Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me

aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas

contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as

mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_,

e eu nunca dei outra.

Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:

«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia

de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»

Se não se offende peço licenca para lhe dizer que eu estou na innocente

persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão

importante, a não ser alguma physiologia official _ad usum delplini_.

Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica,

quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas

elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_

me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente

resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz

em S. Bento.

Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir.

Adiante.

Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis

reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a

educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:

«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na

familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso

de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a

mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»

O meu amigo crê que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que

qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me,

por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer que haja

equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas

e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive

em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu

amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia

especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas

creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta,

é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de

sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle

estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o

coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que

não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a

força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em

geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas

para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina,

por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas

almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a

indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a

crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e

prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das

ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das

ambições domesticas legitimas.

Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve para lá ir comer ou

dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma

companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato,

que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho.

D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com

as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós

lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta

nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a

que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado

social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos

sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos

obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a

litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de

sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns

respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos

salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela

rua.

A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com

o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.

Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor

dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e

logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham

utopia ridicula a emancipação da mulher e não acham grotesca a

emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e

brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a

mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza

de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos

medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do

trabalho intellectual da mulher!...

Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á

opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a

mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia

nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam

as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a

perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós,

pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem

distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos

á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses

direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa

d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a

historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois

démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal

a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao

homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo!

Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e é com effeito

essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa,

indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta,

que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do

termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de

aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do

trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.

A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que

usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a

não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial,

educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que

quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira

preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido

usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o

principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o

trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é

preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher

actualmente.

É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel

Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo

numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a

mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução

d'essas questões. Por exemplo: as questões de beneficencia, de

instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia,

com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só

o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução

completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do

ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços.

Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa,

esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da

hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da

frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de

todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a

sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos,

todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da

mulher contemporanea.

Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação

amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada

mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e

politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me

assustam as consequencias legitimas de principios que considero

verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de

utopista, de exaltado e de revolucionario.

Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o

meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis.

Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a

coragem que me dão as minhas profundas convicções.

Vou terminar por hoje.

O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas

muito boas é muito bonitas ácerca do _Genio do Christianismo_ de

Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por

ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar

de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um

bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso

tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como

livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me

dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se

quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que

não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém

d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre

seu amigo e admirador,

Bragança, 3 de março de 1872.

_Alexandre da Conceição._

* * * * *

Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição

_Meu bom amigo:_

Conservo-me impenitente.

Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter

já começado a cantar-me piedosamente o _De profundis_.

Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do

imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me

com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e

benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos

contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a

entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se está contorcendo

nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.

Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião, que se me afigura

sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde

comecei a pugnar.

A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de

demonstração em demonstração até chegar á verdade final,--a conclusão.

Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á

força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella

cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.

A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe,

desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque

muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma

ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes

poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que

pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por

isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com

a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia,

não devaneia, não sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um

calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte,

póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como

Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia,

como Lamartine.

Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e

essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio,

em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo

mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido

e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das

vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico

para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se

transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina

florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E

resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para

outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz

intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos

salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando

á porfia com o echo melodioso do seu ideal...

Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a

gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta

mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem

fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.

Disse eu e repito-o:

«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes

poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de

desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»

Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou

uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa

gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender

toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe

analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo

a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á

cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva

uma ou outra rarissima excepção, é escrever a _Illiada_, e ser Homero.

Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá

melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton,

apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com

Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é

intuitivo.

O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de

pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de

viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e

as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas,

da ultima crise sociologica.

É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico,

primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então?

Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que é a razão, mata

aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.

O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de

suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das

sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor

aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social,

para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em

mathematica. A inspiração de que brotaram as _Alvoradas_ era dôce,

gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma,

desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da

poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a

levantar plantas.

Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar

pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de

melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para

isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa,

mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus

primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abençoada esmola_--e

desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e

que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.

Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.

Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar

as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado

pela pressão da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe

ha-de dizer isto mesmo.

Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda,

livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das

suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e

eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_

mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas

fileiras.

Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos

escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito,

entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu

conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta

intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu

mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe

permittem resistir á minha lastimavel dialectica.

Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.

Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me

obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas

palavras de Paulo Janet:[7]

«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa

parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual

seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a

massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não

está _averiguado_, tem razão, e a isso não era eu estranho.

Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e

Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do

pensamento.

Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.

Adiante.

Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas

convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das

quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou

tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me

demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se

estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens

que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os

philosophos e os legisladores.

Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.

Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D.

Antonio da Costa no seu livro--_A instrucção nacional_. Permitta-me,

pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico

escriptor, e que me defenda com elle.

É preciso, é indispensavel, é urgente promover a instrucção da mulher,

que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes,

sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas

18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.

Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de

dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.

Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota

a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se,

entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que

possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes

que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam

caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora,

não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem

para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mãi e

esposa.

Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?

Digo que não,--convictamente digo que não.

Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo

portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,--a

mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque

não desejo desmembrar a familia.

«Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da

intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida

para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras

politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade

igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as

funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa,

costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia

domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as

victimas da desigualdade cujo principio combateis.»

Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica?

Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas.

Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que

soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe

disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_--é

evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»

Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos

placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e

crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu

quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.

Isto penso eu.

Mas para que discutil-o, Conceição?

Que o discutam philosophos e legisladores, que façam luz no espirito

publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.

Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.

Poz o meu amigo em duvida as _funcções educativas do esposo_! Pois o pai

não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a

mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de

reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado _Da

Educação_, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.»

Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com

firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e

alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel

que seja sabia.

Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e

estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o

erro.

Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos

intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vão cantar os

rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação

arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em

que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus

dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar

espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho

descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos

algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra

que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.

Aperto-lhe cordealmente a mão.

Creia-me sempre

seu amigo e admirador,

Porto, 14 de março de 1872.

_Alberto Pimentel._

[7] _La cerveau et la pensée._

* * * * *

PHYSIOLOGIA HISTORICA

Beethoven

A biographia é uma nova fórma dada á historia por Plutarcho.

Seguindo o methodo seguro da inducção, caminhamos da biographia para a

synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem

para a _época_. Não concordamos portanto com mr. Paul Albert[8]

que vê n'esta evolução historica mais uma decadencia que um

progresso.

Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos · 第 6 / 9 段