso eu.
Mas para que discutil-o, Conceição?
Que o discutam philosophos e legisladores, que façam luz no espirito
publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.
Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.
Poz o meu amigo em duvida as _funcções educativas do esposo_! Pois o pai
não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a
mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de
reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado _Da
Educação_, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.»
Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com
firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e
alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel
que seja sabia.
Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e
estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o
erro.
Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos
intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vão cantar os
rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação
arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em
que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus
dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar
espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho
descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos
algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra
que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.
Aperto-lhe cordealmente a mão.
Creia-me sempre
seu amigo e admirador,
Porto, 14 de março de 1872.
_Alberto Pimentel._
[7] _La cerveau et la pensée._
* * * * *
PHYSIOLOGIA HISTORICA
Beethoven
A biographia é uma nova fórma dada á historia por Plutarcho.
Seguindo o methodo seguro da inducção, caminhamos da biographia para a
synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem
para a _época_. Não concordamos portanto com mr. Paul Albert[8]
que vê n'esta evolução historica mais uma decadencia que um
progresso.