errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não
pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de
menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.
«Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a
minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre
plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a
arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja
impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo
denunciam a milicia dos mortos.
«N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo
Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós
sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas
na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica
ha-de perseguir-me além da morte!»
Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas
mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas não eram tão
destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente
acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como
Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica «é uma atmosphera de
verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida»; e
finalmente «que esta poesia da sciencia não era só accessivel aos
espiritos iniciados n'ella», senão que tambem se lhe afigurava muito
para ser entendida e afagada pelas mulheres.
Esta a summa da sua argumentação.
Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas
grandes syntheses, nas suas vastas concepções, e que o meu espirito não
tinha chegado a este apogeu aonde só podem subir as intelligencias
privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama é
preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o
seu esplendor;--que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao
mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os
outros não vão era já prova mais que sufficiente de que para elles não
havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o
universo; disse-lhe outrosim que não negava nem discutia que a
mathematica fosse um instrumento de verdade, o que não obstante tinham
feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto era esse estranho
ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel
a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que
alguns havia que só a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter
pé nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os
regulamentos academicos. Quanlo á competencia das mulheres para
entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os
problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que não era minha
opinião dar tamanha latitude á instrucção feminina. Já vê que não fui eu
que puz esta questão accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu
tambem accidentalmente.
Deixemos porém isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a
unidade das materias que me proponho tratar.
Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que
expunha as mathematicas elementares na _linguagem hirsuta das cadeiras_,
na opinião de Garrett, que amontoava explicações confusas, citações
nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.
A clareza é a primeira condição para nos fazermos entender, e os
mathematicos charlatães não a podem ter, porque elles mesmos não
digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica
em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.
Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco
preoccupado, diz-me que «ha salvação possivel fóra da sua igreja, e que
para divisar uma face á verdade não é absolutamente indispensavel saber
dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da _Popa do Navio_.»
Isto e o que eu digo é simplesmente a mesma cousa; o Conceição está
portanto commigo.
Se ha salvação possivel fóra da sua igreja, o mesmo é dizer que se póde
ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber
grande mathematica.
A verdade é a côrte das idéas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas
se devem grupar ao serviço da intelligencia soberana. A familiaridade
com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais
curto para chegar á verdade, e como o meu amigo observa que ha salvação
possivel fóra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica não
é o unico methodo seguro para conseguir tal fim. Não sei se é ou não,
pela simples razão de não saber mathematica.
Por isso é que eu tinha dito: «Não nego nem discuto que a mathematica
seja um instrumento de verdade,» e mais abaixo:
«Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que
quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua
replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de
preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi
penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou
d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descançado o
somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura
com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo
de flôres. Isto é o que meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da
sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada
um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a
esta disposição, é publico.»
Como eu não posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim
para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a
verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo é um exercicio de
gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do
espirito. Mas do que eu não posso duvidar é de que as outras sciencias,
como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram
verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades
intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica
é a unica estrada que leva á Roma da verdade, dizendo que «ha salvação
possivel fóra da sua igreja»; mais arraigado fico eu pois ao pensamento
de que um homem póde ser grande sem a muleta da mathematica. Não admira
que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque
quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, está
apta para abranger todos os conhecimentos humanos.
Se porém um limitado peculio mathematico não permitte attingir-se esse
grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas
respigadas em outros thesouros de sciencia, então é muito para
duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha «mathematicos seccos
de espirito» é que tão pouco se exercitaram n'esse ramo de
conhecimentos, que não chegaram á perfectibilidade intellectual relativa
ou porque a sua intelligencia d'elles é pequena, rachitica, tacanha, e
assimila pouco, não podendo digerir a variedade de conhecimentos pela
sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos
creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas
estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de
cansaço e de inepcia porque a cabeça se lhes nega a ir mais longe.
É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.
Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos,
nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha
difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os
Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante da metralha
inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o
sangue nas vêas. Da theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos
_mathematicos-executantes_ deduz o meu amigo o seguinte argumento:
«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de
todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e
massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento,
esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás
influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»
Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente
sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias
materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então
medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só
grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os
Newton, os Galileu e os Laplace.
O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua
rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos
segredos da arte dando ao mundo o _Tractado da harmonia_[6] um
verdadeiro monumento que não poderia ser escripto por qualquer
executante secundario da orchestra de S. João.
E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os
«fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos
quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque
resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu
amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton
e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.
Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter
aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos
considerar irmãs gemeas.
Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a
geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr
entre a mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á
verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela
sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela
razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente
organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:
«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua
argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem
póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»
E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos,
e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os
versos que mataram o calculo,--foram as demasias do coração que
allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.
Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua
reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só
combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se
com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.
A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai
após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que
os grandes litteratos são achacados ás irritações nervosas, ao _genus
irritabile vatum_, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que
sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto,
é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma
como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da
litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração,
de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder
para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.
A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça
processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma
que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer
que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer
outra cousa,--em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos,
como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que
offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de
que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo
antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves
e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e
outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a
poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que
a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu o _fim_ que
devia attingir, porque empregou o _meio_-poesia, em vez de empregar o
_meio_-mathematica.
Vamos agora á que o meu amigo chama _magna_ questão da educação da
mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase
«responder com a _aria_ da _Traviata_ ao X de uma equação algebrica.»
Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de
doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder
continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada
quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o
risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição,
acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu
amigo raciocina.
Eu chamo _impiedade_, no nosso caso, ao desprezo pela religião e
portanto á incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais
a mulher, roubou-lhe a meu vêr a timidez que lhe é natural, e portanto a
candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questão no
_Jesus Christo perante o seculo_. Na minha opinião a mulher deve ter a
instrucção da preceptora, não a erudição de uma academia. Já vê que não
quero a mulher ignorante mas que tambem a não quero sabia.
O Legouvé, cuja leitura me recommenda, já era meu conhecido,--estava na
minha estante.
Acho a _Histoire morale des femmes_ um bonito livro, mas não um livro
irrespondivel, irrefutavel.
Vejamos o capitulo _Educação_ que friza ao nosso caso, e permitta-me que
lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.
Cita Legouvé o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo
astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada,
enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que
não é o mesmo que comprehender melhor.
N'outro relanço diz Legouvé: «Ser esposa e mãi é simplesmente dirigir um
jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude
de todos, que sei eu, é simplesmente amar, orar, consolar? Não! É tudo
isso; mas é mais ainda; é guiar e educar, por consequencia é saber.» Ora
guiar e educar é saber, mas saber astronomia não é guiar e educar.
Dando-se tão lata instrucção á mulher, occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes,--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funcções educativas do esposo.
Tinha muito que lhe dizer, mas nós tratamos tantos pontos ao mesmo
tempo, que é impossivel continuarmos assim.
Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.
A Europa está n'uma verdadeira época de transição. Tudo é fluctuante,
incerto. Não tarda, segundo penso, uma evolução geral, que se presente
através dos acontecimentos presentes. A sociedade está em ebullição e
por conseguinte falta de instrucção; a litteratura resente-se d'este
estado geral, e por isso produz pouco e mal.
Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido
os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se
retiraram da arena, e nem a sociedade lê, porque não entende, nem a
poesia canta, porque não tem voz.
O que se dá entre nós esta-se dando actualmente em França onde o theatro
vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros são
apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza.
Sedan parece-me que não é um facto sem proximas consequencias europêas.
A litteratura e a politica estão n'uma indolencia esterilisadora, e isto
assim não póde continuar.
A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendonça: «A nossa decadencia
litteraria retrata-se com a mais severa exactidão nos factos da nossa
historia politica.» O mesmo é em todos os outros paizes.
Estas evoluções são fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos
corpos não podem subsistir sem a renovação incessante da materia. As
nações são corpos collectivos, e estão sujeitas a esta lei de renovação
perpetua. A poesia está defecada porque respira no meio d'uma sociedade
igualmente defecada;--d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto é o que
me parece.
Deixe-me,--e já me ia esquecendo,--levantar uma phrase sua a respeito de
Chateaubriand, o qual «se esqueceu de metrificar o _Genio do
Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser
recitado ao piano.»
Eu não esperava isto de si, meu caro Conceição. O _Genio do
Christianismo_ afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.
Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes
de Mendonça tambem, e Garrett escreveu simplesmente no _Tractado da
educação_: «Mr. de Chateaubriand diz em sua obra _immortal_ do _Genie du
Christianisme_, etc.»
O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendonça são
uns futeis.
Visto que me não permitte que publicamente confesse que tenho muito a
aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne
seu admirador,
Porto, 20 de fevereiro de 1872.
_Alberto Pimentel._
[6] Nós vêmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um
effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um
excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento
mediocre. Aqui o genio não se póde medir pelo instrumento material.
Vêmos as lesões do instrumento compensadas pelo _genio_ do executante,
tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa
emoção nas mãos d'um _artista_ arroubado e sublime. Vêmos um Paganini
obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar
procuraria em vão n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do
mais habil fabricante; vêmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos
os seus successores. Em todos estes factos, é indubitavel que o genio
não se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do
instrumento de que se serve.»
PAULO JANET--_Le cerveau et la pensée._
O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao _Eurico_:
«Se a arte fôra facil para todos os que tentam possuil-a, não nos
faltariam artistas!»
* * * * *
Terceira carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
_Ill.mo amigo._
Este nosso palestrear leva geitos de não terminar este anno, e estamos
apenas em principios de março. Em cada folhetim seu surgem a par da
primitiva questão, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro
da _triste figura_, outras questões qual d'ellas mais grave e mais
complicada. Vamos mais uma vez á primeira questão, a vêr se conseguimos
entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.
É ou não verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta
amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim,
revela manifestamente a opinião de que o estudo das mathematicas é
inimigo inconciliavel da aptidão poetica, pois que muitas das nossas
melhores reputações litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco,
etc., mostraram com o seu muito amor ás letras e ás musas horror igual
pelos numeros e pela algebra? Creio que é verdade, e esta opinião já o
meu amigo concordou que não é segura, pois que me diz na sua ultima carta:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»
Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se _póde_
attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual--o que não
implica que esse grau de desenvolvimento se não possa attingir com outra
qualquer ordem de estudos--e confessa mais que uma intelligencia chegada
a essas luminosas alturas está apta para a comprehensão de todas as
verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora é isto exactamente
o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o começo, pois que
se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o
maximo grau de desenvolvimento intellectual não é incompativel com o
desenvolvimento da aptidão poetica, é claro que, _em principio_--que,
como todos os principios, tem as suas excepções--o estudo das
mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á
inspiração artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que não sou eu que
estou de accordo comsigo, mas que é o Pimentel que se pôz de accordo
commigo, não pela força dos meus argumentos, que são d'uma debilidade
lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei
a attentar.
Depois d'isto será desnecessario dizer-lhe que eu não chamo aptidão
poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua
accepção mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a
comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso á
poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi
nos ministram quotidianamente, não serei eu que o duvide, que com as
mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palôr da
lua, ás brisas, á alvura dos lirios, á modestia das violetas e a outras
especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal
nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas
almas a sublime loucura do genio, não creio, nem o meu amigo o póde crêr
tambem, porque a poesia assim comprehendida é a manifestação da
intelligencia no seu estado de graça.
Esta questão por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me
compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada
a apparente contradicção que o meu amigo notou nas minhas idéas sobre
este assumpto, termina aqui, porque isto vai tomando geitos d'uns _dize
tu direi eu_ interminaveis.
Vou pois responder á contradicção que me aponta, e passar a conversar
comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.
Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos não são
contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto
litterario, estou em opposição commigo mesmo quando avanço que se dessem
á França mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.
Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus
defeitos grammaticaes--com que já me não afflijo porque estou calejado
no peccado--não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.
Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais
serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando
se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de
discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando
se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás
turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas
e defender a patria.
Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de
entender assim.
Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das
mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?
Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como
eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo
rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?
Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser,
o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma
dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se
está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda
a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de
seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o
abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.